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02 João Batista anuncia aquele que vem, Mc 1.2-8

João Batista anuncia aquele que vem, Mc 1.2-8 
(Mt 3.1-12; Lc 3.1-18; Jo 1.19-28)

2-8 Conforme está escrito na profecia de Isaías: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho; voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredasapareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento 
 para a remissão de pecadosSaíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. As vestes de João eram feitas de pêlos de camelos; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias. Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

Em relação à tradução
   
a kathos é usado aqui para fundamentar: “como” (Bl-Debr 453.2)
   
b tribos indica um caminho muito usado, às vezes uma estrada militar; por isso não “trilha”.
   
c Como uma frase clara de comparação não está formulada, os v. 2-4 não devem ser traduzidos por
“assim como”. O esquema é o de fundamento e conseqüência: como está escrito, aconteceu.
   
d Este particípio não pode ser desfeito, como também em 6.14,24, mas deve ser traduzido como título.
Este título acabou se firmando como substantivo, “o Batista”, cf. 6.25; 8.28.
   
e eremos como no v. 12s, claramente derivado da citação no v. 3. Em outras passagens é eremos topos
(1.35; 1.45; 6.31,32,35) ou eremia (8.4).
   
f keryssein, de keryx, arauto: gritar alto, anunciar, proclamar.
   
g metanoein era uma palavra bastante rara no grego para mudança de intenção ou de opinião, mas no NT
substituiu vocábulos antigos como epistrephein, com o qual a LXX traduz o chamado profético à conversão
(schub). Por isso metanoein, no NT, deve ser traduzido como epistrephein, “dar meia-volta”, tendo em mente
o contexto comum do AT. A tradução “mudança de mente” é uma limitação intelectualizada do sentido.
Trata-se de mais do que só uma mudança de opinião; é um voltar-se por inteiro para Deus.
   
h eis aphesin pode referir-se aos efeitos do batismo: por ele recebemos perdão. Todavia, a preposição eis
pode estabelecer uma relação e apontar uma direção, como um longo dedo indicador. O batismo é “para
perdão, em vista da morte de Cristo, em seu nome”. Uma analogia pode ser Mc 14.8: unção “para (eis) a
sepultura”, não como efeito do sepultamento.
   
i homologein tem aqui seu sentido original: dizer a mesma coisa, concordar com a afirmação, no caso
confessar os pecados sob a força das provas apresentadas.
   
j Termo acrescentado corretamente. Peles de camelos teria ferido as prescrições judaicas de pureza.
   
l “Vir após mim” também pode ter um sentido mais pleno: ser meu seguidor, ter relação de discípulo
comigo. Aqui, porém, temos simplesmente uma indicação de tempo, pois Jesus, como muitos outros que
João batizou, em nenhum momento foi discípulo de João. Jo 1.30 enfatiza isto.
   
m O pronome pessoal está enfatizado no grego.
   
n O tempo passado, ligado ao v. 9, não permite concluir que Jesus tenha sido a última pessoa que João
batizou. A introdução “naqueles dias” no v. 9 deixa o tempo totalmente em aberto.
Observações preliminares

