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38 A parábola dos quatro tipos de solo ou do semeador, Mt 13.1-17


A parábola dos quatro tipos de solo ou do semeador, 13.1-17
(Mc 4.1-20; Lc 8.4-15)

1-9 Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar; e grandes multidões se reuniram perto dele, de modo que entrou num barco e se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia. E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram. Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça!
A parábola dos quatro tipos de solo é apresentada, além de Mateus, também por Marcos (4.1-20) e
Lucas (8.4-15). É Mateus quem traz a parábola com maiores detalhes, sobretudo em associação com
o AT (Dt 29.3 e Is 6.9,10). O v. 14 de Mateus refere-se ainda de modo especial ao cumprimento das
profecias de Isaías, ênfase pela qual se expressa, melhor que nos outros evangelhos, toda a seriedade
desse discurso de parábolas no evangelho de Mateus.
A parábola do semeador, bem como as demais parábolas do reino de Deus, foram proferidas por
Jesus no porto de Cafarnaum. Como ele morava em Cafarnaum, essa cidade ouviu e viu muito mais
atos e discursos de Jesus do que as outras cidades. Assim, também nesse aspecto se cumpriu a
profecia de Isaías (Is 9.1; Mt 4.12-17). Jesus havia prenunciado que justamente aos moradores
daquela região (a saber, Zebulom, Naftali, a Transjordânia e a Galiléia dos gentios, i. é, Cafarnaum e
arredores) a luz do Evangelho surgiria primeiro e de modo singularmente brilhante. Agora eles
estavam vendo essa luz nas “pregações do reino dos céus” que Jesus proferiu ali durante cerca de um ano. O Senhor hospedava-se na casa do discípulo Pedro e de sua sogra. Para lá retornava após suas caminhadas (Mt 8.14). Até mesmo chamava Cafarnaum de sua cidade (Mt 9.1).
Visto que na margem próxima ao porto se aglomerava naquela ocasião uma grande multidão de
pessoas que queria ouvir o Mestre, Jesus entrou num barco e assentou-se nele. Pediu que remassem o barco um pouco para dentro do lago, para que pudesse ver melhor os ouvintes e eles pudessem ouvi-lo melhor.
Os versículos 3b-8 formam a parábola do semeador proferida por Jesus. Já a primeira palavra,
“eis”, é significativa. É uma exclamação pela qual Jesus quer destacar a importância da mensagem
que seguirá, e motivar os ouvintes para uma atenção redobrada e uma reflexão especial. Essa palavra
ocorre 62 vezes em Mateus (cf. cap. 3, nota d sobre tradução).
A região adjacente fornece ao Senhor a imagem de quatro classes de pessoas que ele tem diante de
si na parábola. Partindo da margem do lago, o relevo torna-se bastante íngreme. Nesses penhascos
acontece com freqüência que a parte superior de uma lavoura possui somente uma fina camada de
solo, ao passo que ele se torna mais profundo quanto mais se desce para a planície. Daí as diferenças
apresentadas.
Poderíamos, agora, criticar o semeador por ter semeado com pouca destreza, porque tantos grãos
se perderam. É preciso saber que na Palestina se semeia  antes de lavrar. O semeador da parábola,
portanto, caminha pelo terreno não lavrado. Intencionalmente semeia sobre o caminho que os
moradores da aldeia pisaram no chão, porque o caminho será lavrado também. De propósito a
semente é lançada entre os espinhos, porque também eles serão tombados. Tampouco causa
estranheza que as sementes caiam sobre rochedos, pois a rocha ficará visível sob a fina crosta de terra somente depois que a lâmina do arado a arranhar. – Desse modo desfaz-se a crítica da inabilidade do semeador, porque o método de trabalho do oriental é diferente da do europeu.
