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A cura do endemoninhado de Gadara, Mt 8.28-34


A cura do endemoninhado de Gadara, Mt 8.28-34
(Mc 5.1-17; Lc 8.26-37)

28-34 Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo? Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande manada de porcos. Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos. Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou, despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, e nas águas pereceram. Fugiram os porqueiros e, chegando à cidade, contaram todas estas coisas e o que acontecera aos endemoninhados. Então, a cidade toda saiu para encontrar-se com Jesus; e, vendo-o, lhe rogaram que se retirasse da terra deles.
O relato contém vários aspectos que nos são muito estranhos. Ela nos revela uma vitória da autoridade de Jesus ainda mais marcante que a anterior, dos v. 23-27. Isso porque o cenário da luta não é a natureza, mas a alma humana. Essa história de milagre foi registrada detalhadamente nos três evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, porém com diferenças. A diferença mais significativa é que Mateus fala de dois endemoninhados, ao invés de um, como Mc e Lc.
Para compreendermos essa história que nos causa muita estranheza, precisamos inicialmente constatar qual era a situação como tal. Onde acontece a ação, e quem está presente? Ela acontece na terra a leste do Jordão, no outro lado do lago Genezaré, diagonalmente oposto a Cafarnaum, ao lado de um campo de túmulos, num caminho pelo qual ninguém tem coragem de passar. A estrada, portanto, está vazia. Estão presentes somente Jesus, seus discípulos e os dois endemoninhados. É importante observar isso. Também o rebanho de porcos está longe, assim como os porqueiros. Essa é a situação.
O acontecimento é descrito com especial cuidado por todos os evangelistas que contam a história. O relato de Marcos é o mais ilustrado.
A possessão que ocorre aqui é bem singular, não é comum. Não existe apenas um demônio, mas uma legião, como diz Lucas.
Os demônios são espíritos a serviço do diabo. Pode-se dizer dos demônios o mesmo, mas contrariamente, que vale em geral para os anjos quanto ao seu ser e agir. São enviados para servir aos seres humanos. Os demônios são anjos caídos, enviados para torturar as pessoas (cf. o livro de Enoque 61.1, onde consta: “Os demônios têm permissão de maltratar as pessoas até o dia do grande juízo final”).
Logo que os demônios reconhecem Jesus, começam a gritar: Que queres de nós, Filho de Deus! Vieste para cá, a fim de nos entregar ao tormento antes do tempo?
Essa frase requer uma explicação. Ela é trazida por Lucas. Os demônios pedem ao Senhor, que não lhes ordene descer ao “abismo”. No grande local de permanência dos espíritos há uma repartição para os maus espíritos. Os piores entre eles estavam algemados ali até o dia do juízo (Jd 6). Outros ainda têm o direito de permanecer na terra. O local preferido destes é habitar no ser humano. Quando têm de sair de um dos pobres seres humanos que ocupam, procuram reconquistar seu local de moradia, sempre que possível.
Essa concepção está presente na narrativa Mt 12.43-45 e Lc 11.24-26. “Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos (sem água, pelo texto original) procurando repouso, porém não encontra. Por isso, diz: Voltarei para minha casa donde saí. E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.”
Quando vier o Messias e instaurar o seu reino, interferirá com autoridade no poder desses demônios. Eles sabem disso. É por isso que não gostariam de ser levados, antes do tempo, algemados ao hades (sobre o hades, veja nota e para Mt 8.5-13). Contudo, não podem pedir a Jesus que lhes permita apoderar-se de outras pessoas. Mas lá adiante estão os porcos, que, segundo Marcos, perfazem um “número de dois mil”, ou seja, aproximadamente tantos quantos eles próprios são. Por isso pedem: Deixa-nos entrar neles. E Jesus lhes diz: Pois ide. Então saem dos endemoninhados e passam para os porcos e, vejam, a manada toda se precipita no lago pelo despenhadeiro, morrendo nas águas.