1. A missão de João. De acordo com 11.29-33, a autoridade de João tinha a mesma origem da de Jesus.
Ambos estavam cumprindo o livro da Consolação de Isaías. Todos os evangelistas colocam a entrada em cena
de João sob o prenúncio de Is 40.3: A notícia de alegria toma o lugar da notícia de ameaça. Isto é o que
importa no chamado ao arrependimento. Em João, assim como em todo o AT, ele faz parte da proclamação da salvação, e até o batismo de João põe a pessoa na expectativa da salvação (v. 8). João preparou o caminho para o arauto das boas notícias, mesmo que também o caminho para a cruz. Ele fez isto pregando e batizando
e, no fim, também com seu próprio sofrimento (1.14; 6.14-29; 9.12,13). Se esta conclusão é correta, então não
podemos concordar com uma opinião adotada também por Rienecker (Mateus, p 41): “Lá (com João), a Lei –
aqui (com Jesus), o evangelho; lá condenação, aqui graça”. Käsemann é ainda mais categórico (Haenchen, p
60): Com palavras e ações, Jesus estava em oposição a João! As diferenças reais entre os dois personagens
serão estudadas no v. 8.
2. O chamado ao arrependimento no judaísmo. Ondas de arrependimento costumavam varrer o judaísmo.
A comunidade de Damasco, p ex, um grupo essênio do século I a.C., usava o nome singelo e arrogante:
“Comunidade do arrependimento”. Também na literatura rabínica ecoa a frase: “Grande é o arrependimento!”
(Behm, ThWNT IV, 991s). O sentido era ter a intenção de seguir com exatidão os preceitos judaicos. Com
isso, porém, o arrependimento corria sempre o perigo de ser empurrado para a margem da vida e vinculado à idéia do mérito. A pessoa faz uma lista dos seus atos de obediência e espera a misericórdia de Deus em
resposta. “Se Israel se converter (à obediência rigorosa da Lei), ele será salvo”, isto é, virá o Messias (ibid
992). Israel pode produzir a vinda da salvação, convertendo-se. Esta conversão, porém, não era considerada
completa e única, trazendo realmente a paz. No livro dos Jubileus, do século II a.C., está escrito (v. 18): “Ele terá misericórdia de todos que se arrependerem dos seus pecados uma vez por ano”, ou seja, na festa anual da
expiação. Até a conversão diária era ensinada. Desta maneira as pessoas levavam por toda a vida o “jugo da conversão”.
João Batista declarou esta atitude arrependida de inútil e inválida, ao convocar todos os portadores do
“jugo da conversão” para o “batismo de arrependimento”. Salvação e conversão trocam de lugar. Seus
ouvintes não devem mais arrepender-se para que a salvação venha, mas porque ela já estava às portas, assim
como a gente não abre as venezianas para que o sol brilhe, mas porque ele já nasceu. A gente se converte de
tanta graça, não para tornar Deus gracioso. A conversão é resultado da conquista pela graça radiante de Deus.

3. O batismo de João. Já no AT a água ocupava um papel religioso destacado, com múltiplos usos. Os
fariseus ampliaram ainda mais a abrangência das abluções. As sinagogas eram construídas de preferência em
terrenos com água (At 16.13), e logo na entrada os visitantes eram recebidos por jarros de água para a
purificação ritual. Os essênios (cf. opr a 1.2-13), antes de cada almoço, tomavam um solene banho por
imersão; em Qumran este era o costume na admissão. Mesmo assim João saiu tanto do esquema, que ele, e só
ele, recebeu o epíteto “Batista”. De onde vinha seu uso tão incomum da água?
De início constatamos três elementos característicos. Primeiro, o batismo de João era limitado no tempo,
que ia do seu chamado até a vinda do Prometido. Depois disto João parou de batizar: “Eu vos tenho batizado”
(v. 8). Ele deveria somente preparar o caminho, não dar início a uma seita (cf. Jo 3.30). Em segundo lugar,
este batismo estava ligado à sua pessoa. Não foi em vão que ele tinha o nome de “Batista”. Jesus, Paulo e
Pedro tinham quem efetuasse os batismos por eles (Jo 4.2; 1Co 1.7; At 10.48), mas no caso de João o texto
acentua que as pessoas eram batizadas por ele (v. 5,8,9). Por último, parece também que este batismo estava
ligado ao Jordão. Apesar de ser tão breve, o relato menciona o rio duas vezes (v. 5,9). Talvez porque o Jordão
servia de fronteira entre a terra cultivada e o deserto, assim como o Mar de Juncos separava o Egito do
deserto. O batismo tinha relação com este rio fronteiriço, pois era ensinado que o antigo Israel fora “batizado”
no Mar de Juncos, e que o Israel do tempo messiânico haveria de passar novamente por este batismo (J.
Jeremias, Theologie, p 51; cf. 1Co 10.1,2). A pergunta dos judeus em Jo 1.25 pressupõe claramente esta
expectativa: “Por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?”
Neste contexto podemos compreender a situação única do Batista e sua atuação. João preparava o povo
para a revelação escatológica de Deus em um novo “Sinai”, chamando-o mais uma vez do “Egito” pelo “Mar
de Juncos”, ou seja, o batismo. Em vista disto, este batismo não se enquadra no simbolismo de purificação,
como os rituais judaicos, antes no simbolismo do sepultamento. Um sepultamento documenta um falecimento.
Assim o povo, com seu batismo no Jordão, testemunhava ter morrido para o velho ser rebelde e estar-se
abrindo para a salvação vindoura (perdão dos pecados e batismo do Espírito).
   
