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05 A entrada em cena de Jesus como mensageiro da alegria, Mt 1.14,15

A entrada em cena de Jesus como mensageiro da alegria, Mt 1.14,15
(Mt 4.12-17; Lc 4.14,15; cf. Jo 4.1-3)

14-15 Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.

Em relação à tradução
     a
     euangelion tem aqui um conteúdo diferente de 1.1, onde é um termo técnico para a pregação
missionária cristã. Aqui pode ser traduzido por “boa notícia” (cf. comentário). É claro que os dois usos de
euangelion estão relacionados, mas é útil diferenciá-los.
     b
     basileia é derivado do adjetivo basileios, real. Trata-se, portanto, do que é próprio do rei. Se é um
território, o chamamos de “reino” (p ex 6.23; 13.8), se é uma condição, a chamamos de “domínio, dignidade
ou poder real”. O que está em questão é o poder do rei. Este é o sentido mais comum na Bíblia (hebr malkut).
     c
     engizein tem na grande maioria das menções na LXX o sentido de “aproximar-se”, só poucas vezes de
“chegar”. No NT fica bem claro: nas 36 vezes em que o termo não está relacionado com o reinado de Deus, tem sempre o sentido de “aproximar-se”, de modo que nas outras seis vezes, em que se refere ao reino de Deus, praticamente não pode ser entendido de outra forma.
     d
     Cf 1.4.
     e
     pisteuein, no mundo bíblico usado principalmente para acreditar e estar convencido da existência e
atuação dos deuses, portanto, uma “convicção teórica” dentro da cosmovisão (Michel, TbBLNT I, p 566).
Paulo e Tiago, por sua vez, e também o autor da carta aos Hebreus, tiravam seu conceito de fé unicamente da Escritura. Por isso é correto seguir o hebr he’emin (umas 40 ou 50 vezes no AT) para o sentido de pisteuein no NT. Seu sentido básico é: adquirir perseverança, prender-se, aquietar-se, em oposição a tremer, inquietar-se e temer. O contraste de 5.36 é clássico: “Não temas, crê somente!”
     f
     Literalmente: “Crede dentro do evangelho”, sem paralelo no NT. De qualquer forma, “crer em” não é
próprio do grego. Mesmo assim alguns comentadores pensam estar diante da maneira de falar da igreja,
posterior (cf. “Terminologia de pregação missionária cristã”, Bultmann, Geschichte, p 124, 366). Geralmente
os tradutores usam aqui uma outra preposição: “Crede no evangelho”. Mas também para isto faltam os
paralelos cristãos primitivos. No NT a fé nunca é no evangelho, na palavra ou na pregação, mas unicamente
em Deus, Cristo ou seu nome. Não pode ser desviado para grandezas menores. O termo deve ser entendido a
partir do hebraico (he’emin be, traduzido na LXX por pisteuein en). Marcos tem diante de si uma fonte antiga,
que remonta a um estágio anterior ao grego e não fora ainda transposto para a linguagem do seu contexto.
Observações preliminares
1. “Relato de resumo”. Em mais ou menos dez ocasiões nosso livro interrompe a narrativa com relatos de
resumo (“sumários”). Geralmente eles dão início ou encerram uma série de histórias. Com eles Marcos evita
que a diversidade torne o livro difuso, e ajuda seus leitores a ter um quadro fechado. Ele destaca alguns traços
como característicos. Ele ou sua fonte deixam entrever pontos de partida da sua cristologia. – Este primeiro
relato de resumo excede todos os demais em peso, e não dá início somente a este trecho principal, mas lança
luz sobre todo o livro. O conteúdo do v. 15 é único, a forma marcante e solene, as frases curtas e sem
conectivos.
2. Significado da introdução de 1.14. Marcos vincula esta caracterização da pregação de Jesus a um evento
histórico, que é a saída de cena do Batista. Todavia, veja quantas questões históricas ele deixa em aberto:
Quanto tempo passou entre o batismo de Jesus e sua entrada em cena na Galiléia? João continuou batizando?
