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32 JESUS DISCUTE COM OS INIMIGOS, MT 12.1-30

JESUS DISCUTE COM OS INIMIGOS, MT 12.1-30

1. A primeira controvérsia do sábado, Mt 12.1-8
(Mc 2.23-28; Lc 6.1-5)

1-8 Por aquele tempo, em dia de sábado, passou Jesus pelas searas. Ora, estando os seus discípulos com fome, entraram a colher espigas e a comer.
Os fariseus, porém, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer em dia de sábado. Mas Jesus lhes disse: Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros tiveram fome?
Como entrou na Casa de Deus, e comeram os pães da proposição, os quais não lhes era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes?
Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo:
aqui está quem é maior (alguém que é mais) que o templo.
Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes.
Porque o Filho do Homem é senhor do sábado.
A situação é a seguinte: O Senhor Jesus atravessa com os seus discípulos as plantações de cereais
da Galiléia. Acompanham-nos fariseus de intenções hostis, observando-os. Portanto, a situação tinha
se agravado a tal ponto que nem no campo, entre colheitas que amadureciam,  Cristo e seus
seguidores estavam livres do controle de seus adversários.
Era sábado. Talvez, devido ao rápido retorno naquele dia, os discípulos não tiveram tempo de
tomar uma refeição em algum lugar. Estavam com fome. Por isso colhiam algumas espigas e
comiam-nas, debulhando-as nas mãos. – O direito civil em Israel referente à propriedade da terra
baseava-se na afirmação de Deus: “A terra é minha” (Lv 25.23). A pessoa proprietária era apenas
administradora, beneficiária. Por isso também o faminto podia usufruir moderadamente dos frutos.
Especialmente as margens de uma plantação de trigo eram reservadas para os pobres (Lv 19.9).
A lei do AT permitia, portanto, que quem passava podia comer algo do trigal ou da vinha.  Porém,
não se podia levar nada numa vasilha ou num saco para casa. Isso seria roubar (Dt 23.25s). A lei
divina não fixou com tanta rigidez nem enalteceu tanto o conceito de propriedade que não sobrasse
mais espaço para o amor.
A ação dos discípulos como tal, portanto, era lícita perante a lei e não era condenável. A
transgressão, porém, era que ela acontecia  no sábado. Pois arrancar espigas e debulhá-las significa,
de acordo com os fariseus, colher, moer, trabalhar! Constituía uma transgressão de uma das trinta e
nove regras gerais que compunham a  lei do sábado dos fariseus. A ação de “trabalhar” foi alegada,
pois, pelos fariseus hostis que seguiam o Senhor. Eles cumpriram muito bem o papel de “espiões”.
Que dizia, afinal, o mandamento do sábado do AT? Em Êx 31.14 diz: “Guardareis o sábado,
porque é santo para vós. […] Qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu
povo” (cf. Êx 31.15; 35.2; também Lv 23.30; Jr 17.27). Violação do sábado, portanto, dava pena de
morte. Veja Nm 15.32,36; Ne 13.15,16,17,18; Ez 20.15s; Jr 17.21s!
Com base nesses textos do AT os fariseus pareciam estar com a razão. Porque, segundo sua
opinião, arrancar espigas é “trabalho”. Quem trabalha viola o sábado e merece a morte por
apedrejamento. Será que, com essa interpretação, os fariseus tinham razão? Não! Pois em Êx 12.16
consta expressamente: “Nenhuma obra se fará nesse dia, exceto o que diz respeito ao comer.
Somente isso podereis fazer!” Aqui se afirma expressamente que a preparação de alimentos  no
sábado não constitui trabalho. Em que lugar da terra “matar a fome” poderia ser igual a “trabalhar”?
A razão singela e sóbria já rejeita isso de antemão! O exemplo de Davi evidencia que a fome dos
discípulos precisa ser levada a sério.