2,3     Antes de Marcos relatar o primeiro acontecimento, ele o fundamenta na palavra profética. O evento
de Cristo não equivale ao enigma de um bebê abandonado. Não corresponde a uma idéia esporádica
de Deus, nem ao prazer no absurdo, mas exala sua fidelidade para com Israel. Para Marcos este
embasamento na doutrina e na lógica da Escritura era imprescindível, assim como para os demais
escritores do NT, mesmo quando os leitores não eram judeus, como neste caso. Desfazer-se do AT e
deixá-lo fora por razões missionárias estava fora de cogitação. Aonde Jesus chegava, o AT vinha com
ele, pois quem não conhece o AT não pode conhecer a Jesus completamente. Somente no século II
Márcion desenvolveu outro programa: um Jesus abstrato, de preferência sem AT e judaísmo. Ele se
tornou um secreto Pai da Igreja para muitos teólogos, até hoje.
O trecho citado é da segunda parte do livro de Isaías, os cap 40–66, que despontam no AT como
uma cadeia de montanhas. Este Livro da Consolação isaiano tem ocupado de modo incomum tanto
judeus como cristãos. No presente parágrafo transparecem principalmente os seguintes trechos: Is
40.3 no v. 3; 44.3 no v. 8; 63.19b no v. 10 e 42.1 no v. 11, com vários pontos de contato com v. 14s.
É evidente que, para Marcos, serve de moldura especialmente o trecho em que o evento do Batista e
de Jesus se torna compreensível e recebe o devido destaque (cf. 10.45).
A citação da profecia de Isaías é apresentada por uma parte de Êx 23.20: Eis aí envio diante da
tua face o meu mensageiro, e outra parte de Ml 3.1: O qual preparará o teu caminho. Estas
combinações de palavras bíblicas são comuns no judaísmo (Bill. i, 96s; Steichele p 51, n 40). Desta
maneira, a palavra de Is 40.3 que segue recebe direção: Voz do que clama no deserto: Preparai o
caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. A mensagem de Isaías é, pela citação de Moisés,
dirigida ao Messias, e, pela ligação com Malaquias, uma indicação clara do tempo final. A mistura de
citações acaba interpretando o texto de Isaías: O “Senhor” é o Messias e o “caminho” é o do Messias.
Em vez de um caminho pelo deserto, como em Is 40.3, fala-se agora de alguém que chama no
deserto, não divino, como lá, mas humano. A profecia que, isoladamente, é só “em parte” (1Co 13.9),
aqui é engolfada pelo cumprimento.
O que uniu os três textos bíblicos foi o fato de falarem do “caminho”. Eles provinham de três
épocas difíceis, mas comparáveis para Israel. Com força maior surge o pensamento comum:
preparativos para a vinda de Deus para atender ao sofrimento do seu povo. O leitor da Antigüidade
logo sabia do que se tratava, ele conhecia visitas dos reis. As cidades orientais não tinham coleta de
lixo ordenada, de modo que geralmente grandes montes de detritos entulhavam os acessos aos
portões. Quando da visita do rei, tomavam-se todas as providências para que os carros da sua
comitiva pudessem entrar na cidade sem quebrar eixos em buracos ou tropeçar sobre imundícies.
Disto dependia em boa parte a generosidade do hóspede de alta posição.
Em primeiro plano está, naturalmente, o cativeiro babilônico de Israel. Os deportados estavam no
fundo do poço. Exasperados, tinham de submeter-se à sua sina. Mais de mil quilômetros de deserto
os separavam de Jerusalém. Então há uma mudança radical no coração de Deus. Em meio à
desesperança ouvem-se sons há muito não ouvidos, sussurros carinhosos como os de um apaixonado
à sua amada. A ameaça se torna consolo. Iavé quer restabelecer seu relacionamento com Israel, quer
ser novamente o seu Deus diante do mundo inteiro. Com mão poderosa, como no Egito de antanho,
ele quer tirá-los de Babilônia e trazê-los para a terra prometida, em um novo Êxodo. Atos milagrosos
abrem caminho pelo deserto. Os tempos antigos se repetem no tempo final.
Tudo isto é atualizado agora para a época dura, cruel e pobre de João. Ele mesmo é a “voz”, o
“mestre de obras da construção de estradas” espirituais. Obviamente, se a construção da estrada real
está em andamento, é porque a visita do rei é iminente. Por isso João, indiretamente, é mensageiro de
boas novas.
 