Em que localidade da vasta Galiléia Jesus começou, e que caminho tomou? Quem “entregou” João (RC), e a quem? O que Marcos quer dizer com isto? Esta brevidade não é devida a desconhecimento. Isto pode ser
provado, p ex, no que tange ao destino do Batista, diretamente por 6.14-29. O objetivo é que o leitor entenda as linhas teológicas da passagem.
3. “Evangelho” no NT e no seu mundo. Como dois pilares seguram as duas pontas de uma ponte pênsil,
temos no começo e no fim a palavra “evangelho, boa notícia”, segurando a pregação em todas as suas partes.
Jesus era essencialmente mensageiro de boas novas (cf. 1.1). Também de acordo com Mateus, Jesus não
economizou bem-aventuranças.
É verdade que a estatística do termo grego euangelion nos proporciona alguns enigmas. Marcos usa oito
vezes o substantivo, nenhuma vez o verbo euangelizein. Lucas não segue o substantivo em nenhuma destas
oito passagens, mas em outras usa dez vezes o verbo. Mateus segue o substantivo uma vez, mas o introduz em
outras três, e uma vez o verbo. João, em sua narrativa, não precisou nem do substantivo nem do verbo. Ao
todo, portanto, encontramos nos evangelhos o substantivo 14 vezes, o verbo 11. Em contraste, aumenta muito
o uso dos dois vocábulos nas cartas de Paulo, que espelham a linguagem dos cristãos gentios em muitos países
à margem do Mediterrâneo. Paulo usa 60 vezes euangelion, 21 vezes o verbo e duas vezes “evangelista”
Portanto, parece que a palavra não tem um lugar fixo na tradição dos evangelhos, enquanto se tornou rotineira
nas igrejas gentias. Sabendo-se que euangelion tinha um papel inflacionado na vida pública do Império
Romano, impõe-se a conclusão: o termo euangelion tornou-se familiar primeiro na missão entre os gentios,
onde foi tirado e adaptado do contexto cultural. Marcos o trouxe de volta à tradição de Jesus, no que os outros
evangelistas só o seguiram com hesitação.
Antes de tomar posição, aproximemo-nos do uso político do termo. Um exemplo eloqüente do seu uso é
uma inscrição da cidade de Priene, na Ásia Menor, do ano 9 a.C. Ela celebra o nascimento do imperador
Augusto (o texto a seguir está simplificado; cf. ThBLNT I, p 296, e ThWNT II, p 438): “Este dia trouxe ao
mundo um novo rosto. Ele estaria perdido, se com seu nascimento não brilhasse a salvação para todas as
pessoas. Para o bem do mundo, este homem foi agraciado com tantos talentos, que foi enviado como salvador
a nós e às gerações futuras. Toda inimizade chegou ao fim, ele tornará tudo glorioso. As esperanças dos pais
se realizaram. É impossível que jamais venha alguém maior. O dia do seu nascimento presenteou o mundo
com os evangelhos que se vinculam ao seu nome. Com seu nascimento começa uma nova contagem do
tempo.”
O anúncio do nascimento de Augusto não foi o único “evangelho”. Muitos outros detalhes da vida e obra
dos imperadores eram contados como “evangelhos”: declaração de maioridade, ascensão ao trono,
proclamações de governo, decretos (até sentenças de morte!) e feitos na guerra. Não saía nada da corte que
não fosse anunciado com otimismo descarado como “evangelho”. Já que o imperador era considerado mais
que humano, a corporificação do divino na terra, tudo o que fizesse ou deixasse de fazer deveria provocar
exclamações de júbilo na humanidade desanimada e sofredora. Com esta intenção, as províncias eram
inundadas de “evangelhos” – com certeza muitas vezes para o fastio da população apática.
