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04 A resistência de Jesus a Satanás, Mc 1.12,13

A resistência de Jesus a Satanás, Mc 1.12,13
(Mt 4.1-11, Lc 4.1-13)

12-13 E logo o Espírito o impeliu para o deserto, onde permaneceu por quarenta dias, sendo tentado por Satanás; estava com as feras, mas os anjos o serviam.

Em relação à tradução
   a
     ekballein tem o sentido básico de arremessar ou empurrar com força, e é usado para expulsar demônios
p ex em 1.34,43. Há, porém, também o uso mais brando, com p ex 2.22, onde violência não faria sentido.
Aqui também não se pensa em força que tivesse que quebrar a má vontade de Jesus. Por isso a tradução
branda é mais apropriada (em oposição a Rienecker, p 50 e EWNT I 986: “impeliu com força”). Mt 4.1 e Lc
4.2 também entenderam Marcos assim e dizem que o Espírito o “levou” ou “guiou” (agein).
   b
     O particípio “sendo tentado” tem sentido final aqui (Bl-Debr 418.4). Coerente com isso, Mt 4.1
também o abriu.
   c
     therion é o animal selvagem que vive solto, a fera.
Observações preliminares
1. Contexto. A começar com o uso de outro tempo verbal (no original) – presente em vez de passado –
estes dois versículos se destacam. O local também muda. Jesus deixa para trás o movimento de avivamento no
Jordão e vai para o ermo, deserto de pessoas. A maior mudança é quanto ao convívio. No lugar da voz do céu
entra a voz do tentador. Todavia, o que une este pequeno trecho com o anterior é a menção do Espírito Santo
(cf. v. 8,10,12) e do deserto (cf. v. 3,4,12,13). A tentação segue sem interrupção à revelação do Filho de Deus
depois do seu batismo, de modo que só se diz “o”, em vez de começar de novo com “Jesus”.
2. Narrativas paralelas. O leitor fica admirado de que Marcos não conte o transcurso dramático da tentação
em si, só registra o evento com uma frase secundária. Por que não deixou tudo fora, como o fazem Bultmann e
Dibelius em seus livros sobre Jesus? O que motivou Marcos a ser tão econômico com as palavras? Não
podemos imaginar que a tentação lhe tivesse sido transmitida sem qualquer indício quanto ao seu conteúdo. A
comparação com os textos paralelos, porém, mostra que a idéia de que Marcos reduziu o relato não abrange
todos os fatos, já que ele contribui com traços pessoais. Os relatos são independentes e olham o mesmo evento
de perspectivas diferentes. Em Marcos não vemos Jesus envolvido numa luta, como em Mateus e Lucas, mas
como vitorioso. Esta mudança de ênfase é a razão por que não adotamos o título costumeiro para Marcos. Nele
não se trata da história da tentação em si, mas do seu resultado positivo.
3. Quanto à menção de Satanás. Já em 1778 foi publicado um artigo teológico sobre “A não-existência do
diabo”. Hoje em dia esta é uma das principais perdas em nosso discurso: quase não conseguimos falar a sério
de Satanás. Ele se ocultou dos olhos espirituais e também da linguagem, de modo a causar dificuldades à
pregação e à exposição. Neste espaço poderemos olhar só de relance para este problema.
Do antigo editor da Wuppertaler Studienbibel, Werner de Boor, é a frase: “O NT é tão próximo da realidade
que acaba sendo totalmente assistemático”. Por isto, a Bíblia também não pinta um quadro completo do diabo,
não oferece uma “satanologia” organizada. Como em outras instâncias, nisto ela também é adversa a imagens.
A própria variedade de descrições para o “diabo” se defende contra construções simplistas: Satanás, Belzebu,
Belial, Maligno, Destruidor, Sedutor, Mentiroso, Assassino, Acusador, Serpente, Dragão, etc.
A menção de Satanás nenhuma vez no NT é uma desculpa para o ser humano, a ponto de este poder negar
sua responsabilidade pelo mal que faz. Marcos conta a história da paixão, p ex, com sua injustiça com Jesus
que clama aos céus, sem nenhum vestígio satanológico. Pedro, Judas, Caifás, Pilatos e o povo não são
apresentados como pobres vítimas possessas de Satanás. Sua culpa preenche todo o espaço. Igualmente
sempre fez parte da pregação missionária dos primeiros cristãos o apelo às pessoas para que enfrentassem o
mal com determinação. Para nós hoje em dia as circunstâncias servem de desculpa com muita facilidade.