  4     Portanto, aconteceu aquilo que Isaías profetizara: apareceu João Batista no deserto, pregando
batismo de arrependimento para remissão de pecados. Será que foi mesmo para batizar que João
apareceu no deserto? Não seria melhor em uma região bem regada? Quando ouvimos a palavra
“deserto” pensamos logo em areia e aridez até onde os olhos alcançam. Em Lucas 15.4, porém, uma
pastagem também é chamada de “deserto”. Aqui também o v. 6 pressupõe plantas. Na Bíblia, deserto
é “uma terra em que não se semeia” (Jr 2.2), em contraste, portanto, com a terra cultivada, e onde
nômades levantam suas tendas e criam seus rebanhos. A parte sul do vale do Jordão e as regiões
próximas fazem parte deste cinturão de estepes que forma a transição para o deserto sem água,
chamado de “deserto” no AT e no NT e também pelo escritor judeu Josefo. Ele consiste em um terreno
calcário rochoso muito acidentado, com uma camada fina de húmus e vegetação esparsa.
Neste trecho, na verdade, a expressão “deserto” (veja a nota) tem um sentido mais que geográfico.
O deserto se diferencia da terra cultivada por ser pouco habitado, razão pela qual é considerado um
lugar de encontro intenso com Satanás (v. 12), mas também com Deus (v. 10s). Foi no deserto que o
povo de Deus nasceu. Foi ali que recebeu lei e aliança, presenciou os milagres de Deus e usufruiu da
sua direção. Por isso, em retrospectiva, a temporada no deserto foi, para Israel, o tempo ideal e o
lugar de todos os novos começos (Is 43.19; Jr 2.2; Os 2.16-25; Am 5.25), apesar de todos os terrores.
Por esta razão, os movimentos messiânicos de renovação começavam sempre de novo no deserto (Mt
24.26; At 21.38), para dali, como Josué outrora, penetrar vitoriosos na terra prometida. Não por
último era o texto citado de Is 40.3 o que incentivava a experimentar ali a revelação de Deus e a
conversão do povo.
João pregava, um termo que designa, diferente de “ensinar”, o revelar em público coisas até então
desconhecidas, objetivando sempre uma tomada de posição, no nosso caso o arrependimento (cf.
1.15; 6.12). Chama a atenção o conteúdo da pregação, que sublinha mais uma vez o título de João.
Ele pregava batismo de arrependimento; portanto, um batismo que desafiava à conversão total e
estava recheado de arrependimento. Conversão a quê? Isto depende sempre da medida da revelação
divina. No Jordão Deus se revelou a princípio pelo que preparava o caminho, chamando, mas ainda
não pelo “Senhor” do v. 3. Jesus ainda não tinha chegado, e a mensagem de alegria ainda não fora
anunciada (cf. v. 14s). Este “ainda não” também limitou a conversão daquela hora. Era uma
conversão à espera daquele que viria e do seu reino. Só por isso somos advertidos, como por Pesch
I,82, a não falar de um “papel mediador da salvação” do batismo de João.
O batismo acontece tendo em vista a remissão de pecados. Aqui temos de manter distância de
qualquer superficialidade. Por “pecados” não se entende aqui transgressões esporádicas de
mandamentos, nem se entende por “remissão” a purificação regular de pecados prevista pela lei
mosaica (cf. 2.7). Por causa do v. 3, temos de procurar a expressão e o fato no livro da Consolação de
Israel, p ex Is 40.2; 43.24,25; 44.22; 53.5s; 55.7, mas também nas outras profecias de salvação, p ex
33.24; Jr 31.34; Ez 16.63; 36.25ss; Os 14.25; Mq 7.18. O perdão neste sentido ainda não existia na
época da aliança antiga, e era uma questão futura.
O ponto de partida da palavra de perdão, portanto, era a aliança antiga rompida por Israel.
“Pecados” refere-se à seqüência de rompimentos da aliança e sua somatória, que conserva Israel sob
julgamento. A isto se referia a profecia de uma nova iniciativa de Deus, de instituir uma nova
aliança, melhor, no fim dos tempos (cf. Hb 8.6). Este novo alicerce que Deus queria colocar, por um
ato judicial, para Israel ser o povo de Deus, tinha o nome de “remissão dos pecados”. Este ato,
porém, não está na mesma linha de outros atos e dons de Deus, antes, é a ajuda central, sem a qual
tudo o mais perde seu valor. Ele é o cerne de toda ação salvadora.
Este tesouro de salvação, portanto, não é um “serviço de consertos” da aliança antiga. Não fora em
vão que João tinha tirado os judeus de Jerusalém e dos negócios do templo para o deserto,
direcionando-os para o batismo do Espírito e a nova criação. Contudo, ele foi enérgico em atribuir a
concretização disto àquele que viria depois dele. Seu batismo ainda não concedia o Espírito e,
portanto, também não o perdão escatológico dos pecados. Senão, os professores da lei certamente já
teriam levantado contra ele a acusação de blasfêmia de 2.7.
Depois deste esclarecimento, devemos voltar-nos expressamente para o sentido do batismo de
João. Com ele os batizandos estavam dando razão a Deus (Lc 7.49). Cheios de contrição, eles
rompiam publicamente com a antiga maneira de ser, com todas as suas artimanhas. Cheios de
esperança, eles aguardavam o Senhor vindouro e sua salvação. Candidatavam-se ao batismo do
Espírito prometido e, dali em diante, mantinham-se à disposição deste outro mais forte. É claro que,
se este anúncio do futuro iminente fosse falso, todos estes batismos na água também teriam sido um
salto no vazio. Por isso, a única coisa que João queria saber em Mt 11.3 era: “És tu aquele que estava
para vir?”
 
