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O Pai Nosso Mt 6 9-15


A CARTA MAGNA DO REINO DOS CÉUS
O SERMÃO DO MONTE
Mateus 6
Intercalação: O Pai Nosso

9-15 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia
(necessário para a vida) dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém].
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.
A importância singular do Pai Nosso é que Jesus coloca o nome “Pai” como nome originário mais próprio de Deus para seus discípulos e, por conseguinte, para a sua comunidade. Desde então, para ela o nome “Pai” é o primeiro e mais próprio nome de Deus, e não Iavé (Jeová).
Na oração judaica das 18 petições (também chamada “oração das 18 bênçãos”), o nome “Iavé” aparece ao todo 27 vezes, o nome “Deus” 13 vezes, e o nome “Pai” somente 2 vezes, ou seja, bem à margem.
Para os discípulos, o nome “Pai” tornou-se, por intermédio de Jesus, a expressão beatificante de tudo aquilo que a obra salvadora de Jesus consumou. O que os profetas do AT expressaram indiretamente, isso se tornou esplêndida consumação em Jesus. No AT Deus é chamado de Pai somente 11 vezes, no NT 155 vezes!
“Pai nos céus” significa que estamos radicalmente impedidos de transformar Deus Pai em nosso “paizão”. A expressão “Pai nos céus” combina a bondade, que gera confiança, com a reverência mais sagrada. Qualquer intimidade grotesca e falsa fica de antemão excluída. A confiança no Pai jamais pode tornar-se uma familiaridade irreverente. Pois o Pai nos céus é e permanece santo. Na boca de Jesus, portanto, a palavra “Pai” expressa o evangelho trazido por ele. No AT Deus era o Pai do povo! Israel era seu filho! Jesus vê Deus como Pai do indivíduo. Pela oração, cada um está pessoalmente em contato com Deus, o Pai. Isso é algo grandioso e completamente novo. Por outro lado, o indivíduo ora como membro da comunidade de Jesus. Daí por que a palavra “nosso Pai”. O indivíduo é desviado de si próprio e direcionado exclusivamente para Deus.
As primeiras três petições do Pai Nosso tratam daquilo que Deus quer. Todas as intenções pessoais dos discípulos são inicialmente deixadas de lado. Não se fala da vontade deles nem da bem-aventurança deles, mas da vontade de Deus unicamente!
Desse modo a oração é, desde logo, purificada de toda obstinação e de todo egoísmo da pessoa.
Através do termo “nosso”, “nosso Pai”, dilata-se a visão para além do silencioso quartinho de oração do próprio coração, em direção à comunidade de Cristo, que se estende por todo o globo terrestre. Assim, a oração em secreto torna-se a “oração que cinge o mundo”. Com ela fica banido o perigo de qualquer egoísmo piedoso.
Devemos, pois, orar o Pai Nosso com a mais sagrada reverência e como sacerdotes pelo mundo todo. Por isso ele pode ser proferido em verdade somente pelo “renascido”. Somente o discípulo, somente o filho de Deus pode dizer “Pai”.
O significado dessa preciosa palavra “Pai” talvez possa ser caracterizado melhor, colocando-se o termo “Pai” especialmente diante de cada uma das petições, como segue:
Pai, santifica teu nome, faz valer o teu nome entre nós e também em mim, completamente, diariamente, a cada hora.
Pai, traz até nós o teu reinado, ajuda-me para que governes entre nós e também em mim continuamente como rei e Senhor!
Pai, faz acontecer a tua vontade, do mesmo modo como no céu também na terra, a vontade do
Pai precisa acontecer no meu cotidiano incessantemente, não a minha própria vontade. “Não como eu quero, mas como tu queres”, essa é a petição diária do filho ao Pai celeste.
Rebrilham três diamantes reluzentes: a santificação do nome divino, a realização do reinado de Deus e o cumprimento irrestrito da vontade de Deus em mim e na comunidade do Senhor na vida cotidiana. É isso o que o discípulo de Jesus deve rogar com todo fervor.
A glorificação de Deus na vida do discípulo deve ser refletida por meio desses três diamantes.
Colocados à frente os interesses de Deus, seguem-se agora as questões dos próprios discípulos, que se referem à preservação de sua vida na terra!
Novamente o indivíduo está situado diante do Pai no céu, mas ele também é membro da comunidade, por isso a palavra: “nosso” pão diário. Nas petições seguintes: Perdoa a nossa culpa
etc.
Na história da pesquisa sobre a versão do texto original surgiu uma questão difícil: deve ser traduzido: “Pai, dá-nos o pão destinado e suficiente para o dia vindouro”, ou “dá-nos o pão destinado e suficiente para este dia”? A decisão caiu em favor da tradução “dá-nos hoje o pão para o dia vindouro”, ou seja, o pão necessário para a existência, o pão diário (cf. 1Tm 6.8).
O teólogo Zahn fez uma referência ao diarista, que é valiosa para a compreensão da quarta petição. O diarista pertence ao grupo de pessoas que precisam “comprar cada dia o pão do padeiro”, ou seja, que não pode, como os abastados, assar pão para a semana inteira. Se nos colocarmos na situação dele e o imaginarmos como aquele que sustenta a família, que precisa viver da mão para a boca, então realmente não será falta de fé quando ele pedir: Dá que eu hoje possa ganhar tanto que eu e os meus amanhã tenhamos o suficiente para comer.