Todos clamam por melhores circunstâncias. Ninguém pede desculpas .
O fato de o NT falar claramente de Satanás é conseqüência do senso de realidade que mencionamos. É claro
que as pessoas são culpadas por muitas coisas que sofrem. Esta afirmação, porém, não abrange todos os casos.
Há trevas e um exagero de maldade entre as pessoas que não fazem parte da sua natureza. Quem afirma o
contrário e faz das pessoas diabos, estaria juntamente ofendendo o criador delas, porque Deus não criou os
seres humanos como diabos, mas à sua semelhança. As circunstâncias também não devemos atribuir ao diabo,
pois não se pode separar as pessoas das circunstâncias. Desta forma, o que há de diabólico no mundo não é
inerente à natureza humana, mas à de um invasor, de um corpo estranho. Alguém violentou a raça humana e a
levou para o cativeiro, fora das suas fronteiras. Além disso, ele prendeu os cativos como que numa masmorra
(cf. 3.21). Por isso a voz superior tem razão: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo” (1Jo 3.8). A este
poder, porém, só Deus pode se opor. Por isso a continuação: “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para
destruir as obras do diabo”.
     12     E logo, é a continuação significativa (cf. v. 10n). O Filho de Deus, o que batiza com o Espírito, que
acabou de ser manifesto, se revela cada vez mais, seu poder irrompe. O Espírito o impeliu. Também
em 12.6 o Pai envia o Filho amado para fora do aconchego. Esta “expulsão” lembra a de Gn 3.24, ao
mesmo tempo que se diferencia dela. Desta vez não é o rigor da condenação que expulsa, mas a
vontade de salvar faz o próprio Deus sair do paraíso por meio do seu Filho, atrás das pessoas
perdidas. Assim, o Filho vai para o deserto. Esta palavra é importante aqui e no próximo versículo,
e merecerá ser explicada no fim. Aqui nos limitaremos a constatar como Marcos é parcimonioso e
despreocupado com descrições exteriores. Pelo que já vimos, Jesus já esteve no deserto (v. 4). Agora
ele deixa para trás o vale do Jordão, que ainda tinha alguns poucos habitantes, e vai para o ermo,
onde não havia ninguém além dos animais selvagens (v. 13).
     13     O deserto, na Bíblia, pode ser o lugar ideal para um encontro com Deus (cf. v. 4). Será, então, que
Jesus foi para o deserto procurar a comunhão com Deus, como no v. 35? O texto aponta em outra
direção: onde permaneceu quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Esta permanência no
deserto está sob o número quarenta, o número da provação. Quarenta dias durou o dilúvio (Gn 7.12),
o jejum de Moisés no Sinai (Êx 34.28), a caminhada de Elias até o Horebe (1Rs 19.8). Quarenta anos
Israel permaneceu no deserto (Sl 95.10) e, mais tarde, sob o domínio dos filisteus (Jz 13.1).
Importância especial parece ter aqui a relação com Moisés e Elias, que é expressa diretamente em
9.4. O Deus de Jesus é o Deus de Moisés e Elias, que une os três por meio de provações semelhantes.
Desta vez ele coloca o Filho debaixo de um fardo muito pesado. Ele não o faz passar a uma distância
segura do reino das trevas, mas bem para o meio dele: sendo tentado por Satanás. “Filho, se te
dedicares a servir ao Senhor, prepara-te para a prova” (Eclesiástico 2.1, BJ).
Devemos observar que a iniciativa foi de Deus. Deus é quem não quer mais tolerar a miséria da
criatura escravizada. Através do seu Filho ele ataca o dono da casa (cf. 3.27). O reino de Deus não
pode vir a não ser com confronto, pois não penetra em espaço sem dono. Satanás é perturbado em
seu covil, e ele não fica sem reagir. Ele exibe um poder sedutor, que aqui não é descrito em detalhes.
Marcos pode pressupor que seus leitores, que são cristãos de longa data, o conheçam (cf. qi 5e).
