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07 A comprovação poderosa do ensino de Jesus pela cura do endemoninhado em Cafarnaum, Mc 1.21-28


A comprovação poderosa do ensino de Jesus pela cura do endemoninhado em Cafarnaum, Mc 1.21-28
(Lc 4.31-37; cf. Mt 4.13; 7.28,29; Jo 2.12; 7.46)

21-28 Depois, entraram em Cafarnaum, e, logo no sábado, foi ele ensinar na sinagoga.      Maravilharam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual 
bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de DeusMas Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai desse homem. Então, o espírito imundo, agitando-o violentamente e bradando em alta voz, saiu dele. Todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si: Que vem a ser isto? Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem! Então, correu célere a fama de Jesus em todas as direções, por toda a circunvizinhança da Galiléia.

Em relação à tradução
     a
     Cafarnaum (aldeia de Naum) ficava 4 km a oeste da foz do Jordão no lago de Genesaré, junto à antiga
estrada comercial que ia do mar Mediterrâneo para Damasco. Na época de Jesus ela ficava na fronteira entre a Galiléia e o norte da Transjordânia, com alfândega e guarnição militar. Diferente das cidades vizinhas de Tiberíades e Tariquéia-Magdala, esta que foi a principal localidade da atuação de Jesus era habitada
puramente por judeus.
     b
     Apesar do plural “nos sábados”, por causa do “logo” é preciso pensar em um sábado específico. O
plural estranho se explica a partir do aramaico.
     c
     Marcos usa sete verbos diferentes e alguns substantivos para descrever o espanto diante do ensino de
Jesus (ao todo 34 vezes; Pesch I, 151). A abundância de passagens contrasta com antigas histórias de
milagres não-cristãs. Aqui estamos diante de ekplessesthai, literalmente espantar, enxotar. Esta expressão
forte se encontra ainda em 6.2; 7.37; 10.26; 11.18, e é intensivada aqui pelo imperfeito.
     d
     Expressão semita para demônio. O trecho paralelo em Lc 4.33 explicita, de acordo com o pensamento
grego, que o espírito imundo está na pessoa, portanto a possui.
     e
     Esta expressão também é conhecida no grego, mas o contexto aqui aponta claramente para 1Rs 17.18.
     f
     Como “Nazareno” em Marcos é claramente uma indicação de procedência, é dispensável deter-se na
assonância com “nasireu” (Jz 13.5,7; 16.17).
     g
     Antigo título judaico que, conforme 3.11 e 5.7, evidentemente tem o mesmo sentido de “Filho de
Deus” e, mais tarde, refluiu para trás deste título. Sobre a relação estreita das duas expressões veja Lc 1.35;
Jo 10.36.
     h
     Pfister (RAC II, 174) chama a atenção para o fato de que phimoun não significa “fazer calar”. Mais
próxima está a idéia de amarrar, estrangular, prender, amordaçar, e até exilar (p ex nos papiros de magia).
Em nossa passagem o espírito não se cala, mas grita alto, e em 4.39 a ordem de calar é a mesma. O que
importa, portanto, é a perda do poder, não da palavra, se bem que esta pode ser subseqüente àquela. Cf
outros exemplos do NT: o boi em 1Co 9.9 não é impedido de soltar sons, mas de comer quando o
amordaçam. Também em Mt 22.12,34; 1Pe 2.15 a questão não é o silêncio em si, mas a incapacidade de
opor resistência.
     i
     A expressão trai o fundo idiomático semita: está em lugar de um advérbio.
     j
     O sentido básico de thambeisthai é “ficar paralisado de medo”, muitas vezes diante de uma
manifestação sobrenatural (em Mc também 10.24,32; 9.15; 14.33; 16.5,6).
     l
     A relação do genitivo não está bem clara. Trata-se da região em volta da Galiléia, as províncias
limítrofes como em 3.7ss, ou a região em volta de Cafarnaum, correspondendo à Galiléia (genitivus
epexigeticus)? O círculo mais estreito, que ainda não ultrapassa a Galiléia, é favorecido aqui pelo v. 39.