  5     O v. 5 resume o impacto tremendo. Saíam a ter com ele, como a uma voz de comando e como na
saída do Egito (o termo é o mesmo em Êx 13.4,8), toda a província da Judéia e todos os
habitantes de Jerusalém. O autor não está vendo tanto muitas ações individuais, quanto um êxodo
em massa operado por Deus. O judaísmo daquela época estava totalmente fragmentado. Havia, p ex,
os cobradores de impostos, que se garantiam na colaboração com os opressores romanos e
desfilavam pelas ruas alegres e atrevidos. Em contraste total com eles estavam os fariseus, fiéis à lei,
que recusavam toda comunhão com os pagãos. Um grupo fechado de umas 300 famílias da antiga
aristocracia sacerdotal, chamados de saduceus, tentavam, por meio de tramóias astutas com os
romanos, tirar o melhor da sua situação. Contra isso, os zelotes, os defensores da pátria, entraram na
clandestinidade, chamavam a atenção com assassinatos e sabotagens e aliciavam pessoas para a
revolta. E ainda nos lembramos dos moradores do deserto, os essênios, que queriam efetuar a vinda
da ajuda de Deus com rigor ascético. Este povo sofrido experimentou com João mais uma vez o
milagre da unanimidade.
O reformador Zwinglio achou que, já que todo o povo do interior e todos os moradores de
Jerusalém se deixaram batizar, isto incluiu as crianças pequenas. Assim ele tinha sua base no NT para
o batismo de crianças. Este exemplo mostra como se pode ferir um texto tomando-o ao pé da letra e
fechando os olhos para sua intenção. É óbvio que Marcos não quis dizer que não ficou vivalma no
país sem ser batizada. Em 9.13; 11.31 ele mostra que os teólogos se recusavam a crer e ser batizados
pelo Batista. O que importa aqui é a impressão geral. O poder persuasivo do Batista ainda ecoa em
11.17-33, e a agitação impressionante do povo foi testificada também pelo escritor judeu Josefo. De
acordo com ele, Herodes Antipas até temia um levante popular, de modo que se viu forçado a
intervir.
Com um segundo imperfeito ilustrativo nos é dito: e […] eram batizados por ele no rio Jordão.
Dá até para ver todas aquelas pessoas numa longa fila. Mas só era batizado quem o desejava. Em Lc
7.30 está registrado que os fariseus e intérpretes da lei “rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de
Deus, não tendo sido batizados”.
O tempo imperfeito é completado com um gerúndio bem expressivo: confessando os seus
pecados. É aqui que se concentra o peso de todo o versículo. Com a confissão caracterizando o
batismo, como no versículo anterior o arrependimento, fica mais uma vez evidente que o batizando
não recebia alguma coisa no batismo, mas fazia alguma coisa. Ele honrava a Deus com seu
reconhecimento (cf. Js 7.19), dava razão a Deus (Lc 7.29).
Eles não confessavam seus “pecadinhos” mas, como todo o contexto já mostra, sua rejeição de
Deus. Os cobradores de impostos entre eles o faziam sem sua indiferença habitual, os fariseus apesar
da sua religiosidade incansável, os essênios apesar do seu ascetismo cheio de privações, os zelotes
apesar do seu engajamento decidido por Deus, e os saduceus apesar da sua sensatez política. Sua
simples ida “ao deserto” já dá a entender que eles suspeitavam que todo o judaísmo que tinham
cultivado até então precisava ser perdoado para que pudessem ter parte na salvação, na lavagem
completa pelo Espírito Santo (v. 8).
 
