Pessoas que gostam deste blog

103 O sepultamento de Jesus, Mc 15.42-47

O sepultamento de Jesus, Mc 15.42-47
(Mt 27.57-61; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42)

42-47 Ao cair da tarde, por ser o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, vindo José de Arimatéia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, dirigiu-se resolutamente a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Mas Pilatos admirou-se de que ele já tivesse morrido. E, tendo chamado o centurião, perguntou-lhe se havia muito que morrera. Após certificar-se, pela informação do comandante, cedeu o corpo a José. Este, baixando o corpo da cruz, envolveu-o em um lençol que comprara e o depositou em um túmulo que tinha sido aberto numa rocha; e rolou uma pedra para a entrada do túmulo. Ora, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observaram onde ele foi posto.

Em relação à tradução
a
opsia (cf. 1.32n) indica aqui, devido à indicação mais exata que segue, um momento ainda anterior ao
pôr-do-sol.
b
epei, originalmente uma conjunção temporal (“quando”), porém no  NT sempre dando um motivo. A
indicação da hora explica por que José tinha de agir logo, se não quisesse que o corpo de Jesus fosse
carregado para a vala comum pública. Às 18 horas começava o sábado, e os judeus não corriam o risco de
deixar um crucificado pendurado no sábado (opr 3), preferindo matar e enterrá-lo antes.
c
Aqui somos informados no evangelho de Marcos sobre o dia da semana da morte de Jesus. Na sexta -feira à tarde, às três horas, toques de trombeta chamavam a atenção para os preparativos para o sábado.
d
José não viera há pouco de Arimatéia (provavelmente Ramataim de 1Sm 1.1, situada no norte da
Judéia na encosta da cadeia de montanhas, com vistas para o mar), antes, o local de origem servia de
segundo nome porque o primeiro era muito comum.
e
euschemon na verdade refere-se ao bom comportamento, de  modo que Lc 23.50 explica: “bom e
justo”. O termo, no entanto, também já foi encontrado como qualificação permanente de latifundiários
abastados (Jeremias, Jerusalem, p 111,254), tanto que Mt 27.57 pode chamá-lo de “rico”. A tradução acima
une os dois aspectos.
f
Lit. “conselheiro”, mas Lc 23.51 parece pressupor que José não era membro de um conselho qualquer,
mas do Conselho Superior, no qual fazia oposição. Então é muito provável (cf. 14.53) que o Conselho
Superior não estivesse completo na reunião noturna, ou 14.64 (“E todos o julgaram réu de morte”) deve ser
entendido como uma expressão arredondada.
g
Aqui não está soma como no v. 43, mas o termo mais específico ptoma (ainda em 6.29), para cadáver.
Isto pode ser um resquício de terminologia oficial. “Ceder” também (comprovado em escrituras de doações).
h
Segundo Mt 27.58s, Pilatos mandou “entregar” ou devolver a José o corpo de Jesus, e este o “tomou”
ou recebeu. Talvez os mortos já tivessem sido tirados das cruzes pelos soldados responsáveis para serem
levados embora, ou os judeus tinham providenciado isso ( At 13.29). José conseguiu liberar o corpo de Jesus
no último momento. Nosso versículo, porém, não exclui que o próprio José mandou tirar o corpo de Jesus da
cruz. Do mesmo modo geral também se pode dizer que foram os judeus que crucificaram Jesus (At 2.36 e
outros lugares), quando o serviço foi feito pelos romanos.
i
eneilein, na verdade “enfiar”. As mãos e os pés eram enfaixados, o corpo envolto em linho e o rosto
amarrado com um sudário (Jo 11.44; 19.40; 20.5-7).
j
Tempo imperfeito: Elas marcaram bem o lugar.