Observações preliminares
1. Contexto. Este trecho esboça, junto com os três seguintes, algo como um dia de trabalho de 24 horas de
Jesus em Cafarnaum. Ele inicia com o culto de sábado, que ocorre no começo da manhã (v. 21b), segue na
casa de Pedro (v. 29), à noite na rua (v. 32), continua antes do raiar do sol (v. 35) e termina durante a manhã
com a partida da cidade (v. 38). Aos quatro períodos do dia correspondem quatro cenários (sinagoga, casa,
rua, deserto) e quatro platéias (judeus piedosos, grupo dos discípulos, multidão e tentador). Diante do senso
forte nos primeiros séculos para números e simbologia, este dia poderia bem ser colocado sob o número
quatro. Derivado dos quatro pontos cardeais, quatro é o número do universo e da universalidade em si. O
evento do reinado de Deus que se aproxima perpassa todas as horas e cenários e está à altura de qualquer
opositor. A palavra “todos” e assemelhadas são bastante freqüentes: v. 27,28,32,33,34,37,39.
2. Temática. Centrais são as afirmações sobre o ensino de Jesus nos v. 21,22,27, que se colocam como uma
moldura em volta do todo. O que elas emolduram, porém, não é o conteúdo do ensino de Jesus – este Marcos
não precisa repetir, depois do v. 14s – mas a expulsão de um demônio como prova da sua autoridade para
ensinar. Diante deste interesse, outras coisas são ignoradas, como o problema da quebra do sábado (cf. 3.1-6).
Falta igualmente toda referência à miséria pessoal do possesso (cf. 5.1ss; por esta razão falaremos da
atualidade das histórias de exorcismo para nós só quando chegarmos a esta passagem).
3. Jesus como mestre. O peso de Jesus como mestre é evidente em termos como “ensinar, mestre, ensino,
rabi”. Quando alguém ensina, é Jesus. Só em 6.30 são os discípulos que ensinam (só na forma aoristo), nas
demais 36 passagens é sempre Jesus quem ensina, nenhuma vez os professores da lei, que era a classe
professoral de Israel, tão cheia de si. Assim como as estrelas empalidecem quando nasce o sol, o negócio
magisterial dos judeus, que fizera o povo se tornar uma nação única de aprendizes, se desfaz em nada diante
do mestre Jesus. É digno de nota que os “sábios” (título costumeiro dos teólogos ordenados no século I) nos
evangelhos se tornam grammateis, literalmente “gramáticos”, ou seja, copistas, secretários. Quem conhece a
Bíblia se lembrará de 1Co 1.20: “Onde está o sábio? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do
mundo?” (cf. Rm 2.17-24). Como a instituição judaica de ensino expulsou o verdadeiro mestre, ela se tornou
vazia e sujeita à condenação. Jesus é cumprimento e fim da sinagoga.
4. Importância programática das expulsões de demônios. O fato de Marcos decidir pela expulsão de
demônios como prova da autoridade de Jesus para ensinar tem sua razão. Mateus usa o sermão da Montanha
(7.28s). Para ele a libertação do legalismo judaico era o mais importante. Marcos está mais interessado na
expulsão de demônios. Sua seleção de material o trai. Aqui temos uma expulsão que falta em Mateus, 5.1-20;
7.24-30; 9.14-29 são três outras para as quais Mateus só tem paralelos bem reduzidos, e em 1.32-34,39;
3.11s,15,22-27; 6.7,13; 9.38-40 menciona-se exorcismos dos quais a metade falta em Mateus. O motivo desta
ênfase certamente era o público cristão gentio de Marcos em Roma. Estes leitores eram afetados bem mais
pelos demônios do seu mundo do que o judaísmo abençoado pelo AT. E. Schweizer esboçou isto em um artigo
sobre o medo do mundo e dos demônios (Neotestamentica, 15-27). Segundo ele, os astros no firmamento não
despertavam enlevo e devoção, nem ainda sentimentos românticos, mas voejavam em torno da terra como
bolas de ferro ocupadas por demônios, cortando a humanidade dos poderes bons e protetores. Daí resultava a
atitude de fraqueza e autocompaixão diante da vida. Viver era sofrer. O ser humano se via como campo de
batalha das trevas, contradições e dúvidas.
Esta é a importância programática desta história de abertura. À sua maneira, ela expõe a boa notícia do v.
15. Assim Deus vem! Ele envia exorcismos à sua frente, seu mundo respirará livre de demônios depois que
céu e terra tiverem sido transformados por seu poder (Ap 21.1: “… e o mar já não existe”).
