Pessoas que gostam deste blog

03 A autenticação de Jesus pela voz do céu depois do batismo, Mc 1.9-11

A autenticação de Jesus pela voz do céu depois do batismo, Mc 1.9-11
(Mt 3.13-17; Lc 3.21,22; Jo 1.29-34)

9-11 Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galiléia e por João foi batizado no rio Jordão. Logo  ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito descendo como pomba sobre eleEntão, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo.

Em relação à tradução
   a
     As expressões “aconteceu” (RC, BJ) e “naqueles dias” facilmente se identificam como tradução de um
texto hebraico (Beyer, 31s,66) e são comuns no AT para iniciar parágrafos.
   b
     Esta pequena aldeia não é mencionada no AT nem em escritos judaicos, e aparece aqui pela primeira
vez na literatura.
   c
     euthys é um advérbio de tempo comum, e é usado em todos os evangelhos com o sentido de um
transcorrer rápido de acontecimentos. Em Marcos esta explicação geralmente não se aplica. Parece tratar-se
de uma característica de estilo de certos textos que lhe serviram de base (cf. qi 3). Tabachowitz (p 29ss)
mostrou ser possível que esta palavrinha seja uma imitação do “eis” que exige atenção, que conhecemos de
numerosas passagens do AT (mais de mil vezes). Como recurso para chamar a atenção, ele indica mudanças
na narrativa, o começo do que é essencial, possivelmente a interferência de Deus ou também de Satanás. De
qualquer modo, ele sempre aumenta a expectativa. Com “pressa e agitação” o termo, neste caso, não tem
nada a ver (Egger, p 40). Se o advérbio em Marcos tem o sentido comum ou este caráter de exclamação,
deve ser verificado cada vez pelo contexto.
   d
     O plural indica fundo lingüístico do AT; é uma maneira de se referir a Deus (Bl-Debr 141.4).
   
e
     Quando os judeus se referiam ao Espírito divino, geralmente falavam do “Espírito de Deus” ou do
“Espírito Santo”. “Espírito” sem adjetivo os fazia pensar num fantasma (cf. Lc 24.37). No espaço cultural
grego este perigo não existia, de modo que aqui o uso (diferente do v. 8) dá a entender que este relato já foi
adaptado por igrejas gentias.
   
f
     hos, como, freqüente em descrições de visões na Bíblia. Expressa algo aproximadamente comparável,
não algo igual. Ao mesmo tempo revela e encobre, deixando em aberto.
   
g
     eis auton poderia ser traduzido por “para dentro dele”, mas isto não combina aqui. Um pássaro não voa
para dentro de uma pessoa, mas pode pousar sobre sua cabeça ou seu ombro. Assim, Jo 1.23 tem ep auton,
sobre ele.
   
h
     Há duas alternativas para o aoristo eudokesa. Ou ele expressa uma ação, como aoristo histórico, que
ocorreu depois do batismo: “Tu me deste (neste momento) alegria!”, ou deve ser entendido no sentido do
presente perfeito hebr, que a LXX muitas vezes traduz com aoristo sentencioso (Steichele, p 150s; Bl-Debr
333). Neste caso, a voz por ocasião do batismo constata o que Jesus já possui: “Em ti me comprazo!”
Observações preliminares
1. Filhos de Deus no contexto da época. Em cortes reais do Oriente antigo, “Filho de Deus” era um título
do rei, em que se imaginava uma descendência física de uma divindade. Ao judaísmo, a simples idéia causava
tanta repugnância que ali ela não se propagou. Apesar de Sl 2.7 e 2Sm 7.14, o título de Filho de Deus não se
popularizou como nome messiânico honorífico. Os gregos, por sua vez, eram pródigos em chamar de “divina”
qualquer pessoa que se destacasse em termos de talentos e realizações: poetas, estudiosos, políticos,
esportistas, médicos ou milagreiros. A distância de Marcos é bastante evidente. Exatamente na metade do
livro, que é cheia de milagres, em que Jesus provoca admiração com seus atos de poder, ninguém o chama de
“Filho de Deus”. Em contraste, a metade sem milagres alcança seu ápice com o comandante confessando que
Jesus é o Filho de Deus (15.39). Isto acontece, portanto, no próprio momento em que as mãos milagrosas estão
pregadas, o operador de milagres não desce da cruz e sua debilidade é ridicularizada. O conceito de Filho de
Deus é diametralmente oposto ao dos gregos. Seu ponto de apoio, pelo menos, está no AT.
