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08 A cura da sogra de Pedro, Mc 1.29-31

A cura da sogra de Pedro, Mc 1.29-31
(Mt 8.14,15; Lc 4.38,39)

29-31 E, saindo eles da sinagoga, foram, com Tiago e João, diretamente para a casa de Simão André. A sogra de Simão achava-se acamada, com febre; e logo lhe falaram a respeito dela.    Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los

Em relação à tradução
     a
     Já que a casa é identificada como residência de Pedro, apesar de ele ser de Betsaida, de acordo com Jo
1.44, pode-se concluir que Pedro mudou para a casa dos sogros, em Cafarnaum, depois de se casar. – Aqui fica claro que “deixar as redes” no v. 18 não significou o corte da relação com a família.
     b
     De passagem ficamos sabendo que Pedro era casado. Entre os primeiros cristãos este fato era bem
conhecido. 1Co 9.5 exclui a condição de viúvo.
     c
     Na Palestina vários tipos de febre são comuns até hoje. Ela era classificada a grosso modo como febre
“pequena” e febre “grande”. Com a região pantanosa ao redor de Cafarnaum, com seu clima subtropical,
combina a febre “grande”, parecida com a malária. Jo 4.52 fala de febre mortal. Em At 28.8 Lucas traz “a
descrição clara de uma disenteria com febre” (Weiss, ThWNT VI, 958).
     d
     Muitos gostam de dar sentido simbólico a egeirein, “levantar”, em 16.6 é uma expressão pascal, o que
certamente é apressado, assim como dar a kratein, “tomar pela mão”, o conteúdo de Is 41.13; 42.6; 45.1; Sl 73.23).
    e
     O tempo imperfeito, no original, destaca bastante sua atividade: quase dá para ver como ela começa a
trabalhar e como isto a realiza.
Observação preliminar
Detalhes interessantes da tradição. Temos diante de nós a história de cura mais curta e mais singela dos
evangelhos. O acontecimento é descrito aparentemente sem ênfase, sem título ou nome para Jesus, sem uma
palavra da sua boca. Além disso, parece ser uma milagre com o qual ninguém se admira. Mesmo assim
nenhum dos sinóticos deixou de registrá-lo, apesar de Mateus ter deixado fora a expulsão do demônio de Mc 1.21-28. Por isso todos os comentários perguntam que interesse a tradição teria nestes três versículos.
Pesch (I, 128) entende que a intenção é de contrastar a ação pública na sinagoga com uma manifestação no
círculo restrito do lar. A reclusão, porém, não é mencionada no relato, e até tornada secundária pela
continuação. Só razões externas ainda retêm o interesse de toda a cidade.
Haenchen (p 89) suspeita que o interesse é biográfico. Esta cura permaneceu inesquecível porque Jesus,
nesta ocasião, pela primeira vez constatou seus poderes para curar. Também seus discípulos ainda não tinham
pensado nisto, já que nem lhe pediram pela cura. Esta interpretação, porém, também não encontra apoio em
Marcos, que não diz que alguma coisa aconteceu pela primeira vez, nem em Mateus, que só a registra no cap. 8, depois de muitos outros feitos.
Bornhäuser (p 73) faz uma reflexão psicológica. O chamado dos dois pares de irmãos para o discipulado
acabou gerando problemas. As redes abandonadas no v. 18 significaram mais trabalho para os que ficaram. O Pai da Igreja Clemente de Alexandria afirma que Pedro também tinha filhos que precisavam ser alimentados.
Dificilmente a sogra estava impressionada com aqueles jovens que começavam a vagar pelo país. À irritação
junta-se a febre, além de cinco hóspedes para o almoço depois do culto. Tudo deu errado. Como o almoço está atrasado, naturalmente a conversa gira em torno da doente no quarto ao lado. Neste sentido, a cura é uma prova de que o Senhor não esquece as famílias daqueles que colocam em primeiro lugar o reino de Deus (Mt 6.33). Eles verão milagres específicos. Jesus não se manifesta só em assuntos eclesiásticos, mas também como amigo familiar. – Por mais bonito que soe tudo isto, temos de concordar que o texto transmitido não faz uso
destes pontos de vista. Passemos, então, ansiosos, à exposição.
     29     E, saindo eles da sinagoga, foram diretamente para a casa… Devemos levar em conta a
importância da “casa” na época dos primeiros cristãos, quando a vida ainda transcorria de modo
muito “caseiro” (kath oikias: At 1.13s; 2.46; 5.42; Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 2; cf. 2Tm
4.19). Tendo em vista a história precedente na sinagoga, está à mão o contraste do judaísmo com a