5. Sinagoga e professores da lei. Não era sem razão que os judeus tinham em grande conceito a “sua”
sinagoga (v. 23,39). Gostavam de chamá-la de “santíssima”. Na época de Jesus era personificava cada vez
mais o judaísmo em si. Em toda aldeia judaica, no país ou no exterior, existia uma destas “casas de reuniões”
(synagoge) ou “casas de oração” (proseuche). Nas cidades havia várias, em Jerusalém mais de uma centena, às
vezes diversas na mesma rua. Se possível, ficava em um lugar elevado, pois ninguém “devia morar mais alto”
(Daniel-Rops, p 360). Este centro judaico abrigava, além de salas de aula e alojamento para hóspedes, uma
sala retangular, com a frente de preferência voltada para Jerusalém. A principal peça de mobília era um
armário para os rolos das Escrituras, ladeado por dois castiçais de sete braços, diante deles um tablado com um
púlpito para leituras. Três vezes por dia a sala era aberta para quem quisesse orar, segunda e quinta-feira havia
uma reunião e no sábado o culto principal. Com isto a importância da sinagoga ainda não estava esgotada. Ela
não servia só de lugar de culto, mas também como lugar de reuniões do conselho de anciãos da aldeia, tribunal
e escola. Os judeus piedosos faziam o caminho até ela se possível uma vez por dia, pois “enquanto os
israelitas estiverem nas sinagogas, Deus deixará sua shekinah ficar com eles”. “Como a gazela salta pelos
montes, de arbusto em arbusto, Deus salta de sinagoga em sinagoga.” Se o piedoso faltasse um dia que fosse,
Deus perguntaria por ele (Schrage, ThWNT VII, 822ss).
Por trás desta religiosidade da sinagoga, porém, estavam os professores da lei. Eles deixavam o templo
para os sacerdotes e a influência política para os sumos sacerdotes, forjando a nação nas sinagogas. Ali tudo
estava na mão deles: o ensino, a jurisprudência, a interpretação e tradição (sobre seu método de ensino veja v.
22). Seu alto conceito (veja 2.6) não se baseava em sua origem familiar nem em suas posses, mas somente em
sua vida dedicada ao estudo da Torá e sua aplicação rigorosa ao dia-a-dia. Esta ocupação com a Torá era
considerada mais meritória que a construção do templo. Ela era a verdadeira fonte da existência do judaísmo,
de modo que, mais tarde, a destruição do templo não significou o fim do judaísmo (veja também 2.6).
Estes professores da lei o evangelho de Marcos menciona do começo até o fim (de 1.22 a 15.31), sendo
que, de dezenove passagens, em quinze eles aparecem como inimigos consumados de Jesus (Steichle, p 218).
A eles seguem a partir de 2.18 os fariseus, de 3.6 os herodianos, de 8.21 os principais sacerdotes e anciãos, de
14.47 o sumo sacerdote, de 15.1 Pilatos, de 15.11 o povo e de 15.16 os soldados romanos. A condenação dura
dos professores da lei não deve ser mal-entendida como antijudaísmo. Estes homens, em sua reação à boa
notícia de Deus, estavam guardando o nosso lugar, de modo que ninguém tem motivo para rir. Neles se
revelou o mistério da maldade que dormita dentro de cada um de nós, sob a forma da justiça própria e do
egoísmo mais refinado, nas ações “boas” e “cristãs” das pessoas, só que inextinguível até mesmo na
crucificação do Filho de Deus. Nesta cruz acabou sendo revelado de modo radical que diante de Deus
ninguém tem razão e todos carecem da graça (Rm 11.32).
     21     Depois de Marcos apresentar a mensagem e os acompanhantes de Jesus, ele passa a usar, no
original, o tempo presente – anúncio de uma situação importante: Entraram em Cafarnaum, a
cidade onde moravam Pedro e André. E, logo no sábado, foi ele ensinar na sinagoga.
Evidentemente os quatro foram juntos, como era natural para eles desde o v. 17, o que
ocasionalmente é mencionado (aqui no início do versículo e no v. 29). Via de regra as frases de
abertura falam somente dele, o Senhor. Ele está absoluto no centro (p ex 2.1,13,23; 3.1,7).
Exteriormente agora acontece algo bem comum: Jesus vai à reunião do sábado, como era costume,
e toma a palavra depois da leitura da Escritura, como era facultado a qualquer participante masculino.
