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102 A execução de Jesus, Mc 15.20b-41

A execução de Jesus, Mc 15.20b-41
(Mt 27.31b-56; Lc 23.26-49; Jo 19.16b-37)

a. Crucificação
Então, conduziram Jesus para fora, com o fim de o crucificarem. E obrigaram a Simão Cireneu, que passava, vindo do campo, pai de Alexandre e de Rufo, a carregar-lhe a cruzE levaram Jesus para o Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira. Deram-lhe a beber vinho com mirra; ele, porém, não tomou. Então, o crucificaram e repartiram entre si as vestes dele, lançando-lhes sorte, para ver o que levaria cada um.

b. Escárnio
Era a hora terceira quando o crucificaram. E, por cima, estava, em epígrafe, a sua acusação: O REI DOS JUDEUS. Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda.
Os que iam passando, blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ah! Tu que destróis o santuário e, em três dias, o reedificas! Salva-te a ti mesmo, descendo da cruz! De igual modo, os principais sacerdotes com os escribas, escarnecendo, entre si diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se; Desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos. Também os que com ele foram crucificados o insultavam.

c. Morte
Chegada a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra até a hora nona. À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Vede, chama por Elias! E um deles correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de um caniço, deu-lhe de beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá -lo! Mas Jesus, dando um grande brado, expirou.
E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. O centurião que estava em frente dele, vendo que assim expirara, disse: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus.

d. Testemunhas 
Estavam também ali algumas mulheres, observando de longe; entre elas, Maria MadalenaMaria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Saloméas quais, quando Jesus estava na Galiléia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas outras que haviam subido com ele para Jerusalém.

Em relação à tradução
a
aggareuein, obrigar a prestar serviços, a que os soldados romanos tinham direito, como força de
ocupação (ainda em Mt 5.41). A tradução simples “obrigaram” dá a idéia de resistência e uso de força física.
Não é isto o que a palavra quer dizer.
b
O antigo nome judaico Simão era tão comum que quase sempre era acrescido de um apelido, no
presente caso a indicação do lugar de onde o homem se mudara. Numerosos antigos judeus cireneus tinham
se fixado em Jerusalém (At 2.10; 6.9; 11.20; cf. 13.1), dos quais não poucos se tornaram cristãos.
c
agros pode indicar simplesmente a diferença com a cidade. A informação não pretende registrar o que
este transeunte acabara de fazer (trabalho agrícola) ou onde ele morava (fazenda), mas a direção da qual ele
vinha, que é contrária ao cortejo que saía.
d
stauros é, originalmente, uma estaca simples, vertical, que podia ser usada para qualquer finalidade
possível. Quando se tratava do instrumento de execução, a viga transversal em que os braços estendi das
eram amarrados já podia ser chamada assim. Em Jo 21.18 temos os três procedimentos: abrir os braços, ser
amarrado, ser conduzido (ao local de execução).
e
Aqui no contexto o tempo imperfeito significa: eles tentaram e lhe estenderam a bebida até os lábios,
de modo que ele o experimentou, mas recusou (cf. Mt 27.34).
f
Mirra é o sumo desidratado da casca de uma árvore balsâmica árabe, e geralmente era usada como
incenso. Ela deixava a bebida amarga e tinha um efeito calmante e anestésico.
g
A vestimenta judaica consistia de capa (10.50n), túnica, cinto e sandálias (1.6s; 6.8s) e cobertura para a
cabeça. A opinião de Michaelis, ThWNT IV, 253, de que devia tratar -se da roupa comum do povo, já que os
próprios soldados queriam usá-la, é infundada. O fruto do saque também podia ser transformado em
dinheiro.
h
Quando “e” (aqui lit.) insere o fato que determina certa hora, ele assume o sentido de “quando” (Bl-Debr, § 442.10; WB 775; com Pesch e Gnilka). Por isso também não temos aqui uma duplicação do v. 24a,
mas uma retomada deste versículo. As circunstâncias que acompanharam a crucificação são informadas.
i
A informação da culpa destacava-se em letras pretas ou vermelhas sobre uma tábua pintada de gesso
(titulus; cf. Jo 19.19). Esta era carregada à frente do delinqüente ou pendurada em seu pescoço. Segu ndo
Mateus e João, ela foi afixada depois acima da cabeça de Jesus (Kroll, p 388ss; Blinzler, p 367; Bill. I,
1038).
j
Somente em manuscritos posteriores à Idade Média consta o versículo contado como 28: “E cumpriu-se a Escritura que diz (Is 53.12): Com malfeitores foi contado”. Ao que parece ele foi adotado de  Lc 22.37,
onde aliás goza de boas bases nos textos.
l
Jeremias exige que se escreva “elohi” com h (Abba, p 937, nota 62). Ressoa aqui a metade de  Sl 22.2
em aramaico, a língua materna de Jesus - não em hebraico como no AT (como em Mt 27.46), que na época
de Jesus só era ainda a língua litúrgica dos judeus.
m
oxos também em Nm 6.3; Rt 2.14: vinagre de vinho diluído com água, uma bebida refrescante comum
na região para trabalhadores do campo e soldados. Com a bebida anestesiante do v.  23 ele nada tem a ver.
n
Novamente como no v. 23, parece tratar-se apenas de uma tentativa (imperfeito de conatu), cf. a
continuação adversativa: “Mas Jesus…” Ele recusou a bebida, ou tomou no máximo um gole inicial (Jo
19.28-30).
o
kentyrion, mais uma palavra emprestada do latim, com o sentido de “comandante de um grupo de cem
soldados”; é o grau mais baixo de oficial, como o de sargento.
p
Magdala era uma aldeia de pescadores na margem ocidental do lago da Galiléia. Portadoras do nome
comum Maria (no NT sete mulheres) recebiam um apelido.
q
É possível (com Pesch II, p 505s) que dois pares de mulheres sejam as testemunhas. Destas, as três
primeiras tinham o nome de Maria: a de Magdala, a mãe de Tiago e a mãe de José; para a terceira deduz -se o
nome do v. 47. Pelo paralelo de Mt 27.56, Salomé pode ter sido a mãe dos filhos de Zebedeu.