Estava com as feras. As interpretações desta pequena frase exclusiva de Marcos são
contraditórias. Será que sua intenção é só destacar a solidão humana de Jesus? Ou a menção das feras
quer pintar o terror do lugar impuro com demônios? Uma terceira opção merece a preferência, por
interpretar todas as três afirmações do nosso versículo, fazendo surgir um quadro completo. Este
quadro é o do deserto transformado no paraíso restaurado. Faz parte do paraíso a existência de uma
tentação real (v. 13a), bem como a paz com o mundo animal e a natureza (v. 13b) e com o céu (v.
13c). Este paraíso adiantado Deus dá de presente ao seu Filho em resposta à sua fidelidade, pois onde
só Deus é adorado e servido, o cerne do novo mundo já está presente, mesmo que no meio do
deserto.
De acordo com o ensino judaico, o domínio de Adão sobre o mundo animal terminou com a
queda. Dali em diante há uma luta renhida, e o ser humano só consegue defender-se com dificuldade
dos animais selvagens. Este mal causado à criação só será sarado pelo Messias (Bill., III 254; IV
892,964; Gnilka, p 57). Também Is 11.6-9; 65.25; Os 2.20 prevêem uma harmonia escatológica entre
o ser humano e os animais. Em Is 11.6 aparece o mesmo “com” ou “entre” da comunhão confiada do
nosso versículo. A preposição com este sentido é usada várias vezes por Marcos (2.19; 3.14; 5.18;
14.67).
Nisto, a relação do ser humano com os animais é um exemplo da sua relação com a natureza como
um todo. “Quando o animal deixou de ser companheiro para se tornar objeto, nossa relação com o
mundo criado que nos cerca deteriorou-se” (Berkhof, p 83). Esta deterioração pode ser vista na
derrota do ser humano diante das forças da natureza, bem como na destruição miserável do meio
ambiente pela tecnologia humana. A cura destas coisas tem a ver com Jesus. Ele veio para conduzir à
paz toda a criação (Rm 8.19-25).
Por cima desta paz paradisíaca o céu está aberto (cf. v. 10): mas (NVI, BJ: e) os anjos o serviam.
Os intérpretes que consideram os animais uma ameaça para Jesus encontram aqui a indicação de que
Deus envia os anjos para ajudar Jesus em sua luta. “Servir”, porém, aqui indica trazer alimento (cf. v.
31), não ajuda na luta. É o mote para o fim do jejum. Ficamos, então, com o quadro do paraíso. Os
anjos colocaram de lado as espadas desembainhadas de Gn 3.24 e trazem ao novo Adão as provisões
do Pai celestial. Novamente temos uma relação com Moisés (o maná no deserto) e Elias (1Rs 19.5-7).
Assim Jesus ficou firme diante de Satanás. Como Filho, ele também é o mais forte. Por isso ele
pode libertar o mundo e trazer-lhe paz. É neste sentido que agora seguirão um parágrafo após outro.
Tudo está vinculado na realidade do Filho de Deus, autenticada e confirmada nos v. 10-13.
Esta vitória de Jesus sobre Satanás, será que ela já vale como evento decisivo da salvação, que
depois só precisa ser demonstrado? Certamente não foi esta a opinião de Marcos, nem a dos seus
primeiros leitores. Eles não devem ter deixado de ver a indicação duplamente reforçada “no deserto”.
É verdade que o deserto é o lugar dos novos começos de Deus, mas não seu alvo; o êxodo ainda não
é a salvação, mas o caminho para a salvação. O Deus da Bíblia não é um Deus do deserto. Seu alvo é
morar entre os seus, na nova cidade, na terra florida (Ap 21.1–22.5). Nos v. 9-13 as pessoas nem
foram mencionadas, exceto o Batista no v. 9. Jesus só encontra o céu e Satanás, o Espírito e os anjos.
Só a partir do v. 14 ele entra no cenário humano. Mas ele desde o começo está definido como o mais
forte. Por isso as pessoas ficam perplexas (v. 22), os demônios tremem (v. 24), a natureza obedece
(4.29). A razão para isto é que ele não veio como um entre muitos, mas como aquele Um para
muitos, o Filho eterno, autenticado pelo Pai, cheio do Espírito, confirmado diante de Satanás – como
o novo Adão, que reabre o paraíso para nós seres humanos. Como o mais forte, ele invadiu a casa do
valente e agora a saqueia item por item (3.27). Entretanto, como o vencido ainda resiste, o caminho
de Jesus continuará cheio de tentações e sofrimentos.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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