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26 Retrospectiva e visão panorâmica da ampla atividade do Senhor, Mt 9.35-38


Retrospectiva e visão panorâmica da ampla atividade do Senhor, Mt 9.35-38
(Mt 4.23-25)

35 E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades.
Com estas palavras Mateus repete o que já afirmou em 4.23-25 sobre a atividade abrangente do Senhor. O v. 35 caracteriza, numa coincidência quase literal com 4.23, a atuação com quatro verbos.
São eles: percorrer a região, ensinar, evangelizar, curar.
Estas quatro atividades revelam-nos o Cristo que fala e que trabalha, ou seja, a atuação de Jesus com palavra e atos, com cuidado pela alma e cuidado pelo corpo. Primeiro: Jesus percorria a região. Ele procurava as pessoas lá onde estavam em casa. Em todas as cidades e aldeias há pessoas em casa. Jesus não espera que as pessoas  venham a ele (como João Batista!), contudo vai até elas e as procura, por m ais estranhos e escondidos que possam ser em seus hábitos. Ele realiza “visitas domicialiares”, como diríamos hoje. Samuel Keller afirmou certa vez: “A chave para as almas das pessoas está pendurada em sua casa. Por isso é necessário ir até elas, procurá-las em sua vida cotidiana, em suas aflições, em suas doenças, em sua solidão.”
Ressaltam-se em seguida três momentos característicos dessas andanças, dessa procura das pessoas em seus lares.
Segundo: Ensinando. Ensinar refere-se à instrução dada ao povo (exposição da palavra de Deus!),
e também à controvérsia com os fariseus e escribas.
O objetivo é que o povo seja ensinado a partir da autoridade, e não dos “estatutos humanos”. A palavra, novamente a palavra, a palavra poderosa do Espírito, jamais poderá ser enaltecida demais. De que outra maneira o Bom Pastor alcançaria seu rebanho, se não fazendo ressoar a sua voz?
Terceiro: Ao lado do ensino acontece, como segunda característica, o “anúncio”, a “proclamação de alegria” do reino. Quem ouviu esse chamado de arauto, essa proclamação de alegria, deve saber que está convocado a se tornar cidadão desse reino, o reino que existirá de eternidade a eternidade.
Quarto: Ensino e proclamação são acompanhados da ação simultânea. Pois o reino de Deus está “em vigor”. Quando o Senhor diz a sua palavra, caem as amarras do pecado, os castelos do mâmon, as fortalezas da doença, sim os laços da morte. – Jesus nos proíbe deixar de lado a grande miséria física, social e econômica das multidões, como se não tivéssemos nada a ver com ela, como se fosse possível ouvir e aceitar o evangelho do reino de modo desligado dela. Jesus nos proíbe considerar essa miséria como algo sancionado por Deus. Pelo contrário, ela faz parte da realidade sem Deus em que Jesus nos ordenou que penetrássemos, dando-nos as magníficas palavras do “sal” e da “luz”.
36-38 Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. E, então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.
Do v. 35 ao 36 acontece uma mudança na narração de Mateus. Numa comovente figura sobre seus sentimentos, Jesus nos mostra sua sincera compaixão com o povo. Ele viu o povo. Nem todos veem o povo. O poeta romano Horácio dizia: “Odeio o povo simples e mantenho-me longe dele”. Os fariseus afirmavam: “O povo que não sabe nada da lei e é maldito” (cf. Jo 7.49).
Jesus, no entanto, viu o povo e tinha compaixão dele. É exatamente o que diz em Lc 15.20. Essa compaixão profunda fazia com que “no Senhor o coração se retorcesse em seu corpo (uma expressão literal muito forte)”. Doenças e sofrimentos de todos os tipos, empobrecimento econômico e domínio estrangeiro nem sequer eram os males piores. O mais terrível era que o povo estava enfermo na alma. Faltava-lhe consolo e confiança, fé amor, esperança. Entretanto, isso a maioria não via. O Senhor o vê com o olhar do amor de Salvador. Condoía-se imensamente.