Observações preliminares
1. Contexto. Neste grande trecho, que martela dez vezes a palavra “cruz, crucificar”, finalmente se cumpre
o anúncio do reinado de Deus de 1.15. A palavra da cruz é a dinamite de Deus (cf.  1Co 1.18), que tira o velho
sistema  do mundo dos eixos e traz coisas novas. Já 3.6 preparara o leitor do evangelho de Marcos para a morte
de Jesus, como meta do livro. Quando mais os acontecimentos se aproximam da cruz, mais espessa se torna a
rede de indicações da hora. Podemos lembrar das indicações de tempo no rádio que preparam para a hora
completa e, por fim, anunciam cada segundo. Do mesmo modo Marcos aumenta a expectativa. Para nos
conscientizar que os eventos são cumprimento, ele passa de indicações de dias para indicações de horas.  Mais
ou menos às três horas da manhã cantou o galo (14.68). “Bem cedo”, portanto lá pelas 6, Jesus foi transferido
a Pilatos (15.1). Agora eles o pregam à cruz às 9 horas (15.25), às 12 começa a escuridão (15.33) e às 15 horas
Jesus ora na profundeza mais profunda (15.34). “Ao cair da tarde”, lá pelas 18 horas, encaminha -se o
sepultamento (15.42). Naturalmente não havia ninguém na Sexta -feira da Paixão marcando o tempo; os pontos
de referência são aproximados. Mas a estrutura de tempo com seus intervalos de três horas nos conscientiza o
governo supremo de Deus. Sobre a questão da cronologia, também as diferenças com João, cf.  opr 5 à divisão
principal 14.1–16.8.
2. Gólgota. “Caveira” no v. 22 está no singular, de  modo que não se deve pensar em caveiras espalhadas
pelo chão remanescentes de execuções anteriores, ou em um cemitério (contra Schlatter; Schenk). Os judeus
gostavam de comparar formas da paisagem com partes do corpo humano (cf. encosta da montanha, cotovelo
do rio; os árabes até hoje chamam uma colina de “cabeça”). Assim, devemos pensar aqui em uma elevação
semelhante a uma caveira. Onde ela ficava? Conforme o direito romano e judaico, as execuções eram feitas
fora dos muros (cf. Mt 27.32; Jo 19.17; Hb 13.12). Escavações a partir da década de 60 abaixo do muro
noroeste daquela época levaram a indícios dignos de nota. Ali se estendia antigamente uma pedreira enorme
de dezesseis metros de profundidade. O buraco resultante servia de valo de proteção ideal no flanco ocidental
de Jerusalém, que era relativamente desprotegido, mas também de lixão de entulho, como grandes quantidades
de objetos quebrados sugerem. No meio deste semicírculo profundo, os pedreiros tinham deixado uma parte
arredondada de rocha de menor valor, constituindo um monte artificial parecido com uma “caveira” (Speidel
traz um desenho na p 129). Este lugar ficava “perto da cidade” (Jo 19.20). O que acontecia ali podia ser
acompanhado dos muros como de um anfiteatro. Além disso, passava ali uma estrada de saída (Mc 15.29).
Portanto, podemos ver que este era um lugar favorável para uma execução, com o maior impacto possível
sobre o público.
3. A pena da crucificação na Antigüidade. O direito penal judaico não conhecia esta pena, apenas o
enforcamento do cadáver do executado em um poste – como castigo adicional. À desonra diante das pessoas
somava-se a rejeição por Deus e a eliminação do povo de Deus, pois “o que for pendurado no madeiro é
maldito de Deus” (Dt 21.23). Por isso também o Conselho Super ior fez questão de insistir na crucificação, no
caso de Jesus (Jo 18.31s). Os judeus aplicavam o texto citado também aos que eram crucificados ao estilo
romano. Neste sentido eles usavam freqüentemente o termo “madeiro” para a cruz (At 5.30; 10.29; Gl 3.13;
1Pe 2.24).
O peso que se dava à pena da crucificação entre os romanos é ilustrado com frases do famoso orador
Cícero, em um discurso no tribunal no século I: “Já é um delito algemar um cidadão romano, um crime
chicoteá-lo, praticamente alta traição matá-lo. O que, então, direi da crucificação? Não há palavra que possa
nomear um ato tão sacrílego.” Em outro discurso: “A própria palavra „cruz‟ deve ficar longe, não só do corpo
dos cidadãos romanos, mas também dos seus pensamentos, olhos e ouvidos!” (em Blinzler, p 257ss). Só para
escravos rebelados e populações estrangeiras revoltosas a crucificação entrava em consideração. Executada de
modo bem visível, levando demoradamente à morte durante dias, muito desonrosa por expor a pessoa nua e
muito cruel por causa dos sofrimentos terríveis, este é o clássico castigo de intimidação. Era considerado
indispensável para a manutenção da ordem política. A revolta liderada por Spartacus em 73 -71 a.C. terminou
em 7.000 cruzes. Esta coisa horrorosa, no entanto, também era usada para escravos fugidos individuais. Por
isso a visão de um homem nu que era chicoteado pelas ruas, com uma viga sobre os ombros, fazia parte do
cotidiano de uma cidade antiga. Um papel especial teve a pena da crucificação durante décadas na inquieta
Judéia e contra o movimento de libertação zelótico (“ladrões”, cf. opr 3 e 4 a 12.13-17). Durante o cerco de
Jerusalém no ano 70, diariamente (!) quinhentos ou mais judeus aprisionados eram pregados voltados para a
cidade, a ponto de faltar madeira e lugar para as cruzes.
Com razão chama-se a atenção para o fato de que Mt 15.24 resume uma série de ações impressionantes e
três palavras gregas: “Então, o crucificaram”. Uma grande sensibilidade fez os evangelistas ser breves, sem
dar lugar para descrições horripilantes. Eles não mencionaram os sofrimentos físicos de Jesus com nenhuma
palavra. Devemos, porém, levar em conta que seus primeiros leitores tinham estas descrições vivas diante dos
olhos. Hoje elas nos faltam. Nós conhecemos a cruz em nosso contexto somente como efeito decorativo. Por
isso para nós resultaria uma “palavra da cruz” totalmente abstrata, irreal, uma idéia de cruz, se o comentário
não contribuísse com certa medida de conhecimento de causa. Se atendemos a seguir a esta obrigação, convém
ainda levar em conta que este tipo de execução não tinha normas rígidas. O sadismo pessoal de juízes e
carrascos influenciava o processo conforme o humor de cada um. P ex, os romanos no ano 70 fizeram suas
vítimas morrer diante dos muros de Jerusalém em posições nada naturais. Por isso, no caso de Jesus também
não se pode fazer afirmações categóricas para cada detalhe.
