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7 - A tentação de Cristo Mt 4, 1-11


Nas profundezas de Satanás, 4.1-11 (Mc 1.12,13; Lc 4.1-13)

1,2 A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
Enquanto o batismo de Jesus teve João Batista como testemunha, a tentação de Jesus exclui qualquer testemunha humana. Por essa razão o conhecimento da tentação deve estar baseado em informações de Jesus aos seus discípulos.
Enquanto Marcos se limita a dar uma breve nota, Mateus e Lucas referem detalhadamente a história da tentação.
A história da tentação é imediatamente posterior ao batismo. É o que comprova a palavra tóte (= a seguir), que expressa a ligação de dois acontecimentos em seqüência cronológica direta.
Marcos informa que a tentação do Senhor ocorreu durante todos os 40 dias. Porém Mateus e Lucas descrevem esses 40 dias e 40 noites como premissa de preparação para a primeira tentação. A tentação é narrada como acontecimento de um dia. Como aos 40 dias são acrescentados expressamente as 40 noites, Mateus pensa numa abstinência total de comida. O jejum prescrito pelo culto judaico abrangia somente o dia. Do nascer do sol ao seu ocaso não se comia nem se bebia. Entretanto, à noite se comia. Porque devemos pensar na abstinência total de alimento, mencionam-se aqui os dias e as noites (Schlatter).
Em Moisés os 40 dias estão preenchidos com o falar de Deus dirigido a ele. Mateus, porém, não nos esclarece o que Jesus fez durante esse tempo. Marcos ainda intercala o obscuro e estava entre os animais ferozes. Cremos firmemente que durante esse tempo Jesus sempre cultivou a comunhão com o Pai.

3,4 Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
É uma tentação muito refinada com a qual Satanás se achega a Jesus. É mais perigosa a tentação que nem se parece com uma tentação. Mostrando um interesse comovedor, aquele simpático desconhecido se aproxima de Jesus, que estava totalmente esgotado pela fome. Dá-lhe a sugestão de que, por força de sua condição de Filho de Deus, transforme pedras em pães.
Do mesmo modo como as palavras no paraíso: “Teria Deus realmente dito?”, a expressão se és Filho de Deus formula uma dúvida. Seu significado é: “Se realmente és o Filho de Deus, não tens necessidade de passar fome”. Fome e esgotamento atestam contra a filiação divina. A existência da filiação somente pode ser comprovada se forem utilizadas as capacidades milagrosas contidas na condição de Filho de Deus. Fome e exaustão precisam, portanto, ser eliminadas imediatamente, com ajuda dessas capacidades. Somente quando isso acontece, comprova-se como autêntica a filiação divina. Do contrário não! – Assim insinua o tentador.
Jesus sente seu esgotamento. A sensação da fome é avassaladora. Por que, pois, não usar os dons que possui, ainda mais que há necessidade? Afinal, os dons são dados para que os empreguemos! Este é o sentido da tentação satânica. – O que se pode contrapor a ela?
Sem dúvida é da vontade de Deus que trabalhemos com os dons, porém aqui temos um perigoso “mas”. Os dons e as forças que Deus concedeu aos seus nos são dadas não para que as usemos segundo o nosso próprio arbítrio, somente para nós mesmos, mas estão aí para que sejam colocadas a serviço daquele que é o doador de todas as dádivas.
Satanás queriam induzir Jesus a utilizar arbitrariamente, de acordo com seu próprio interesse, as capacidades milagrosas que Deus lhe confiou para erigir o reino de Deus.
Se Jesus tivesse cedido a esses ataques de Satanás, cometeria um abuso de seus dons.
A reposta de Jesus foi: “O ser humano não vive só de pão”. Ela expressa primeiramente que, como verdadeiro homem, Jesus quer se alinhar total e plenamente ao lado das pessoas. Não quer ocupar agora qualquer tipo de posição privilegiada. Usar as dádivas de Deus para libertar-se pessoalmente de privações e sofrimentos é antidivino! A expressão o ser humano  lembra Satanás que, apesar de sua dignidade de Filho de Deus, Jesus está decidido a suportar integralmente as condições da existência humana. A seguir, citando Dt 8, Jesus esclarece: Deus também é capaz de sustentar a vida humana com outros meios que com o pão, p. ex., também com o maná! Sim, Deus até pode alimentar e sustentar o ser humano sem qualquer meio material, apenas pela mera força de sua vontade.
Por consequência, Jesus se compromete, pelas palavras “o ser humano não vive só de pão”, a deixar unicamente na mão de seu Pai a satisfação de suas necessidades terrenas durante a sua atuação messiânica. Como qualquer ser humano, quer pedir diariamente ao Pai pelo pão. Quer suportar cansaço, fome e nudez, sem refugiar-se em quaisquer métodos autocráticos de alívio, e muito menos quando o maligno o convida para isso. – Schlatter afirma: “Um Filho de Deus que se afastasse da dependência de Deus e agisse por conta própria, traria revelações satânicas”.
O mesmo vale para a comunidade de Jesus. Sair da dependência de Deus é aniquilar a confiança em Deus, é desonrar a Deus, é exaltar a vontade própria como causa determinante de tudo. Assim como o Batista, afirmando radicalmente a Deus, anunciava a negação de toda vontade própria humana e cristã, também Jesus sabia com toda a certeza: “O Filho nada pode realizar de si próprio”. A vinculação de Jesus tão somente ao Pai torna impossível atender ao menor desejo egoísta. Em outras palavras: A consciência de que é Filho de Deus jamais o levará a negar que, como ser humano, tem feições de servo.

