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22 a filha de Jairo e a mulhe com hemorragia Mt 9.18-26


O reavivamento da filhinha de Jairo e a cura da mulher com hemorragia, Mt 9.18-26
(Mc 5.21-43; Lc 8.40-56)

18-26 Enquanto estas coisas lhes dizia, eis que um chefe (da sinagoga), aproximando-se, o adorou e disse: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe a mão sobre ela, e viverá. E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos. E eis que uma mulher, que durante doze anos vinha padecendo de uma hemorragia, veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste; porque dizia consigo mesma: Se eu apenas lhe tocar a veste, ficarei curada. E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou sã. Tendo Jesus chegado à casa do chefe e vendo os tocadores de flauta e o povo em alvoroço, disse: Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme. E riam-se dele. Mas, afastado o povo, entrou Jesus, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. E a fama deste acontecimento correu por toda aquela terra.
Observação preliminar
A palavra “sinagoga” é usada com vários significados. Por um lado é designação da casa em que acontecia a reunião de culto (local de oração), por outro lado para a própria reunião dos judeus como comunidade em culto, e, em terceiro lugar, também para uma reunião dos representantes dessa comunidade. Parece que antes do cativeiro babilônico não havia ainda sinagogas. Em 2Rs 4.23 somos informados de que se procurou um profeta a fim de perguntá-lo acerca da lei. Ainda não havia necessidade clara de uma casa de oração específica.
No NT a sinagoga era conhecida como uma “instituição muito antiga”. No tempo de Jesus havia sinagogas em todos os lugares, mesmo nos menores (Nazaré, Mc 6.2). Em Jerusalém deve ter havido sinagogas em grande número (400 a 500). Cada clã tinha a sua. Mesmo no monte do templo menciona-se a existência de uma sinagoga. A isso se somavam diversas sinagogas na diáspora (At 14.21).
As organizações comunitárias tinham a obrigação de construir sinagogas. Os moradores eram obrigados a participar na construção. Tampouco era proibido a pagãos e prosélitos apoiarem a sinagoga financeiramente (Lc 7.5) e participar dos cultos.
O estilo arquitetônico das sinagogas via de regra era de três naves. Cafarnaum até possuía uma de cinco naves. Presume-se que havia várias entradas, cada nave com a sua própria. As escavações na Galiléia constataram isso com relativa certeza. Depois da entrada havia as fileiras de assentos, as quais dirigiam o olhar da comunidade para o interior da sinagoga (o lado oposto da porta).
Geralmente era ali que se localizava, atrás de uma cortina, o sagrado. Era uma arca com um rolo da Torá e os demais textos sagrados. Todos eram escritos sobre pergaminho e igualmente enrolados. Durante o culto o sagrado era colocado à mostra.
Na direção do olhar da comunidade também se encontrava um local elevado, com um púlpito para o leitor e o orador (Em geral também se utilizava a sinagoga como escola para as crianças).
O culto na sinagoga era formado pela leitura da Escritura, oração e pregação. Ao ser proferida a leitura as pessoas permaneciam em pé, na pregação ficavam sentadas. Até meninos de 12 anos podiam participar da leitura. Uma pregação podia ser feita por qualquer pessoa que tivesse mais de 30 anos e se anunciava previamente junto ao chefe. O Senhor Jesus e seus discípulos usaram com freqüência essa oportunidade para anunciar o Evangelho.
O presidente da sinagoga, sempre um dos homens mais respeitados, era eleito entre os anciãos da comunidade. Era tarefa dele zelar pela ordem do culto, convidar leitores e pregadores para o serviço, censurar e barrar desordens.
Subordinado ao presidente da sinagoga, estava o zelador ou servidor da sinagoga. Ele chamava por nome os leitores, oradores e pregadores que lhe haviam sido indicados pelo presidente, para desempenharem sua função. Trazia-lhes os escritos sagrados e os guardava novamente com cuidado na arca sagrada após o uso. Ele também executava o castigo dos açoitamentos na sinagoga. Entretanto, não é possível comprovar se ele também era incumbido do ensino de crianças.
Nas portas de entrada da sinagoga recolhiam-se as esmolas, administradas por um tesoureiro nomeado para tal. Esse cargo também era muitas vezes ocupado pelos mais famosos rabinos e pelas pessoas mais respeitadas, embora no cargo fossem subordinadas ao presidente da sinagoga.