futura igreja como novo povo de Deus. A expressão diretamente confirma, como o v. 21, que
ocorrerá um evento teleológico. De qualquer forma, a enumeração das testemunhas denuncia a
importância do está por acontecer. Eles chegaram à casa de Simão e André, com Tiago e João.
     30     A sogra de Simão achava-se acamada, com febre. Como a mulher estava deitada sem forças no
quarto ao lado, sem poder falar por si mesma nem estender a mão, a febre não deve ter sido das mais
fracas. Com razão Lc 4.38 fala de “febre muito alta”. Logo lhe falaram a respeito dela, o que
certamente inclui o pedido para que ele a curasse, como Lucas explicita (cf. Jo 2.3).
     31     Então, aproximando-se, tomou-a pela mão. Ele não a sentou simplesmente na cama: tomar pela
mão e ajudar a levantar são maneiras comuns de descrever a restauração da saúde: colocar de pé
(Bill. II, 2). E a febre a deixou. K. Weiss (ThWNT VI, 958) acha que o termo “deixou” prova que
Marcos se referia a demônios por trás da doença, mas o termo tem tantos sentidos que, para tanto,
seria necessária mais uma indicação. A comparação com v. 21-28 também mostra que a descrição
não é de um exorcismo. Digno de nota é o contraste com as cura da época, cheias de práticas mágicas
antigas. Quem já leu as prescrições do Talmud (em Bill., I, 479) imerge aqui em outro mundo. A
continuação também é totalmente diferente:
Passando ela a servi-los. Das palavras gregas para “servir” aparece aqui aquela que denota
preferencialmente o serviço da mesa. A mulher não deixa que lhe tragam comida (diferente de 5.43),
nem prepara uma refeição especial para seu salvador, agradecida, mas recebe todo o grupo para a
refeição principal do sábado, por volta do meio-dia. Para poder desfrutar melhor as alegrias do
sábado à mesa, aconselhava-se comer pouco no dia anterior, para ter um bom apetite (Lohse,
ThWNT VII, 16). Portanto, todas as circunstâncias indicam que estamos aqui diante de uma das
ocasiões de comunhão de Jesus com seus discípulos à mesa, tantas vezes mencionadas nos
evangelhos (em Marcos ainda 2.15,18,19; 3.20; 6.31,41; 7.2; 8.6; 14.3,18ss). De acordo com 3.14,
elas são o centro do estar-com-ele, um antegosto da comunhão com Deus e com os outros filhos de
Deus na sua mesa. Elas são sinal de alegria; só quem está de luto é que jejua (2.18s). Foi para esta
família de Deus que a sogra recuperou a saúde e agora ocupa seu lugar feminino, preparando a mesa.
É claro que o procedimento foi revolucionário, como o reinado de Deus em geral. Jesus quebrou a
tradição que dizia que era humilhante para um grupo de homens ser servido por uma mulher em vez
de por um escravo. “Não se deve deixar uma mulher servir”, diz um documento mais recente (Bill., I,
480). Bem antes disto Josefo expressou a concepção oriental geral de que a mulher “em todos os
sentidos tem menos valor” que o homem (em Jeremias, Theol., p 217). A oração diária era só para os
homens, o estudo da Torá era só para os homens, o termo “discípulo” aplicava-se só a homens
(Rengstorf, ThWNT IV, 436; Oepke I, p 781). Jesus aboliu esta estrutura de opressão e incluiu uma
mulher na comunhão da mesa com seus discípulos, dando-lhe a posição de “discípula”. “Servir” é um
termo que em geral se aplica a discípulos (9.35; 10.43), se bem que com uma predileção por
mulheres que seguiam a Jesus (15.41; Jo 12.2; cf. Lc 8.3). Hoje em dia há outras formas de opressão
da mulher que precisam ser identificadas e desfeitas, e é questionável se hoje em dia ainda é um
gesto revolucionário deixar a mulher servir à mesa por ocasião das refeições conjuntas.
Portanto, o parágrafo teve um ponto de destaque. Ele não consistiu na cura em si, mas no serviço
da que foi curada. “Com isto a história foi mais longe que a anterior”, conclui Schweizer (p 28), e
com razão. No seu final há mais do que só admiração, que sempre pode optar por uma de duas linhas
de ação, fé e descrença. Ela termina com o quadro positivo do discipulado e, significativamente, com
a vida e a felicidade sob o reinado de Deus. De modo que as frases singelas ocultam uma paixão
contida e são ditas com voz elevada e interesse eclesiológico. Com isto temos um paralelo genuíno a
1.21-28: o poder de Jesus destrói a obra satânica e cria o novo povo de Deus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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