É sempre a mesma “triste cantiga” que ouvimos dos fariseus. A lei, que devia ser meio para o fim,
que devia ser orientação e direcionamento, aio até Cristo, tornou-se para os fariseus um fim em si
mesmo, para merecerem o céu através da minuciosa observância dela. Em lugar de caírem em si,
ocupam-se, cheios de ódio, do “pecado” do “trabalho de colher espigas” no sábado, caindo sobre o
Senhor com a acusação: Vê, os teus discípulos fazem o que não é permitido no sábado! Mas o
Senhor defende seus discípulos.
O exemplo de Davi, tomado de 1Sm 21, é muito apropriado. Segundo a tradição, também esse
acontecimento ocorreu no sábado! A atitude de Davi repousa sobre a idéia de que, em casos
excepcionais, quando um dever ético (nesse caso a preservação da vida de Davi) colide com uma lei
cerimonial, esta última precisa ceder. O erro do farisaísmo, portanto, era que o fim (o preparo de
alimentos) tornou-se refém do meio (santificação do sábado). Era dever do sumo sacerdote (naquele
exemplo do AT) preservar a vida de Davi, o legítimo representante da teocracia, e d e seus
companheiros, ainda que às custas de uma lei cerimonial. 
Nesse episódio da colheita de espigas, Jesus cita ainda outro exemplo de violação do sábado
segundo os fariseus, a saber, os serviços dos sacerdotes no templo em dia de sábado, quando ofertam
os holocaustos e realizam outros atos cultuais.
Para os sacerdotes no templo até se torna obrigação anular o sábado. Permanecem sem culpa
porque o templo é superior ao sábado. Por isso Jesus acrescenta a explicação (referindo -se a si
próprio): Aqui está alguém que supera até mesmo o templo, ou seja, alguém em cujo serviço pode
acontecer bem antes uma tal libertação da lei do sábado. Se os discípulos de fato tivessem quebrado o descanso do sábado, com isso não teriam cometido pecado, pois:
• O Filho do Homem (em cujo serviço se encontram) é senhor do sábado;
• Preparar comidas no sábado não é trabalho.

A segunda controvérsia do sábado, Mt 12.9-14
Mc 3.1-6; Lc 6.6-11

Tendo Jesus partido dali, entrou na sinagoga deles. Achava-se ali um homem que tinha uma das mãos ressequida; e eles, então, com o intuito de acusá-lo, perguntaram a Jesus: É lícito curar no sábado? Ao que lhes respondeu: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado, esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem. Então, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e ela ficou sã como a outra. Retirando-se, porém, os fariseus, conspiravam contra ele, sobre como lhe tirariam a vida.
Novamente é sábado. O Salvador encontra-se na sinagoga, onde vê um homem com uma mão
aleijada. Também os escribas e fariseus o vêem. O ser humano comum certamente sentirá pena desse pobre deficiente, e pensará: “Meu bom homem, graças a Deus está aqui o Salvador que já restaurou a tantos. Por meio dele Deus ajudará também a você.” Não é assim que pensam os fariseus. Seu coração foi sufocado sob a crosta dos preceitos e opiniões, dos “muros e cercas”, e morreu.
“Será que ele vai curar no sábado?” Era essa a única questão que os preocupava. Sempre o vêem
realizando curas. Mas curar é para eles realizar um trabalho igual a assar pão, beneficiar madeira e
construir casas.
Havia prescrições exatas para a cura de doentes no sábado. A escola mais rigorosa, a do rabino
Shammai, proibia até consolar doentes no sábado! Nesse dia apenas se podia curar e ajudar quando a
vida estivesse em perigo. Mas quando não havia risco de vida, ajudar um doente no sábado
significava profanar o sábado, o que era punido com morte por apedrejamento.
O doente na presente história não estava em perigo de vida! No dia seguinte ainda haveria ocasião
para ajudá-lo. Como os fariseus já tinham se mostrado co mo fiscais rigorosos no episódio anterior da colheita de espigas no sábado, seria prudência humana, neste momento, ter cautela, para não
provocar desnecessariamente a ira dos adversários.