Perguntamo-nos: Quem morreu? Se formos exatos na tradução, temos de dizer que não foi a manada que morreu ao afogar-se, mas os demônios. A grande maioria dos leitores, a esta altura, fará a pergunta: Como é possível que demônios morram? Isso é impossível! Não, não é tão impossível assim. É preciso saber o que significa “morrer” entre os judeus. Quando a pessoa morre, não morre o seu espírito. O espírito é separado das relações em que se encontrava até então. O espírito do piedoso vai ao Paraíso, os demais espíritos vão ao hades. Mas continuam existindo conscientemente, apesar de estarem mortos, apenas sob outras condições e relações. De modo semelhante, pode-se também dizer de que demônios morrem. Seu ambiente de vida é o ar da terra (Ef 2.2). Quando são expulsos desse ambiente vital e das relações que se formam por habitarem o “ar” sobre a terra, isto para eles significa “morrer”. Os espíritos de anjos, dos quais Judas diz que são “guardados sob trevas, ou seja, cercados por trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (Jd  6), são esses anjos “falecidos” que se encontram no hades.
Se essa interpretação for correta, ainda resta uma pergunta: Como aconteceu que os porcos se lançaram no mar? O processo de libertar os dois endemoninhados e entrar na manada de porcos foi tão tumultuado que os porcos, assustados, saltaram para o mar (Mc 5.13).
Os demônios, que por seu próprio desejo foram transferidos aos porcos, precisam ir junto para a água, efetuando o seu próprio desastre, depois de terem afligido por bastante tempo aqueles dois homens. Nunca mais irão maltratar ninguém. De agora em diante estão onde merecem estar devido à sua maldade singular, no abismo.
Seria totalmente por acaso que em 12.13 consta que o demônio expulso vagueia por lugares áridos
(“sem água”, segundo o original)? Por que vai para onde não existe água? Porque água significa para ele a “morte”. Sobre a narrativa em si, seja exposto ainda o seguinte: Os demônios contam com sua destinação de serem enviados para o “abismo”. Perguntam apavorados: Vieste para cá para nos entregar antes do tempo às algemas e ao suplício no hades? Pedem por um adiamento e pensam que morar nos porcos seja esse adiamento, essa protelação da pena. Por isso se exclui a versão de que, em sua maldade, eles de imediato teriam matado os porcos, lançando-os pelo penhasco. Pois então esses “pobres diabos” teriam eles próprios destruído sua última habitação na terra. Por meio do grande tumulto ao se apoderarem dos porcos eles, porém, contra a sua intenção, causaram a sua própria ruína. Se Jesus tivesse violado o direito de propriedade nesse episódio, os fariseus mais tarde teriam alegado isso como motivo de acusação contra ele em Jerusalém).
Os criadores de porcos correm para a cidade e contam o que presenciaram. Todo o povo corre para fora ao encontro de Jesus. Contudo, não para dar-lhe as boas vindas como vitorioso sobre os demônios, mas sim pedir-lhe que se afaste da sua região. Geralmente viu-se como causa desse pedido a circunstância de que Jesus seria culpado da destruição de dois mil porcos (cf. Mc 5.13). Isso, porém, não é correto, mesmo que não se admita o desfecho da história exposto na nota abaixo.
Chegam a Jesus e veem os dois endemoninhados que tinham dentro de si a “legião de demônios”, agora sentados vestidos e normais, e têm medo. Então os porqueiros lhes contam o que aconteceu com os endemoninhados e os porcos. Contudo o povo não se alegra que duas pessoas recuperaram a saúde. Não reconhecem nessa cura maravilhosa que um profeta de Deus veio até eles. Apenas ficam apavorados com o acontecido e pedem: “Afaste-se de nós!” (cf. Bornhäuser, Das Wirken des Christus durch Taten und Worte, p. 80ss).
Que contraste enorme há nessa história da cura dos endemoninhados em Gadara, entre o seu início e o final. No início a noite terrivelmente sombria e escura – no final luz e brilho do sol. No início inferno furioso – no final uma imagem de bem-aventurança celestial. No início dois homens sem roupa e sem casa, habitando entre cavernas e túmulos junto de cadáveres, sendo piores que bichos, vítimas de muitas dores e fúria violenta, afligidos e torturados por milhares de maus espíritos, um comportamento feroz e incomum, em suma, um espetáculo horrível do terror do inferno, um pavor chocante para toda a redondeza, temido acima de tudo. – No final dois homens, curados e calmos, vestidos e sensatos, cheios de palavras cordiais de gratidão, livres e soltos, servidores do Altíssimo, uma maravilhosa bênção para toda a redondeza, fiéis e dedicados pregadores em postos isolados, em país distante, e não obstante consolados e cheios de confiança, para recrutar almas para Jesus. E quem tinha realizado tudo isso? Deus o tinha feito, por meio de Jesus Cristo, seu Filho!
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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