Nessa parábola Jesus também afirma que até mesmo na terra boa a colheita é diferenciada. Lucas
indica apenas o maior grau de produtividade: cem por um. Mateus e Marcos mencionam também os
graus menores, Marcos em escala crescente, Mateus em escala decrescente. Na composição e
qualidade, o solo nem sempre é equivalente. Em alguns locais a base é boa, em outros menos. Por
isso o agricultor da nossa parábola obtém uma colheita parcialmente de cem por um, de sessenta por
um e de trinta por um. – No v. 8 Jesus encerra abruptamente a parábola com as palavras: Quem tem
ouvidos, ouça!
Com certeza todos que estavam à margem do lago tinham ouvidos e ouviram a parábola. Porém
essas palavras possuem um sentido mais profundo. Jesus lembra as pessoas de que se trata, agora, do
chamado “ouvido interior”. Sem ouvirmos interiormente, a parábola não nos dirá nada. Pelo
contrário, talvez venhamos a sorrir por causa dessa história simplória. Até poderemos nos irritar com o Senhor que nos expõe uma história tão insignificante. Talvez tenha sido de forma idêntica ou
semelhante que o povo de Cafarnaum pensou após ouvir a parábola.  – Jesus conhece a diferença
entre ouvintes com e sem “ouvido”.
Abençoada é a pessoa de quem o ouvido é aberto. Davi agradece ao Senhor porque os ouvidos lhe
foram abertos (Sl 40.6b). Em Is 50.5 o profeta confessa: “O Senhor me abriu os ouvidos”. Antes de
pregar as parábolas sobre o reino dos céus, Jesus queria preparar, pela sua atuação, o povo para abrir
o ouvido interior. É por isso que podia dizer no final da parábola: “Quem tem ouvidos, ouça!”

10 Então se aproximaram os discípulos e lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas?
Esta pergunta dos discípulos introduz uma passagem especialmente significativa. – Os discípulos
perguntam não somente por causa de si próprios, mas também por causa do povo.
Antes de respondermos à pergunta dos discípulos, temos de nos perguntar: O que é uma parábola?
Uma parábola descreve verdades e processos espirituais do reino de Deus por meio de figuras da
natureza ou da vida terrena. A parábola se distingue da figura simples e da comparação através da
sua forma. Ela concretiza uma idéia principal. Essa idéia central ainda p ode ser ilustrada com traços
secundários. Nesse caso os traços secundários não possuem importância própria. A exegese deve
restringir-se a buscar realçar a ou as idéias principais. – Nas grandes parábolas de Jesus é apresentada muitas vezes uma narração completa. Essa narração é designada de conto de parábola (do grego parabolé = justaposição). Todos os autores sinóticos trazem a palavra  parabolé (ao todo 44 vezes). – João usa o termo paroimía = provérbio, ditado, discurso  figurado (cf. Jo 10.6; 16.25,29).
Importante para nós é conhecer a diferença entre  parábola e alegoria (discurso com metáforas),
para não as confundirmos. Numa alegoria pura não se ilustra, como na parábola, uma idéia principal
por meio de uma narração, mas cada aspecto separado requer uma  interpretação. Uma alegoria pura
é uma construção extremamente bem arquitetada. Por outro lado, como já dissemos, pode acontecer
que uma parábola não queira iluminar apenas uma só idéia central, mas que contenha ainda outras
idéias básicas que requerem uma interpretação.
Existem, pois, parábolas com uma característica mais ou menos alegórica. Por isso uma parábola
genuína não é tão freqüente quanto se pensa. Isso também deve ser considerado em vista das
parábolas de Jesus neste cap. 13.
Após termos definido o que é uma parábola e o que é uma alegoria, ainda não sabemos por que
Jesus agora fala em parábolas. Qual é o sentido comum a estas sete parábolas de Jesus em Mt 13?
Os discípulos perguntam não sem razão, pois preocupam-se com o povo.