Chega a Jesus um dos presidentes da sinagoga de Cafarnaum, portanto, uma pessoa de prestígio na cidade. Todos os três evangelhos também referem o seu nome:  Jairo (Jairo significa: “o que traz luz”). Ele tem uma filha única de doze anos de idade. É por causa dela que ele vem a Jesus. Logo que o encontra, cai aos seus pés e pede, inquieto, com muitas palavras, que ele venha apressadamente à sua casa. Minha filha acaba de morrer, lamenta-se ele. Depois, corrigindo-se e esperançoso de que ainda haja uma centelha de vida nela, suplica: Vem, impõe a mão sobre ela, e ela viverá.
Essa ida de Jairo até Jesus seguramente não foi nenhuma bagatela para ele. Pois sempre de novo ele tinha de constatar que, quando esse Jesus vinha à sinagoga e falava, os recintos se enchiam com muito mais ouvintes, e que esse Jesus era bem mais importante em Cafarnaum que ele próprio, o chefe da sinagoga. Talvez ele não pudesse aprovar muito bem o procedimento de todas as pessoas que se dirigiam com suas enfermidades a Jesus, pois uma coisas dessas nunca havia acontecido. Será que isso era digno de um bom israelita?
Contudo, o orgulho não o ajuda! A doença da filha se torna visivelmente pior. Aí corre até Jesus e prostra diante dele seu rosto em terra. Ele, o ilustre presidente da sinagoga, não se envergonha diante do povo de também solicitar a ajuda de Jesus, de também pedir a Jesus de coração, para que venha à sua casa ver sua filha doente.
Combinando-se os relatos dos três evangelhos, obtém-se um quadro muito vivo da máxima agitação e do desabamento interior desse homem. Quando saiu de casa, ela ainda vivia. Contudo parece que já haviam iniciado os sintomas da agonia de morte. Por isso, entre as muitas palavras que dizia, segundo Marcos, foi possível que Jairo também proferisse em seu discurso confuso que sua filha acabava de falecer, mas logo dando espaço à esperança de que ela ainda estaria viva e poderia ser salva. Porém, não fazia parte de seu pedido expresso que sua filha estivesse morta e que o Senhor a devesse ressuscitar. Unicamente tinha a certeza de que Jesus ainda poderia salvá-la nos seus últimos suspiros, de modo que, nas contradições próprias de sua agitação, se exteriorizava inconscientemente uma grande confiança em Jesus.
Por isso priva-se a história de uma de suas características mais vivas quando se contrapõe Mateus contra Marcos, de modo que Jairo estaria proferindo apenas uma petição bem clara e elaborada. Isso não combinaria tão bem com ele quanto o discurso perturbado de um pai extremamente aflito por sua filha.
Imediatamente o Senhor o acompanha. Seguem-no os discípulos e uma massa popular que o rodeia de maneira quase sufocante. Quem não gostaria de estar presente e ver s e Jesus ajudará também desta vez! – Subitamente o cortejo se detém. Jesus pára. Uma mulher necessitada de ajuda, que tem vergonha de nomear publicamente sua enfermidade, teve a idéia de tocar secretamente a roupa do Senhor para ser curada. Ela segura a barra de sua túnica com um temor reprimido (quanto à orla do manto, cf. Nm 15.38; cf. também At 5.15; 19.11).
Foi obra de um segundo na alma de Jesus perceber – compreender – e conceder esse toque pela mulher em sua veste. A mulher sentiu-se abalada pelo contato e de imediato ficou ciente da cura. Jesus, porém, que conscientemente (Mc 5.30) havia sentido o fluxo de vida e, em conseqüência, também um poder de cura sair dele, voltou-se e falou: Tem bom ânimo, filha, tua fé te curou (No final deste comentário voltaremos a abordar com mais detalhes a cura dessa mulher).
A demora de Jesus nesse episódio quase leva a esquecer que ele está a caminho do leito de uma moribunda. Faz lembrar uma outra delonga que se tornou uma severa provação para as amigas de
Jesus, Maria e Marta, em Jo 11. Também para Jairo essa pausa constituiu uma prova dura. Parece que ficou calado, o que sem dúvida lhe foi contado como ponto positivo.
A casa está repleta do barulho dos flautistas e das mulheres carpideiras. Jesus ordena: Saiam daqui, a menina […] está dormindo! Eles riem-se dele: Ela está morta, isso nós garantimos!
Os três evangelhos sinóticos têm em comum a expressão “riam-se dele”. Como é curioso que essas mulheres, em altos prantos, tão antipáticas para nós hoje, têm de ser testemunhas de que a grandeza de Jesus está sendo revelada.