 6     Inesperadamente se fala nesta altura de coisas exteriores. Mesmo assim, o versículo não é um
acréscimo desajeitado, mas se encaixa bem no contexto.
Acabamos de ler da conversão do povo, que, conforme Ml 3.1 (cf. v. 2), Elias deveria efetuar
quando voltasse (cf. 9.11-13). É isto que nosso versículo sublinha. João era Elias! Sua maneira de
vestir e seu estilo de vida o comprovam: As vestes de João eram feitas de pêlos de camelo; ele
trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. No Oriente o cinto é uma
peça de roupa importante e especialmente característico. Ele serve para levantar e amarrar as roupas
espaçosas, e também para prender armas e ferramentas, guardar dinheiro e até como sinal de posição
social. Pode ser feito de lã, linho ou couro, eventualmente bordado, trabalhado ou ornamentado.
Quando quiseram descrever Elias em 2Rs 1.7,8, falaram do seu “cinto de couro”. A lembrança do seu
manto também estava arraigada na tradição (1Rs 19.13; 2Rs 2.8,13s). É claro que o cinto de couro, a
roupa grosseira de pêlos de camelo e a alimentação com gafanhotos cozidos ou torrados e o mel
tirado de fendas nas rochas ou árvores ocas, serviam para caracterizar qualquer morador comum do
deserto (cf. Mt 11.8). Eram tudo coisas que se conseguia fora do mundo civilizado. O que chama a
atenção é a abstinência de carne e vinho. Tudo isto é mencionado aqui com destaque e aponta para a
simplicidade proverbial dos homens de Deus (Is 20.2; Zc 13.4; Mt 7.15; Hb 11.37). Naturalmente
nem todas as pessoas simples são profetas, mas provavelmente os profetas são pessoas simples, na
medida do possível independentes em sua vida exterior. Eles não precisam o que “a gente” precisa.
Afinal, o que pessoas envolvidas com o mundo teriam a dizer ao mundo?!
João, portanto, era profeta. “Todos consideravam a João como profeta” (11.32). Isto também
prepara sua próxima afirmação. Em comparação com o v. 4, agora se fala claramente do conteúdo do
que ele pregava, dizendo:
   
