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Lição 12 - Noções do pensamento escatológico de Paulo / 1. Fontes da escatologia de Paulo

1.  Fontes da escatologia de Paulo
Contrariamente do que podemos pensar, nos dias de Paulo, havia um mar turvo e variado de pensamentos correntes a respeito da escatologia. Contudo não havia uma escatologia tão elaborada com detalhes arrojados, expostos em mapas e termos como usamos hoje. Mesmo a visão escatológica de Paulo de presente e futuro se mesclavam simultaneamente, porque acreditava que o fim já era chegado. Agora quanto às fontes de seu pensamento consistia nos três itens abaixo, como veremos.


1.1. O Antigo Testamento
Devemos levar em conta que Paulo era fariseu e, como tal, usou muito do material do judaísmo que professou. Ao leitor, basta ter lido o A.T. e verá que Paulo escrevia suas cartas embasadas nele. Os escritos paulinos estão fartos de citações diretas e indiretas do A.T., nesse tempo as Escrituras Sagradas resumiam-se ao A.T., então, tanto Jesus, quanto Paulo, lançavam mão do material profético contido lá. Por exemplo, a expressão “o dia do Senhor” referindo-se a volta messiânica; o conceito de ressurreição dos mortos, encontrado em Daniel 12.2; o posicionamento quanto à pessoa do anticristo em 2a Tessalonicenses também se trata de uma interpretação de Daniel, 7.8,25.
Daniel 12.2 – Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno.
A doutrina da res­surreição do corpo humano fica implícita no Antigo Testamento, mas não é apresentada com a clareza encontrada no Novo Testamento. Quando Abraão subiu ao monte Moriá para oferecer Isaque, creu que Deus podia ressuscitar seu filho dentre os mortos (Gn 22; Hb 11:19). Jó esperava ver Deus, uma vez que estivesse em seu corpo ressurreto (Jó 19:25-27), o que também era a es­perança dos escritores de Salmos (17:15; i 49:15; 71:20). Os profetas criam na ressur­reição futura (Is 25:7; Os 13:14). Jesus "trouxe à luz a vida e a imortalidade" (2 Tm 1:10) e ensinou claramente sobre sua própria res­surreição bem como sobre o significado da ressurreição para seus seguidores (Jo 5:19-30; 11:17-44). 1 Coríntios 15 é a principal passagem bíblica sobre a ressurreição.
Não se trata de uma "reconstrução"; o Senhor não reconstitui um corpo transfor­mado em pó (Gn .3:19), pois esse pó tornou-se parte de outros corpos, tendo em vista que as pessoas se alimentam de comi­das cultivadas no solo. O corpo ressurreto é novo e glorioso. A relação entre o corpo que é sepultado e o corpo que é ressuscita­do é a relação entre uma semente e a planta madura (1 Co 15:35-53). Há continuidade (a planta vem da semente), mas não identi­dade (a planta não é idêntica à semente). Sepultar um corpo é como plantar uma se­mente, sendo a ressurreição sua colheita.
Quando Jesus Cristo voltar nos ares para chamar sua Igreja, os mortos em Cristo se­rão ressuscitados primeiro e depois os cris­tãos vivos serão arrebatados para estar com o Senhor (1 Ts 4:13-18). Quando Jesus vol­tar à Terra no final da tribulação, trará seu povo com ele para participar de sua vitória e glória. Naquela ocasião, os santos do An­tigo Testamento e os mártires da tribulação serão ressuscitados para entrar no reino. Contudo, aqueles que morreram sem crer em Cristo só serão ressuscitados depois da era do reino (Ap 20:4-6, 11-15). De acordo com Daniel, alguns despertarão para desfru­tar a vida gloriosa com Deus e alguns des­pertarão (mil anos depois) para entrar no lugar de vergonha, desprezo e julgamento eternos. O inferno é chamado de "a segun­da morte" (Ap 20:14). Se você nasceu ape­nas uma vez, pode morrer duas vezes, mas se você nasceu duas vezes nasceu de novo pela fé em Cristo, só pode morrer uma vez.