Neste contexto, o “evangelho de Jesus Cristo” (1.1) tinha de polemizar com os “evangelhos” romanos. Para
os crentes, o único evangelho absoluto varria como pó a produção em série de evangelhos, que se
desacreditava com sua constante repetição. Tanto menos podemos imaginar que o termo cristão derive do
termo comum. O conteúdo nobre, que é a morte e a ressurreição de Jesus, e seu caráter rigidamente único (Gl
1.7!), na minha opinião excluem esta possibilidade. A oposição aos evangelhos do imperador pode ter
favorecido a difusão exatamente entre as igrejas gentias, mas para a definição do conteúdo do “evangelho”
cristão o vocábulo não deve ser isolado do AT. É exatamente nesta passagem tão programática que ele está
cercado de um conjunto de termos, entre os quais se destaca a vinda do reinado de Deus. É este indício que o
comentário quer seguir.
4. A expectativa pelo reinado de Deus entre os judeus e em Jesus. Jesus podia falar do “reinado de Deus”
(ou “reino de Deus”) sem dar maiores explicações. A expressão e o objeto eram conhecidos. Na verdade, as menções da expressão na literatura judaica são escassas, às vezes de maneira floreada e poucas vezes com referência ao futuro. Geralmente se tratava do reinado atemporal de Deus sobre seu Israel obediente. Um exemplo da menção rara do domínio de Deus como expectativa futura é o qaddix, um pedido solene ou
palavra de despedida no final da longa liturgia de oração no culto. A parte do meio é assim: “Que ele deixe
reinar (= estabeleça) seu domínio real durante a época da vida de vocês e de toda a casa de Israel, logo e com rapidez” (em Jeremias, Theologie, p 192). O pedido é compreensível. Israel sabia que Deus reina, mas o governo estrangeiro dos romanos estava em contraste insuportável com este fato. Disto resultou a expectativa
por um reinado de Deus que no momento não existia. Por isso Israel clamava sem cessar por uma solução para esta dissonância, em futuro próximo. Na comparação do qaddix com o Pai Nosso só uma diferença chama à atenção: os judeus clamavam pela vinda do reino só no fim da sua oração, como poslúdio, enquanto Jesus inicia com ele. Ele quer que cada petição seja entendida à luz deste primeiro pedido. O que para os judeus era a última coisa, para ele é a primeira e, em certo sentido, a única. O reinado de Deus aglutinava como um
âmago magnético tudo o que ele pedia em oração, ensinava, desejava, fazia e sofria. Suas parábolas, seu
chamado à conversão ao discipulado, suas exigências éticas, seus atos de poder, operações de sinais como sua morte e ressurreição, respiram dentro do horizonte do reino vindouro. “Reinado de Deus” em Jesus é
praticamente a palavra de salvação, que sobrepujava as demais palavras salvíficas como graça, misericórdia,
redenção, paz ou justiça. A estatística também mostra que esta expressão é um conceito central em sua
proclamação: de 122 menções no NT, 90 são da boca de Jesus. Como o termo não teve nem antes nem depois um papel tão vivo e dominante, podemos falar de uma “expressão típica da linguagem de Jesus” (U. Luz, EWNT I, p 483).
     14     Depois de João ter sido preso… Exatamente a imprecisão aqui é significativa. Nesta passagem,
“foi entregue” (RC) não é a palavra conhecida dos meios policiais: foi entregue ao juiz, carcereiro ou
carrasco, mas é grego bíblico respeitável. A LXX usa o termo 208 vezes para Deus, das quais em 122
Deus entrega “na mão” de alguém, portanto, para a autoridade plena deste. “Aquele que foi entregue
é, no real sentido da palavra, desamparado por Deus; Deus o colocou para fora da sua proteção, à
mercê das forças inimigas” (Popkes, p 25), para que façam com ele “o que quiserem” (Mc 9.13). O
processo fica de uma escuridão impenetrável quando Deus mesmo “entrega” seus servidores fiéis.