Esta intenção era comunicada ao presidente da sinagoga ficando-se de pé. Também era freqüente que
os visitantes fossem convidados para fazer a leitura e exposição do texto do dia, como aconteceu com
Paulo em At 13.15. Foi só no século II que o ensino se tornou uma prerrogativa de teólogos estudados
(Jeremias, Theol., p 82). Aqui, porém, antes de Jesus se levantar e ensinar, está colocado um
significativo e, logo (cf. 1.10n). É como se alguém dissesse com o dedo erguido: Olhem, o mais forte
está entrando na fortaleza, o castelo do valente (cf. 3.27), para assumir a luta. Pois o que Jesus
ensinava na sinagoga? Marcos não deixou esta pergunta em aberto; seguindo sua linha de
pensamento, naturalmente deve ser encaixada aqui a boa notícia de 1.14s, se não quisermos negar o
sentido daquele relato de resumo. Que lá se fale de “pregar” e aqui de “ensinar” não nos incomoda,
pois Marcos usa os dois termos como sinônimos. No v. 39, p ex, o ensino de Jesus nas sinagogas é
chamado de “pregação”, e em 6.30 a “pregação” dos discípulos em 6.12 é chamada de “ensino”.
     22     A proclamação de arauto de Jesus transborda a moldura da exposição da Escritura costumeira dos
judeus. Maravilharam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não
como os escribas. A BJ diz que eles “ficaram espantados com os seus ensinamentos”. Rabinos sérios
ou empolgantes também podiam impressionar seus ouvintes, mas aqui estamos diante de uma
intervenção da esfera divina. Os ouvintes ficam totalmente desorientados e irrompem em um
turbilhão de perguntas, no v. 27.
O que os professores da lei ensinavam? Seu prestígio resultava de eles seguirem a tradição a ponto
tal que anulavam a si mesmos. Podiam provar que seu ensino vinha em linha direta do seu líder
espiritual, e do líder deste até Moisés. Para eles, a retidão terminava quando alguém apresentava um
ensino fora da relação professor-aluno. Decidir por si mesmos seria a última coisa que eles fariam.
Em Jo 9.28 eles proclamam orgulhosos: “Somos discípulos de Moisés”. Eles ocupavam a “cadeira de
Moisés” (Mt 23.2), sim, usavam até suas sandálias e seus óculos, estavam imersos nele quando
expunham a Escritura para o povo.
O que estava por trás deste ideal? Por meio desta corrente de tradição eles criam estar ligados ao
evento espiritual original de Israel, a revelação do Sinai, e transmitir esta à comunidade para que esta
pudesse ser verdadeiro Israel. Por esta razão eles faziam questão de não ensinar “de próprio punho”.
Eles estavam convictos que só assim a vida fluía em cada sábado em cada sinagoga.
Para horror de todos, Jesus quebrou esta corrente de tradição. Ele não invocava os pais, mas o Pai.
Falava não como rabino, mas como Filho. Pronunciou um novo início da revelação. Isto era algo
monstruoso: ele não trazia a revelação por meio de um duto do comprimento de séculos, mas era a
revelação em pessoa. Antecipando 7.1ss, podemos dizer mais: ele não só considerava a tradição dos
rabinos ultrapassada, mas até um corpo estranho. O judaísmo tinha deformado Moisés, violado a
vontade original de Deus. No fundo, tinham apedrejado Moisés. Por isso ele varreu a sinagoga, como
fez mais tarde com o templo. Nas duas ocasiões lhe perguntaram atônitos de onde vinha sua
autoridade (aqui v. 27, lá v. 11.27ss). Com base em que ele tomava essa liberdade? Ele não tinha
estudo nem formação (Jo 7.15), não vinha de família importante (Mc 6.1-8) nem pertencia a um dos
partidos judaicos, não usava roupa de profeta como o Batista (1.6) nem fazia exercícios espirituais
como jejum (2.18-20) ou batismo (1.8). A isto se juntou mais tarde sua amizade com os pecadores,
seus adeptos suspeitos, seus sofrimentos e, por fim, que foi pendurado na cruz (15.32). Mesmo assim,
e talvez fosse isto o que mais incomodava, ele se apresentava sem insegurança, plenamente certo do
seu envio por Deus e cheio do Espírito e do reinado de Deus. E, o que devia deixar os judeus
realmente perplexos: com todas as indagações que sua entrada em cena provocou, ele deixava marcas
indeléveis na consciência: “Sabemos que és verdadeiro e, segundo a verdade, ensinas o caminho de
Deus” (12.14).
