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O sermão da montanha Mt 6 1-8


A CARTA MAGNA DO REINO DOS CÉUS
O SERMÃO DO MONTE
Mateus 6

A tríade harmoniosa da nova vida, 6.1-8

1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.
No texto original o v. 1 traz a palavra “justiça”. Ela é usada aqui em sentido abrangente, no sentido de agir correto, fazer algo justo! – Enquanto em 5.22 “justiça” era entendida a partir da posição diante da lei de Moisés (ver o respectivo comentário), a justiça aqui é vista como “atividade”, como “fruto” daquela, em suma, como “a nova vida”.  No v. 2 o texto original não tem: praticar “justiça” (beneficência), mas “dar esmolas”. O significado dessa palavra veremos lá.
Como deve ser entendida a palavra “recompensa”? O termo “recompensa” (“galardão”) ocorre quatro vezes nesses versículos, sempre na mesma formulação, que é dirigida contra os fariseus: “Receberam sua recompensa”. O que faz aqui a palavra “recompensa”? Não havia sido rejeitada há pouco qualquer busca de aplauso meritório das pessoas? A resposta é que a “recompensa de Deus” é algo bem diferente da recompensa que se combate como algo condenável.
Recompensa não pode ser entendida na acepção de “pagamento”, da maneira como existe, p. ex., o pagamento do empregador ao empregado como remuneração por um serviço prestado. Não, não é esse o sentido de recompensa, não como pagamento com base numa relação contratual ou num vínculo empregatício, mas no sentido de uma relação de família, de pai e filho. Recompensa deve ser vista como “reconhecimento” que o pai concede ao seu filho dedicado. Nessa perspectiva, recompensa é “dádiva”, “presente”, “bondade”, cumprimento de compromissos, entrega de promessas dadas. Em suma: “Recompensa celestial” é o abraço do Pai celeste, é “ser presenteado com glórias eternas” (como Deus não nos presentearia tudo com seu Filho?). – Não há sequer como comparar essa “recompensa celestial” com a nossa prática de “boa ação” na terra, porque ultrapassa infinitamente qualquer medida de imaginação. Portanto, jamais pode ser um tipo de contrapartida pelo nosso fazer terreno na “nova vida”. Em Lc 17.10 o Senhor diz: “Quando tiverdes cumprido todas as ordens, dizei: Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”.
De forma idêntica fica claro na parábola dos talentos (Mt 25.14-30; cf. Lc 19.12-17) que a motivação principal não é a idéia de qualquer tipo de pagamento, e sim a idéia da graça! – Wilhelm
Löhe formula-a no conhecido poema:
“Que quero eu? Quero servir!
A quem quero eu servir? Ao Senhor, nos seus miseráveis e pobres.
E qual minha recompensa? A recompensa é que eu posso.”
Nas prédicas sobre Mt 5–7, Lutero diz acerca do pensamento da recompensa: “Deus quer nos tornar firmes através de tal „recompensa‟. Se o mundo não quer agradecer -lhe e tira a sua  honra, bens, corpo e vida, então agarre-se a mim e console-se com a verdade de que eu tenho ainda o céu e tanta coisa dentro dele que poderia muito bem retribuir -lhe tudo e muitas vezes mais do que agora possa lhe ser tirado… Console-se que o reino dos céus está aberto para você, e que então você contemplará visualmente, em eterna glória e felicidade, a Cristo, ao qual você tem agora pela fé.”
Segundo o ensinamento dos rabinos, o judeu demonstra seu amor a Deus através de três desempenhos: beneficência, oração e jejum.
Essas três realizações são acrescentadas às obrigações cultuais judaicas.
Vertido para a linguagem de hoje, poderíamos dizer: Estão sendo caracterizadas aqui três
manifestações da “nova vida”. Os efeitos da nova vida caracterizam-se por três perspectivas.
• 1ª perspectiva: Olhar para fora gera o serviço (“esmola”) de nossa mão perante o próximo.
• 2ª perspectiva: Olhar para cima gera o serviço (“oração”) de nossa boca perante Deus.
• 3ª perspectiva: Olhar para dentro gera o serviço (“jejum”) de nossa alma perante suas lutas interiores.
Temos uma tríade! Para fora, para cima e para dentro.
Jesus não está dizendo: “Não pratiquem a beneficência, não orem, não jejuem”, mas: Quando exercerem a misericórdia, quando orarem, quando jejuarem, não procedam como os fariseus costumam proceder. Pois o modo como eles o fazem é condenável!
De que modo, afinal, agiam os fariseus? Eles queriam ser admirados pelas pessoas. Pelas mesmas pessoas que eles no geral desprezavam, queriam agora ser admiradas.