Assim aconteceu de modo clamoroso com Jesus (9.31; 10.33; 14.11). Esta teologia da entrega
também está em jogo quando pessoas atuam como instrumentos de Deus: Judas entregou Jesus aos
judeus (3.19; 14.10s,18,21, 42,44), os judeus o entregaram a Pilatos (15.1,10,15). Também os
seguidores de Jesus participam do destino do seu mestre e são “entregues” (13.9,11,12), como aqui
seu precursor. Ainda na morte ele preparou o caminho para o seu senhor, anunciando com ela o
sofrimento de servo de Deus de Jesus. A seqüência destes anúncios não será mais interrompida: 2.20;
3.6,19; 6.3,17-29; 8.31; 9.12s,31; 10.32-34,45; 11.18; 12.12; 14.1s,8,18-21,24,27,41. Tudo isto,
então, está em sintonia com a “boa notícia”:
…foi Jesus. A prisão do Batista, pelo visto, é o sinal para que Jesus saia em busca do seu campo
de trabalho e comece em grande estilo. Ele não considera que João foi refutado, pois prega a mesma
mensagem, com ainda mais insistência e em âmbito ainda maior. Ele deixa para trás o vale do Jordão
e vem para a Galiléia. Por que será que ele vai para o Norte e não para o Sul, para Jerusalém?
“Quando vier o mensageiro das boas novas, ele as anunciará primeiro a Judá”, esperavam os judeus
(em Friedrich, ThWNT II, p 713,3s). Aqui se percebe mais uma vez o tema da dissimulação (cf. v.
9). Com serenidade inacreditável, Jesus evita o lugar clássico do Messias e desaparece em um canto
desprovido de promessas, gasta energias e tempo com interioranos (cf. Jo 7.3ss). Da perspectiva da
cidade santa, esta Galiléia – ainda mais separada pela Samaria semipagã – devia parecer uma ilha
judaica sem esperança em meio às trevas pagãs. “Galiléia” é a forma abreviada de gelil ha-gojim,
região dos pagãos (cf. Mt 4.15). Sua população judaica, além do mais, ocupava na maior parte as
aldeias e o interior da província, enquanto as cidades tinham uma forte penetração pagã. A língua
materna aramaica dos judeus dali contava com uma forte coloração grega, de modo que em
Jerusalém um galileu era reconhecido logo por sua maneira de falar (Mt 26.73). De qualquer forma
era preciso contar com uma forte mistura de povos lá em cima, em vista da história do povoamento.
Os habitantes de Jerusalém geralmente tinham dúvidas sobre o judaísmo genuíno de um galileu.
Afinal de contas, a liderança religiosa na capital tinha dificuldades para controlar a população do
interior, e era penoso obrigá-la ao cumprimento das prescrições.
Para a força de ocupação romana também não era um ponto a favor começar um movimento na
Galiléia. Mais tarde foi registrada com cuidado a acusação de que Jesus procedia daquela província
(Lc 23.5). Lá era o berço dos zelotes revoltosos. Seu grande organizador, Judas, tinha a alcunha de
“galileu” (At 5.37). Quando Herodes ocupou o trono (39 a.C.) a região já era um foco de distúrbios
há gerações (cf. Lc 13.1). Latifundiários pagãos tinham comprado boa parte das terras e mantinham a
população em dependência, e por isso o clamor por liberdade se fazia ouvir ali com paixão
extremada. O confronto constante com os pagãos instigava xenofobia e nacionalismo. Os galileus
tinham sido esculpidos da madeira do martírio. “Sua firmeza, sua loucura e sua grandeza de alma,
como se queira dizer, despertavam admiração geral” (opinião da época, em Hengel, Zeloten, p 61).
Esta foi a região, portanto, que se tornou terra natal do evangelho (cf. 14.28; 16.7). Uma das
construções exegéticas sem fundamento que existem por aí é a de Lohmeyer e Marxsen, segundo os
quais também depois de Pentecostes e até a época da redação do evangelho de Marcos a Galiléia teria
sido um centro cristão que fazia concorrência à igreja-mãe em Jerusalém, devendo continuar a sê-lo
até a segunda vinda, na opinião de Marcos. Os outros textos do começo da igreja não fornecem base
para isto. Neles a Galiléia também não é mencionada como região cristã ideal, antes como transtorno
no caminho de Jesus. Sob o presságio do fim da vida do seu precursor, portanto, é que Jesus dá
início, por sua vez, à trilha de sofrimento que Deus lhe destinou. Esta relação misteriosa entre boa
notícia e caminho de sofrimento será mencionada mais uma vez no fim do v. 15.