O que o povo deve fazer com a parábola de Jesus, se ele não a explica? Como as pessoas devem
entender as palavras, se antes precisam matutar sobre o sentido do que ele diz? Como chegarão,
então, à fé? Essa é, de fato, uma pergunta muito séria! Inclusive para hoje. De quem é  o problema, se as pessoas não se convertem a Cristo? É por causa da mensagem, da explicação, da pessoa do
pregador ou dos ouvintes? Talvez a pesquisa pelo sentido das parábolas nos possa dar uma resposta a todas essas indagações.
Vistas como um todo, as parábolas de Jesus são narradas de forma tão simples e clara que podem
ser entendidas até por uma criança. Não obstante, persiste a dificuldade de descobrir o seu sentido.
Existe ainda outra questão textual, a saber, se a palavra grega parabolé (v. 3 e 10), da qual
derivamos o termo “parábola”, de fato coincide inteiramente com o sentido do discurso de Jesus. Há
um termo correspondente hebraico, mashal, que talvez se aproxime mais do sentido do discurso de
parábolas de Jesus. Pois mashal significa “palavra enigmática”. Este mashal está ligado de modo
mais claro ao conteúdo da parábola, a saber, ao aspecto enigmático do mistério do “reino dos céus”,
do que a palavra parabolé, pois explica a pergunta dos discípulos,  por que o Senhor fala “mais
claramente” em parábolas. Portanto, em lugar de “parábola” seria mais acertado dizer “palavra
enigmática”

10-15 Então se aproximaram os discípulos e lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido. Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso, lhes falo por parábolas; porque, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías: Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.
Mais uma vez levantamos a questão já formulada acima: Por que o Senhor fala por palavras
enigmáticas?
No aspecto essencial, pode-se dar duas respostas a essa pergunta: Se a ênfase estiver na citação de
Isaías (6.9s: “Endureça o coração desse povo”), então o discurso de Jesus em forma de parábolas, ou
melhor, a “palavra enigmática” de sua proclamação me revela que começou o juízo sobre Israel. Se,
no entanto, considerarmos como acentuada a palavra mistério (v. 11), a palavra enigmática de sua
proclamação mostra que começaram o exame e a seleção daqueles que querem seguir seriamente a
Jesus e daqueles que não querem seguir ao Senhor.
Sobre a primeira resposta: É estarrecedor como a luta de Isaías para conquistar seu povo foi em
vão, como pela palavra da graça o povo foi impelido ainda mais para a condenação. É quase
inimaginável que o anúncio da graça desencadeia na pessoa justamente o efeito oposto quando, com
um coração indisposto para o arrependimento, ela vira as costas para Deus.
É impressionante como o Senhor se empenhou pessoalmente pelo seu povo. Como deve ter sido
doloroso para ele apontar aqui para o julgamento. Até mesmo a graça de Deus tem limites. Ela não
se desperdiça com pessoas que não querem saber nada dela. Do não querer saber decorre, depois, o
não poder!
As expressões de ter e não ter do v. 12 ilustram mais uma vez a grave seriedade de sua
advertência: Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que
tem lhe será tirado.
O objetivo é comunicar o seguinte: Deus não dá às pessoas uma posse permanente. Diante dele
não se fica estático: ou se tem abundância ou não se tem nada, num total vazio. Naturalmente é dada
a cada pessoa a oportunidade de receber a dádiva da palavra de Deus. Essa dádiva tem de tornar -se
propriedade. Cabe agora desenvolver a dádiva e atuar com ela. É algo que já sabemos da vida
terrena. Quando tenho uma área de terra, preciso cultivá-la para poder sustentar minha vida com os
frutos dela. No entanto, se não fizer nada, ela fica ociosa e não me traz fruto nenhum. Tanto mais isso vale para a graça de Deus, que vem a nós pela sua palavra e sua ação.  – Desse modo Israel recebeu muito, desde tempos remotos, pela palavra de Deus e, posteriormente, pela atuação de Jesus.
Contudo, não aceitou a “palavra de Deus”, que era Jesus e que foi trazida por ele, muito menos atuou com ela ou fê-la produzir. Por isso a palavra de Jesus se cumprirá assustadoramente: Ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.