7     Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu. Quando um arauto proclamava numa praça
de mercado a visita de um rei, muitas vezes ele era recebido pela população com honrarias
exageradas, para, através dele, se conseguirem as boas graças do rei. Este arauto está em situação
semelhante. Com seu poder sobre o povo, ele constatou que era forte, um superprofeta venerado (cf.
Mt 11.9). Podia ele entregar-se às efusões do favor popular? Ele diz, de modo a deixar bem claro,
quem ele é e quem ele não é. Ele não é a luz, não é o Messias. Ele não prepara o caminho para si
mesmo, mas para o mais forte.
Este mais forte ele apresenta de modo anônimo: Vem alguém (cf. Mt 11.3; Mc 11.9). O termo está
carregado de reverência. Qualquer título messiânico tradicional é muito limitado para ele. Mesmo
assim, este anúncio era bem claro para a expectativa judaica. “Vem um” diz em Dn 7.13 sobre o
Filho do Homem. Este Filho do Homem também vem, de acordo com 9.11-13 (mais claramente
ainda em Mt 11.18s), depois que Elias tiver feito seu trabalho. Porém sua majestade é tão grande que
ninguém além dele mesmo pode defini-lo como Filho do Homem. Por isso nos evangelhos só o
próprio Jesus fala do Filho do Homem (cf. Neugebauer, p 40s).
Usando uma figura do sistema escolar judaico, João se anula totalmente diante daquele que vem.
Um aluno judeu era obrigado a prestar serviços diversos ao seu rabino, “exceto desatar-lhe as
correias das sandálias” (Bill, I.121) quando este entrava na casa. Isto era algo que não se podia pedir
nem a um escravo judeu. Agora João declara: Até este serviço mais baixo de um escravo, que só um
escravo pagão faria, ainda é digno demais para mim quando o Senhor vier.
Em 3.27 a grande força daquele que vem aparece em outro contexto. “Um mais valente” (Lc
11.22) entra na casa do “valente” e a saqueia. Assim Jesus arranca de Satanás a humanidade levada
para o cativeiro do pecado e da culpa. Sua obra será uma libertação poderosa de cativos (cf. Is
49.25).
   