Pregando o evangelho de Deus. É evidente que Jesus aqui ainda não anunciava o “evangelho de
Jesus Cristo” do v. 1. O quadro total da sua vida ainda não estava disponível, a proclamação do
crucificado e ressurreto ainda não podia acontecer, como 1Co 15.3-5 estabeleceu de modo tão
marcante e obrigatório. A descrição do conteúdo no próximo versículo confirma isto. Nele Jesus
ainda nem é mencionado, sem falar da sua exaltação como Senhor. Ele ainda não é o proclamado,
mas o proclamador.
O acréscimo depois da Páscoa, porém, não consiste em que Deus seja substituído por Jesus, pois
também Paulo continua escrevendo sobre o “evangelho de Deus” em Rm 1.1; 10.16; 2Co 11.7 e 1Ts
2.2,8. O evangelho, portanto, permanece teocêntrico. Este Deus, contudo, de certa forma “mostrou a
cara” na Sexta-feira da Paixão e na Páscoa, definindo-se como “Pai do nosso Senhor Jesus Cristo”.
Retroceder para antes disto, a pregação não pode mais. Depois que Deus se apresentou desta
maneira, quem não fala também de Jesus Cristo não está falando genuinamente de Deus.
A “boa notícia de Deus” na Galiléia, portanto, ainda não correspondia totalmente ao “evangelho
de Jesus Cristo” de depois da Páscoa, se bem que este em essência se referia àquele. O emissor da
mensagem e o tom básico são os mesmos. Deus começou a espalhar alegria: naqueles dias sobre a
Galiléia escura, hoje sobre o mundo inteiro.
Se o “evangelho” aqui ainda não fala da Páscoa, por outro lado está repleto de Antigo Testamento.
Forçosamente é isto o que prova o v. 15. Todos os elementos ali contidos – o mensageiro que traz a
boa notícia, Deus como emissor da mensagem, sua vinda para libertar, a apresentação do reinado de
Deus ao mundo inteiro, o início da nova época, o estabelecimento de justiça e graça e o chamado à
conversão – tudo isto está no AT e, acima de tudo, entrelaçado estreitamente no Livro da Consolação
de Israel. É só ler Is 40.9; 41.27; 52.7-10 e 61.1,2. Na tradução da LXX, a estes juntam-se 49.8; 56.1;
60.6 e 61.10. No v. 2 já era o livro de Isaías que iluminava o caminho de Jesus (cf. 1.2s).
Em favor da derivação da boa notícia de alegria de Is 40ss consta “que no judaísmo palestinense
ficara viva a idéia do mensageiro das boas notícias do Dêutero-Isaías”. As passagens mencionadas
“ocorrem repetidamente nos rabinos” (Friedrich, ThWNT II, p 712ss). A esta expectativa é que Jesus
se dirigiu. Paulo também ligou “evangelho” a Is 52.7, em Rm 10.15s. Desta forma ficou viva a
lembrança da origem bíblica do termo padrão dos primeiros cristãos. Através de Jesus, ele remonta à
Escritura. De lá para cá, com a difusão da literatura e da leitura, a figura do mensageiro perdeu em
importância. Nós ainda o conhecemos quase só como carteiro, que não tem relação pessoal com o
conteúdo das cartas que entrega. Na Antigüidade, o conteúdo da mensagem e o mensageiro se
confundiam. O mensageiro não só se desincumbia da sua mensagem, mas era a mensagem em
pessoa. Neste sentido, o próprio Jesus era o anunciado, mesmo que indiretamente. Mais tarde
chegou-se praticamente à equivalência: evangelho = Jesus (8.35,38; 10.29; 13.9s).
Este versículo apresenta o conteúdo da boa notícia em quatro impulsos curtos, dos quais os dois
primeiros são um comunicado, os outros dois um desafio.