Isso é julgamento! E como é sério: “Quem não permite que a palavra aja sobre ele com
abundância, esse será despojado até do que tem”.
Esse resultado, porém, como diz Riggenbach, não era “nem a primeira nem a última vontade de
Deus para Israel”, mas sim a deliberação de intervir com disciplina. Se o coração não se abriu ao
primeiro brilho da verdade, será ofuscado, em vez de iluminado, pelo brilho posterior dela. Esse
efeito é um julgamento. Visto que o faraó se negou, após as primeiras advertências, a se submeter,
ele foi julgado pelas palavras posteriores. Se não quer se converter, que pelo menos vai servir à
conversão de outros, através da evidente disciplina aplicada a ele. – Esta era a situação do povo judeu nos tempos de Isaías. Condição idêntica repete-se nesse momento crítico do ministério educativo de Jesus, ao qual chegamos agora no cap. 13: A nação de Israel repelia cada vez mais a luz que brilhava em Jesus. É por isso que essa luz se cobria com o véu da parábola, da palavra enigmática, que oculta a obra redentora, em vias de consumação, dos olhares dos indiferentes e impenitentes.
Quanto à segunda interpretação, determinada pela palavra “mistério” do reino dos céus: O
mistério consiste em que a palavra enigmática do anúncio de Jesus deve desencadear avaliação e
separação entre aqueles que querem se decidir seriamente a corresponder à vontade de Jesus ou não.
Em suas parábolas, Jesus não fala do evangelho em geral, e sim dos mistérios do reino dos céus,
isto é, da obra histórica de fundar, desenvolver e consumar o reino de Deus (Mt 13.11; Mc 4.11; Lc
8.10). Nos três relatos ficou preservada essa expressão, “mistério”. Acerca desse mistério divino dos
céus Jesus não podia instruir o povo com palavras comuns. Até mesmo seus discípulos, bem mais
adiantados, podiam ser introduzidos nele somente aos poucos. Não obstante, aproximava-se o fim da
obra de Jesus. Chegara o momento em que ele precisava preparar a inevitável seleção entre as almas
receptivas, que queriam entrar na nova ordem divina e colaborar com ela, e a massa que até então
permanecera não-receptiva e que caminhava em direção do juízo da impenitência, e não da salvação.
Essa seleção era o alvo da parábola, um objetivo que correspondia a toda a situação daquela época. 
Os corações receptivos, atraídos pelas figuras das parábolas, aproximavam-se de Jesus, a fim de
receberem dele explicações sobre o seu sentido. Dessa maneira ingres savam no círculo dos
discípulos. Os elementos convencidos e hostis, porém, aos quais faltava qualquer interesse  sério na
incipiente obra de Deus, afastavam-se após terem ouvido as parábolas, preparando desse modo o
juízo, como expusemos na primeira resposta.
Sob esse aspecto, as duas explicações apresentadas por nós para a razão de Jesus falar em
parábolas não estão em contradição, mas constituem uma relação de efeito, a saber: o que a primeira
explicação afirma (os discursos de parábolas significam juízo e obstinação) é conseqüência da
segunda explicação, de que as parábolas significam “separação”.
As parábolas revelam e ocultam a verdade da vida eterna, dependendo da situação do ouvinte –
assim como a coluna de nuvem, que para os egípcios trazia escuridão e para os israelitas iluminação
[Êx 10.23] (cf. sobre isso B. Weiss, Das Leben Jesu II, p. 27-30).
Todos os evangelistas reproduzem, na parábola do semeador, a afirmação de Jesus: Quem tem
ouvidos para ouvir, ouça! Nessa verdade da vida eterna, a palavra de juízo ainda tem a marca do
evangelho. Para aquele que tem ouvidos para ouvir, a escuridão do mistério poderá ser um impulso
para atentar para o discurso de Jesus em parábolas. Uma pessoa assim buscará resposta e
esclarecimento. E a resposta não deixará de ser dada, pois Deus não quer que pessoas se tornem
obstinadas e não se convertam. É ofensivo a Deus dizer que ele quer que pessoas endureçam o
coração e não sejam convertidas. “Deus quer que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao pleno
conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).