5-7 Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. 
O diabo faz a proposta ao Senhor Jesus de convencer, através de um meio muito extraordinário, os judeus de que ele é Filho de Deus. Como lugar para isso ele escolhe Jerusalém, e lá o próprio templo, o símbolo da sagrada proximidade de Deus. O maligno quer convencer o Senhor para que, com a ajuda da onipotência de Deus, inicie sua atividade messiânica mediante uma poderosa ação religiosa de abertura. Pois somente através da poderosa medida divina de uma manifestação grandiosa o Senhor poderia cumprir sua missão, a saber, construir o “reinado dos céus”. Essa a proposta do tentador.
Novamente o maligno usa uma palavra bíblica para fundamentar sua intenção. Retira-a do Sl 91, v. 11,12. Com ela quer dizer: Se Deus promete proteger dessa maneira o piedoso comum, para que nada lhe aconteça, quanto mais Deus cuidará de seu Filho, que apenas gostaria de cumprir aquilo que o seu Pai quer.
Jesus interpreta o milagre admirável de uma manifestação grandiosa com auxílio do poder divino como um “tentar a Deus”! É que com ele se colocaria à prova a onipotência de Deus, no sentido seguinte: Vamos experimentar uma vez se Deus é realmente Deus.
Ao repelir também essa tentação, Jesus declara que as medidas milagrosas de ajuda que lhe foram prometidas pelo Pai apenas serão utilizadas para socorrê-lo naquelas situações a que o Pai o conduzir e das quais ele novamente quiser salvá-lo (p. ex., ao acalmar a tempestade etc.). Por isso Jesus renuncia a qualquer ajuda divina para todas aquelas situações que não fazem parte do plano de Deus. – Com certeza Jesus arriscará o salto para as profundezas, a ida ao madeiro maldito – mas somente no momento em que Deus lho comunicar, em que Deus o quiser, do contrário não. Obediência incondicional é o mandamento supremo de Jesus. O caminho ao madeiro maldito, porém, foi um “salto às profundezas” bem diferente que esse salto da torre do templo.
A majestade do Deus onipotente demanda que nossa confiança nele seja incondicional. Podemos confiar que nos ajudará em qualquer momento, mas não podemos lhe prescrever nenhuma ajuda.
As promissões da Escritura não são algo como recursos de magia, pelos quais nos seria assegurada automaticamente a ajuda de Deus do jeito como nós a imaginamos. Quem falar de assegurar ou garantir, já se tornou culpado de ultrapassar os limites na sua vida de fé, pois submeteu a palavra de Deus à vontade humana. Isso é violar a Escritura. Isso é tentar a Deus!