O povo precisa ser mandado para fora. Jesus não quer realizar um milagre de demonstração pública. Por outro lado, tampouco o realiza atrás de portas fechadas. Jesus realiza seus milagres diante de testemunhas. De acordo com Lucas, ele levou consigo três testemunhas: Pedro, Tiago e João. Atestada pela boca de duas ou três testemunhas, qualquer questão é segura. “O melhor é ter três testemunhas. Os três apóstolos são testemunhas de Jesus na ocasião em que é importante para ele ter testemunhas, mas não um número maior que o necessário” (o mesmo ocorreu na transfiguração, 17.1ss). Além dos discípulos, participam ainda o pai e a mãe. Provavelmente Jesus também se enquadrou nos costumes. Eles exigiam que um homem não ficasse sozinho com uma moça (De acordo com Marcos ela tinha 12 anos, ou seja, poderia ser desposada)!
A casa ficou, pois, em silêncio e solidão. Duas almas estavam diante do leito da menina, com fé e súplica. Eram o pai e a mãe. A comunidade do Senhor, porém, está representada pelos seus três amigos íntimos. Segue-se, agora, a solene ressurreição. A palavra talita cumi (Mc 5.41) abalou a Pedro, e através dele a Marcos, com sua força original, de modo que ela ressoa no material deles através da comunidade até o fim do mundo.
Com majestade régia Jesus ordena à morte que devolva a sua presa. Em voz alta ele diz, de acordo com Marcos: “Menina, eu te digo, levanta-te!” Nenhum sussurro, nenhuma fórmula, nem mesmo uma oração, mas somente: “Eu te digo!” Assim como ele ordena aos demônios, também dá ordens à morte, e ela cede. Chama o “espírito”, e ele retorna.
A menina se levantou e andou pelo quarto. Pai e mãe estão atônitos, os olhos cheios de lágrimas de espanto e gratidão.
Marcos e Lucas trazem a instrução de que se dê de comer à menina. Dessa maneira se ressalta a total tranqüilidade do Senhor nessa grandiosa ação de milagre. Ele age simplesmente como o médico que tomou o pulso da doente e prescreve a dieta para o dia. Em traços como esses reconhece-se o relato de uma testemunha ocular, que continua com a voz de Jesus em seus ouvidos e que ainda vê a criança caminhando para lá e para cá.
Acima mencionamos apenas de passagem a cura da mulher com hemorragia. É necessário, porém, dar-lhe atenção especial. Em Mateus a história é narrada de maneira relativamente breve. Marcos e Lucas a apresentam com grande plasticidade e numerosos pormenores.
Em Lv 15.25ss lemos (em tradução livre) que: “Quando uma mulher tem hemorragia por longo tempo, será impura enquanto a tiver. Todo leito em que estiver deitada, será impuro por todo o tempo da hemorragia. Tudo em que ela estiver sentada, será impuro. Cada pessoa que tocar nela será impura, deverá lavar suas roupas e banhar-se, permanecendo impura até o cair da noite. Quando ficar limpa da hemorragia, deverá tomar duas pombinhas ou duas pombas-rolas e trazê-las ao sacerdote. De uma o sacerdote fará uma oferta pelo pecado, da outra um holocausto, reconciliando-a perante o Senhor pelo fluxo de sua impureza. Assim exortareis os filhos de Israel diante das suas impurezas, para que não morram.”
Imaginemos que essas determinações valem para a mulher dessa história. Nesse caso, durante todos esses doze anos ela foi quase como uma leprosa. Ela própria era imunda. O que ela tocava e cada pessoa que a tocava tornavam-se impuros. Em conseqüência, ela estava excluída do contato com pessoas e era evitada pelos seus próprios familiares. Agregava-se a isso a pergunta angustiante: Por causa de que pecado estou sofrendo isso?
Somente agora estamos em condições de compreender a história em todos os seus detalhes, ilustrados tão amplamente por Marcos. A mulher, sob a pressão do sofrimento, do isolamento e da suposta culpa, ouve o que está sendo falado acerca de Jesus. Ele é o grande homem de milagres e amigo dos pecadores e das pecadoras. Será que não a ajudaria? Mas como proceder? Pois não pode misturar-se entre as pessoas, nem pode falar de sua enfermidade diante de todos. Por isso ela planeja: tocarei na sua veste. Se ele realmente for o que falam dele, isso já me ajudará! Acontece que naquele dia Jesus está cercado de uma grande multidão. Ela se esgueira pelo ajuntamento e toca por trás a capa dele. De imediato a hemorragia cessa, e ela nota em seu corpo que está curada.
Jesus sabe à distância e simultaneamente, pois é profeta (Lc 7.39). Por isso sabe a respeito dos pensamentos da mulher antes que ela o toque. Ele lhe diz: Tua fé te curou. Jesus não censura a simplicidade da mulher, porém abençoa com atendimento a  enorme confiança dela, que no fundo não é uma confiança no poder de cura de seu manto, mas sim nele pessoalmente (mais explicações no comentário ao texto de Marcos).
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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