No correto exercício da misericórdia evidencia-se a nova vida como serviço da mão perante o próximo

2-4 Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
A beneficência judaica costumava dar muitas esmolas. O doador era forçado a essa generosidade ao ter de fazer doações em público. Através desse aspecto de publicidade, cada um se sentia observado. Pelas “ofertas” media-se o grau de religiosidade, ou melhor, o grau de justiça.
Após o culto na sinagoga cada um levantava e dizia qual era a quantia que queria ofertar. Quando havia uma doação muito vultosa, o doador era chamado até o bemá (tribuna) e recebia a honra de poder sentar ao lado do rabino.
O servidor da comunidade tocava, então, uma trombeta, a fim de chamar a atenção dos seres celestiais, porque ali se havia realizado um beneficência especial.
Quanto mais, pois, o fariseu praticava a beneficência, dava esmolas, tanto maior era o espetáculo, primeiro na sinagoga e depois também na rua.
O Senhor condena intensamente esse espetáculo na sinagoga e na rua. Reprova integralmente o caráter público da misericórdia. A mão esquerda não deve saber o que a direita faz, isso significa que o benfeitor não deve sequer refletir sobre sua ação, não deve de modo algum tornar esse assunto importante.
Uma atitude desinteressada dessas é que caracteriza o autêntico amor (ágape). Somente Deus deve saber o que é dado em segredo. Dessa maneira a beneficência não é realização, não é justiça pelas obras, mas sim entrega e fruto de fé.
Tudo o mais já tem sua recompensa. Mas quem exerce beneficência, pratica a misericórdia, em segredo, esse receberá retribuição do Pai celeste; o Pai lhe dará  recompensa, a saber, recompensa no sentido acima exposto.
A palavra grega para “esmola” é eleémosýne (da qual surgiu o termo alemão Almosen). Não a reproduzimos como diversas traduções tradicionais com “dar esmolas”, mas com praticar “beneficência”. Entretanto, seu sentido é ainda mais amplo. Significa: misericórdia, compaixão, sofrer junto. Com essa palavra é expressado tudo em que o discípulo de Jesus é devedor do seu próximo: consideração, respeito, amor e ajuda, carregá-lo com empatia. Também ao socialmente mais humilde é necessário dedicar todo o amor e consideração. Nesse relacionamento ecoa com força a palavra de Jesus: “Guardai-vos, cuidai da vossa prática de misericórdia”, do vosso amor autêntico e correta consideração perante o mais humilde e mais fraco!
Neste contexto chamemos brevemente atenção sobre um perigo.
Através de uma ajuda externa, muitas vezes tirada superficialmente da própria abundância, a gente pode se esquivar da verdadeira ajuda, profunda, interna. A palavra original grega entende o “dar esmolas”, “praticar beneficência” como “tentar ajudar a alma e o corpo do próximo através do sacrifício voluntário de si próprio”.
Mais uma coisa seja dita: Em nenhuma área o perigo de enganar-se a si próprio é tão grande, e o perigo de outros motivos entrarem em cena é tão forte, quanto na “prática da beneficência”. Sob uma superfície religiosa, amigável e bondosa podem abrigar-se motivações contrárias à fé. Há algo de terrível nesses motivos ocultos, impuros, que com muita facilidade se introduzem furtivam ente no pensar, sentir e querer do eu necessitado de reconhecimento. Constitui a mais sutil das trapaças quando a piedosa “prática da beneficência” se torna um meio para olhar-se a si próprio e nutrir o sentimento: “Eu fiz algo de nobre”. “Eu sou melhor que os outros. Se todos fossem como eu, o mundo seria muito melhor.”
Todo o serviço de amor dos seguidores de Jesus deve ser tão oculto que, quando o Senhor os chamar a si no dia do juízo final (por terem servido aos famintos e miseráveis), eles perguntem surpresos: “Quando foi que vimos o Senhor sofrendo e o servimos?” Nem mais estão conscientes de seus atos de amor, de seus serviços de misericórdia.