Neste contexto seja mencionada ainda a referência “Tua palavra é lâmpada para meus pés” (Sl 119.105). Isso quer dizer que somente precisa ser iluminado o local em que pisar o meu pé.  Tanto a
“palavra” quanto o “pão” nos serão presenteados somente passo a passo, dia a dia.
Acrescenta-se a isso o pensamento seguinte: Em seu teor, o Pai Nosso não é de nenhum modo super-espiritual, entusiasta, sobrenatural no sentido de que o pão não caberia numa oração. Ao contrário, seu sentido é bem natural, respectivo às preocupações pelas necessidades diárias e corporais.
Ainda mais: A singela palavra “pão” previne de todo luxo, toda ânsia de consumo, e exorta para a simplicidade e o controle dos desejos. E ainda: na explicação da quarta petição, Lutero considera como incluídas no pão todas as necessidades terrenas, tais como: bom tempo, bom governo, vizinhos fiéis etc. Em seguida, a oração do Pai Nosso progride do material para o espiritual.
“Dá o pão - perdoa a dívida.” Esse duplo pedido constitui todo o anseio do ser humano. Pois a pessoa é corpo e alma.
A 5ª prece: Perdoa-nos as nossas dívidas! transfere para Deus a relação de credor e devedor. O devedor precisa pagar, esse é um dever incondicional. Se não o fizer, está caracterizada a ofensa ao direito. Na antiguidade punia-se severamente a quebra do direito.
As dívidas perante Deus surgem quando não se dá a ele o que lhe pertence! Dispensar de dívidas constitui uma bondade inacreditável, a qual era extremamente elogiada na Antiguidade.
Um discípulo sempre está diante de Deus como devedor, pois continuamente carece de realizar tudo o que pertence e compete oferecer a Deus.
O perdão divino das dívidas somente é concedido à pessoa que ora quando ela própria também perdoa as dívidas do seu próximo, não apenas 7 vezes, mas 70 vezes 7, ou seja, sempre e sempre de novo.
Por conseguinte, quem ora: “Pai, perdoa-nos as nossas dívidas”, pode trazer esse pedido à presença de Deus apenas quando já perdoou a todos (estão incluídos os não-cristãos, cf. v. 14s) que pecaram contra ele. O texto original está a na voz perfeita: temos perdoado. Quem ainda não perdoou ao outro, não pode proferir o Pai Nosso.
A paciência que suporta e o amor que perdoa dirigem-se não apenas às fraquezas e deficiências dos semelhantes, mas também ao seus atos reprováveis. Somente ao que  continuamente perdoa pode ser dado perdão.
O fato de Jesus acrescentar, depois da oração do Pai Nosso, uma explicação nos v. 14s, demonstra a importância que  justamente essa petição tinha para ele:  Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará. Se, porém, não perdoardes, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. Uma declaração muito séria de Jesus.
Constitui uma tragédia terrível, um mistério assustador, que o Pai no céu, que afinal é onipotente, torna-se quase que impotente quando seu filho, seu discípulo aqui na terra, não quer perdoar.
Contudo, não será um perdão real quando se fizer apenas uma trégua, e a desconfiança, a linha de separação, a ruptura continuarem existindo. A ligação de fé com o Pai celeste somente existirá quando estiver restabelecido o laço de amor com o próximo.
Enquanto o perdão do pecado se refere ao passado, a petição seguinte tem a ver com o futuro.
A 6ª prece: Não nos deixes cair em tentação tem em mente todos os sofrimentos e tentações, que para o cristão se resumem na constatação sempre de novo verdadeira de que “o desejo da carne é contra o Espírito” (Gl 5.17; cf. também Tg 1.13). As reincidentes provações e tentações, que servem para o cristão como provas de afirmação, são exigência da sabedoria pedagógica e da justiça divinas. Porque alegria e dor, tristeza e adversidades, decepções, fome, miséria e perseguição permanentemente trazem dentro de si grandes perigos. Cônscio de sua própria impotência e fraqueza, o filho de Deus volta-se, por isso, ao Pai, pedindo que ele poupe seu filho do poder aliciador de todas essas tentações. Em virtude de sua fidelidade, Deus faz com que a tentação não leve à queda, mas possa ser vencida (1Co 10.13).
A 7ª petição: Livra-nos do mal significa: “Salva-nos para que nós e o mal fiquemos longe um do outro”. O mal é um poder atrás do qual está o maligno, Satanás. Por isso, estar e permanecer separado dele é algo que se torna viável cada dia somente pela mão salvadora e protetora de Deus. “Pai, segura-nos firmes na tua mão”.
Chegamos ao final do “Pai Nosso”. Em nenhuma outra oração, poucas e singelas palavras encerram um conteúdo mais glorioso e precioso que abarca a eternidade. Por isso ele é mais que uma oração. É uma escola superior de oração, na qual aprendemos continuamente como podemos e devemos orar.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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