Entretanto, por ser esta a vontade de Deus, a pessoa precisa decidir-se a favor dela. E a vontade
dele é que as pessoas cheguem ao conhecimento da verdade. – Como, porém, se reconhece a
verdade? Ouvindo e praticando a verdade.

16,17 Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram.
Jesus continua falando aos seus discípulos, incluindo -os de modo singular no círculo das suas
palavras, mesmo que essas afirmações também sejam válidas para todas aquelas pessoas que ouviram o Messias e viram seus milagres. Obviamente Jesus não se refere apenas ao ver e ouvir naturais, mas ao ver interior e ao ouvir interior. Fala-se da vantagem especial dos discípulos, por serem escolhidos para conhecerem o “mistério” do reino de Deus. Seus discípulos receberam mais que todos os profetas e justos, termo pelo qual se designa os que foram verdadeiramente “fiéis”, que serviram a Deus à sua maneira. Os crentes da antiga aliança ansiaram pelo dia e pela hora e creram e viveram com base nessa esperança. Só que eles não experimentaram em vida a irrupção  do reino de Deus.
Por meio dessa bem-aventurança (v. 16), Jesus visa mostrar toda a grandeza da graça através do
privilégio dos discípulos. Ou seja, não é mérito deles, mas unicamente graça de Deus. Foi a graça que os vocacionou e escolheu. Da mesma forma Pedro não podia reconhecer o Messias a partir de si
próprio (Mt 16.13-20), mas pela graça de Deus. Por meio dessas palavras de Jesus soluciona-se
também o aparente conflito com Jo 20.29, onde Jesus declara bem-aventurados aqueles que não
vêem e apesar disso crêem. O sentido profundo está no fato de que é o Espírito de Deus que torna
possível a visão interior. – Mesmo que nas palavras das parábolas Jesus não tenha apontado para si
próprio, depreendemos que está sendo indicado para ele, Cristo, a quem os disc ípulos vêem. É por
isso que João pode falar repetidamente do  ver. Como, por exemplo, em Jo 1.14: “Vimos a sua glória”.
Milharem dos contemporâneos de Jesus também viram as suas palavras e ações – e mesmo assim não viram nada: porque não queriam ver nada!

A explicação da parábola do semeador,
ou: os quatro tipos de solo, Mt 13.18-23

18 – 23 Atendei vós, pois, à parábola do semeador. A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. O que foi semeado em solo rochoso, esse é o que ouve a palavra e a recebe logo, com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, sendo, antes, de pouca duração; em lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza. O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera. Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um.

A. A primeira explicação da parábola
Jesus denomina a parábola dos quatro tipos de solo também de “parábola do semeador”. Com isto
ele dá uma “dica” uma importante para a exegese, ou seja, de interpretarmos a parábola não a partir
do solo e, sim, do semeador.
Ocorre que o semeador nos serve de lição. No seu trabalho de semear, ele contabiliza muitos
insucessos. Três quartos da semente espalhada se perdem! As propriedad es do solo da Galiléia e a
singularidade de seu cultivo forçam o semeador a contar com o fato inevitável de que somente
poucas sementes encontrarão terra fértil. Contudo, o fato de que o semeador não permite que nenhum insucesso, por maior que seja, influe ncie de forma alguma sua dedicação e sua fidelidade no trabalho, torna-o grande para nós e o coloca como exemplo. O semeador não desanima nem se torna amargurado com o insucesso; ele não pensa nos numerosos impedimentos e adversidades que
esperam a semente que lançou. Ele conta com a colheita. Como pessoa sóbria e realista, ele sabe dos
perigos e das decepções. Não as menospreza. Os pássaros e o solo rochoso, os espinhos e o calor
darão trabalho às sementes que ele espalhou. O semeador não despreza os perigos, nem tampouco os
superestima. Não é nem pessimista nem otimista, mas realista. Não encara os impedimentos e as
dificuldades como mais importantes do que devem ser considerados. Ele não vê tudo negativo, mas
com toda a calma e fidelidade desempenha, dedicada e persistentemente, o seu dever.
