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100 A entrega de Jesus para ser crucificado em lugar de Barrabás, Mc 15.6-15

A entrega de Jesus para ser crucificado em lugar de Barrabás, Mc 15.6-15
(Mt 27.15-23; Lc 23.17-23; Jo 18.39,40; cf. Lc 23.4,15; Jo 18.38)

6-15 Ora, por ocasião da festa, era costume soltar ao povo um dos presos, qualquer que eles pedissem. Havia um, chamado Barrabás, preso com amotinadores, os quais em um tumulto haviam 
cometido homicídio. Vindo a multidão, começou a pedir que lhes fizesse como de costume. E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que eu vos solte o rei dos judeus? Pois ele bem percebia que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregado. Mas estes incitaram a multidão no sentido de que lhes soltasse, de preferência, Barrabás. Mas Pilatos lhes perguntou: Que farei, então, deste a quem chamais o rei dos judeus? Eles, porém, clamavam: Crucifica-o! Mas Pilatos lhes disse: Que mal fez ele? E eles gritavam cada vez mais: Crucifica-o! Então, Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás; e, após mandar açoitar Jesus, entregou-o para ser crucificado.

Em relação à tradução
a
kata também poderia aqui ser traduzido por “durante”, mas os interativos “soltar” e “pedissem”
recomendam a tradução distributiva: o costume deve ser preservado (cf. v.  8).
b
“Eles”, conforme o v. 8, não são mais os principais sacerdotes, mas os espectadores que se
aglomeraram.
c
legomenos não tem aqui simplesmente o sentido de “com o nome de”, pois neste caso teria de vir
depois do nome, e provavelmente também não “chamado”, pois este nome era bastante comum (Bill. I,
1031). É bem possível que temos aqui a indicação de Barrabás como candidato à anistia (com Pesch II, p
463; Schenk, EWNT I, 471).
d
Isto é, “apanhado” (Büchsel, ThWNT II, 59).
e
No grego o artigo é definido e pressupõe um caso conhecido.
f
Lit. “subindo”, pois o lugar do julgamento, seja o palácio de Herodes ou a fortaleza Antônia (cf. v.  16)
ficava em lugar elevado. A multidão veio a partir da cidade baixa. Os julgamentos roman os eram públicos
(com Dormeyer, p 72).
g
hikanon poiein, lit. “fazer o suficiente”, só aqui na Bíblia! A expressão é derivada do latim
(satisfacere).
h
Com phragelloun Marcos escolhe novamente uma palavra emprestada do latim (de flagellum ou
fragelium, chicote; em grego chicote é mastix, chicotear mastigoun, como na palavra antiga em 10.34). Os
leitores antigos sabiam o que significava ser açoitado, mas nós precisamos de maior explanação: “A
flagelação romana era executada de maneira bárbara. O delinqüente era desnudado e amarrado a uma estaca
ou coluna, às vezes também simplesmente jogado  no chão e chicoteado por vários carrascos até que estes
estavam cansados e pedaços de carne ensangüentada ficavam pendurados. […] Com escravos costumava -se
usar açoites ou chicotes cujas tiras de couro estavam providos de uma ponta de metal ou de vários pedaços
de osso ou de chumbo afixados em série. […] Diferente do direito judaico, o direito romano não tinha limite
máximo de chicotadas. Não é surpreendente ouvir que havia delinqüentes que […] caíam mortos durante o
procedimento” (Blinzler, p 321). “Portanto, a flagelação estava tão próxima da morte, que alguém que
sobrevivesse às suas conseqüências era encarado como retornado da morte” (Innitzer, p 217). O incidente de
15.21 pode ser um indício dos efeitos da flagelação de Jesus.
Observações preliminares
1. Contexto. Como no interrogatório por Caifás Pedro era o personagem de comparação, pelo qual Jesus
haveria de sofrer (opr 1 a 14.66-72), no interrogatório por Pilatos é esse Barrabás. Nos dois parágrafos
bastante longos Jesus parece ter uma “pausa”, na qual ele não age nem entra em cena para falar, e mesmo
assim ele e o sentido da sua morte são o centro do acontecimento. Aqui, em relação a Barrabás, aparece quatro
vezes a palavra-chave “soltar” (apolyein) que, notavelmente, também pode ser usada para a salvação cristã
(apolytrosis). Assim, Jesus aparece aqui como o resgate (lytron, cf. 10.45).