8-11 Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás (prostrado), e só a ele darás culto. Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram.
Mostrar o mundo e suas maravilhas foi uma obra satânica para enfeitiçar e ofuscar! Todos os milagres satânicos têm em si algo de enganador! Não são milagres para conceder bênção, que levam a Deus, e sim peças cênicas, que levam para longe de Deus.
O tentador pondera: O Senhor terá liberdade de fazer o que apraz ao Senhor, nesse imenso território de maravilhas que lhe está mostrando. Nele o Senhor pode governar de acordo com os seus desejos e intenções nobres, tornando esse mundo um templo de Deus… “porém”, e aqui aparece de novo sorrateiramente o diabólico “porém”, tudo o que foi dito e oferecido pode ser alcançado somente mediante uma pequena consideração para com o mundo.
Em outras palavras: ao desenvolver sua obra redentora, Jesus, por sabedoria e calculismo, deverá ceder um pouco aos desejos do povo, para desse modo assegurar-se da simpatia do povo e da colaboração de seus líderes na execução de seus grandes e divinos planos salvíficos.
Quantos sucessos obtidos com meios deste mundo podem, à luz de Deus, pertencer a essa categoria. A frase: “O fim santifica os meios” é do diabo.
A réplica de Jesus: “Você deve devotar-se a Deus, seu Senhor, e servir somente a ele” tornou-se o grande lema de sua vida sobre a terra. Com tudo o que é e possui, ele quer se colocar irrestritamente à disposição de seu Deus e Pai. Ele permite que o Pai lhe dê tudo o que diz e faz. É totalmente dependente dele. Não é a benevolência das pessoas que o influencia, nem o ódio delas que o tira do rumo, mas é unicamente o Pai que pode determinar o fim e os meios de sua missão redentora.
Deus, porém, requer um coração integralmente devotado. Um pequeno flerte com o mundo, um leve brincar com o próprio eu, destroem, aos olhos de Deus, a integridade da dedicação a ele. Justamente essa pequena concessão Jesus não fez. Tomou sobre si a cruz com vontade indivisa, devotando-se ao Pai. Ainda que pudesse ter alegrias, suportou a cruz, tornando-se assim nosso eterno sumo sacerdote, que tem compaixão de nossa fraqueza. A tentação do Senhor chegou ao fim. Ao vencedor servem os anjos de Deus. Alimentam o faminto. Não se apoderou por conta própria do serviço dos anjos, mas Deus lhos enviou.
Agora está definida a posição de Jesus. Ao deixar o deserto para dar início à sua obra, o príncipe deste mundo é seu mais decidido adversário, mas Deus é o seu mais decidido amigo (se for lícito expressá-lo nesses termos humanos).
Jesus tinha somente um princípio, um ponto de vista, uma vontade, a saber, corresponder em tudo ao que Deus esperava.
Duplamente consagrado pela preparação no batismo e pela vitória na tentação, ele vai ao encontro da humanidade que por ele espera.
A arma com que Jesus conquistou a vitória foi tão somente a palavra de Deus: “Está escrito”. O maligno estava derrotado. A Bíblia é e sempre será a academia dos lutadores de Deus, o arsenal espiritual. – O método mais perigoso do diabo, porém, é que ele próprio recorre a esse arsenal. Conhece-o muito bem, muito melhor do que nós! Ele também passa a usar a palavra de Deus como arma, mas como arma contra nós. Procede assim, usando de forma impura a arma da palavra de Deus, abusando dela, retirando-a, p. ex., do seu contexto, distorcendo-a um pouco etc. Nesse momento é importante dizer com redobrada vigilância, correspondendo ao exemplo de Jesus: “Também está escrito”. É mais necessário ainda brandir a espada da palavra contra o “rei infernal, das trevas, do mal”.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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