Na oração correta revela-se a nova vida como serviço da boca perante Deus

5-8 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.
Também a oração deve estar na esfera secreta. Entre os judeus era usual que se realizasse publicamente a oração, assim como a beneficência. Como os horários de oração estavam determinados para de manhã, ao meio-dia e à noite, muitas vezes se via uma pessoa parada na rua orando. Desse modo ela cumpria pontual e fielmente o horário da oração. Nessa circunstância a pessoa não dizia a oração em voz alta (o que era proibido), mas a murmurava.
Jesus repele o caráter público da oração. Ele afirma no v. 6: Quando orares, entra no teu quarto, teu tameion, e, fechada a porta, orarás a teu pai que está em secreto (crypta).
O que é um tameion?
O tameion (= câmara) é o quarto dos suprimentos, é o recinto escondido, secreto, a peça mais íntima da casa, porque os suprimentos precisam estar seguros de ladrões e animais selvagens. Essa câmara de suprimentos é a única peça na casa do agricultor palestino que pode ser trancada. Tampouco possui janelas. Portanto, é duplamente apropriada para ilustrar o sentido do “secreto”, porque ninguém pode entrar nem olhar para dentro. – Com que nitidez é caracterizada, assim, por Jesus, a diferença entre a natureza da oração em contraposição à prática da oração dos fariseus! Quantas vezes o próprio Jesus procurou a solidão da noite para orar.
A pequena câmara de oração, da qual Jesus fala, também pode estar localizada no meio do alvoroço do mundo e no meio das pessoas. Mas estará lá somente quando primeiro temos o sagrado costume de nos retirarmos ao quarto secreto como Jesus aconselhou.
É também excelente a maneira como a palavra do quartinho indica a posição de Deus diante de uma oração em segredo. Deus a recompensará, diz o texto bíblico. No grego o verbo “recompensar” significa “devolver o que se recebeu”, “saldar uma dívida”. Portanto, Deus considera a oração como nosso presente a ele, o qual ele nos devolve, como dívida que ele tem conosco e que ele salda a nós à maneira divina.
Com a palavra da oração em local oculto, porém, Jesus jamais quis dizer que seus discípulos somente poderiam orar num quartinho. Jesus não interditou a oração comunitária na sinagoga. Ele próprio costumava ir à sinagoga.
Além do perigo de “querer aparecer em público com a prática religiosa da oração”, Jesus chama atenção para outro, a saber, o mau costume de amontoar irrefletidamente palavras de oração.
Os exercícios de oração dos judeus naquele tempo estavam num nível tão exagerado, que a incessante repetição das palavras prescritas transformou-se em “tagarelice”: Exigia-se diariamente:
• Recitar três vezes a oração das 18 petições, às 9 da manhã, às 3 da tarde e à noite (Essa oração era dez vezes mais extensa que o Pai Nosso: tinha 970 palavras).
Veja algumas partes da oração das 18 petições, também chamada de tephilá:
“Louvado sejas, Iavé, Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, Deus Altíssimo, fundador do céu e da terra, nosso escudo e escudo de nossos pais. Louvado sejas, Iavé, escudo de Abraão.
Tu és herói valoroso, o eternamente vivo, o vivo que nutre, o que vivifica os mortos. Louvado sejas, Iavé, que faz os mortos tornar à vida.
Santo e terrível é o teu nome, e não há outro Deus além de ti. Louvado sejas, Iavé, Deus santo.
Agrada-te, Iavé, nosso Deus, e mora em Sião, e teus servos em Jerusalém te servirão.
Louvado sejas, Iavé, porque queremos servir-te com temor.
Agradecemos-te, Iavé, nosso Deus, por todos os benefícios da bondade. Louvado sejas, Iavé, a quem convém agradecer.