2. O pano de fundo do AT para o v. 11. Desde o século I, os leitores cristãos pesquisaram por textos de
prova do AT. Isto se percebe nas inúmeras variantes em que o versículo aparece nos evangelhos. Sl 2.7 e Is
42.1 são a fonte mais provável. Até hoje existe uma interpretação que se fixa quase só no Salmo (p ex
Schweizer, ThWNT VIII, p 369; Steichele, p 121s), e outra que parte só de Is 43 (Jeremias, ThWNT V, p 699;
Cullmann, p 65s; C. R. Kazmierski enfatiza unilateralmente Gn 22.2 [em: ThLZ 1981, p 337]). Para mim, o
caminho mais natural parece ser pensar em uma citação mista, como em v. 2s.
     9     Naqueles dias… Esta introdução solene no antigo grego bíblico por si já anuncia um acontecimento
santo. O Senhor (v. 3), o superpoderoso (v. 7), “vem”, o que batiza com o Espírito (v. 8) se
manifesta. E como!
…veio Jesus de Nazaré da Galiléia. Sua origem é o primeiro choque. Ele não veio nem da região
central do judaísmo, a Judéia, menos ainda da cidade santa com seu templo, nem se cogita a
proveniência de João no v. 4. Ele veio de um povoado afastado, Nazaré, que só podia ser encontrado
com ajuda: da Galiléia (cf. v. 14). “Examina e verás que da Galiléia não se levanta profeta!” (Jo
7.52). Em segundo lugar, sem um indício sequer de título importante, fala-se simplesmente de
“Jesus”. Naquela época este era um nome comum da moda. Nos povoados judeus havia “Jesuses” às
dúzias. Faltam as indicações sobre família, profissão e antecedentes.
Será que Jesus era uma pessoa qualquer, que seguia em meio ao rio de peregrinos para o batismo,
sem suspeitar de nada, e voltou para casa surpreendido pela escolha divina como Messias e Filho de
Deus? Será que ele veio com seu espírito vazio, e retornou cheio do Espírito? Esta interpretação de
forma alguma corresponde aos acontecimentos e à opinião de Marcos, já que seu relato do batismo é
prefaciado por dois sinais. O primeiro Marcos dá já no v. 1, onde o nome comum “Jesus” foi
moldado numa unidade tal com o título de honra “Cristo” (isto é, ungido com o Espírito), que este
soa junto com cada menção de “Jesus”. Nenhuma história de Jesus teria sido transmitida sem este
sentido. Não se pode imaginar nenhum momento na vida deste Jesus que ele não vivesse oculta ou
abertamente no Espírito Santo. O segundo sinal é dado com a apresentação do que batiza com o
Espírito, prometido nos v. 7s, como a introdução solene já deixou transparecer. Ele veio porque era
este que batiza com o Espírito. Sua “vinda” já o expressou. Nossa história, portanto, não quer contar
como Jesus se tornou portador do Espírito, mas que ele, vindo de Nazaré, o era. Ele não assumiu sua
tarefa somente depois do batismo, mas já com o batismo.
É claro que em tudo isto há mistérios. O cumprimento se deu em meio à dissimulação – uma linha
que perpassa todo o evangelho de Marcos. Aqui ela logo é levada ao extremo. Está tudo de cabeça
para baixo: João precisava mais do batismo do Espírito de Jesus, mas Jesus solicitou o batismo de
água de João. O portador do Espírito está na fila entre os candidatos ao batismo carentes de
conversão. Em vez de “ele vos batizará” do v. 8, lemos: por João foi batizado no rio Jordão. Aqui
já poderia ter sido feita a pergunta de Mt 11.3: “És tu aquele que estava para vir?”
Apesar de tudo isto, Marcos está relatando com toda a seriedade o cumprimento divino.
Aconteceram coisas as mais significativas. Só que, com que lógica? Os dois próximos versículos irão
esclarecê-las, de maneira que no fim voltaremos à pergunta pelo sentido do batismo de Jesus por
João.