2. Maneira de narrar. O relato apresenta lacunas sob vários aspectos. P ex, não reconhecemos o lugar
exato, apesar de haver um indício no v. 8. Nada lemos sobre a primeira resposta do povo, talvez depois do v.
9, e nada sobre a apresentação dos candidatos à anistia. Mesmo assim o texto tem sua ordem, que são três
passos definidos com exatidão. A multidão pede (v. 6,8), clama (v. 13) e grita (v. 14). Pilatos primeiro se
digna graciosamente atender o pedido deles (v. 6,8), depois pergunta pela vontade deles (v. 9), para finalmente
atender impotente às orientações deles (v. 14s). Desta maneira, ao lado da liderança judaica e do governador
pagão, o povo judeu se posiciona como terceira instância com sua sentença de morte. Por isso os apóstolos
podiam responsabilizar o povo mais tarde: Vocês crucificaram Jesus (At 2.36; 3.15).
3. A anistia da Páscoa. “Não há evidências deste costume […] nem no direito judaico nem no romano”,
escreve Bultmann, Geschichte, p 293. Segundo Schweizer (p 194), ele é “altamente improvável” e “é um tapa
na cara da prática judicial romana”. Blinzler reuniu fatos irrefutáveis (301ss, 317ss; cf. Pesch II, p 462): a) Na
Antigüidade como em nossa época havia anistias em determinadas festas, coroações etc.; b) Havia a libertação
de presos cujo processo era anulado antes da conclusão; c) Havia indultos a pedido do povo. No ano 85, o
governador do Egito disse a um preso: “Você mereceu a flagelação, […] mas eu  dou você de presente ao
povo”; d) As forças de ocupação às vezes se davam ao luxo de fazer concessões aos subjugados, para acalmar
a situação e consolidar seu poder. Os historiadores conhecem tais favorecimentos, especialmente em relação
aos judeus e por ocasião de festas religiosas; e) Certos textos legais judaicos pressupõem a soltura de
prisioneiros na festa da Páscoa, e isto já antes do tempo dos romanos. – Blinzler suspeita que os romanos
continuaram este costume bem enraizado, até porque esperavam um  efeito favorável deste gesto generoso em
especial na Páscoa, em que o povo tendia a agitações ( opr 2 a 14.1,2). Portanto, a descrição aqui se insere em
contextos históricos possíveis.
4. Barrabás. Barrabás pode ter sido preso junto com outros, injustamente, pensa Pesch II, p 462, e Schenk
logo coloca esta idéia em EWNT I, 471. A informação no v.  7 sobre este candidato à anistia, porém,
certamente pressupõe que ele está comprometido, em contraste com Jesus, de quem ninguém conhece algum
crime, conforme o v. 14. O fato de Pilatos colocar exatamente a ele como candidato ao gesto de clemência
pressupõe que sua culpa fosse conhecida. Ele pode até ter sido líder de revoltosos (Mt 27.16: “um preso muito
conhecido”), responsável por matar, a ponto de  At 3.14 falar dele em termos gerais como assassino (cf. Lc
23.19). João o chama de “ladrão” em 18.40 – um apelido comum dos zelotes, naquela época (opr 3 a 12.13-17). Neste caso esta “revolta” não era alguma agitação interna dos judeus, mas uma ação hostil aos romanos
(com Blinzler, p 308; Hengel, Zeloten, p 33,43ss,64,389s; Pesch II, p 463). Desta maneira este líder de zelotes
passa para o lado do porta-voz do grupo  dos doze, Pedro. Os dois homens estavam cheios de expectativa pelo
reinado de Deus, mas vinculada à confiança na capacidade própria.