     15     O tempo está cumprido. Antes do cumprimento, o tempo se parecia com um recipiente ao qual
faltava o conteúdo. Todavia, ele não ficou vazio, nem caiu no vazio. Foi enchido. Não por si mesmo;
diferente da concepção grega, o tempo não transcorria soberano, arrastando-se sem interferência
possível, sendo que até os deuses tinham de submeter-se a ele. A voz passiva oculta a ação de Deus
(passivum divinum, cf. 2.5). O próprio Deus põe um fim à espera. Sem ficar à espera de algum sinal
de tempo fora dele, sem olhar para um calendário, sem aguardar um ponto crítico no
desenvolvimento terreno que lhe permitisse a intervenção, ocorre uma mudança em seu coração. Ele
não quer mais ficar olhando sua gente sendo violentada e aprisionada. Agradou-lhe fazer soar a hora
do perdão. Foi somente a sua boa vontade que decidiu: A medida está cheia! Foi exatamente isto que
ressoou em céu azul em Is 40: “Consolai, consolai o meu povo! Falai ao coração de Jerusalém,
bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniqüidade está perdoada”. O “tempo do
meu favor” (BJ), o “dia da salvação” raiou (Is 49.8).
Este tom de cumprimento é muito mais claro em Jesus que em João. Este batia na porta, Jesus
irrompe por ela. Esta porta aberta é a condição para todas as palavras e ações de Jesus.
Com a segunda frase, Jesus chega ao que interessa: O reino de Deus está próximo. Se quisermos
recordar a quem lê a Bíblia uma passagem conhecida de Isaías, poderíamos traduzir (cf. 1.15n):
“Chegou o tempo de Deus ser rei”. É assim que está em Is 52.7: “Que formosos são sobre os montes
os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia cousas boas, que faz ouvir a
salvação, que diz a Sião: o teu Deus reina!” No Livro da Consolação Deus usa várias vezes o título
de rei (41.21; 43.15; 44.6). Sob este título ele irá executar a grande ação de libertação do seu povo, e
toda a raça humana ficará livre na seqüência desta revelação. Até mesmo a natureza retorna para a
paz de Deus (cf. 1.11). Lamentável é que em tempos recentes “reino (ou reinado) de Deus” ficou
reduzido a um termo da eclesiologia.
Jesus não teria ensinado seus discípulos a pedir a vinda do reino, se este não lhe fosse uma
grandeza futura considerável. Ele só anuncia que o reino está próximo, apesar de termos de levar o
tempo perfeito de “aproximar-se” em consideração. Se estivesse no tempo presente, indicaria uma
aproximação ainda bastante indefinida. O imperfeito teria indicado uma aproximação gradativa, e o
aoristo também deixaria uma boa distância da meta. O perfeito, porém, reforça o sentido do verbo,
enfatizando a duração e o efeito da aproximação, resultando em uma impressão de proximidade
premente e inquietante (cf. Bl-Debr 340; Mussner em Grundmann 50 A12). Portanto, mesmo que
ainda não se possa falar da presença plena, tanto menos se pode falar que o reinado de Deus é
remoto, como na profecia do AT. O tempo agora está cumprido, no sentido de que o cumprimento se
estende formando um acontecimento. Realiza-se algo em suspensão: o reino já toca o presente, sem
anular seu caráter futuro.
No espírito do Livro da Consolação isaiano, o mensageiro da boa notícia vem na frente. Ele lhe
serve de sinal e realiza sinais do reinado de Deus. A partir daqui temos acesso à afirmação clara de
Jesus de que o reino está presente, em especial Lc 11.20 e 21.21. Neste Jesus e em seus atos, a
realeza de Deus se pôs a caminho do futuro para adentrar no nosso mundo com uma ponta de lança
(cf. Mc 3.27). Jesus é a forma presente de encontro com o reino, o autobasileia (Orígenes). Nele as
forças do Espírito e da paz nos cercam (Mt 11.5). Nele e somente nele! O reino de Deus ainda não
chegou em sua amplitude. Trata-se só da vanguarda que disparou à frente, nesta pessoa de ponta,
“Jesus”. Por esta razão um mundo “cristão”, um Ocidente “cristão” ou um povo “cristão” é uma
ilusão. Entretanto, desde a vinda de Cristo o mundo inteiro vive inapelavelmente ao som do gongo
final, mesmo que ele ainda se estenda um tanto.