Observações preliminares
1. Contexto. Este trecho tem claramente seu peso próprio. A favor disso falam a nova indicação de tempo,
os nomes das testemunhas repetidos e o detalhamento. Ele gira em torno do segundo dos quatro itens básicos
de fé em 1Co 15.3-5: Jesus foi sepultado! Paulo acrescenta ali, no v.  11: “Assim pregamos”. Trata-se de um
ensino comum a todos os cristãos. Os quatro evangelhos traçam o mesmo quadro, o que deveria nos prevenir
contra colocarmos o retrato de José, fiel, corajoso e disposto a fazer sacrifícios, no centro da interpretação. Por
que, porém, os primeiros cristãos estavam tão interessados no testemunho do enterro de Jesus, fazendo um
relato tão amplo, em vez de passarem logo para a mensagem radiante da Páscoa? Por que dar tanta ênfase em
um ponto evidentemente fraco? Preservando o fato de que Jesus foi sepultado e que, portanto, estava
realmente morto, a igreja garantiu que a Páscoa fosse realmente uma suspensão da morte. O cadáver de Jesus
de certa forma serviu de arma para Deus para atingir o mundo da morte no coração, ou como alavanca , que
Deus colocou bem em baixo para tirar o último inimigo dos eixos. Visto deste ângulo, o anúncio do
sepultamento combina com um evangelho que não facilita o seu trabalho aplaudindo vitórias baratas na
superfície e deixando a humanidade sozinha nas profundezas.
2. Sepultamento dos executados. Os romanos deixavam pendurados na cruz os que tivessem morrido ali,
para apodrecerem e serem estraçalhados por animais de rapina até ficarem só os ossos. Somente pela via da
graça um corpo podia ser entregue para ser sepultado. Em termos de princípio, fazia parte da execução
também a perda da honra na morte. No conceito judeu também o fim da vida ainda não era o fim do castigo. A
condenação tinha efeitos para além da morte. Para os judeus, porém, a recusa do caixão ou do lençol e do
túmulo era algo tão horrível que não faziam isso nem mesmo com o pior dos criminosos. “Consideramos
nossa obrigação enterrar até os inimigos”, declarou o escritor judeu Josefo; “ninguém deve ficar sem ser
sepultado além do tempo determinado, depois de sofrida a pena”. O “tempo determinado” se referia à prática
de pendurar o corpo, depois da execução, pelas mãos no poste da vergonha, para intimidação pública  – mas
isto não podia passar do pôr -do-sol (Dt 21.22,23). Depois ele era sepultado, mas ainda não no túmulo da
família, para não desonrar os antepassados crentes com a presença do indigno. Em vez disso, ele recebia um
lugar no cemitério público. Só depois da decomposição a culpa era considerada expiada. Assim, os ossos eram
transferidos um  ano depois para o jazigo da família.
3. Proibição de sepultamento no sábado. Normalmente, portanto, o corpo de Jesus teria acabado no
cemitério dos criminosos, e isto no mesmo dia, antes do início do sábado às 18 horas. Aos demais crucificados
que ainda viviam eram quebrados os ossos das pernas com uma barra de ferro, causando a sua morte ainda na
sexta, pois não conseguiam mais sustentar o corpo (Jo 19.31-33). Geralmente havia um conflito quando
alguém morria muito perto do início do sábado, pois então o sepultamento estava proibido (Bill. II, 53; IV,
593; Jo 19.31,42). A seguinte história mostra como este preceito era levado a sério (em Haenchen, p 540):
“Um homem que estava à beira da morte na sexta-feira disse aos seus familiares: „Eu sei muito bem por  que
vocês me fecham os olhos e tapam o nariz. Vocês não querem transgredir o sábado. Eu, por mim, também não
quero, por isso podem continuar.‟” – Com a pressão do tempo diante do sábado que logo iria começar, começa
o nosso parágrafo.
42,43  Ao cair da tarde, por ser o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, vindo José de
Arimatéia. Já era a sexta-feira à tarde depois das 3 horas, e às 6 começava o sábado. Com seu
intento de antecipar-se ao transporte dos corpos para o cemitério dos criminosos, José tinha de
apressar-se (opr 3).