Speidel informa p 131ss da descoberta, em 1969, de um crucificado que fora sepultado em um cemitério a
noroeste de Jerusalém, e que talvez tenha sido contemporâneo de Jesus. Os pregos (cf. Lc 24.39; Jo 20.20,25),
no caso dele, não tinham sido pregados através da palma da mão ou do pulso, mas entre cúbito e rádio. Um
único grande prego prendia os dois tornozelos sobrepostos à madeira. As pernas tinham sido quebradas
intencionalmente (cf. Jo 19.31s). Havia crucificados que ficavam pendurados uma semana inteira, até
enlouquecerem. O sol queimava hora após hora sobre o corpo nu. A dor dos ferimentos feitos pelos pregos não
diminuía. A distensão dos membros causava câimbras, começando nos braços e vindo para o meio do corpo. O
torturado podia firmar-se nos pés para minorar a tensão nos braços por algum tempo, mas isto demandava
muito esforço. Logo o corpo cedia novamente. Mais tarde ele tentava subir de novo, e assim ia para cima e
para baixo. Finalmente, as pernas fraquejavam. As câimbras atingiam os músculos da respiração. O agonizante
ficava sem ar. Caía a pressão sangüínea, diminuía o nível de oxigênio no sangue e aumentava o de gás
carbônico. A sede se tornava um suplício, o coração batia mais forte. O suor escorria pelo corpo. Insetos
pousavam sobre as feridas abertas. A temperatura do corpo subia. A irrigação de sangue da cabeça e do
coração ficava cada vez mais fraca, até que o coração falhava e a cabeça se inclinava para a frente, sobre o
peito (cf. Speidel, p 138; Blinzler, p 185s). Os romanos geralmente deixavam os cadáveres pendurados até que
as aves de rapina os tivessem devorado.
4. Interpretação da morte de Jesus. Em nenhum lugar da Antigüidade associou-se uma crucificação, e de
um Filho de Deus nem pensar, com uma idéia com sentido religioso. A  opr 5 à divisão principal 14.1–16.8
trata desta dificuldade e de como Jesus e as primeiras testemunhas receberam ajuda da Escritura. A narrativa
da morte em si em Marcos é iluminada por referências bíblicas. Nisto, porém, chama a atenção que faltam
indicações da morte de Jesus como sacrifício pelos pecados do mundo,  p ex Is 53 ou menções ao cordeiro
pascal ou referências ao sistema de sacrifícios. Em vez disto, o acontecimento é acompanhado, além de Sl
69.22 (vinagre, v. 36), principalmente pelo Sl 22: v. 1 (“Deus meu…” no v. 34), v. 7 (menear a cabeça no v.
29), v. 18 (distribuição das roupas no v. 24), talvez ainda o v. 8 (confiança em Deus nos v. 29-32) e o v. 15
(sede no v. 36). Só que falta a este salmo qualquer pensamento na expiação. Será que, portanto, ele também
não se aplica a este que é o relato mais antigo da Paixão? Será que esta aplicação central tradicional é
acréscimo posterior, quiçá estranho? Será que Jesus morreu somente como um sofredor conforme o Sl 22, um
modelo de confiança irrestrita em Deus até em situações extremas? “Na cruz, o 1º Mandamento é
restabelecido e cumprido. Além disso, nada aconteceu ali!”, exclamou Ernst Käsemann no Dia da Igreja de
1967, em Hanôver. O sentido de sacrifício, expiação ou resgate ele rejeitou com a determinação que lhe era
peculiar. Duas coisas devemos constatar em relação a isso:
a. Em Marcos não é demais esperar que, ao ler o cap. 15, ainda se tenha em  mente o cap. 14. Ali, porém,
pela última vez ainda em 14.22-24, Jesus interpretou o segredo da sua morte como entrega “por muitos”,
segundo Is 53 (cf. também 10.45). Além disso, parágrafo por parágrafo interpreta a morte de Jesus: ele morreu
como o verdadeiro cordeiro pascal (14.1-16), o bom pastor (14.27-31), o verdadeiro Filho do Pai (14.32-52), a
verdadeira testemunha (14.53-65; 15.1-5), ele morreu por Pedro (14.66-72) e por Barrabás (15.6-15). Ele é o
rei salvador crucificado por seu povo (15.16-19). Conforme estes testemunhos, Jesus é mais que um modelo
de fé; é mediador e fonte da salvação. Separar o relato da crucificação destes testemunhos é um método
questionável.
b. O Sl 22 não pode valer em sentido exato como interpretação da morte em si, já que s e trata exatamente
de um cântico de gratidão de alguém que fora preservado da morte e do sepulcro. Parecera que Deus o
abandonara, mas ele acabara experimentando o contrário. Deus estivera lá e atendera suas orações. No último
instante, antes que acontecesse o pior, ele o arrancou dali de maneira maravilhosa (cf. também  8.31). O Sl 22,
como todos os salmos, só podia acompanhar Jesus enquanto ele estava vivo. Ele iluminou o tempo anterior à
sua morte. Sua morte em si é interpretada de modo correto basicament e pelos sinais que Jesus deu aos seus
discípulos na última noite, bem como o sinal que Deus fez seguir logo no v. 38.
5. O grito de abandono no v. 34. Este grito de Jesus, nos termos de Sl 22.1, tem sido entendido de muitas
maneiras diferentes. Na maioria das vezes ele incomodou e foi atenuado. Já os zombadores do v. 35 o
desviaram de Deus para Elias. O evangelho de Pedro, do século  II , derivou: “Minha força, minha força, por
que me abandonaste!” Houve copistas que alteraram como se Jesus reafirmasse sua inocência: “Meu Deus,
meu Deus, por que me acusaste!” Os Pais da Igreja e todos os teólogos da Idade Média relacionaram os
sofrimentos de Jesus somente ao seu corpo. Seu espírito estivera constantemente ocupado com a contemplação
abençoadora de Deus (visio beatifica). O Corão (Surata 4), seguido hoje em dia por milhões de muçulmanos,
está convicto que este abandonado de Deus nem era Jesus. Os judeus teriam sucumbido a uma confusão e
crucificado o homem errado. Jesus fora arrebatado antes para o céu. No começo do século  XIX,
Schleiermacher afirmou que era impossível que a palavra do abandono de Deus fosse autêntica. Com toda a
capacidade de raciocínio cativante que ele tinha, ele a interpretou diferentemente. Jesus teria “pensado e
sentido sua morte com clareza e ânimo”. No século XX recorda-se o costume judeu de citar somente as
primeiras palavras de um versículo longo, mas pensando no todo. Neste caso Jesus teria orado todo o Sl 22,
que é um cântico de triunfo (Stauffer, Jesus, p 103,106; Bornhäuser, Leidensgeschichte, p 126,190ss). Lamsa
(p 205ss) recorre à circunstância que os originais antigos não tinham ainda sinais de pontuação, dizen do que
não havia aqui o ponto de interrogação. Na verdade tratava-se de uma exclamação surpresa, após o término da
obra: “Com que objetivo fui preservado (sabachtani = deixar sobrar)!” – Contra todas estas tentativas, importa
encarar o sentido simples das palavras.
