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09 As ações poderosas de Jesus à noite, Mc 1.32-34

As ações poderosas de Jesus à noite, Mc 1.32-34
(Mt 8.16,17; Lc 4.40,41)

32-34 À tarde, ao cair do sol, trouxeram a Jesus todos os enfermos e endemoninhados. Toda a cidade estava reunida à porta. E ele curou muitos doentes de toda sorte de enfermidades; também expeliu muitos demônios, não lhes permitindo que falassem, porque sabiam quem ele era. 

Em relação à tradução
     a
     opsia (completar com hora, “hora tardia”) tem o sentido comum de “anoitecer”, antes e depois do pôr-do-sol.
     b
     Esta indicação não tem nada a ver com emoções (contra Wohlenberg) nem tem valor simbólico (contra
Schreiber, 95.102: “escuridão que se aproximava demoníaca”; cf. Schmithals), só serve para precisar o
“anoitecer”. (De acordo com Jeremias, Abendmahl, p 11, Marcos tem dezesseis destas duplicatas
cronológicas, das quais a próxima está no v. 35, em que sempre a segunda expressão reafirma a primeira.) O pôr-do-sol era determinante para o reinício do dia-a-dia quando, entre outras coisas, doentes podiam ser
carregados. Como não existiam relógios, era necessário observar o céu, até que as três primeiras estrelas
estivessem visíveis. Este era o momento que marcava o fim do sábado. Os detalhes da guarda do descanso
sabático eram conhecidos em todas as cidades com um bom grupo de moradores judeus, inclusive em
comunidades romanas. Em Mt 8.16 falta a referência ao sol, porque falta todo o contexto do sábado. Lucas, por sua vez, menciona tanto o sábado como a posição do sol (Lc 4.31,40).
     c
     Cf 1.23n.
Observação preliminar
Contexto. A expulsão do espírito imundo em 1.21-28 e a cura da sogra de Pedro em 1.29-31 foram só
exemplos da operação de milagres de Jesus. Isto mostra o “relato de resumo” a seguir (opr 1 a 1.14s).
Diferente do primeiro relato de resumo, para a palavra de Jesus no v. 14, este dá uma visão geral das ações de Jesus, enquanto o terceiro encerra unindo pregação e curas. Marcos, portanto, está trabalhando por temas.
Uma das conseqüências disto é que não se pode concluir de v. 32-34 que Jesus não pregou nesta noite, só
atendeu doentes. Deste modo a apresentação, que segue os temas, estaria sendo mal entendida. Em termos
gerais é traçado em quadro bem uniforme de Jesus, mas não se pode dizer tudo de uma vez, nem é necessário repetir o que já foi dito.
     32     À tarde, ao cair do sol, trouxeram a Jesus todos os enfermos e endemoninhados. Depois que o
vencedor tinha-se mostrado na sinagoga pela manhã, a miséria em todas as suas cores se apresentou
assim que a hora o permitiu e inundou a casa de Simão, que tinha-se tornado casa de Jesus.
     33     Toda a cidade estava reunida à porta. É evidente que esta frase não serve como estatística de
todos os habitantes e doentes. No v. 32 “todos” os doentes tinham sido trazidos e curados (veja a
seguir), porém na manhã seguinte ainda havia muitos carentes (v. 37), que lá ficaram depois que
Jesus se fora (2.3). Portanto, a expressão é popular e geral, para destacar a onda de miséria que se
avolumou e os cercou.
No texto grego aparece o termo “sinagoga” na expressão “reunida”, no v. 33, de modo que este
merece ser tratado mais uma vez, só que desta vez sob uma luz totalmente diferente. Pela manhã
Jesus tinha diante de si o judaísmo altamente religioso, à noite o judaísmo totalmente desorientado.
Como os doentes via de regra não podiam participar do culto por causa da sua “impureza”, esta gente
ainda não pudera ouvir Jesus direito, e por isso não devem ser considerados crentes, antes
supersticiosos. Nas pessoas deles a outra Cafarnaum esparramou-se a seus pés, com todos os seus
odores físicos e emocionais. Até hoje, no Oriente, os idosos, as crianças e os cegos vagueiam pelas
ruas e caem sobre qualquer um de quem esperam um pouco de bondade.
Nós geralmente não ficamos mais aflitos e desnorteados com as doenças. Tranqüilos, vamos
procurar um médico. Um dia, porém, poderá ser constatada uma infecção sanguínea, uma inflamação
nos rins ou um tumor maligno. Nestas horas, a gente não se reconhece. Nestas circunstâncias também
o homem moderno, aflito, acaba parando em qualquer lugar, no charlatão, na cartomante, no espírita
ou no astrólogo, quem sabe até em Jesus, e o quadro dificilmente é mais bonito que o das pessoas de
Cafarnaum. É evidente que Deus não se compraz com superstição, ilusão religiosa e emoções não