Pode-se imaginar que este homem notável tinha mudado há pouco tempo para a cidade, pois ainda
não possuía jazigo de família que já estivesse cheio dos ossos dos seus antepassados. Por isso ele
tinha mandado esculpir na rocha em seu jardim um túmulo novo (Mt 27.60; Lc 23.53; Jo 19.41;
20.15). Uma instalação como essa indica riqueza, pois os pobres enterravam seus mortos na terra ou
em cavernas naturais. Ele era um ilustre membro do Sinédrio, um aristocrata leigo. Que também
esperava o reino de Deus, como os idosos Simeão e Ana em Lc 2.25,38. Mt 27.57 e Jo 19.38 até o
chamam de “discípulo”. Chama a atenção que em volta do Senhor ainda vivo só se viam discípulos
fracassados, enquanto o Jesus morto suscita quem o confesse ( v. 39), testemunhe (v. 40), e este
seguidor que corre todos os riscos. Sepultar com honra o mestre falecido é realmente tarefa de
discípulos (6.29; At 8.2). Ele assumiu a tarefa em nome dos doze e das mulheres, que não estavam
em condições. Dirigiu-se resolutamente a Pilatos e pediu o corpo de Jesus.  Com isto ele arriscou-se muito e se identificou claramente com Jesus.
Devemos ainda levar em conta que tocar um morto no sétimo dia tornava a pessoa impura (Nm
19.11,12), o que a excluía da celebração do sábado em seguida. Simbolicamente José abandonou seu
povo antigo para integrar-se ao novo povo de Deus, que celebra a morte de Jesus como sua vida. Não
que estivesse ciente deste sentido, mas sua ação sobrepujou sua noção.
44  Mas Pilatos admirou-se de que ele já tivesse morrido. E, tendo chamado o centurião,
perguntou-lhe se havia muito, ou seja, antes que as pernas fossem quebradas conforme Jo 19.31-33,
que morrera. Com isto a morte de Jesus foi constatada oficialmente pela autoridade mais elevada.
Aos interesses dos primeiros cristãos isto se prestou muito bem (opr 1).
45  Após certificar-se, pela informação do comandante, cedeu o corpo a José.  O evangelho de
Pedro, do século II, imagina que Pilatos agiu aqui como admirador de Jesus e amigo pessoal de José
(2.3). Sua disposição, porém, explica-se pelo seu anti-semitismo notório (cf. opr 3 a 15.1-5). Agora
ele podia vingar-se pela sentença de morte que fora obrigado a dar, pois a liberação do corpo de Jesus
para um enterro digno ia diretamente contra os planos do Conselho Superior. Pilatos só precisou
atender com gentileza fingida um pedido das próprias fileiras deles.
46  Este, baixando o corpo da cruz, envolveu-o em um lençol que comprara. A menção repetida do
material valioso recém-comprado, portanto ainda não usado (cf. 14.51n) mostra a reverência em
relação a Jesus. O destaque dado ao túmulo caro e importante está na mesma linha.  E o depositou
em um túmulo que tinha sido aberto numa rocha.  De acordo com os textos paralelos tratava-se de
um lugar ainda puro, não profanado. Tudo proclama que o Deus que abandonara seu Filho na cruz,
apesar de tudo se confessa em favor deste morto. Do madeiro maldito ele  foi direto para o túmulo
honroso – um ponto de exclamação que prenuncia a Páscoa. E rolou uma pedra para a entrada do
túmulo. O momento em que a roda de pedra encaixou na sua posição (cf. 16.3) foi o ponto final da
morte de Jesus. As honras extraordinárias tinham sido para Jesus morto.
47  Para este ponto final voltam-se os olharem atentos das testemunhas oculares (cf. v. 40). Para poder
prestar seu serviço de amor depois que passar o sábado (cf. 16.1), elas precisam saber em que lugar
da instalação fúnebre ampla (cf. 16.5) o corpo de Jesus era colocado.  Ora, Maria Madalena e
Maria, mãe de José, observaram onde ele foi posto. Elas não imaginam que serão testemunhas do
túmulo vazio, que com este ponto mais baixo do caminho de Jesus elas contemplam ao  mesmo tempo
o ponto de apoio a partir do qual Deus irá derrubar todo o sistema do mundo e exaltar Jesus. Elas
ainda não suspeitam da ressurreição na Páscoa.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!