6. A cortina no v. 38. No templo herodiano havia duas cortinas. A primeira estava pendurada, visível a
todos, entre o vestíbulo e o “santo lugar”. Ela substituía ali a porta que ficava aberta durante o dia. A segunda
separava, no interior do edifício, o “santo lugar” do “Santo dos santos”. As duas cortinas podiam ser chamadas
de katapetasma, como aqui, o que levanta o problema. A Igreja Antiga, mas também Zahn, Matthäus, p 715;
Kroll, p 391; Lohmeyer, p 347, identificaram o sinal em termos gerais com a primeira cortina, porque só esta
era visível ao povo. Só que “a cortina” dificilmente terá sido esta que, para o culto, era insignificante, antes a
interior, importantíssima nos atos de culto e aspergida com o sangue da expiação. A continuação da nar rativa,
em que ao oficial romano se abre ao mistério de Jesus, também favorece esta conclusão.  Hb 6.19; 9.3; 10.20
confirmam que os primeiros cristãos pensaram consistentemente na cortina interior neste sentido (com Bill. I,
1043ss; C. Schneider, ThWNT III, 631; Popkes, p 231; Pesch II, p 498 e outros).
a. Crucificação
20b  Então, conduziram Jesus para fora, com o fim de o crucificarem. Do palácio de Herodes até o
Gólgota eram somente alguns passos. Todavia, eles não escolheram o caminho mais curto, antes
passaram pelas ruas mais movimentadas. Roma demonstra o seu poderio.  – “Fora com ele!” é agora
o título de tudo o que segue. Na concepção dos judeus, uma execução “fora do acampamento”
significa eliminação completa de Israel (Lv 24.14; cf. Nm 15.35s). Por outro lado, “guiar para fora”
ou “sair” também é uma expressão bíblica de salvação, como mostram as histórias de Abraão e
Moisés (Gn 12.1; Êx 3.17). O tema da saída neste sentido positivo perpassa toda a Escritura, até Ap
18.4. Ele tem a ver com a salvação e vocação do verdadeiro povo de Deus (cf. p ex At 2.40). Por este
motivo podia haver entre os primeiros cristãos a convocação: “Portanto, saiamos até ele, fora do
acampamento, suportando a desonra que ele suportou” (Hb 13.12s). Não se pensa em um p rocesso
místico no coração, mas em um rompimento concreto dos vínculos sociais e culturais com o
ambiente e na participação determinada na vida, serviço e luta da igreja.
21  Do trajeto foi preservado um incidente que pode servir de sinal para os olhos da fé. E obrigaram
um homem que passava, que não tinha nada a ver com a história e não seguia a Jesus, nem como
inimigo triunfante nem como adepto compadecido (cf. Lc 23.27). Deve ter sido já perto do portão da
cidade, pois dentro dela não seria possível dizer de onde ele vinha. Portanto, o desfalecido carregou
sua cruz até o portão e até cair. Quando os soldados acharam que a coisa estava indo devagar demais,
seus olhos caíram sobre este homem, que vinha pela rua com neutralidade provocante. Assim, ele
teve de fazer uma das experiências ruins de um país conquistado e ser requisitado para prestar
serviços: a carregar-lhe a cruz. Marcos sabe dizer o nome dele: certo Simão Cireneu, vindo do
campo, pai de Alexandre e de Rufo. Esta referência aos filhos só tem sentido se os dois eram
conhecidos dos primeiros leitores. Rufo e sua mãe aparecem em Rm 16.13 como membros da igreja
em Roma. O caso raro de um homem que é identificado por seus filhos (segundo Bl-Debr, § 162.3
“impossível”) pode ser explicado pelo fato de que em Roma talvez só os filhos fossem conhecidos.
Em todos os casos – e esta é a conclusão provável  – Simão não pôde mais deixar de Jesus, nem sua
família. Em nossa passagem, porém, trata-se simplesmente de uma cena externa de eventos
espirituais futuros: estranhos e distantes chegam perto, seguem o crucificado e são agregados à igreja
do êxodo.
22  E levaram Jesus para o Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira. Eles o “levam”. No último
trecho ele estava tão debilitado como os enfermos e os cegos que antes eram “levados” a ele (1.32;
2.4; 7.3; 8.22; 9.17; 10.13). “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores
levou sobre si” (Is 53.4).
23  Deram-lhe a beber vinho com mirra; ele, porém, não tomou. “Dai bebida  forte aos que
perecem”, diz em Pv 31.6. De acordo com Bill. I, 1037, este gesto de compaixão cabia às mulheres
judias. Os soldados romanos o toleravam, até para ter seu trabalho facilitado pela meia anestesia da
sua vítima (cf. Grundmann, p 431s). Jesus, porém, não lhes opunha resistência mesmo, e não queria
entregar-se a Deus inebriado. Em certo sentido mais profundo ele na verdade era aqui o único que
estava sóbrio e livre. Simão agiu sob pressão, os soldados obedeciam a ordens, e até lançaram os
dados dominados pela ganância.
24  Então, o crucificaram. Arrancaram-lhe as roupas do corpo, jogaram-no no chão, puxaram-no com
os braços estendidos para cima do travessão, desceram os martelos. Depois a viga transversal, com o
corpo pendurado nela, foi içada pelo poste que já estava de pé, bem preso no chão. Para impedir uma
morte rápida, afixava-se no poste um apoio sobre o qual o crucificado pudesse sentar. Geralmente ele
estava somente um pouco acima do solo. Para uma exposição melhor, porém, também ha via cruzes
altas. A favor disto fala aqui o v. 36, onde diz que o soldado não podia estender a esponja até a boca
de Jesus sem fazer uso da sua lança (Blinzler, p 360).
Quase lit. repetem-se as palavras do Sl 22.18: E repartiram entre si as vestes dele, lançando-lhes sorte. Um adendo mostra a ganância deles: Para ver o que levaria cada um. Sim, eles tinham
sido mais fortes do que ele, e ao vencedor competem os despojos. E Jesus? Até a sua túnica agora
pertencia a um outro. Nem mesmo na morte ele tinha seu corpo para si. A narrativa usa palavras da
Palavra de Deus para dizer esta realidade indizível. Só assim ela é suportável. A frase anterior ao
versículo citado diz que os inimigos olham zombeteiros o corpo magro do inocente. Assim Blinzler
(p 366) resolve a questão se Jesus estava pendurado totalmente nu na cruz, conforme o costume
romano. No conceito judaico não era apropriado executar alguém sem pelo menos um pano em volta
da cintura. Blinzler conclui: “É possível que os soldados romanos, assim como toleraram a bebida
anestesiante, também neste caso tenham cedido aos escrúpulos judaicos”.
b. Escárnio
25  Era a hora terceira quando o crucificaram. A crucificação agora passa para a frase secundária, e
a ênfase passa para a indicação da hora (cf. opr 1). O objeto do relato é realmente um acontecimento
no tempo, não filosofia disfarçada, a “Sexta-feira da Paixão especulativa” de F. Hegel.