8     A comparação continua. “Eu” e “ele” são diferenciados claramente. Porém agora João deixa de falar
em figuras e diz objetivamente o que os une e o que os diferencia: Eu vos tenho batizado com
água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo. O que o une com Jesus é que ambos batizam,
e que suas ações estão em seqüência lógica. O batismo de João prepara o batismo daquele que vem, e
o batismo deste confirma o batismo de João. Depois, porém, precisa ser mencionada uma diferença
gigantesca, pela qual aquele que vem mostra ser incomparavelmente mais forte. Esta consiste no
meio do batismo: um batiza na água do Jordão, o outro com “água pura”, ou seja, o Espírito Santo
(Ez 36.25). A frase deixa bem claro que João em nenhuma hipótese se arroga ou permite que lhe
atribuam que ele batize com o Espírito Santo. Sua negativa é explícita: Eu não! e está registrada seis
vezes no NT: Mt 3.11; Mc 1.8, Lc 3.16; Jo 1.33; At 1.5; 11.16. Isto é um alerta para toda doutrina de
batismo. Batismo na água e cessão do Espírito são mantidos cuidadosamente à parte.
Não nos deve surpreender que a promessa do Espírito é feita aqui, pois ela faz parte natural do
tema do deserto. É da seca e da sede que os profetas recebem o Espírito do alto (Is 44.3, 32.15). Do
Espírito é que o povo de Israel, ansiando por Deus nos tempos do fim, esperava nova direção,
provisão, libertação e salvação (Is 63.10-17). Com este anseio o povo acampou agora no deserto, mas
João só os batizou com água, os grandes milagres ficaram faltando (Jo 5.36; 10.41). Ele “tinha só a
água para cozinhar”, poderíamos dizer, só que ele sabia disso e o dizia francamente. Ele declarou
nula a obra de sua vida, se não tivesse a continuação pelo que batiza com o Espírito. Com certeza ele
deve ter ficado chocado ao ouvir Jesus, quando finalmente chegou, pedir para ser batizado (Mt 3.14).
Quando a profecia do Batista se cumpriu? Os primeiros cristãos tinham certeza de que isto só
aconteceu depois da exaltação do Senhor. Em Pentecostes é que nasceu o Israel do tempo do fim, no
qual até hoje são enxertados membros novos. Em Jerusalém o Senhor começou a derramar o seu
Espírito, e desde então ele continua a derramá-lo; em Samaria, Cesaréia, Éfeso e assim por diante. O
Israel restaurado é rico em milagres e dons e é a verdadeira testemunha de Deus no mundo. Com isto,
porém, ainda não mencionamos uma parte essencial do cumprimento, que para os evangelistas têm a
mesma importância. É verdade que os discípulos foram enchidos com o Espírito só em Pentecostes,
mas seu Senhor, durante sua vida terrena, já lhes foi um modelo de como é ser cheio do Espírito e de
Deus. Tendo o Espírito sem medida (Mt 12.18; Jo 3.34), ele irradiava autoridade em palavras e
ações, que apontavam para a presença do governo de Deus (Lc 11.20). “Espírito” é outra palavra para
“Deus em ação”. Das ações de Deus, a maior foi a paixão de Jesus Cristo. Nas histórias da
crucificação nos evangelhos o termo “Espírito Santo” é omitido como em nenhum outro lugar, mas
devemos ver que Jesus é o verdadeiro portador do Espírito. É exatamente esta cruz que serve de
modelo para uma vida de Deus e para Deus. Mais tarde é dito mais uma vez, de modo misterioso,
que Espírito e sangue andam juntos (1Jo 5.7), e que Cristo se ofereceu em sacrifício a Deus “pelo
Espírito eterno” (Hb 9.14).
Agora também é possível descrever o progresso de João para Jesus de modo concatenado. Com
João, o reinado de Deus, de certo modo vindo do deserto, tinha chegado às margens das regiões
habitadas da Judéia. Ali ele desceu sobre Jesus, quando ele estava no meio do Jordão, e com ele
passou para a outra margem, para avançar com ele para dentro do país e penetrar assim na carne do
mundo. Com Jesus, o reino procurou as pessoas onde quer que estivessem. Não deixou de lado
nenhum lugar, nenhum grupo e nenhuma hora, até a morte de Jesus e sua ressurreição.
A mensagem dos dois homens estava no contexto do livro da Consolação de Isaías (v. 4,8,14s).
Por isso Jesus falou do reino de Deus, de fé, salvação e julgamento, fundamentalmente nos mesmos
termos como seu precursor. Sua mensagem, no entanto, era mais rica, insistente e urgente. De um
esboço pálido, mesmo que exato, resultou um quadro a óleo com cores brilhantes. Com João
predominava o jejum, com Jesus a alegria do casamento (2.18-22). João trouxe água, Jesus deu vinho
(Jo 2.1-12; 15.1-8) e revelou o “Pai” (Lc 11.2). Coerentemente, João converteu as pessoas de si para
Jesus. Com um indicador bem longo, ele apontou para Jesus e mandou todos irem atrás dele. Jesus
não os mandou adiante. Quem estava com Jesus, estava com o Pai. A conversão encontra descanso
na ligação pessoal em Jesus.
Não queremos perder nada do que este parágrafo trouxe, dizendo, como se fôssemos vesgos: estas
limitações podem ter-se aplicado a João e seu batismo, mas não para nós cristãos. Nós cristãos
incluímos o batismo com o Espírito no batismo com água. Neste caso não entendemos o lugar que
este texto nos atribui. Não nos cabe substituir o Senhor Jesus Cristo, mas preparar-lhe o caminho e
depois sair da frente. Ele mesmo virá e batizará com o Espírito Santo.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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