Por outro lado, o sucesso também não o transtorna, a ponto de tornar-se vaidoso e orgulhoso. Em
nenhum sentido deixa-se arrastar por expectativas falsas. Não se abala com nada. O que constitui o
lema de todas as suas ações e faz dele um exemplo para nós, o que o define como verdadeiramente
“bom semeador”, é o propósito de cumprir fielmente a sua tarefa, com responsabilidade integral em
servir e disposição séria de dar o máximo de si.
Será Jesus o semeador? Ou, em outras palavras: É possível que Jesus se referia a si próprio
quando falava do semeador? Muitos intérpretes responderam a essa questão afirmativamente,
declarando que a parábola mostra “como Jesus pensava sobre o sucesso do seu trabalho, como ele se
consolava pelos esforços vãos, como se alegrava com o sucesso”.
Acreditamos que não é possível concordar com essa interpretação.
Pensamos que, nessa parábola, Jesus não explanou suas mágoas e suas alegrias diante dos
discípulos, ainda mais em forma de parábola. Isso ele fez em outra ocasião, sem falar por parábolas.
Temos em mente passagens como: “Naquela hora exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou:
Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos e
as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10.21). Ou: “Naquela
ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado
isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequenino s. Sim, Pai, foi assim que
dispuseste na tua benevolência” (Mt 1.25s).
Segundo o nosso entendimento, cremos que na parábola do semeador Jesus não pensou  em si, mas
em primeira linha nos discípulos, e nem somente nos doze, mas em todos aqueles que até hoje estão
seguindo ao Senhor. Pois o dever de anunciar o reino de Deus não é restrito unicamente aos doze,
nem é atribuição reservada ao ministério da pregação. Mas para cada um que veio até Jesus, vale o
chamado: “Vá e anuncia o reino de Deus!” O lugar é lá onde você está: na família, entre os parentes,
no círculo de colegas, na sua cidade. Cada cristão que crê é semeador, é pregador do evangelho, e
não somente pela palavra, mas primeiro pela ação, e depois pela palavra. Sim, no próprio Senhor
acontece primeiro a ação, e depois a palavra.
Veja At 1.1: “Escrevi o primeiro relato, querido Teófilo, acerca de tudo que Jesus fez e ensinou
desde o início…” Está sendo citada, pois, primeiro a ação de Jesus e depois a sua palavra.
Sim, o Novo Testamento até registra um anúncio da palavra sem palavras: Vós igualmente,
mulheres, sede submissas aos vossos maridos, para que, se houver alguns que se recusam a crer na
palavra, sejam conquistados, sem palavras, pelo procedimento de suas mulheres” (1Pe 3.1).
Ademais, aos olhos de Deus o “amor sem palavras” é mais precioso que “palavras sem amor”. 
Vida de fé genuína é vida de semeador, caracterizando-se por um constante compromisso. O
cristão sabe-se sempre devedor diante dos outros. Confira para isso palavras como a do sal e da luz
[Mt 5.14ss]. Paulo diz: “Sou devedor aos gregos como aos bárbaros, às pessoas cultas como às
ignorantes” (Rm 1.14).
No trabalho de semeador temos de tomar sempre como exemplo o bom semeador da parábola,
com sua persistência e fidelidade, seu esforço e seriedade, bem como sua permanente disposição de
se empenhar integralmente. Por nada podemos nos deixar desanimar. Mesmo quando a fidelidade e
disposição de servir, espírito de sacrifício e amor não encontram eco, mas so mente recebem
ingratidão e desprezo, e até rejeição, os seguidores de Cristo sabem com toda a certeza: “A sua
palavra não retornará vazia, mas concretizará aquilo para o que foi enviada” (cf. Is 55.11).
