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01 Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus Mc 1.1

Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus Mc 1.1

Observações preliminares
1. “Princípio.” Muitos comentadores relacionam “princípio do evangelho” com a atuação do Batista, ou
seja, os próximos oito, no máximo, treze versículos. Para uma pessoa descomplicada, porém, esta frase inicial,
devido à sua forma e posição, abre o livro todo. Os escritores judeus costumavam dar início às suas obras com
uma frase curta e sem predicado. No NT podemos comparar o começo do evangelho de Marcos e o do
Apocalipse, e no AT os dos livros de Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Em nenhum destes casos a abertura é
condicionada aos poucos versículos seguintes.
Outros comentadores entendem “princípio” no sentido de “motivação para escrever” ou “fundamentos”.
Neste caso Marcos teria em mente o esquema de base e desenvolvimento. Seus leitores em Roma estavam
experimentando o desenvolvimento do evangelho, isto é, a missão no mundo todo, que Lucas, mais tarde, teve
como tema dos Atos dos Apóstolos. Diante disto, Marcos ter-se-ia proposto documentar as bases desta
mensagem, ou seja, os testemunhos da atuação terrena de Jesus na Palestina. Quanto ao conteúdo, isto deve
ser procedente. Certamente ele fora animado pela intenção, como Lucas mais tarde em seu primeiro livro, de
escrever “para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1.4, BJ). Contudo, será que foi
isto que Marcos expressou? Será que tudo isto está contido nesta fórmula inicial tão curta do livro?
Nossa interpretação oferecerá, acompanhando G. Arnold, um entendimento muito mais simples, que Pesch
(I, p 76) infelizmente rejeita sem motivo, evidentemente por ser tão simples.
2. Separação de frases. Às vezes nos defrontamos com dificuldades devido ao fato de os manuscritos
gregos antigos não usarem sinais. Sem nenhuma indicação, uma palavra seguia à outra, e os leitores estavam
entregues a si mesmos para separar as frases, p ex. Parte dos comentadores, então, coloca só uma vírgula
depois do nosso versículo, com base em que a fórmula de citação “conforme está escrito”, no versículo
seguinte, nunca dá início a uma frase nas 25 vezes em que é usada no NT, bem como na LXX, mas serve de
prova para a frase anterior. Isto, de fato, impressiona. De acordo com isto, o v. 2 esclarece o primeiro: o
princípio do evangelho aconteceu como Isaías disse, ou seja, com a entrada em cena de João. Mais uma vez
argumentamos que isto desfaz o caráter do primeiro versículo como abertura do livro. Certamente é verdade
que a fórmula de citação nos paralelos nunca dá início a uma frase, se bem que a conjunção “como” aparece
com freqüência nesta função (cf. Bl-Debr 453.2). Por isso não podemos excluir aqui uma exceção à regra (cf.
comentário). Mateus e Lucas perceberam o uso contrário à regra e o evitaram.
3. O acréscimo “Filho de Deus”. A maioria dos manuscritos, desde a época antiga até a Idade Média,
terminam o primeiro versículo com as palavras “Filho de Deus”. Mesmo assim, dificilmente estas palavras
faziam parte do texto original de Marcos. Esta é a conclusão dos pesquisadores Tischendorf, Nestle e Aland, dos comentadores Rienecker, Wohlenberg, Vielhauer, Schmithals, Haenchen, Schniewind, Schweizer, Pesch e
J. Slomp. As versões mais recentes em português (BJ, NVI, BLH) colocam uma nota de rodapé, indicando a dúvida. Como se chegou a conclusão?
O ponto de partida é o fato de que, no Códice Sinaítico ( ), o título de Filho de Deus originalmente faltava
neste lugar, tendo sido introduzido mais tarde. Ele também falta em alguns manuscritos medievais, bem como
em traduções antigas (siríaca, armênia e geórgia). Principalmente o modo como alguns Pais da Igreja citam
este versículo em seus artigos deixa entrever que tinham diante de si um texto sem “Filho de Deus” (p ex
Orígenes, Irineu, Epifânio e Jerônimo). Estes Pais estão acima de qualquer suspeita de terem omitido o título
por razões dogmáticas.
Como se explicam as duas variantes? Será que ocorreu um erro, em que um copista pulou o fim do
versículo e deixou o texto incompleto, que depois foi reconstituído? Isto é pouco plausível, já que a frase é
curta e forma a abertura do livro. É mais fácil concluir que Marcos escreveu a versão mais curta. Depois o
costume conhecido dos copistas, de ampliar em zelo santo os títulos ou frases iniciais de livros bíblicos (cf. qi
1) levou ao acréscimo. Para isto serviu ao escrevente a forma confessional conhecida do culto cristão: “Cristo,
Filho de Deus”. A idéia oposta, de que ele tenha cortado deste lugar visível a confissão solene, que é um tema
principal em Marcos e um assunto central na igreja antiga, até agora não pôde ser consubstanciada.