A pregação de Jesus desembocava em um desafio duplo. Em concordância com os profetas (p ex
Is 59.20; 56.1s; 58.6,7) e com o Batista (cf. v. 4), ela se torna convocação à conversão: Arrependei-vos! Também, que salvação seria esta que fosse jogada em nós como o reboco na parede?! Da
salvação de Deus faz parte, em primeiro lugar, que nos tornemos realmente humanos, isto é, que
sejamos colocados de pé e tenhamos espaço para dar meia-volta. Podemos nos decidir a isto. A
segunda parte é que devemos nos decidir, em nossa salvação, que concordamos com o reinado de
Deus e “entrar” em seu reino (10.15,24s). Só a terceira parte não se aplica: Nós não somos obrigados
a entrar, ninguém nos arrasta por pés e mãos. O reinado de Deus, de acordo com Lc 10.11, também
pode passar e se tornar passado para nós.
O “e” subseqüente tem sentido explicativo (kai exegeticus, Bl-Debr 442.6), de modo que o
segundo apelo não corresponde a uma ação à parte, a ser realizada em seguida à conversão, antes
define a exigência de arrependimento: (ou seja,) crede! Não é sem razão que Jesus acrescenta um
esclarecimento para o que ele entende por arrependimento, para distanciar-se das fórmulas judaicas
de conversão (cf. opr 2 a 1.2-8). Ele explica dando ênfase à fé. Esta interpretação é confirmada por
todo o evangelho de Marcos. Nos próximos capítulos, Jesus não fala mais de “arrepender-se”, mas
com cada vez mais destaque de “crer” (4.40; 5.34,36; 9.23s,42; 10.52; 11.22-24; cf. 2.5 e 16.13-17
no apêndice).
Parte destes trechos usa “crer” em sentido absoluto, sem mencionar um objeto, ou melhor, uma
pessoa em quem se deposita confiança. Quando se menciona, sempre é Deus (cf. 11.22). Este
também é o sentido aqui: Creiam em Deus, que se aproxima de vocês, em sua boa notícia, com sua
poderosa disposição para ajudar. Criam (com base) no evangelho!
Com isto, a fé está plenamente dentro do seu contexto bíblico. Isto porque em toda a Bíblia
ninguém crê por si, simplesmente; só crê aquele com quem Deus falou. Assim foi com Abraão, o
“pai de todos os crentes”, de acordo com a passagem básica de Gn 17.5. Paulo o resumiu assim: “A
fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17). Onde não há nada para ouvir, não há nada para crer. Mesmo que, por
um tempo, a fé subsista sem sentir, jamais o poderá se Deus não falar a ela. Aqui Deus falou com os
galileus, por meio da boa notícia. Agora eles são convocados a prender-se a ela (cf. v. 15n). É como
quando um nômade monta sua tenda em certo lugar do deserto: aqui eu fico firme contra tempestades
de areia, escuridão, frio e animais selvagens perigosos. Da mesma forma um navio se amarra ao cais
contra correntezas, ondas e ventos. O carvalho se agarra com as raízes às rochas e desafia os séculos.
Isto são figuras para quem crê na boa notícia. Não faltará oposição – em Marcos a fé é sempre
“apesar de”! – porém uma calma firme como a rocha o domina. Ele deixa Deus ser Deus e lhe dá
uma chance na sua vida (cf. 6.36).
Em pessoas assim, Deus tem um grande prazer. Sobre Abraão lemos: “Ele creu no Senhor, e isso
lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6). Para Deus, o ser humano é perfeito quando deixa Deus ser
Deus. Aí Deus pode abençoá-lo de modo nunca imaginado, e torná-lo uma bênção. Existe também a
incredulidade, a greve contra a boa notícia de Deus. Recusa-se a alegria, até o sorriso ao saber-se
amado por Deus. Incredulidade assim dá início ao sofrimento de Jesus: “Ó geração incrédula, até
quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?” (9.19).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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