26  A inscrição da cruz lembra mais uma vez o que os v. 2,9,12,18 já mostraram: Jesus foi executado
pela Roma oficial como rei rebelde, mesmo sabendo -se que ele não o era. E, por cima, estava, em
epígrafe, a sua acusação: O REI DOS JUDEUS. Do titulus completo (veja nota à tradução) faziam
parte ainda nome e origem, além do motivo da condenação, mas Marcos, diferente dos textos
paralelos, traz somente esta forma curta. Não que ele tivesse se indignado especialmente com esta
acusação hipócrita. “Vocês sabem”, Jesus tinha dito em 10.42 aos seus discípulos, com vistas ao
caráter injusto deste mundo. Por que ainda criar caso, uma vez que isto está entendido? Os primeiros
cristãos sofreram a violência conscientes, mas sem reagir. Falavam, isto sim, do bom reinado de
Deus. É disto que se trata também aqui. Jesus na cruz é o verdadeiro rei. Ele não fundou seu reino
com o sangue dos seus súditos, mas com o seu próprio. Naturalmente um Senhor tão diferente
incomoda os senhores deste mundo, mas ele também conquista sempre de novo servos que o amam
mais que a própria vida (Ap 12.11).
27  Mais uma informação complementar: Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e
outro à sua esquerda. A posição é significativa. “Com ele” está colocado no começo e é sublinhado
mais uma vez no v. 32b. Jesus é rei sobre os desprezados e bem miseráveis. São estes que ocupam os
lugares à sua direita e esquerda, como sendo seus ministros (cf. 10.37). Como nota histórica, aliás,
este versículo significa que os soldados, depois da sua primeira brincadeira nos v. 16 -19, aqui se
permitiram mais uma. Jesus está classificado ostensivamente como líder rebelde, pois “ladrões” aqui
não são criminosos comuns, mas zelotes (cf. opr 4 a 12.13-17; diferente de Blinzler, p 308).
29  Então os judeus também começaram a zombar. O primeiro grupo “blasfema” dele (v. 29,30), o
segundo “escarnece” dele (v. 31,32a), o terceiro o “insulta” (v. 32b). Isto foi para Jesus o mais
amargo de tudo. Havia muita gente indo e vindo em volta da cruz. Muitos que tinham convivido com
ele antes queriam lançar um último olhar sobre ele. Os que iam passando, blasfemavam dele. No
conceito deles, é claro que quem blasfemava não eram eles, mas ele (14.64). Mas aqui temos o
parecer cristão: Eles pecaram contra o seu Messias. Meneando a cabeça, fazem o gesto de repulsa
do Sl 22.7: ele os repugna. E dizendo: Ah! Isto é ironia, pois se trata da exclamação de maravilha
jubilosa na posse de um rei (Bill. II, 52).  Tu que destróis o santuário e, em três dias, o reedificas!
As palavras e ações de Jesus no templo tinham com razão despertado expectativas messiânicas, que
também estiveram no centro do interrogatório (14.58). Este tema agora está encerrado para estas
pessoas. O “Messias” está pendurado no poste, no depósito de lixo. Contudo, estava oculto a eles que
a derrubada do templo e do culto e a construção do novo estava acontecendo naquele momento no
corpo de Jesus.
30  Os dois próximos versículos trazem três vezes a palavra-chave “salvar” do Sl 22.5,8,19-21.
Contudo, enquanto no salmo se pensa na salvação do crente por Deus, aqui propõe-se cada vez a
salvação própria: Salva-te a ti mesmo, descendo da cruz! Onde estavam agora os seus milagres?
Eles não entendiam que este operador de milagres, ao recusar ajudar a si mesmo, se tornou o maior
milagre do mundo.
31  Diferentemente do povo, os principais sacerdotes e professores da lei tomaram posição junto à cruz
em caráter oficial. Uma execução carece de testemunhas (cf. At 7.57). Um deles também pode ter
recebido o encargo de encorajar o moribundo a humilhar -se e confessar os pecados (Bill. I,
114,1037). Jesus, porém, na cruz como no interrogatório, ficou firme em sua reivindicação
messiânica. Isto pode ter desatado a zombaria. De igual modo, os principais sacerdotes com os
escribas, escarnecendo, entre si diziam, dando-lhes as costas com desprezo: Salvou os outros, a si
mesmo não pode salvar-se. Deste modo eles expressam em sua zombaria o amor imenso de Jesus,
dando-lhe sem querer o mais belo testemunho. Somente que eles não têm ou não querem achar
acesso a este belo e divino entre eles. Eles reverenciam conceitos bem diferentes, que até podem dar
boa impressão. O médico deve estar atento à sua própria saúde, se quiser cuidar de doentes (Lc 4.23).
O Messias precisa ficar vivo para poder agir como tal. O rei deve preservar-se para seu povo. Que o
contrário era o caso, que o Messias com sua morte serve aos “muitos” e edifica sua igreja (10.45;
14.24,27s), isto lhes estava oculto.
32  É impressionante o que eles dizem uns aos outros em seguida. Eles querem dar-lhe mais uma
grande chance, entregar tudo mais uma vez em suas mãos. Ele só precisa autenticar seu reinado
messiânico por meio de um milagre de auto-ajuda: Desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel,
para que vejamos e creiamos. (De acordo com Blinzler, p 362, aconteceu que um crucificado foi
retirado da cruz depois de várias horas e sobreviveu.) Eles seriam os primeiros a pôr -se de joelhos
diante dele para adorá-lo, depois de tê-lo condenado como messias falso. Seu suplício teria sido,
então, apenas um último teste da sua fidelidade, que resultou em uma confirmação tão espetacular.  –
Mas chega de “contos de fada”! Como mostra a seqüência, as falas deles estão no contexto do
escárnio. Uma terrível falta de seriedade predomina. Na verdade eles não têm um centímetro de
disposição para converter-se. A maneira como eles lidam com as provas da autoridade de Jesus,
acabaram de confessar: Ele salvou outros, mas o que isto nos importa?! (cf. 8.11 -13).
Na cruz nada se mexe. Jesus se entrega totalmente à sua imobilidade impotente. Ele responde a
estas palavras, que devem tê-lo atingido como lanças, suportando-as. Ele manteve sua graça também
para estes homens. Assim ele resistiu até o fim à tentação que tentara seduzi-lo logo no começo
(1.13) e depois no meio (8.33) do seu caminho.