   1     Depois que um conferencista fez suas diversas observações preliminares, ele provavelmente ergue o
tom de voz e diz: Agora, mãos à obra, entremos no assunto! Este costume dos oradores também
adentrou a literatura. G. Arnold, em seu artigo de 1977, alistou numerosos exemplos da antigüidade,
de como os escritores destacam suas notas introdutórias explicitamente do seu texto principal,
falando a certa altura do “princípio” do seu assunto. Este princípio ocorre mais cedo se as notas
iniciais forem mais breves, e poderia estar já na primeira linha, como é o caso de Marcos. Em Oséias,
p ex, ele está no segundo versículo. Na LXX a frase está assim: “Princípio da palavra do Senhor para
Oséias”. Da mesma maneira podemos ler em muitos textos da Antigüidade sobre o começo de uma
“palavra”, de uma “narrativa”, um “livro” ou uma “história”.
Marcos também identifica com estilo literário seu princípio, que é o do “evangelho”, e deste
modo transfere conscientemente a tradição de Jesus, que até então era principalmente oral, para a
literatura. Ele lhe dá a forma de um livro. Um processo semelhante fora uns vinte anos antes o do
início do aconselhamento de igrejas na forma de cartas, que serviu para substituir a visita pessoal do
apóstolo (1Ts 2.17–3.6; 5.27).
Evangelho era, no século I, a expressão curta que a igreja usava para a mensagem missionária.
Nós a encontramos no NT em especial com Paulo (60 vezes, contra 16 outras passagens). Paulo,
porém, podia, como mostra a carta aos Romanos, pressupor que o termo era comum também na
capital distante, em uma igreja que não fora fundada nem formada por ele. A expressão, portanto, era
amplamente conhecida. O conteúdo do evangelho é Jesus Cristo. Em 1Co 15.3-5 Paulo o define de
modo ainda mais exato: O conteúdo do evangelho é a proclamação do Messias, que foi crucificado,
sepultado, ressuscitou e apareceu aos doze. Nisto Paulo pode evocar o consenso entre todos os
missionários (v. 11).
Percebe-se muito pouco que a mensagem de um Messias crucificado não poderia estar isolada no
início, pois nem judaísmo nem paganismo estavam preparados para um Messias assim. Não
passavam quinze minutos sem que o pregador tivesse de responder a perguntas e mais perguntas:
Quem era este que fora pendurado num tronco? De onde ele era? Por que morrera desse jeito? O que
ele fizera? O que ensinava? A isto respondiam os narradores que acompanhavam os missionários
cristãos (cf. qi 2f) com a tradição de Jesus. Davam informações tiradas do material de recordação
autorizado. A partir de 70, portanto depois de uma geração, o que havia de novo não era que a
tradição de Jesus acompanhava a proclamação de Cristo, mas que assumiu forma de livro.
É desnecessário dizer que a tradição de Jesus não trazia outro evangelho que os missionários.
Mesmo assim, não era automático que todo o material agora fosse chamado de “evangelho”. Lucas e
João, pelo menos, deixaram o substantivo totalmente de lado. O uso que Marcos fez dele, porém,
acabou se impondo (cf. qi 1, final).
Origem e história do termo “evangelho” são relatados em 1.14s. Aqui queremos chamar a atenção
para a sonoridade deste estrangeirismo cristão em nosso vocabulário. O tom e o brilho destas cinco
sílabas do grego são inimitáveis: eu - ang - ge - li - on! Um misto maravilhoso de tons cheios e
profundos, alegres e vibrantes, um repicar tempestuoso de sinos! Hoje usam-se várias traduções ou
paráfrases: boa nova, exclamação de júbilo, anúncio da vitória, mensagem de salvação, notícia de
alegria. Tudo gira em torno do prefixo eu-. Também existem mensagens de ameaça (dysangelion).
Em todo caso, aqui se trata do anúncio de uma explosão de júbilo, por trás da qual está um Deus de
alegria contagiosa. Ele tem tanta alegria que ela transborda, se derrama em escala mundial, sobre
toda a criação.
Vemos que Marcos, logo no primeiro versículo, disparou um tipo de foguete luminoso, que agora
paira sobre toda a sua obra, também sobre os capítulos da paixão e o pavor pascal de 16.8, e espalha
sobre tudo sua bela luz: evangelho!

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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