1.2. Baseado na pessoa de Cristo
Jesus Cristo morreu e ressuscitou como demonstração do que ocorrerá com os cristãos universalmente que tiverem morrido. Na ótica de Paulo, Jesus Cristo é a primícia dos que dormem, como tal, a sua ressurreição tanto dá compreensão do que se realizará objetivamente aos crentes, quanto é a garantia de que tal fato ocorrerá com a igreja. Entretanto, a ressurreição é um acontecimento reservado ao futuro, isto é, quando entregar o reino ao seu Deus e Pai, depois que destruir todo poder oponente colocando os inimigos debaixo de seus pés (I Co 15.20-28). O tema da ressurreição não era novo, mas essa perspectiva através de Cristo segundo a ótica paulina sim.
Quando se dá a ressurreição dos mortos? (1 Co 15:20-28)
Paulo usa três imagens para responder a essa pergunta.
As primícias (vv. 20, 23). Observamos anteriormente essa referência à festa do Antigo Testamento (Lv 23:9-14). Como Cor­deiro de Deus, Jesus morreu na Páscoa. Como feixe das primícias, no primeiro dia da semana ressuscitou dentre os mortos, três dias depois de ser crucificado. Quando o sacerdote movia o feixe das primícias dian­te do Senhor, sinalizava que toda a colheita pertencia a ele. A ressurreição de Cristo foi a garantia de Deus a nós de que também seremos ressuscitados como parte da colhei­ta futura. Para os cristãos, a morte é apenas um "sono". O corpo dorme, mas a alma es­tá em seu lar com o Senhor (2 Co 5:1-8; Fp 1:21-23). Na ressurreição, o corpo será "des­pertado" e glorificado.
Adão (w. 21, 22). Paulo identificava em Adão um tipo de Jesus Cristo por meio de um contraste (ver também Rm 5:12-21). O primeiro Adão foi feito do pó da terra, mas o Último Adão (Cristo, 1 Co 15:45-47) veio do céu. O primeiro Adão desobedeceu a Deus e trouxe ao mundo o pecado e a mor­te, mas o Último Adão obedeceu ao Pai e trouxe justiça e vida.
O termo "ordem", em 1 Coríntios 15:23, refere-se originalmente a uma graduação militar. Deus determinou uma ordem, uma sequência para a ressurreição. Passagens como João 5:25-29 e Apocalipse 20 indicam que a Bíblia não ensina uma "ressurreição geral". Quando Jesus Cristo voltar nos ares, levará sua Igreja consigo para o céu; nessa oca­sião, ressuscitará dos mortos todos os que creram nele, foram salvos e faleceram quan­do viviam na fé (1 Ts 4:13-18). Jesus chama essa ocasião de "ressurreição da vida" (Jo 5:29). Quando Jesus voltar à Terra para jul­gá-la, os perdidos serão ressuscitados na "ressurreição do juízo" (Jo 5:29; Ap 20:11-15). Ninguém da primeira ressurreição se perderá, mas ninguém da segunda ressur­reição se salvará.
O reino (w. 24-28). Quando Jesus vier à Terra para julgar, eliminará o pecado por mil anos e estabelecerá seu reino (Ap 20:1-6). Os cristãos reinarão com ele e participa­rão de sua glória e autoridade. Os estudiosos das profecias chamam esse reino, profetiza­do no Antigo Testamento, de "milénio". O termo vem do latim: mille - mil, annum - ano.
No entanto, mesmo depois do milénio, haverá uma rebelião final contra Deus (Ap 20:7-10), da qual Jesus Cristo dará cabo com seu poder. Então, os perdidos serão ressus­citados, julgados e lançados no lago de fogo. A morte, em si, será lançada no inferno, e o último inimigo será destruído. Jesus Cristo terá colocado todas as coisas debaixo de seus pés! Em seguida, voltará para o reino do Pai e terá início o estado eterno, o novo céu e a nova Terra (Ap 21 - 22).
Mesmo os estudiosos mais competen­tes e piedosos da Palavra de Deus nem sem­pre apresentam um consenso quanto aos detalhes do cronograma profético de Deus, mas as verdades principais parecem claras. Jesus Cristo reina no céu hoje, e toda a au­toridade está "debaixo dos seus pés" (Sl110; Ef 1:15-23). Satanás e o ser humano ainda podem exercitar seu livre-arbítrio, mas é a soberania de Deus que está no controle. Hoje, Jesus Cristo está entronizado no céu (SI 2). A ressurreição dos salvos ainda não ocorreu, nem a ressurreição dos perdidos (2 Tm 2:17, 18).
Ninguém sabe quando Jesus Cristo vol­tará para buscar sua Igreja, mas quando isso acontecer, será "num momento, num abrir e fechar de olhos" (1 Co 15:52). Cabe a nós permanecer alertas (1 Jo 2:28 - 3:3).