Os dois crucificados ao lado de Jesus estavam excluídos da zombaria da multidão. Com certeza
estes combatentes pela liberdade secretamente eram admirados. Tanto mais eles mesmos entenderam
como piada sem graça a circunstância de serem colocados no momento da morte junto a este
apóstolo da paz incorrigível, e se distanciaram dele com veemência.  Também os que com ele foram
crucificados o insultavam. Com isto Israel com todos os seus grupos tinha se separado dele: a
multidão, os administradores do templo e da Escritura, e o movimento de resistência. Judeus e
gentios o tinham abandonado. Então Deus também o abandona.
c. Morte
33  Chegada a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra até a hora nona. Lc 23.44 diz:
“Escureceu-se o sol”, com o que não se afirma um milagre astronômico, pelo qual – na época da lua
cheia! – a lua tivesse bloqueado a luz do sol (contra Strobel, p 140; Conzelmann, ThWNT VII, 439).
O sol pode perder seu brilho para as pessoas por várias circunstâncias: uma nuvem de poeira
(tempestade de siroco; Innitzer, p 287; Pesch II, p 493), nuvens escuras ou bandos de gafanhotos.
Desde os tempos antigos até hoje, a escuridão, assim como a claridade, é carregada de
simbolismo. Ela provoca impressões de perigo e terror. Também no  AT ela denota todo o espectro do
que é assustador. Quem está preso na noite, está sob julgamento. Deus se voltou dele, ele está
separado de Deus e, talvez, também contra Deus (Jó 15.22-25; 18.6; 20.26; Is 13.9s; Jl 2.2; 3.4; 4.15;
Sf 1.15; Am 5.18-20; 8.9s). A escuridão aqui se estende sobre toda a região (com Sasse, ThWNT I,
676; Pesch II, p 493), não sobre o mundo inteiro, como querem muitos intérpretes. Mas será que esta
escuridão não simboliza pelo menos um processo de alcance mundial? Talvez o julgamento do
mundo (como pensa a maioria, com reticências Pesch II, p 494)? Ou o luto mundial da natureza
(como em Conzelmann, ThWNT VII, 440; Schenk, p 43; Schmithals, p 694)? Só que Jesus morre
quando tudo está claro, segundo o v. 37. Marcos relaciona a escuridão, ao repetir  a indicação da hora
no v. 34, ao grito de abandono de Jesus. Este grito segue ao sinal como uma palavra de interpretação.
De acordo com ele, a escuridão não significa a condenação do mundo, mas a condenação de Jesus.
34  À hora nona. A narrativa praticamente silenciou sobre o período entre 12 e 15 horas. Talvez os
sacerdotes e, com eles, os judeus devotos, tenham-se retirado, pois tinham trabalho a fazer no templo.
A partir de 13.30 começava lá a liturgia diária da tarde, em que se louvava e bendizia a Deus
(Stauffer, Jesus, p 104; Kroll, p 389). A hora nona, em seguida, era a hora da oração da tarde (Bill. II,
698). Sozinho em meio aos pagãos e excluídos e com a escuridão  clamou Jesus em alta voz. Ele,
que está fisicamente esgotado, de repente se torna totalmente oração. “Em grande voz” também
gritaram os mártires em Ap 6.10; “clamar” é a palavra-chave na oração do mártir no Sl 22, no qual
Jesus se refugia agora (v. 1,5,24).
Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
O fato de escrever em duas línguas deixa entrever que Marcos escrevia para leitores fora da
Palestina, pois lá a tradução de uma frase em aramaico teria sido desnecessária. Novamente a
transcrição das palavras aramaicas era necessária para explicar a distorção no v. 35.
O intervalo de tempo entre o grito da oração e o desafio zombeteiro do v. 32 é grande demais para
que relacionem os dois (contra Pesch II, p 495). O exegeta, porém, faz bem em prestar atenção à
seqüência imediata. As testemunhas auriculares do v. 35 ouviram um grito de socorro. Esta deve ter
sido a entonação básica, e não triunfo ou felicidade. Portanto, o grito deve ser entendido em seu
sentido direto.
Primeiro, o início: Deus meu, Deus meu, seja qual for a continuação, define o grito de Jesus
como um clamor em oração. Isto tira o tapete debaixo dos pés de todas as interpretações ateístas ou
niilistas. Strobel (p 156,160) chega perto de idéias assim em su a análise, que, no mais, vale a pena ler
(“experiência niilista da morte”). Para Jesus, no entanto, sua morte nunca esteve sob o sinal da falta
de sentido, mas da missão, se bem que uma missão de peso terrível. Ele não se horrorizou diante da
inexistência de Deus, mas de tal existência de Deus, que estava presente em tal ocultamento. O que
permite, sim, torna necessária esta linguagem paradoxal, é a circunstância de que este Jesus
abandonado por Deus mesmo assim invoca este Deus, e isto com afeto ainda mais profundo.
Consideremos o duplo meu na boca de Jesus. Quem, de todos os que jamais trouxeram a Deus seus
por quês torturantes, incluindo o salmista do Sl 22, podia chamar Deus de tão seu como Jesus! Jesus
vivia de Deus, com Deus e para Deus, fez uso singular do tratamento Abba e encarnava a
proximidade de Deus. Deus se identificara com ele (1.13 e 9.7) e sempre de novo o autenticara com
sinais e milagres. Jesus não podia ser sem Deus nem Deus sem ele. Como isto é inconcebível: Deus o
abandonou! Este grito rasgou o mundo.
Abandonar contém aqui bem mais do que a idéia do distanciamento espacial. Podemos observar
o termo já em relações interpessoais em 2Tm 4.10,16, mas também em promessas divinas de
fidelidade como Gn 28.15; Js 1.5; Dt 31.6,8; 1Cr 28.20; Hb 13. 5. Abandonar é entregar à própria
sorte, deixar perecer, deixar à mercê dos poderes da perdição. A conjunção nada rara “abandonar  –
retirar a mão” aproxima de “entregar” (paradidonai; cf. 1.14). Os dois termos encaixam. Com
“abandonar” a ênfase está em que Deus solta e retira sua mão, com “entregar” em passar para mãos
estranhas. Portanto, assim como Jesus não se queixou da inexistência de Deus, também não o fez da
sua inação. Ao abandoná-lo, Deus fez algo. Ele o entregou ativamente ao julgamento, e Jesus se
apavorou com um Deus irado, não com um mundo vazio de Deus.