resolvidas, mas ele ama os iludidos e confusos. Por isso Jesus abre a porta, passa pelas fileiras e
impõe as mãos sobre todos (Lc 4.40), sem esquecer ninguém.
     34     E ele curou. Que Jesus curava os doentes e libertava os possessos é um dos fatos históricos mais
bem provados. Nem seus adversários da época negaram esta realidade (cf. 3.2), só tentaram
interpretá-la diferentemente, relacionando-a com feitiçaria. Foi assim com os judeus durante a vida
terrena de Jesus (3.22s; Jo 9.16), depois com o Talmud (Bill. I, 39.631,1023) e Celso, o inimigo com
a melhor formação filosófica da sua época, no fim do século II. Só em tempos recentes é que os
milagres simplesmente foram negados: foi a paixão por milagres da Antigüidade, sem limites e sem
senso crítico, que atribuiu os milagres a Jesus, como também a outras personalidades destacadas.
Todavia, por que esta suposta tendência poupou João Batista (Jo 10.41), ainda mais que de um
profeta se esperava-se milagres?
Portanto, Jesus curava. Veja como o texto desenvolve uma certa linha. Ele curou “todos”,
“muitos”, “de toda sorte”. Com isto ele diferencia Jesus de outros operadores de milagres, inclusive
os profetas do AT. Os profetas não podiam fazer todos os milagres que queriam ou que lhes eram
pedidos. Desempenhavam tarefas limitadas, para as quais Deus os capacitava caso a caso. Lc 4.25-27
mostra isto muito bem: Entre muitas viúvas, “só uma viúva” recebeu ajuda, entre muitos leprosos,
“só Naamã” foi purificado. Aqui há mais: Jesus manifesta autoridade plena, poder absoluto. E ele
curou muitos doentes de toda sorte de enfermidades; também expeliu muitos demônios.
Naturalmente, em nossa maneira de falar, “muitos” não são “todos”. No semitismo que transparece
aqui, contudo, “muitos” pode significar “todos” (Jeremias, ThWNT VI, 536ss; Tabachowitz, p 38; cf.
10.45). Mateus, pelo menos, entendeu este semitismo como tal, escrevendo no texto paralelo: “ele
curou todos” (8.16; cf. o sentido de Lc 4.40). Imediatamente Mateus fala do Servo sofredor de Is 53,
que toma sobre si o fardo de muitos. Naquele contexto, “muitos” é a deixa (já em Is 52.14,15, de
modo concentrado em 53.11s) que mostra como os primeiros cristãos classificaram este influxo de
miseráveis e por que o registraram várias vezes. Os “muitos” em Is 53 guardam o lugar para os
incontáveis excluídos, para os pagãos mais distantes, para toda a raça humana. Cumprindo o 4º
cântico do Servo, Jesus trouxe a alegria divina não só aos judeus na sinagoga, mas também à noite,
nas ruelas, aos que não podiam ir ao culto, aos que eram pagãos na prática.
É claro que a multidão reunida não entendeu isto assim. Sua percepção estava muito aquém da sua
situação. Com os possessos já era diferente: eles sabiam quem ele era, não só o Jesus de Nazaré,
mas o Filho, como mostra a comparação com o v. 24. Jesus lhes proibiu que divulgassem isto: Não
lhes permitindo que falassem. Quem quisesse podia falar de tudo o que ele fazia (v. 28); ele queria
agir ainda nas outras cidades (v. 38s) e deixar que testemunhassem dos seus atos (v. 44). Tudo o que
ele fazia era público, assim como o que ele dizia. De acordo com 2.10, ele fazia milagres exatamente
para provocar reflexão. Porém para a essência do seu ser, a constatação de que ele era o Filho, ele
baixou a lei do silêncio. Assim, ainda em 6.14s; 8.28 o povo o considerava um profeta milagroso,
mas não o Messias.
Por que esta recusa da resposta, da conclusão de quem ele era, diante do senso tão forte de envio e
a atuação tão ampla como salvador? Por que ele só pregava o reinado de Deus, mas não falava de si?
Por que o brilho dos seus atos não podia cair sobre seu autor? Porque o lugar do autor ainda não era a
luz, mas a cruz. Nas qi 7b tentamos traçar esta linha que determina todo o livro (cf. também 1.44s).
É de Tilman Riemenschneider a impressionante xilogravura “Jesus entre seus torturadores”, que
representa seu suplício. Suas mãos, porém, estão bem soltas entre as cordas que o prendem; na
verdade, a única coisa que o prende é o amor de Deus pelo mundo perdido. Milhares de vozes lhe
sussurram: puxe as suas mãos para foras das cordas! Mas Jesus não lhes dá atenção, ele só ouve o
Pai. Este “só o Pai” revela totalmente quem é o Filho. Esta linha, que culmina com a confissão do
Filho de Deus em 15.39, perpassou sua vida desde o começo (cf. também 3.11s).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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