     10     Logo, continua Marcos elevando a voz, para chegar ao principal. A frase sobre o batismo de Jesus
foi só introdução. No fim da ação, ao sair da água, Jesus teve uma visão. Só em Marcos temos esta
equiparação expressa do ato de Jesus “subir” da água e da voz “descer” do céu. Em Lucas a voz fala
com Jesus quando ele ora (Lc 3.21). Nos dois relatos, portanto, a voz é uma resposta. Ela se segue à
confissão batismal de Jesus, de modo que o batismo e a voz do céu fazem parte de um diálogo. A
confissão do Filho ao Pai é ratificada pela confissão do Pai ao Filho.
O primeiro receptor desta autenticação divina é o próprio escolhido, mas ela se irradia sobre a
comunidade dos salvos. Este é o crédito da descrição dos outros evangelistas, de acordo com os quais
o Batista e o povo em redor ouvem a voz. Em Marcos não se olha mais para João. O seu papel é
totalmente secundário depois que Jesus chega, bem no sentido do v. 7.
O som da voz, porém, é introduzido por uma evento aterrorizante. Jesus viu os céus rasgarem-se.
O verbo é o mesmo de 15.38, com certeza com o mesmo sentido, e nas duas vezes seguido de uma
confissão de que Jesus é o Filho de Deus. Nesta passagem, porém, temos de remeter ao AT. O céu se
abrindo vinculado à revelação do Espírito lembra muito o grito de angústia de Is 64.1 (cf. v. 11,14).
Este brota da indizível aridez espiritual de Israel. O povo de Deus não tinha mais Deus com ele e
estava entregue ao seu próprio legalismo. Céu e terra tinham se fechado um para o outro e os abismos
estavam escancarados. Em meio a este desespero só restava um ponto de apoio firme: “Mas agora, ó
Senhor, tu és o nosso Pai” (Is 64.8). Só disto o povo humilhado ainda tira esperança. Deus é quem
precisa derrubar o bloqueio, rasgar os céus e derramar sua força e suas dádivas sobre a terra. Este
evento cósmico é ligado aqui com o batismo terreno de Jesus. Sobre este Jesus Deus rompe seu
silêncio e intervém com seu domínio salvador.
Do céu aberto, Jesus viu o Espírito descendo como pomba sobre ele. Precisamos ouvir isto com
ouvidos judeus. Com poucas exceções, predominava no judaísmo a convicção de que em Israel,
depois da história com o bezerro de ouro, só alguns escolhidos tinham o Espírito, e que este se
apagara de todo depois de Malaquias (Jeremias, ThWNT VI, p 373-387; Theologie, p 81ss). Um
tempo sem o Espírito, porém, é um tempo de julgamento. Este tempo está terminando agora. No
momento em que ressoa a voz do céu aberto, irrompe a salvação. Uma pomba dá o sinal, como ao
término do julgamento do dilúvio na época de Noé. É a pomba do Espírito Santo, como podemos
entender aqui sem uma explicação especial.
Já se tiraram muitas conclusões desta menção rápida da pomba. No começo do século II, o
gnóstico Cerinto ensinava que, com ela, o Jesus histórico recebera o “Cristo de cima”. Muitos
comentários de hoje lembram esta afirmação quando explicam que aqui Jesus recebeu seu batismo do
Espírito, como mais tarde seus discípulos em Pentecostes. Deste modo, o que batiza com o Espírito é
transformado em alguém que carece do Espírito.
De acordo com a interpretação dada pela voz do céu, o Espírito não veio sobre Jesus para efetuar
algo nele, mas para demonstrar algo, expressar algo oculto e autenticar. O Espírito não veio para
trazer vida de Deus, não era a força para o serviço messiânico, mas mensageiro e testemunha
(Ruckstuhl, p 200s, 213s).
     11     A voz do próprio Deus agora se coloca ao lado da voz humana (v. 2): Então, foi ouvida uma voz
dos céus. Que a voz é de Deus vemos pela primeira pessoa: Tu és o meu Filho amado, em ti me
comprazo. Como a frase toda está impregnada do estilo do AT, podemos falar em terceiro lugar da
voz da Escritura que testemunha de Jesus.