Esta interpretação não discute a possibilidade de reconhecer no Gólgota também a imersão de
Jesus na desagregação física, no pavor da morte de todos os seres vivos e na dor básica da solidão
humana. Os evangelhos posteriores e as interpretações cristãs esgotam estas possibilidades. O
testemunho de Marcos aponta, é verdade, para um acontecimento dentro da Trindade: Meu Deus, por
que abandonaste a mim, teu Filho? Devemos pesar esta exclamação contr a o fundo de confissões
como Jo 8.29; 10.30: “O Pai não me deixa só” e “Eu e o Pai somos um”. Só assim temos uma idéia
do sofrimento indizível do Filho, mas também do Pai. Pois o Pai, ao não poupar o Filho (Rm 8.32),
não poupou a si mesmo, ele mesmo foi at ingido. De certo modo ele também sentiu a dor do
rompimento, não em sua substância, mas em sua atuação. A auto -revelação de Deus se dividiu e
entrou em tensão consigo mesma. De maneira incrível Deus estava contra Deus, Deus lutou com
Deus, Deus venceu a si  mesmo.
Deus resolve o problema do pecado do mundo nele mesmo. Lembramos das palavras de Os 11.8
onde, pelo contexto, só resta uma sentença de destruição para Israel: “Meu coração está comovido
dentro de mim (BJ: se contorce; cf. nota), as minhas compaixõe s, à uma, se acendem” (ou: o remorso
me queima por dentro). A Sexta-feira da Paixão é uma destas comoções, uma revolução no coração
de Deus. O remorso queima a ira, deixa brotar o amor no lugar da condenação e salva os pecadores
que não estão interessados em converter-se nem têm condições de fazê-lo. Sem o auxílio de pessoas,
de modo totalmente unilateral, Deus se reconcilia com um mundo inteiro e faz de cada pessoa mais
uma vez um candidato para coisas maravilhosas, novas e grandes. Neste chão de Sexta-fei ra da
Paixão ressoa pelo evangelho o desafio: Assumam sua candidatura, reconciliem-se com Deus! (2Co
5.19-21).
35,36  Os espectadores em sentido geral já foram mencionados no v. 29. O grupo dos que ali estavam
aqui deve ser, na terminologia militar, os soldados que estão de serviço, não curiosos à toa (Bertram,
ThWNT V, 836s; cf. 14.17,69s; 15.39; Jo 18.22; At 23.2). De acordo com o v. 36, há instrumentos
militares à mão. Estes soldados são da Palestina (15.16n). O aramaico em que Jesus gritou também
era a língua materna deles, e eles entenderam especialmente o destacado, longo  Elohi, Elohi!
Ouvindo isto, diziam: Vede, chama por Elias! E um deles correu a embeber uma esponja em
vinagre e, pondo-a na ponta de um caniço, deu-lhe de beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias
vem tirá-lo! Alguns intérpretes suspeitam que eles entenderam Elohi erroneamente como Elias.
Cativados pela especulação sobre a vinda de Elias (opr 2 a 6.14-16) eles agora queriam conservar
Jesus com vida por meio de uma bebida fresca o maior tempo possível, para dar uma oportunidade ao
milagre, isto é, à intervenção de Elias para socorrer. Contudo, “como Elias não veio, sucumbiu a
reivindicação messiânica, da perspectiva dos judeus” (Schlatter, Matthäus, Bornhäuser, Leiden, p
128; Grundmann, Geschichte, p 347; Dehn, Grob).
Pesch II, p 495, é mais convincente aqui, ao dizer que os v. 35s fazem parte das cenas de escárnio.
Os turnos de guardas tinham acompanhado a zombaria do messias pelos judeus. Junto com o
Messias, na crença popular geral, tinha de vir Elias. Brincadeiras com palavras são uma maneira de
entreter soldados entediados. Assim, distorceram Elohi para Elias e troçaram do moribundo com isto,
querendo forçá-lo a beber. Cumpriu-se Sl 69.21,22 (cf. Mt 27.34).
37  Mas Jesus, dando um grande brado, expirou. Morreu como se quisesse dar uma resposta àquele
desafio. Recusou prolongar sua vida e esperar por Elias. Morreu consciente e disposto, envolto em
zombaria e escárnio e sem que acontecesse qualquer milagre.
Este versículo já deu muito trabalho. Como os crucificados morriam em total esgotamento, os Pais
da Igreja viram neste forte grito um milagre. Todavia, não há nada que prove que um crucificado não
possa dar um grito como esse (Blinzler, p 373). Segundo opiniões recentes,  era um grito de desespero
inarticulado ou um grito de vitória salvador que rasgou a escuridão, um anúncio da morte para todo o
universo ou até a “arma de Iavé” para julgar o mundo. Quem chega mais perto é Grundmann,
ThWNT III, 901 (sobre Mt 27.50): “Com todo o contexto e o sentido do termo existente no AT e no
NT, trata-se com este grito […] de uma última súplica feita para Deus, como está em Lucas” (Lc
23.46). As fontes são unânimes: Jesus orou na cruz. Entretanto, esta oração não fez entrar uma onda
de calor, a morte não se tornou uma festa de libertação como a morte de Sócrates ou o “começo da
vida” como a execução de Bonhoeffer ou um triunfo da serenidade como em muitos estóicos ou, por
fim, um milagre da proximidade de Deus como com tantos mártires. Nada sugere uma tal mudança
depois do v. 34. Mesmo assim Jesus continua orando. Ele continua em “reverente submissão”,
mesmo suplicando “em alta voz e com lágrimas” (Hb 5.7, NVI). E é importante não tirar dos
sofredores deste mundo o Cristo sofredor, atenuando este versículo.
38  E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo, do modo mais completo
possível. Com certeza pôde-se remendá-lo, mas depois que o Gólgota se tornou o lugar de expiação
do pecado do mundo, o Santo dos Santos não mais passava de uma câmara profana qualquer. Deus
não estava mais entronizado ali. Estava lá fora da cidade, levantando a cruz contra pecado e culpa. A
morte de Jesus deu base à nova comunhão de Deus com os seres humanos, o novo culto. No próximo
versículo este culto começa simbolicamente: um pagão que ainda há pouco participara do assassinato
do justo pronuncia sua confissão genuína neste lugar liturgicamente impuro. Desde então, na fé de
Jesus, todas as pessoas podem achegar-se a Deus, qualquer lugar é bom para orar, o mundo inteiro é
o Santo dos Santos e Jesus é o novo templo.