5. A “multidão”. A RAB  muitas vezes traduz o termo ochlos por “povo”, cf. v. 6). Em Marcos, com certeza
nem sempre se refere ao mesmo grupo de pessoas, mas em termos gerais é uma grandeza uniforme. A
multidão afluiu (3.4,13; 3.9,20,32; 4.1; 5.21,24,31; 6.33s; 7.14; 8.1s,34; 9.15,25; 10.1,46), gostava de ouvi-lo e
se maravilhava de sua doutrina (11.18; 12.37), a ponto de os líderes judeus não se atreverem a pôr a mão em
Jesus (11.18; 12.12). O temor de um levante em favor de Jesus teve um papel decisivo nas ações dos
principais sacerdotes (14.2; ali, na verdade, povo é laos). Dificilmente Marcos, nos v. 8,11,15, pensa com
ochlos em um grupo totalmente diferente, como uma turba de gente paga, antes, em todo o público de
Jerusalém. Como, então, se explica esta mudança de atitude repentina? No cap.  12 a multidão ainda protege
Jesus. Agora, depois do intervalo de dois capítulos (des considerando o uso militar de ochlos em 14.43) ela se
mostra acessível e até suscetível à manipulação dos sacerdotes. O que aconteceu no intervalo?
Primeiro temos de avaliar o efeito da mudança de lado de Judas. Ele não era qualquer um, mas membro do
grupo de doze que Jesus levava ostensivamente consigo como base do povo messiânico. Quando se espalhou a
notícia de que neste grupo central havia rachaduras, e isto os principais sacerdotes devem ter providenciado, o
povo ficou atento. Esta é a razão da “grande alegria” em 14.11. A fascinação por Jesus apagou-se, o ceticismo
das autoridades parecia confirmar-se. Assim, depois de Judas, todos mudam de lado: os discípulos, Pedro e o
povo. Ninguém mais toma partido por Jesus, de modo que até Pilatos pareceu surpreso. Outra razão para a
mudança de atitude estava nas circunstâncias do aprisionamento e dos interrogatórios. A impotência indizível
deste Messias, em palavra e ação, não podia ser digerida. A esperança transformou-se em decepção e,
finalmente, em paixão louca e irracional para eliminar a decepção. Deste modo a multidão foi empurrada para
uma coligação cada vez mais estreita com o Conselho Superior.
6  A paixão dos judeus preveniu Pilatos para que não fizesse o que era lógico, soltando Jesus. A coisa
parecia transformar-se em uma questão política, o que, como ele conhecia os judeus, poderia abalar
sua própria posição (Jo 19.10). Deveria ceder? Disto o impedia seu orgulho e seu ódio pelos judeus
(opr 3 a 15.1-5). Nesta situação, ele enveredou por um caminho em que ele dava a volta na oposição
direta aos membros do Conselho e pensava mesmo assim conseguir a libertação de Jesus. Ele passou
o comando ao povo, do qual podia esperar que admirasse Jesus, e cujas críticas à classe dominante
ele gostava de ouvir (cf. as citações judaicas em 11.15). De acordo com o v. 10, ele percebeu que os
líderes nada mais queriam que eliminar um rival (cf. Jo 12.19).
A ação só continua no v. 8. Primeiro Marcos precisa dar informações sobre a anistia da Páscoa (cf.
opr 3). Ora, por ocasião da festa, era costume soltar ao povo um dos presos, qualquer que eles
pedissem. É claro que Pilatos tratou o Senhor, querendo soltá-lo por meio  deste costume, a princípio
como culpado, pois só quem é culpado pode ser sugerido para a anistia. Neste sentido Pilatos
desviou-se aqui da trilha do direito. Ele colocou, mesmo que com “boas” intenções, o justo ao lado
do criminoso.
7  Agora só falta apresentar o outro candidato aos leitores (cf. opr 4):  Havia um, chamado Barrabás,
preso com amotinadores, os quais em um tumulto haviam cometido homicídio.