A primeira passagem bíblica que se destaca é o Sl 2, que se tornou uma das principais fontes da
teologia dos primeiros cristãos, e dificilmente pode ter sua influência superestimada. Sete vezes o NT
o cita, umas vinte vezes a menção é indireta, incontáveis podem ser as vezes em que ele está ao
fundo. Não só “Filho”, mas também “Messias” tem aqui seu ponto de referência no AT.
“Tu és meu filho”, diz Deus ao rei de Jerusalém no Sl 2.7, talvez no dia da sua ascensão ao trono,
fazendo uso de uma fórmula de adoção daquele tempo (Steichele, p 139). Com este ato de vontade, o
rei entra numa relação de confiança com Deus. Ele recebe o privilégio de pedir livremente (v. 8a). É-lhe dada autoridade sobre o mundo dos povos (v. 9), sim, ele é herdeiro de tudo (v. 8b) e conduz a
história de Deus rumo ao alvo. À parte de especulações físicas, ser filho de Deus tem aqui uma
função de direito, a função de ponte entre Deus e sua criação. Em sentido semelhante, de alguma
forma todo israelita religioso se entendia como “filho de Deus” (Dt 14.1) e, na verdade, todo o Israel
(Êx 4.22, Os 11.1, Jr 31.9,20; Is 63.16).
Devemos projetar este conceito sem alterações para o nosso versículo? Será que Deus adotou o
Senhor Jesus por ocasião do seu batismo (como afirma o evangelho ebionita do século II e hoje
Schulz, p 73; Schreiber, p 220; Schweizer, ThWNT VIII, 370, n 243)? Se, todavia, Jesus era um
simples filho no sentido em que todo o israelita o podia ser, não faz sentido os judeus o terem
colocado na cruz.
Entenderemos o sentido da nossa passagem se prestarmos atenção ao pequeno acréscimo. Um
qualificativo muitas vezes revela o que interessa. Aqui diz: amado. Agapetos é a palavra que a LXX
usa para traduzir jachied. Este vocábulo significa mais do que “amado”, ou seja, “o mais amado,
privilegiado, escolhido” (cf. Gn 22.2,12,16; cf. Is 42.1 a seguir). Portanto, trata-se de um Filho em
sentido exclusivo, privilegiado em sentido incomparável, um segredo entre Deus e Jesus.
O Filho amado em sentido especial aparece em Marcos mais uma vez em formato ampliado, e isto
na parábola de 12.1-12. Ali o pai, de acordo com o v. 6, tinha “ainda um, seu filho amado”. Para este
o conceito meramente funcional de filho não basta, pois esta não o destacava do grupo de servos leais
e dispostos ao sofrimento (v. 5!). Mas seu papel é especial. O pai esperava, mesmo que em vão:
“Terão respeito deste”, pois era o herdeiro (v. 6s). O herdeiro era para um pai judeu bem mais que
um sucessor legal. Ele encarnava o senso de valor próprio e o sentido de vida do pai, toda a sua
esperança. Ao enviar o filho, é como se ele mesmo fosse. À função aliou-se decisivamente a pessoa,
e este é o gancho da parábola.
Para compreender como Jesus é Filho, portanto, não devemos nos orientar pelos filhinhos
mimados de deuses no paganismo, que tornam as pessoas invejosas e submissas por meio das mais
diversas artimanhas. Da mesma forma não podemos nos deixar levar de volta ao sentido meramente
funcional do AT. Jesus era Filho de Deus de maneira diferente de qualquer israelita consagrado.
“Quem quer falar de Jesus como Filho de Deus, antes de tudo precisa estar ciente de que está diante
de um mistério. […] Não pode querer tornar as coisas mais claras e simples do que foram, e em
nenhuma hipótese adaptando a imagem de Jesus que a tradição preservou” (Büchsel, p 72). Como
Filho de Deus, Jesus viveu em comunhão tão especial com Deus, que Deus se tornou plenamente
visível nele. Nele o amor de Deus por todos tomou forma de uma vez por todas e de forma
insuperável (Hengel, Sohn Gottes, p 142). Por esta razão ele também recebeu no NT um nome após
outro dos que até então eram guardados apenas para Deus.
A voz do céu, porém, lança mais luz ainda sobre a relação de Filho de Jesus com Deus. Ela
completa sua autenticação com a frase: em ti me comprazo.