O que faz Jesus? Intencionalmente, ele deixa o conflito evoluir para os extremos, provoca a
reação, ele quer a decisão; ele desafia os adversários, dizendo: Quem de vocês, tendo uma ovelha
que, num sábado, caísse numa cova, não a pegaria e arrastaria para fora? Quanto mais precioso,
porém, é um ser humano que uma ovelha! Os antagonistas se calam. Esse silêncio significa ou
falta de saída ou ódio do inimigo traiçoeiro. Talvez seja mais do que ódio, talvez já seja uma
obstinação que não aceita mais nenhum argumento e que conscientemente persiste  no ódio, na ira e
na mentira. “Jesus olhou-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração”, lemos em
Mc 3.5. Uma vez que para Jesus o alfa e ômega de seu agir é fazer o bem sempre, a qualquer tempo,
também no sábado, não importa que conseqüê ncias isso possa ter, ele diz ao homem: Estende a tua
mão! Para Jesus existe somente uma única questão: O bem tem de ser feito, imediatamente!
É isso que queremos aprender aqui com Jesus, com sua coragem sem transigências. Jesus nos
ensina a não capitular diante do mal em nenhuma circunstância, mas, sim, partir para o ataque com a
força do alto, com a ajuda da dýnamis e da enérgeia divina. Cristo nos mostra como se deve
introduzir no império de Satanás o reino de Deus, como a mão ressequida, atrofiada e mor ta precisa
ser transformada em uma mão viva, que restaura, traz ofertas, ora e luta. Quando se assume essa
atitude, acontece transformação, aparece a dýnamis de Deus e mostra-se o que é verdadeiramente a
comunidade de Jesus Cristo.
A conseqüência destas transformações, o efeito desse ataque do alto, porém, sempre é o ódio do
mundo. A última palavra dessa história é: E conspiravam contra ele, sobre como lhe tirariam a
vida.
Deliberar como poderiam tirar-lhe a vida, no entanto, não constituía para os fariseus uma
profanação do sábado. Como eram obcecados os inimigos de Jesus! Consideram Jesus, por ter
realizado um benefício no sábado, um  violador do sábado. Eles próprios, porém, não ponderam que
justamente eles profanam o sábado com seus pensamentos homicidas.  Pensamentos de morte e ódio
são equivalentes ao próprio assassinato (segundo Mt 5.21s).
Ou seja, “matar” alguém no sábado não é violação do sábado, enquanto curar uma pobre pessoa
doente é. Que cegueira terrível!
O fato de que encontramos Jesus regularmente nos sábados na sinagoga, no lugar em que se pode
ouvir a palavra de Deus e onde ele próprio pode explicar a Escritura, revela-nos o quanto Jesus preza o sábado. Como se deve usar o sábado ele mostrou curando a mão atrofiada da pessoa infeliz,
batendo de frente, sem se abalar, com a crescente conspiração contra ele.

Perseguido pelos inimigos, amado pelo Pai, Mt 12.15-21

Mas Jesus, sabendo disto, afastou-se dali. Muitos o seguiram, e a todos ele curou, advertindo-lhes, porém, que o não expusessem à publicidade, para se cumprir o que foi dito por intermédio do profeta Isaías: Eis aqui o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz. Farei repousar sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará juízo aos gentios. Não contenderá, nem gritará, nem alguém ouvirá nas praças a sua voz. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça vencedor o juízo. E, no seu nome, esperarão os gentios.
Observação preliminar
Exteriormente, Jesus se retrai. Até proíbe aos que cura que façam divulgação dos milagres de restauração. É admirável como o Senhor demonstra a prudência recomendada aos discípulos no cap. 10. Quando Jesus soube dos planos homicidas dos seus adversários, ele não os enfrentou apelando atrevido ao socorro de Deus, fazendo valer o direito de receber ajuda divina. Pelo contrário, retraiu -se. Sua hora ainda não tinha chegado.
No entanto, justamente ao se retirar, silenciando e ocultando-se, é que Jesus revela seu poder como
realizador de milagres e restaurador. Isso acontece numa proporção tal que Mateus é impelido a lembrar  Isaías
42.1-4, onde o profeta afirma que a obra do servo de Deus salvador se realiza no silêncio, sem alvoroço e sem apelações propagandísticas.
