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101 O escárnio de Jesus como rei dos judeus, Mc 15.16-20a

O escárnio de Jesus como rei dos judeus, Mc 15.16-20a
(Mt 27.27-31a; Jo 19.2,3)

16-20a Então, os soldados o levaram para dentro do palácio, que é o pretório, e reuniram todo o destacamentoVestiram-no de púrpura e, tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça. E o saudavam, dizendo: Salve, rei dos judeus! Davam-lhe na cabeça com um caniço, cuspiam nele e, pondo -se de joelhos, o adoravam. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe a púrpura e o vestiram com as suas próprias vestes.

Em relação à tradução
a
A partir do v. 15 Jesus estava entregue a soldados romanos, no que, porém, não se deve pensar em
italianos. Na Palestina serviam “tropas auxiliares” recrutadas entre a população local que não era de origem
judaica, como samaritanos e sírios, cujo ódio pelos judeus era notór io (Blinzler, p 370).
b
aule, aqui não o “pátio” como no v. 66, mas “pátio interno do palácio”, por causa da continuação.
c
A observação tem uma linguagem complicada, provavelmente inserção de Marcos para leitores
familiarizados com as instituições romanas. O praitorion originalmente era o abrigo do pretor (comandante
do exército) no acampamento, ou seja, a barraca do comandante. Quando o título passou para os
governadores das províncias, passou-se a chamar assim a sua residência. Geralmente o procurador ocupava o
palácio do antigo governante local. Onde residia Pilatos quando estava em Jerusalém? De acordo com a
maioria dos intérpretes não era na fortaleza Antônia, ao lado da área do templo, mas no antigo palácio do rei
Herodes, na colina ocidental, a maior elevação da cidade. Este era de longe mais suntuoso e também mais
espaçoso que a fortaleza. Acima de tudo, temos para esta fortificação o nome de “palácio do governador”
(Filo). Também sabemos que Pilatos, ao assumir o posto, afixou suas  insígnias não na fortaleza, mas diante
do palácio de Herodes, e que também seu sucessor (Floro) presidia os julgamentos ali (Blinzler, p 253 -259).
d
speira, usado para uma coorte (divisão do exército romano correspondente à décima parte de uma
legião, uns 600 homens) ou uma manípula (uns 200 homens) ou, quando não era usado como termo técnico
romano, como na LXX: tropa de número não determinado.
e
Conforme Mt 27.28, trata-se de uma capa de soldado, de cor vermelho-escarlate. Neste “teatro” ela
serviu de púrpura real. A coroa de louros também fora substituída por uma imitação de espinhos.
f
Os espinhos cresciam em toda a Palestina (cf. 4.7,18). Eram usados como combustível, p ex para a
fogueira do acampamento em 14.54,67.
Observação preliminar
Contexto. Nosso parágrafo dá a si mesmo o título de “escárnio”, no v.  20. Disto faz parte, como em 10.34;
14.65, cuspir como gesto de desprezo. Por parte dos judeus em  14.65 ele foi dirigido contra o suposto profeta
messiânico, por parte dos romanos aqui contra o suposto rei. Por que a tradição deu mais destaque ao escárnio
que à flagelação? A destruição moral era o ponto culminante do sofrimento (cf.  8.31), prelúdio do abandono
de Deus em 15.34. Ao mesmo tempo havia um sentido mais profundo, espiritual, que se prendia a este
acontecimento.
16,17  Então, os soldados o levaram para dentro do palácio, que é o pretório, e reuniram todo o
destacamento. A flagelação via de regra era feita em público. Em seguida, enquanto os soldados se
preparavam para marchar, eles prenderam o Senhor dentro do palácio. Como na Antigüidade os
vencedores tinham o direito de saquear as cidades, violentar as mulheres, etc., o grupo de guardas
podia tirar uma lasquinha neste condenado. Ensangüentado, nu e tremendo, ele estava parado no
meio dos homens que urravam, enquanto cada vez mais se juntavam a eles de todos os lados.
Pensando no julgamento público, eles tinham tido a idéia de uma boa “diversão”.  Vestiram-no de
púrpura e, tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça. Com os meios que um
soldado tem à disposição, eles o ajeitaram como rei. O trançado de espinhos eles tinham de enfiar
sempre de novo na cabeça dele, pois ele tendia a desfazer -se e cair. A narrativa, porém, não registra
as dores, pois para o crente este homem de dores praticamente brilha em sua vestimenta real.
18,19  O estilo solene (“começaram a saudá-lo”, BJ, cf. 1.45n) mostra que se chegou ao meio da cena:  E
o saudavam, dizendo: Salve, rei dos judeus! Eles irromperam em aclamações impetuosas como as
que conheciam do culto ao imperador, gritavam entusiasmados bênçãos para Sua Majestade e não
paravam de dar-lhe vivas. O brado de “salve” era um elemento importante dos hinos aos deuses
(chaire; Conzelmann, ThWNT IX, 351). É claro que tudo isto era feito entre risos, debaixo das
gargalhadas de toda a turba, e mesmo assim Jesus deu aqui o primeiro passo para subir ao trono de
Davi e, com isto, do mundo. A profundeza da sua humilhação era seu maior momento de triunfo.
Com toda razão Roma renunciou ao governo do mundo na pessoa destes representantes, aplaudindo
freneticamente o Senhor de todos os senhores.  Davam-lhe na cabeça com um caniço, cuspiam
nele. Era um misto selvagem de maus tratos que se repetiam e submissão fingida. Mas, será que no
gesto de cuspir não havia uma alusão ao beijo de reverência?  E, pondo-se de joelhos, o adoravam.
Vejam, seus rostos estavam colados no chão em devoção. Que importa que o gesto foi feito
zombeteiramente?! Era profecia de tirar o fôlego.
20a  Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe a púrpura e o vestiram com as suas próprias
vestes. Chega de bagunça! A troca das roupas no v. 16 e aqui emoldura o todo como uma unidade,
que desperta uma profunda reflexão.
Geralmente os condenados eram levados nus até o lugar da execução, para que no caminho
pudessem ser chicoteados com eficácia, enquanto cambaleavam sob o peso da viga (Blinzler, p 345).
Jesus, no entanto, usou suas roupas no seu caminho, o que o v. 24 confirma. Talvez seus torturadores
vissem que ele não resistiria a mais chicotadas, depois da tortura que sofrera, pondo em perigo a
crucificação. Esta, entretanto, era muito importante para todas as partes interessadas: para Pilatos
porque precisava proteger-se especificamente contra uma eventual reclamação ao imperador (Jo
19.12), para os judeus porque Jesus, ao ser pendurado na cruz, estaria para sempre excomungado e
amaldiçoado (Dt 21.23).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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