A isso se acrescenta: O discípulo de Jesus, do mesmo modo como o próprio Jesus, não é apenas
semeador, mas também – e isso deve ser acrescentado como interpretação – semente. Pois todo o que crê em Jesus deve ser não apenas anunciador da palavra no agir e no falar, mas profunda e
essencialmente também a própria palavra.
Sobre a explicação de que os discípulos devem ser eles próprios “palavra” de Deus, veremos
agora mais detalhes ao tratarmos da segunda interpretação da parábola.

B. A segunda explicação da parábola
A segunda explicação refere-se à palavra dos muitos tipos de solo. É esta que queremos estudar
agora.
Eram quatro os tipos de solo descritos na parábola. Esses quatro solos diferentes são exemplos de
quatro maneiras diferentes com que as pessoas recebem a palavra de Deus. A parábola dos diversos
solos não trata daqueles que nunca ouviram a palavra de Deus, mas daqueles que repetidas vezes
escutaram a pregação da palavra. Eles se assemelham ao solo endurecido pelas pisadas, ao solo
rochoso, à terra cheia de espinhos, e à terra fértil. A todos os quatro tipos de solo  foi dado em
abundância a semente da palavra de Deus.
Agora a parábola descreve como são as reações do coração humano à plenitude da palavra de
Deus. – Os ouvintes da palavra não são por natureza “caminho endurecido”, “chão pedregoso” ou
“solo cheio de ervas daninhas”. Eles tornam-se tais tipos de solo conforme se posicionam em relação à palavra de Deus. Dito de outra forma: Os quatro tipos de solo não significam que o coração é constituído de maneiras diferentes, e sim denotam atitudes diferentes diante da palavra de Deus.
Quanto ao primeiro tipo: Talvez alguém imagine que o caminho duro são aqueles aos quais a
pregação sequer consegue chegar. Nós, porém, somos da opinião de que os endurecidos, os de
ouvidos moucos e corações insensíveis são aqueles que a palavra de Deus não consegue atingir,
apesar de a terem ouvido incessantemente. Com ouvidos saudáveis, não ouvem. Onde podemos ver
isto? Em sua atitude em relação ao próximo. Sua atitude diante da p alavra de Deus será igual. Assim como me relaciono com o meu próximo, me posiciono diante da palavra de Deus: “Quem não ama seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (1Jo 4.20).  – Será que o outro
realmente pode achegar-se a mim, ou permaneço frio, fechado, rígido e orgulhoso diante dele? Tenho ressentimentos contra ele? Estou amargurado? Deixo -o simplesmente de lado? Existimos para nos ferirmos mutuamente ou para nos fazermos o bem? Para promovermos o próximo ou para impedi-lo?
Para sermos duros ou solícitos com o irmão? Para sermos sinais de orientação, ou obstáculos sobre os quais o outro tropeça? Para livrarmos do peso ou impor cargas? Dificultar ou aliviar a vida uns dos outros? – O que importa é como agimos! É assim que se mede como a pessoa ouve.
Quanto ao segundo tipo de solo: A figura é do chão rochoso. O Senhor diz na explicação:  A
palavra é acolhida com alegria! Também nós aceitamos a palavra com alegria, saímos
entusiasmados de uma pregação. Porém, tão logo chegam as tentações, adversidades e dificuldades
do cotidiano, acaba aquele entusiasmo pela palavra ouvida. Com isso, constatamos que o entusiasmo
não tem lugar na casa de Deus. A palavra de Deus não entusiasma. A palavra de Deus mata.  A
palavra de Deus é um martelo que pulveriza rochas (Jr 23.29). A palavra de Deus é uma espada de
dois gumes (Hb 4.12) – mas também é bálsamo de Gileade (Jr 8.22). Porém não causa entusiasmo!