O Salvador, o Messias, não fará barulho, não brigará, não gritará nas ruas – por isso será chamado
de amado de Deus, o amado em que Deus teve prazer. Ele  não quebrará a cana dobrada, não
esmagará o pavio que ainda está ardendo. Mateus evoca, a partir da profecia de Isaías, não
somente que Jesus se retira para o silêncio por causa da inimizade dos líderes de Israel, mas também
que seu nome se torna famoso entre os povos gentios. Em parte, Mt cita com bastante liberdade essa
passagem de Isaías, mas no sentido correto. Talvez ele tenha se lembrado de Zc 12.10 e Hc 1.4: Jesus é realmente o “servo” escolhido por Deus, o seu “amado”! No texto original hebraico consta  único!
A LXX verteu o termo como amado. O Espírito de Deus que repousa sobre o servo de Iavé evide ncia-se no recolhimento e no recôndito. Não obstante, apesar de seu silêncio e recolhimento, ele levará o direito e a justiça de Deus a todos os povos. Fará triunfar em todo o mundo a justiça de Deus  – por meio de seu sofrimento e sua morte! No texto original grego lê-se: “Para que a justiça de Deus seja poderosamente conduzida para fora”.
O quadro maravilhoso do Salvador traçado por Mateus dará novas forças e consolo para a nossa
vida. Cabe-nos andar calmamente o caminho que Deus delineou para cada um, sem olhar para a
direita ou a esquerda, sem ter em mente alvos e desejos pessoais. Contudo, devemos andar nosso
caminho em direção do alvo, através de todos os obstáculos e dificuldades, unicamente
correspondendo de modo obediente à vontade do Pai, comedidos  e não obstante firmes e conscientes, humildes mas com passo seguro!

O ódio traz consigo as mais terríveis conseqüências, Mt 12.22-30
(Mc 3.22-30; Lc 11.14-23)

Então, lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; e ele o curou, passando o (cego e) mudo a falar e a ver. E toda a multidão se admirava e dizia: É este, porventura, o Filho de Davi? Mas os fariseus, ouvindo isto, murmuravam: Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto (acaba em ruínas), e toda cidade ou casa (família) dividida contra si mesma não subsistirá. Se Satanás expele a Satanás, dividido está contra si mesmo; como, pois, subsistirá o seu reino? E, se eu expulso demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. Ou como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa. Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.
O que foi profetizado ao menino Jesus cumpre-se nele como homem. Cada vez mais ele se torna
um sinal contra o qual se dirigem controvérsias. As queixas dos fariseus transformam-se na acusação ainda mais grave, de que ele está agindo por meio de Belzebu, incriminação essa que se levanta contra Jesus por motivo da cura. A mudez e cegueira no v. 22 não eram de natureza física, mas conseqüências de possessão.
Aí se levantam vozes no meio da multidão tomada de espanto, as quais formulam a pior das
acusações.
Os fariseus declaram: Existe um pacto entre Jesus e Satanás. Para conferir-lhe crédito, Satanás lhe
concedeu poder sobre seus súditos. (No que segue, aderimos aos pensamentos de Godet, no seu
comentário a Lucas.)
Dos evangelistas Mateus e Lucas parece que se pode deduzir que nos círculos farisaicos de fato se
havia concordado em tratar Jesus como endemoninhado. Por dizer a verdade àqueles que se
consideravam representantes privilegiados da verdade e da santidade e que pensavam possuir um
monopólio dos bens do reino de Deus, ele tinha de ser a mão direita de Satanás e da mentira. Estava
anunciado o veredito da hierarquia de Jerusalém sobre Jesus. Professores da Lei, vindos de Jerusalém e representantes do clima hostil do partido judeu na capital, aproveitaram o rumor surgido na Judéia e Peréia para levantar uma acusação pública. Aquelas pessoas de Jerusalém pensavam que Jesus expelia o diabo unicamente por intermédio de Belzebu, o maioral dos demônios. Essa acusação não é somente uma injúria proferida a esmo por causa da irritação com o impacto dos atos de Jesus sobre o povo, mas é um golpe desferido contra a raiz da ação restauradora de Jesus.