Assim, ao versículo da morte de Jesus seguiu de imediato a interpretação. A linhagem do templo
(cf. opr 1 à divisão principal 11.1–12.44 e opr 1c a 12.35-37a) teve seu cumprimento, “porque o seu
santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22). Um segundo sinal para a
interpretação da morte de Jesus segue diretamente ao primeiro, por meio de um particípio:
39  O centurião que estava em frente dele, ou seja, estava de serviço (cf. v. 35), ainda não se
confessara a favor de Jesus enquanto este vivia. Só depois, vendo que assim expirara, ele se
pronuncia: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus. O que ele viu, para fazer sua
confissão? Com certeza não a cortina rasgada (diferente de Schenk, p 22,48; Schmithals, p 695). Os
textos paralelos de Mt 27.54 e Lc 22.47 usam “ver” no sentido geral de participar de acontecimentos,
que são o céu escurecendo, o tremor de terra, etc. De acordo com uma variante do nosso texto, o
comandante ficou impressionado com o grito forte de Jesus. Marcos, porém, usa “ver” no sentido
literal. O guarda podia observar muito bem de onde estava,  em frente dele, esta morte abandonada,
escarnecida, mas com oração. Foi esta atitude dia nte da morte sob uma medida grande demais de
humilhação suportada docilmente, esta disposição de morrer que o tocou, causou nele a mudança
para compreender a grandeza extraordinária. Foi a lógica de 1Pe 2.22s e Hb 12.2s.
A declaração de início incluiu uma afirmação solene da inocência de Jesus. É nisto que Lc 22.67
dá ênfase. Além disso confirmou a reivindicação de Jesus diante do Conselho Superior, quando foi
perguntado se era o “Filho de Deus”, ou seja, o Messias (cf. 14.61; Mt 26.63). Nas negociações
diante de Pilatos a questão também sempre era este reino messiânico (15.9,12,18,26,32).
Naturalmente esta confissão é surpreendente. O comandante viu este fracasso gritante, viu a
mesma coisa que os zombadores em volta, como eles não teve um milagre feito por Jesus ou em
Jesus para ver, mas aquilo que provocou zombaria nos outros, a ele convenceu profundamente. Este
paralelo misterioso de incredulidade e fé (cf. Jo 1.11,12) nos anima. Num piscar de olhos a
incredulidade pode se tornar em fé. Por isso ninguém deve firmar-se em sua incredulidade, talvez
estabelecendo condições como os líderes de Israel no v. 32, quanto ao que quer ver em um Messias.
Pelo contrário, preste atenção no que Deus lhe mostra e deixe-se conduzir e convencer pelo Espírito
de Deus. O verdadeiramente  inicial, assim como “em verdade” (cf. 3.28n) pode ter um tom
escatológico. Um impulso santo o faz proclamar um título tão radioso sobre um Jesus tão sem brilho.
Também falta à confissão o conteúdo pleno de depois da Páscoa. Para isto chama a atenção já a
formulação, de que Jesus era o Filho de Deus. Mesmo assim, o comandante sem nome, semelhante à
cortina rasgada do v. 38, encarna uma profecia em relação a pessoas de todos os povos confessando a
Cristo. Ele é um adiantamento do cumprimento do Sl 22.27,28. Outras promessas também se
cumprem aqui. Em 1.11 a condição de Jesus como Filho de Deus foi confirmada diante dele mesmo,
em 9.7 dos seus íntimos, e aqui diante do mundo inteiro. Da mesma forma a confissão de P edro de
8.29 tem seu eco aqui. Já ali Jesus a tinha vinculado ao seu sofrimento (v. 31). Aqui ela ressoou em
face dos seus sofrimentos consumados. A veracidade deste Messias não pode ser reconhecida
separada da vergonha que sofreu por nós.
d. Testemunhas
40  Um último grupo, que é mencionado com destaque e aparece mais uma vez, com pequenas
mudanças no v. 47 e em 16.1, surge diante do leitor: Estavam também ali algumas mulheres. Bem
no estilo da história de Natal ou de Pentecostes, Marcos apresenta as testemunhas (cf. Lc 2.8; At 2.5).
Sempre há este acréscimo às ações de Deus: ele também convoca as testemunhas.
Quem é testemunha tem de dizer o nome: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e (a
mãe) de José, e Salomé. Estes dois pares de testemunhas (cf. 6.7) podiam garantir três dos quatro
itens de fé básicos dos primeiros cristãos, em 1Co 15.3 -5: Jesus Cristo morreu (v. 40), foi sepultado
(v. 47) e ressuscitou (16.1), ficando o testemunho das aparições do ressuscitado  novamente por conta
do grupo dos doze (16.7). As mulheres tiveram de entrar como substitutas, porque as testemunhas
que tinham sido convocadas para a Paixão (cf. 3.14) não compareceram. Esta solução é digna de nota
e traz o carimbo da direção divina. Pessoas teriam tido uma outra idéia, já que as mulheres na
Antigüidade não eram consideradas qualificadas para testemunhar (Blinzler, p 403). Por causa deste
testemunho feminino, a igreja antiga teve de sentir o escárnio de Celso no século  II (Blinzler, p 411).
A tarefa das mulheres limitou-se a ficar observando (cf. ainda v. 47 e 16.4), o que as diferenciou
dos curiosos comuns, na linguagem dos evangelhos (theorein, ainda em Mt 28.1; Lc 24.37,39; Jo
20.6,12,14). O fato de elas observarem de longe não tem aqui o tom negativo de 14.54, mas
corresponde à discrição feminina, já que os crucificados estavam pendurados nus ou seminus na viga.
A aproximação dos familiares em Jo 19.25-27 foi um caso especial.
41  Para estas mulheres que serviam como testemunhas podem-se relacionar qualificações semelhantes
àquelas estabelecidas mais tarde para os candidatos à eleição apostolar em At 1.21s. As quais,
quando Jesus estava na Galiléia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas outras que
haviam subido com ele para Jerusalém. Pelo fato de o terem seguido sem intervalos, elas podem
testificar validamente quanto à identidade dele (Jo 15.27). Só posteriormente somos aqui informados
que Jesus também tinha mulheres que o seguiam em sua atuação itinerante (Lc 8.1-3), o que aliás era
“uma atitude extremamente ofensiva, que deve ter dado motivos para mudar a posição da mulher na
sociedade e na religião, na igreja e além dela” (Schürmann, Lukas, p 446; cf. Gl 3.28; At 1.14). Sobre
“servir”, cf. 1.31.
O comandante e as mulheres se destacam positivamente dos outros grupos no Gólgota. Como as
que confessam pertencer ao Messias crucificado, elas formam um grupo e são um tipo da
composição da igreja. As mulheres representam os que serviam há tempo, que já tinham seguido o
Senhor nas curvas do seu longo caminho e se entrelaçado com ele em incontáveis passos. O
comandante, por sua vez, representa os crentes novos que, sem herança espiritual, de repente são
separados da multidão de zombadores e agora são uma cabeça-de-ponte do evangelho neste mundo.
Desta forma o crucificado atrai a si os seus de todas as direções (Jo 12.32).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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