Por menor que seja esta frase e por mais freqüentes que sejam frases semelhantes no AT, vários
motivos favorecem uma relação com Is 42.1. Em primeiro lugar, as duas passagens apresentam a
conjunção de três momentos: o tema do Espírito, a afirmação direta de escolha, e a expressão de
satisfação. Em segundo lugar, no judaísmo já se ligavam às vezes Sl 2.7 e Is 42.1 (Schweizer,
ThWNT VIII, p 369, n 231). Em terceiro lugar, o livro da Consolação de Isaías como um todo está
muito próximo da história de Jesus nos evangelhos (Jeremias, Theologie, p 198 e 272; cf. v. 2s
acima).
O ponto alto daqueles capítulos do AT são os cânticos do Servo de Deus em Is 42.1-4; 49.1-6;
50.4-9 e 52.13–53.12. A mensagem básica deles é: o Servo de Deus está a serviço de um único
objetivo, que é o restabelecimento do domínio universal de Deus. Este governo se revela como
favorável à raça humana de modo inimaginável. Iavé não quer ser Deus contra as pessoas, mas para
elas. Isto leva a um ato de graça surpreendente. O Servo de Deus toma obedientemente a condenação
sobre si e deixa que seja destruída não só sua existência física, mas também moral e espiritual – ele
expia o pecado do mundo em seu lugar. Desde sacrifício, que é insondável mas deve ser louvado
eternamente, nasce o shalom de Deus – até os confins da terra.
Se este conteúdo converge aqui na autenticação do Filho, então a voz do céu tem um sentido
semelhante ao do comandante ao pé da cruz (15.39): apesar do seu sofrimento, na verdade
exatamente por causa da sua morte proposital pelos muitos, nesta submissão a Deus e equiparação ao
ser humano, ele é Filho de Deus. Ele o é como o Servo de Deus de Isaías. Sua messianidade é
precisada pelo cumprimento daquela profecia. Esta relação com o sofrimento, a propósito, também se
encontra na terceira grande confissão de que ele é Filho, no meio do evangelho de Marcos (9.7). A
glória deste Filho não pode ser separada da sua vergonha, na verdade é na cruz que fica mesmo
evidente que ele é o Filho.
Como a voz do céu, com esta confissão relacionada com a paixão, responde ao batismo de Jesus,
ela também interpreta o batismo. Jesus não veio ao batismo para – como os peregrinos – dar razão a
João. Acima disto ele queria dar início, de modo público e comprometido, à sua missão. Esta
consistia, em sintonia com os cânticos do Servo de Deus, em deixar Deus fazer dele pecado pelos
muitos (2Co 5.21; Rm 8.3). Deus respondeu ao todo com tudo. Sua voz do céu diz, em outras
palavras: Assim você é e continua sendo meu Filho amado especial; estou com você para o que der e
vier; sobre você desce o meu céu; você tem e é o meu agrado, pois eu não me agrado da morte do
pecador, mas que ele se volte e viva (Ez 18.23)!
Martin Kähler pôs este título sobre o batismo de Jesus: “Seu primeiro passo por nós”. “Por nós” é
a explicação dos primeiros cristãos para seu caminho de morte. É aqui que ele começa. Desde este
batismo até seu último batismo, de que ele fala em 10.38, andará por ele. Neste caminho ele se
tornou aquele que batiza com o Espírito, depois da sua ressurreição, em Pentecostes.
Recapitulando, fica bem claro que Jesus recebeu a revelação de v. 10s porque já era Filho, já vivia
no mistério do Espírito Santo, e o tinha documentado com sua obediência no batismo. Não foi a voz
do céu que estabeleceu a ligação entre Deus e Jesus, aqui tampouco como em 9.7, ela só tornou
visível e audível a realidade desta ligação (cf. Jo 1.51). Esta explicação combina com a primeira
interpretação do nosso parágrafo por Mateus e Lucas. Sabemos que ambos testemunham a concepção
virginal de Maria e, com isto, a existência de Jesus no Espírito Santo e sua condição de Filho de Deus
desde a origem. Apesar disto, os dois evangelistas registram também a voz do céu. Nisto eles não
têm a impressão de ter relacionado coisas contraditórias – e com razão. Jesus não se tornou Filho de
Deus, mas é o Filho unigênito de Deus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!