Para provar a falsidade da acusação levantada contra ele, Jesus apela primeiro ao bom senso. Seus
acusadores não tiveram a coragem de expressar sua idéia contra ele pessoalmente. Tinham-na
pronunciado somente entre si! Mas Jesus os desmascarou. Em Lucas, Jesus cita um exemplo, a saber, de um país em que há guerra civil e que é destruído pelas discórdias internas.  Mateus, no entanto, relata os exemplos da cidade, da casa e da família. – O reino de Satanás também está sujeito a essa lei. E não é admissível que Satanás queira provocar sua própria ruína.
Depois de expor a irracionalidade da acusação, Jesus demonstra que a afirmação tem origem
unicamente na maldade dos fariseus.
Do NT e por Josefo sabemos que, na época de Jesus, havia entre os judeus numerosos exorcistas
que faziam da expulsão de demônios, mediante pagamento, a sua profissão (cf. At 19.13: “alguns dos exorcistas itinerantes…”). Também o Talmude menciona esses exorcistas. São essas pessoas que Jesus designa com a expressão vossos filhos. Portanto, ele está dizendo: “Os seus próprios
compatriotas (carne e sangue de vocês), os quais vocês não pensam em renegar, mas de quem até se
gloriam, sobre as curas deles vocês não lançam suspeitas”. No futuro, no dia do juízo, eles
derrotarão os atuais acusadores de Jesus, porque comprovarão que os atuais acusadores são parciais
na classificação de fatos semelhantes (se bem que semelhantes somente pela aparência exterior).
Depois de explicitar o erro da incriminação de seus adversários por meio do apelo à bom senso e
com o exemplo dos exorcistas, Jesus passa a proferir a sentença conclusiva: Se a obra de Jesus não é
a de Satanás, ela é a obra de Deus. Disso resulta que Satanás está sofrendo uma derrota decisiva.
Jesus diz que ele realiza suas curas e expulsa os demônios pelo Espírito de Deus, i. é, sem todos esses artifícios e fórmulas mágicas usadas pelos exorcistas. Basta que ele levante o dedo – como Lucas (11.20) relata a respeito do Senhor: “Se, porém, expulso demônios pelo dedo de Deus…”  – e Satanás solta a sua vítima. A locução dedo de Deus é símbolo do senhorio incondicional e da supremacia sobre Satanás (cf. a expressão dos feiticeiros do faraó ao verem os milagres de Moisés: Êx 8.19).
Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus
sobre vós. Não é somente significativo que a parte inicial da frase provém de Êx 8.19, mas também
que através dela Jesus está afirmando que as suas restaurações superam em gênero e número todas
as curas dos exorcistas judaicos, assim como, segundo o testemunho dos feiticeiros egípcios, as suas
artes foram superadas pelos milagres de Moisés, evidenciando-se como tentativas débeis. Os
milagres de Jesus, assim como os atos de Moisés, apresentam-se como puras ações de Deus através
de seu servo fiel. Mais que outros atos de cura de Jesus, as expulsões de demônios se caracterizavam
melhor como tais, na  medida em que Jesus não usava nenhum outro meio a que se pudesse atribuir a causa da cura. Somente pela palavra de ordem Jesus expressava a sua vontade e a de Deus, sem que jamais tenha falhado e deixado de ter sucesso. Como, porém, é ao Espírito de Deus,  ou ao “dedo de Deus”, ou ao poder de Deus ativo por meio de Jesus (5.17; 6.19) e à vontade de Deus que se realiza
por intermédio de Jesus, que cedem todos os maus espíritos, indefesos e sem resistir, então “também
se deve concluir desse fato que o reino de Deus pregado por Jesus e seus discípulos chegou perto não somente dos ouvintes do Evangelho (Lc 10.9,11), mas dos contemporâneos  todos, e começou a ser uma realidade presente. Na palavra e ação de Jesus, Deus  começou, como nunca antes, a revelar-se como o único Senhor no mundo” (Zahn).