O lugar do entusiasmo é a reunião do partido, onde devemos ser entusiasmados pelos programas
partidários. Quem é atingido pela palavra de Deus torna-se sóbrio. Todas as ilusões são postas de
lado, em particular as ilusões sobre si mesmo, sobre a própria capacidade e religiosidade. Também é
integralmente destruída a ilusão sobre o mundo e todos os seus programa s. A palavra de Deus me
torna sóbrio e diz que sem Cristo sou maldito. Aí acaba de vez qualquer entusiasmo. Aí existe
somente a submissão e prostração diante da majestade sagrada!
O entusiasmado é uma pessoa do momento. Seu entusiasmo não persiste. Quantas vezes basta
uma pequena coisa para que fique desanimado, indisposto, resmungão, amargurado, irritado. A força
de resistência de uma árvore contra ventos e tempestades corresponde à profundeza de suas raízes.
Nossa força para resistirmos às adversidades e injustiças depende de estarmos enraizados na palavra.
O modo como agimos no dia-a-dia, na situação concreta, constitui a medida para verificar se estamos enraizados na palavra ou se ouvimos de modo apenas superficial, se o coração é apenas solo rochoso.
A terceira variedade de solo é o chão cheio de espinhos e inço. Espinhos e ervas daninhas são as
dificuldades pessoais do caráter, as disposições hereditárias do temperamento, a predisposição para a ira, para a depressão, para o melindre, a inveja e o desâni mo. Pela manhã, em oração, nos entregamos firmemente na mão do Senhor para o dia todo. Contudo, muito em breve aquilo que falamos com Deus de manhã no silêncio fica encoberto pelas dificuldades e pelos afazeres do dia. E, quanto mais o dia progride, tanto mais nos afastamos de Deus e da sua palavra.
O peso do cotidiano esmaga e destrói a palavra de Deus em nossos corações, de modo que a
semente acaba sufocada.
Qual é a causa disso?
É que não fizemos o que qualquer jardineiro faria, a saber, exterminar o inço. É preciso arrancar,
com a força do alto, todas as ervas daninhas das nossas falhas de temperamento e deficiências, numa
luta de fé, colocando depois a palavra de Deus de tal maneira no nosso dia-a-dia que predominem
não mais as predisposições hereditárias mas a palavra de Deus, determinando o temperamento e o
caráter. O modo como agimos é que importa!
Quanto ao quarto tipo de solo: Jesus diz acerca da terra produtiva: “Bem-aventurados os que
ouvem e guardam e dão frutos” (Lc 11.28; Jo 15.2,6,16). Afirma-se, portanto, três coisas daqueles
que se igualam à boa terra: Ouvir corretamente é prestar atenção e obedecer; guardar significa levar
a palavra para dentro do cotidiano, deixar-se configurar por ela; dar frutos é “tornar-se pessoalmente
palavra de Deus”, ser uma carta de Cristo, escrita não com tinta, mas com o Espírito Santo (2Co 3.3).
Chegamos ao fim dessa segunda explicação da parábola do semeador. Destaca-se sua extrema
seriedade. Dentre os que ouviram a palavra de Deus, somente a quarta parte é bem-sucedida. Ou seja:
A linha divisória, da qual falamos no início, passa bem no meio dos ouvintes da palavra. A seriedade
da situação nos faz recordar a pergunta dos discípulos: “Sendo assim, quem pode ser salvo?” (Mt
19.25).
É precisamente essa a grande carência da comunidade de Jesus, ou seja, que é tão triste a
discrepância entre a pregação que se ouve e a pregação que resulta em ação, em outras palavras, entre ensino e vida, entre palavra e ação.

c. A terceira explicação da parábola
A terceira explicação da parábola é a interpretação evangelística, amplamente difundida. Constitui
um chamado para que acordem aqueles que ainda estão “do lado de fora”, o chamado de Deus às
pessoas de nossos arredores, cujos corações se assemelham aos quatro tipos de terra.
Quatro são os chãos da fé –
Amigo, e o seu, qual é?
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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