     23     Em profunda percepção das conexões espirituais, a narrativa continua com um não tardou. Esta
proximidade de Deus deve ser insuportável ao espírito imundo. Simplesmente, é bem demais para o
mal. Diante da boa notícia, não são só os sofredores e doentes que se manifestam (v. 32-34), mas
também os espíritos maus.
Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual
bradou: – os detalhes biográficos, em contraste com 5.1ss, aqui são completamente suprimidos pela
descrição do confronto espiritual. Com a autoridade de Jesus, em um freqüentador do culto até então
quieto e comum, de repente as trevas se revelam. Mesmo assim, a diferença entre o possesso e seu
possuidor fica preservada. Pelo conteúdo das frases fica bem claro que é um espírito estranho que usa
as cordas vocais deste homem. Elas não espelham a consciência humana.
Com o ensino dos rabinos o espírito imundo não se sentira ameaçado, nem mesmo incomodado.
De alguma forma ele podia digerir todos os aleluias da liturgia deles. Na presença de Jesus, porém,
esta simbiose de profano com religioso se rompe. Gritos de guerra ecoam pela sinagoga.
Será que podemos relacionar sinagoga e espírito mau desta maneira? O pronome possessivo “na
sinagoga deles” (BJ) parece estar fazendo esta correlação (cf. também v. 39, em outra referência a
demônios): é típico para este lugar, e revelador, que um caos como este se manifesta. Com isto a
sinagoga é questionada totalmente como lugar onde flui a vida.
     24     Que temos nós contigo? soa o grito. Lc 4.34 o prefixou com um “Ah!”, que corresponde a um
gesto brusco de defesa. Com esta exclamação o mal, horrorizado, repele o bem que se aproxima dele,
ameaçador. De antemão ele está na defensiva. Usando o plural ele não está se referindo ao homem
possesso, mas a todo o reino dos demônios a que pertence. Ele está consciente do confronto
generalizado. Sua natureza demoníaca captou muito bem a situação: Jesus Nazareno, vieste para
perder-nos? Ele entendeu a missão de Jesus (cf. 1.38; 2.17; 1Jo 3.18), a inimizade fundamental de
1.9-13, entre o Filho e Satanás, vem à tona. Bem sei quem és: o Santo de Deus! Assim a voz do céu,
de 1.11, recebe um eco horripilante das trevas.
Na verdade, Deus é o “Santo”, especialmente em Isaías (1.4; 29.19; 41.14,16 e mais de 60 outras
passagens). O conceito de santidade hoje em dia é defensivo; o da Bíblia, contudo, é agressivo. Deus
não é santo no sentido de se retirar do mundo, mas de atacá-lo e santificá-lo. Isto vale também para o
seu enviado e, por fim, também para os discípulos deste santo (Jo 17.17s). Devemos lembrar também
de 1.8: o portador do Espírito Santo está em campo e assume o contraste absoluto com o espíritos da
impureza e da morte.
Por que Jesus é identificado com tanta clareza com seu nome, sua missão e sua natureza? É
evidente que a defesa quer recuperar seu poder: Você foi reconhecido! Em uma tentativa desesperada
de derrotar Jesus, o mistério da sua pessoa é revelado aos gritos.
     25     Mas Jesus o repreendeu. Só três vezes Marcos usa este verbo para pessoas que repreendem,
sempre como um excesso que precisa ser corrigido (8.32; 10.13,48). Nem mesmo o arcanjo Miguel,
em Jd 9, pode repreender, só requisitar: “O Senhor te repreenda!”, pois isto é uma prerrogativa de
quem é senhor. O Senhor do mundo tem exclusividade de duas palavras: a palavra de criação, que
gera vida, e a palavra de repreensão, que significa condenação (cf. Sl 9.6; 76.7; 80.17; 119,21; Is
17.13; 66.13). Seis vezes em Marcos esta palavra de repreensão sai da boca de Jesus (1.25; 3.12;
4.39; 8.30,33; 9.25), e em cada vez poderíamos dizer: quem ouve o Filho, ouve o Pai. Já vimos no v.