Nessas circunstâncias os fariseus têm de tomar cuidado. É um momento de decisão. O reino de
Satanás está implodindo porque chegou o reino de Deus. Até agora os adversários de Jesus pensavam
que o reino de Deus viria com pompa exterior. Mas chegou sem que os fariseus o suspeitassem. E o
que fazem eles? Lançam contra aquele que está trazendo esse reino a sua acusação blasfema. Por
meio de uma figura drástica, os v. 29 e 30 confirmam o pensamento expresso no v. 20. O patrimônio
de Satanás (os endemoninhados) está a partir de agora entregue ao saque (eles são curados). Disso
resulta que o próprio proprietário foi vencido por alguém que é mais forte do que ele. Do contrário
Satanás não se deixaria espoliar. A metáfora dos dois heróis, dos quais um amarra o outro antes de
roubar os utensílios dele, foi tirada de Is 49.24s. O profeta a aplica a Iavé, que arranca seu povo das
mãos do opressor gentio. Há uma impressionante majestade na descrição dos dois lutadores, e
desconhecemos outra palavra de Jesus em que ele tenha expressado de modo tão marcante o
sentimento que o animava acerca da grandeza de sua obra.
No v. 30, as expressões ajuntar e espalhar poderiam referir-se a uma colheita: juntar o cereal ou
espalhá-lo. No entanto, pelo co ntexto é melhor relacioná-las com um rebanho (Jo 10.13-16) ou com
um exército. Em vez de conduzir Israel de volta para Deus, ajudando assim no seu trabalho de
ajuntar, os exorcistas o expõem a influências nocivas que o afastam mais de Deus e o  conduzem ao
reino de Satanás.
“Todos os ouvintes do Senhor Jesus devem ponderar que, quem não for  aliado de Jesus, é ou
torna-se por causa disso seu inimigo, e quem não atua com ele reunindo, age justamente por isso
como quem dispersa.”
A primeira dessas frases presume que a obra de Jesus é uma luta contínua contra o mal. Essa luta
nenhuma pessoa contemporânea pode assistir sem tomar partido, qualificando -a de uma ou outra
maneira como se a luta não lhe dissesse respeito.
A segunda frase traz a idéia de que a tarefa da vida de Jesus consiste em reunir a sua comunidade.
“Quanto menores os escrúpulos dos inimigos obstinados que acusam Jesus e tentam impedir sua
obra, tanto mais insistente torna-se o desafio à multidão dos indecisos para que se coloquem ao lado
de Jesus  na sua luta contra todas as ações de Satanás e lutem e trabalhem com ele assim como com
seus discípulos, se não quiserem que Jesus os tenha de considerar como seus adversários.” 
A obcecação dos círculos de fariseus já se revelou, como vimos, do modo mais terrível.
Consideram como um endemoninhado, como um emissário do diabo aquele que Deus lhes enviou
como Messias, como Salvador, como o Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Perguntamos, abalados: Isso não é apavorante? Será que é realmente imaginável, possível? São
pessoas que viram como nenhuma outra criatura mortal de modo tão direto, tão absoluto, tão real e
factual a proximidade do Senhor Jesus, que olharam no seu rosto, que o fitaram olhos nos olhos,
ouviram seus discursos, discursos como nem antes nem depois dele qualquer ser humano proferiu.
São pessoas que presenciaram seus milagres, sim, até ressurreições, milagres que, com esse poder e
autoridade, jamais foram vistos de novo, nem antes nem depois dele. Como é possível que essas
pessoas chegassem a tal veredito sobre Jesus, a essa afirmação que beira a irracionalidade? Como é
possível?!
Após refletirmos longamente sobre a questão, há apenas uma  maneira de compreender o enigma.
Os fariseus não querem aceitar os pensamentos de Deus. E a graça sempre de novo rejeitada
transforma-se numa condenação à obcecação e obstinação.
O segundo aspecto que o trecho revela é a imensurável paciência de Jesus com os fariseus. Antes
de censurá-los e tratá-los com dureza, ele empenha -se em salvá-los, esclarecê-los, indo a debates e
refeições com eles. Também no presente episódio ele faz o máximo esforço para comprovar, com
modos calmos e objetivos, o aspecto irracional de suas afirmações.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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