8-10  Enquanto isso, o lugar externo (Jo 18.33), diante do palácio (cf. v. 16n) se enchera de gente. Seu
papel na anistia da Páscoa era um ponto alto para eles. Vindo a multidão, começou a pedir que lhes
fizesse como de costume. E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que eu vos solte o rei dos
judeus? Do modo mais desajeitado possível ele tentou influenciar a formação de opinião deles, para
fazer dos desejos dele os deles. Jamais, porém, a escolha deles poderia coincidir com a do
governador odiado, por mais que ele rotulasse seu candidato como judeu patriota e importante,
campeão da liberdade deles. Em tudo isso ele mesmo nem por um instante levou a sério este “rei dos
judeus”. Do ponto de vista romano, Barrabás é que era perigoso. Pilatos era guiado somente pela
intenção de separar povo e liderança.  Pois ele bem percebia que por inveja os principais
sacerdotes lho haviam entregado.
11  Os últimos acontecimentos, porém, tinham trabalhado a favor do Conselho Superior (opr 5). Mas
estes incitaram a multidão no sentido de que lhes soltasse, de preferência, Barrabás.  De fato, a
multidão, há pouco ainda afeiçoada a Jesus, voltara a seu primeiro amor. O zelotismo gozava
naqueles anos e décadas de simpatia crescente (Hengel, Zeloten, p 347ss). Sofrendo sob a violência
de Roma, o povo esperava sua libertação por meio de homens violentos (Lc  19.42-47). Por esta
razão, o que este Barrabás queria era compreensível a todos, mas o que Jesus queria ninguém mais
entendia. Alguém que não faz nada, que não parece fazer nada, perde facilmente a simpatia do povo.
12  Assim, Pilatos, para seu horror, ficou como o único que ainda se empenhava por Jesus. Isto, por sua
vez, contribuiu para a desgraça de Jesus. O Messias haveria de ser protegido por Roma? Isto era
demais. Sob estas condições, Pilatos lutava como derrotado de antemão. A frase seguinte  já deixa
entrever que será Barrabás o beneficiado pela anistia. Mas Pilatos lhes perguntou: Que farei,
então, deste a quem chamais o rei dos judeus? É claro que para Jesus só restava a morte. Só
Pilatos ainda não queria entendê-lo.
13,14  Eles, porém, clamavam: Crucifica-o! São os judeus que soletram para o romano como os
romanos costumam agir com reis rivais. O romano ainda faz uma tentativa débil de conduzir o
processo para vias jurídicas. Mas Pilatos lhes disse: Que mal fez ele? Será que eles não vêem que é
a inveja descarada que dita as ações dos principais sacerdotes? Porém eles não querem mais saber de
conversa. Conscientemente eles declaram culpado um inocente. “Declaram”, na verdade, é um
elogio. E eles gritavam cada vez mais: Crucifica-o!
15  Finalmente Pilatos muda seu curso para o caminho da injustiça. Então, Pilatos, querendo
contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás; e, após mandar açoitar Jesus, entregou -o para ser
crucificado. No mesmo momento em que a inocência de Jesus fora reconhecida por todas as partes,
todos o destinam à morte. Cinco vezes a tradição preserva este resultado (Lc 23.4,15; Jo 18.38; Mt
27.19-24 e aqui). Para esta declaração involuntária da inocência de Jesus os primeiros cristãos tinham
ouvidos atentos. Neste ponto também a “entrega” do Filho do Homem chega ao fim. A opr 1 à
divisão principal 14.1–16.8 trata de origem, caminho e meta desta série de entregas, que passou o
Senhor de uma mão a outra, até que ele chegou à cruz.
“Após mandar açoitá-lo” é uma só palavra, no grego. A flagelação era a pena que acompanhava
normalmente a crucificação (Bill. I, 1033s; C. Schneider, ThWNT IV, 523; Pesch, p 466; diferente de
Blinzler, p 22s. Para a aplicação, cf. nota à tradução). Flagelação e crucificação eram o procedimento
jurídico completo que Jesus sofreu. Ele suportou o tratamento dispensado a um criminoso  – por
Barrabás e “por muitos” (10.45; 14.24), “por nós” (Is 53.12).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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