1.3. Novas revelações de Cristo
Ao examinar os livros proféticos e demais livros do AT, não encontramos, em nenhuma parte, profecia alguma que mencione o arrebatamento da igreja, a transformação dos fiéis vivos e o recebimento de um corpo glorificado e imortal como Paulo apresenta em l Coríntios 15. Logicamente, trata-se de um segredo divino para o tempo da igreja não revelado aos profetas daquela época, e sim ao profeta Paulo. Todavia, encontramos no A.T., Enoque sendo tomado pelo Senhor (Gn 5.24); e Elias subindo ao céu num redemoinho (2 Reis 2.11). Na verdade, o rapto da igreja continua sendo um segredo, principalmente para o mundo sem Cristo.
Gn 5.24 – Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado.
A expressão melancólica "e morreu" não se aplica a Enoque, pois ele é um dos dois homens das Escrituras que não morreram. Tanto Enoque quanto Elias foram levados para o céu ainda vivos (2 Rs 2:1-11). Alguns estudiosos veem nesse "arrebatamento" de Enoque antes do dilúvio um retrato da igreja sendo levada para o céu antes da tribulação que Deus enviará sobre a Terra (1 Ts 4:13 -5:11).
Enoque foi levado ao céu "pela fé' (Hb 11:5). Ele creu em Deus, andou com Deus e foi para junto de Deus - um exemplo a ser seguido por todos nós. Imagine como deve ter sido difícil andar com Deus durante aqueles anos que antecederam o dilúvio, quando a libertinagem e a violência preva­leciam e apenas um remanescente cria em Deus (Gn 6:5). Mas a vida de fé de Enoque não era desenvolvida apenas em devoção particular, pois ele anunciou com ousadia que Deus viria para julgar o mundo por seus pecados (Jd 14,15). O julgamento do diluvio veio no tempo de Enoque; porém, o julga­mento que ele estava anunciando ocorrerá quando Jesus Cristo voltar, liderando os exér­citos dos céus e condenando Satanás e suas hostes (Ap 19:1 ss). A vida e o testemunho de Enoque nos lembram de que é possível ser fiel a Deus em meio a uma “geração per­vertida e corrupta” (Fp 2:15). Não importa quão tenebroso seja nosso tempo ou quão terríveis as notícias, pois temos a promessa da volta de nosso Senhor para nos encorajar e motivar a ser piedosos. Um dia, o pecado será julgado, e o povo de Deus será recompensado por sua fidelidade. Assim, temos todo motivo para nos encher de coragem em nossa caminhada com Deus.
O conceito de Paulo como profeta no Novo Testamento existe, mas essa ideia não é largamente trabalhada. Ao vermos o seu trabalho com Barnabé ele é conceituado como profeta e mestre, estando entre outros com a finalidade de edificação da igreja local (At 13.1). Bem mais tarde, porém, Paulo é obrigado a dar respostas escatológicas que vão além da interpretação do Antigo Testamento. Ele precisa de nova revelação vinda diretamente de Cristo para trazer à igreja. Porém, a sua visão apocalíptica não então em choque com os demais escritos do N.T., mas se completam.



Fonte:
Editora Betel 4º Trimestre de 2012, ano 22 nº 85 – Jovens e Adultos – Apóstolo Paulo.
Comentário Bíblico Expositivo – Warrem W. Wiersbe 

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