Derrama a tua paz sobre Israel, teu povo, e abençoa-nos a todos nós. Louvado sejas, Iavé, que és o “construtor da paz” etc.
Isso é apenas um extrato bem breve, para que possamos conhecer a  natureza dessa grande oração de 18 petições.
• A confissão diária da fé, que devia ser recitada duas vezes. Também é chamada de shemá.
O shemá (confissão de fé), que devia ser proferido pela manhã em pé e à noite deitado, conforme Dt 6.7, era composto de 3 partes, tiradas de Dt 6.4-9, Dt 11.13-21 e Nm 14.37-41. Como revela o conteúdo das três passagens bíblicas citadas, o shemá não quer ser uma oração, e sim uma profissão de fé. É a confissão fundamental de Israel ao Deus único e seus mandamentos. – O shemá era emoldurado com elementos litúrgicos. O shemá matinal tinha duas introduções e duas finalizações.
Uma destas introduções dizia, p. ex.: “Verdadeira e segura e firme e permanente e correta e confiável e amada e estimada e valiosa e fértil e gloriosa e justa e agradável e boa e bela  é esta oração (o shemá)”, etc. – A recompensa de orar o shemá era que ele servia como um meio de proteção contra os maus espíritos, prolongava a vida da pessoa, garantia para a pessoa o mundo vindouro… Que diremos diante disso? Como neste caso a vida de oração tornou-se algo externo, igual a uma produção realizada!
Quanto à preparação para a oração, é preciso esclarecer o seguinte: Quem ia orar costumava esperar uma hora, depois orar uma hora, e em seguida esperar mais uma hora.
• A repetição das orações de mesa.
• Em qualquer ocasião, a doxologia (exaltação de Deus).
Com “tagarelar” ou orar de modo “irrefletido” ou “irreverente”, Jesus também se refere à ideia de que, com as muitas palavras, Deus seria constrangido a ceder aos desejos dos que oravam. A oração abundante em palavras seria, de certo modo, o método mágico para merecer o céu. É uma ideia pagã, diz o Senhor.
O Senhor condena plena e cabalmente a oração vazia, irrefletida, verborrágica, supersticiosa. Por outro lado, não pensa de modo algum em interditar uma oração longa, fervorosa e confiante, a luta de oração que, em certas circunstâncias, pode durar até uma noite toda (cf. a oração de Jacó até o nascer do sol).
O apóstolo Paulo diz: “Orai cem cessar”. Nisso ele está bem de acordo com o seu Mestre, para que essa oração persistente não seja desvirtuada em religiosidade mística, em fanatismo, mas permaneça sob a constante disciplina do Espírito e aconteça sempre na sobriedade bíblica.
Apesar disso, continua válido que a “oração incessante” é e permanecerá sendo o ofício do cristão autêntico. Pois “orar” não significa apenas dedicar de manhã e à noite alguns minutos à oração, mas traduz que se encontrou uma nova existência, um novo modo de ser, mais precisamente um modo que controla a vida toda. Orar significa que a vida toda tornou-se um diálogo com Deus, um diálogo que perdura até as eternidades e que não sofre nem um segundo de interrupção pela morte.
Quem se serve desse diálogo incessante não recebe sem refletir os acontecimentos todos de sua vida, não os vê como acaso, destino ou infortúnio, mas como presente da mão de Deus, ainda que sejam sofrimento e tristeza. A pessoa que ora recebe tudo de Deus e relaciona tudo com ele, o acontecimento maior e o menor, a bênção espiritual e o pedacinho de pão. Quem não ora sempre vê o lado avesso do tapete e do vitral da igreja, vê tudo incerto e confuso. Mas quem ora vê a estampa maravilhosa do tapete e a figura esplendorosa do vitral. Até no fato incompreensível vê a marca de
Deus.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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