22 que o Filho tem autoridade: Palavra de vida e palavra de condenação do Pai estão à sua
disposição. Aqui a palavra de repreensão de Jesus não deixa acontecer a guerra de palavras que o
espírito imundo tinha iniciado. Como senhor, ele decide tudo, tira o poder e manda sair: Cala-te e sai
desse homem. Ao ser amarrado (cf. 3.27), o demônio perde a condição de poder oferecer resistência.
Ele é levado prisioneiro.
Preste atenção na brevidade assombrosa: Jesus não pergunta o nome, não faz uma oração-relâmpago, não fica fora de si em êxtase, não murmura fórmulas, não recorre a objetos como os
exorcistas judeus, não usa raízes medicinais nem vapores anestésicos - nada além desta ordem nua.
Jesus não só ensinava diferente dos professores da lei, mas também expulsava demônios
diferentemente deles (Lc 11.19). Ele o fazia “pelo Espírito de Deus”, como Mt 12.28 explicita.
Especialmente a partir do século II, os judeus se acomodaram cada vez mais à superstição do seu
mundo e entravam em verdadeiro diálogo com os espíritos ao expulsá-los, a ponto de se deixarem
instruir e aconselhar por eles (cf. Dam, p 27). Jamais este será um caminho que devamos seguir. Um
“olhar breve e incisivo” para eles já é mais que suficiente (K. Barth, KD III/3, p 609). Foi assim que
Paulo fez em At 16.18. Ele não quis saber de conversa. Ele só sente a dor de ver uma resistência tão
descarada ao reinado de Deus, e sua criatura tão atormentada. “Paulo ficou indignado”, e depois deu
a ordem.
     26     Então, o espírito imundo, agitando-o violentamente… Cair e contorcer-se também faz parte do
quadro clínico da epilepsia (cf. 9.20,26). Poder-se-ia temer pelo homem, mas Lucas acrescenta
expressamente que o demônio não podia mais fazer-lhe mal. Sua impotência diante de Jesus também
lhe tira o poder sobre o possesso. Tudo já aconteceu sob o sinal da libertação: bradando em alta
voz, saiu dele.
     27     As pessoas em volta se admiraram. O espírito imundo saiu, Deus chegou! Esta admiração, porém,
ainda não passa de espanto. Dele pode resultar fé ou descrença, louvor (cf. 2.12) ou blasfêmia (cf.
3.22). Esta posição dúbia se reflete também no fato de perguntarem entre si. Seis vezes Marcos usa
esta expressão para descrever uma discussão acalorada mas ainda não decidida. Também a pergunta:
Que vem a ser isto? fala mais de perplexidade do que de clareza. As duas exclamações seguintes se
referem à palavra de ensino e à palavra de repreensão (v. 25): Uma nova doutrina! Com
autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem! O milagre não ofuscou o
ensino, pelo contrário, trouxe-o para o centro da discussão. A avaliação do ensino, antes em termos
negativos (“não como os escribas”, v. 22), agora é afirmativa: ele é “novo” como o novo céu e a nova
terra, como a nova Jerusalém e o novo cântico, como a nova criatura e a nova aliança. Ela não é uma
alternância natural ao mundo, mas a interferência escatológica de Deus em nossa velha terra. A
palavra de Jesus é o cumprimento de Is 61.1 e passa para o milagre palpável. A passagem de um para
outro sem interrupção é o que impressiona. A palavra de vida e a palavra de repreensão são como que
da mesma fornada. No momento em que não é mais assim, em que os milagres “saem para passear” e
se tornam interessantes por si, Jesus se retira (1.35; 6.31s; 8.11s; 14.36; 15.29-32).
     28     O versículo final tem novamente o caráter de “relato de resumo” (opr 1 a 1.14,15). Então, correu
célere a fama de Jesus em todas as direções, por toda a circunvizinhança da Galiléia.
Expressões semelhantes se repetem nas descrições do sucesso de Jesus ao ensinar (“todos” com
substantivo determinado: 2.13; 14.1; 6.33; 9.15; 11.18; “toda”: 1.28,33,39; 6.55). Ele não fez nada
mais para se tornar conhecido (Mt 12.19), mas era tão especial, seu modo de agir tão “novo” que não
era possível deixar de ver e ouvi-lo. Maravilhosas coisas novas e grandes aconteceram através dele
em toda a Galiléia.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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