Esse é o mistério do ângulo sob o qual “o mundo precisa ser visto e experimentado”. Quem realmente se aproxima de Jesus percebe algo dessa posição. Ninguém pode persistir no seu velho julgamento e na velha natureza, na dureza de coração e justiça farisaica.
Esse “compadeceu-se deles” é a verdadeira insígnia de sua dignidade régia. O rei faz parte do povo. Assim o Bom Pastor vê o seu rebanho. Na comparação com essa atitude é que se torna compreensível o que os falsos líderes fizeram com “o que era seu”. Aí estão os instigadores que incitam, golpeiam e perseguem cada vez mais o pobre povo. Há os sábios e inteligentes que proferem, como os amigos de Jó, seus discursos elaborados e dogmaticamente corretos, mas não passam todos de “consoladores molestos” (Jó 16.2). Aí a miséria acha a todos que de algum modo consegue encontrar na terra, os “sacerdotes e levitas” – porém em lugar algum encontra aquilo que obtém junto de Deus, a grande misericórdia de Deus.
A figura do rebanho desgovernado, esgotado e prostrado no chão é tirada de Ez 34 e Zc 11. “O rebanho sem pastor é perseguido por animais ferozes, por enxames de insetos, dilacera-se em espinhos e matagais e finalmente jaz exausto na terra.” As ovelhas estão “esfoladas” e “prostradas no chão”. Não obstante, a ilustração contém uma indicação secreta para a salvação. Pois foi “suscitado” o Bom Pastor, a “promessa de Deus se cumpre em Jesus Cristo” (H. J. Iwand em: Göttinger Predigmeditationen). É dessa esperança que fala o v. 37. O tempo de angústia é na verdade o período anterior à colheita. Justamente por ser tão grande a miséria, o campo está maduro para a safra. O olhar do Salvador constata: A colheita é grande! Cristo o diz para o seu povo e para todos os povos. Afirma-o naquele tempo e hoje. É tempo de colheita porque a promessa de Deus se cumpriu e Cristo veio.
A própria safra é figura recorrente para o juízo vindouro. Inversamente, porém, quando a palavra de Deus é poderosamente anunciada, já agora são feitas decisões, as decisões do juízo final. Na posição diante de Jesus, de fato já agora se decidem vida e morte, salvação e condenação.
A colheita é grande, mas poucos os operários. O pensamento de Jesus exterioriza-se numa emoção forte e profunda, num contraste impactante. Ao erguer os olhos para Deus, surge a sentença: A colheita é grande e está madura. Ao olhar em profundidade para a humanidade, surge o lamento sobre o “rebanho exausto e prostrado” e a falta de operários para a safra. Pois constitui uma agonia amarga ter uma colheita abundante mas faltarem os ceifeiros.
A tensão, a profunda emoção do coração, a divergência entre olhar para o alto e para a profundidade, é solucionada pela oração, a oração séria e persistente:  Roguem ao Senhor da colheita que “lance para fora” operários na sua colheita, como diz com dureza e clareza ao texto original.
“No tempo de safra o proprietário procura, além dos seus auxiliares permanentes, ainda trabalhadores especiais, para jogá-los” (ekballein) na sua colheita, assim como um general lança suas forças de reserva na batalha decisiva. Há grande necessidade de discípulos de Jesus, impelidos pelo Espírito de Deus, plenos de uma fé firme, animados por um amor sagrado, dotados do olhar de Jesus, a saber, o olhar da compaixão e da esperança, que queiram ajudar na construção do reino  de Deus. Precisam saber-se vocacionados pelo próprio Deus. Somente ele pode dar essas personalidades! Ele as dá quando se ora por elas. São fruto de muitas orações. É maravilhoso o quanto Deus coloca em nossas mãos e faz depender de nossa cooperação. Até o emprego de seus mensageiros e colaboradores! A intercessão autêntica realiza obras grandes no reino de Deus. Abre corações, bocas e mãos para a gratidão e o serviço. “Impulsiona para a missão e a diaconia. Ela nos dá a palavra certa e a ação correta” (Münchmeyer).
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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