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104 A mensagem de ressurreição do anjo na câmara mortuária vazia, Mc 16.1-8

A mensagem de ressurreição do anjo na câmara mortuária vazia, Mc 16.1-8
(Mt 28.1-8; Lc 23.56–24.12; Jo 20.1-13)

1-8 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo. E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao despontar do sol, foram ao túmulo. Diziam umas às outras: Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo? E, olhando, viram que a pedra já estava removida; pois era muito grande. Entrando no túmulo, viram um jovem assentado ao lado direito, vestido de branco, e ficaram surpreendidas e atemorizadas. Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis, como ele vos disse. E, saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e, de medo, nada disseram a ninguém.

Em relação à tradução
a
aromata, que significa não só perfumes ou temperos, mas também óleos cheirosos e resinosos. De
acordo com Jo 19.29s, uma mistura de mirra e aloés. Eles eram colocados entre as faixas, mas também
possivelmente espalhados pela câmara mortuária ou queimados (2Cr 16.14; 21.10; Jr 34.5). A unção dos
mortos entre os judeus (Bill. II, 53) não tinha nada a ver com o costume egípcio de mumificação. Ela não era
feita para evitar a decomposição, mas como homenagem especial (cf. a unção no banquete em  14.3-9). Uma
unção como esta foi aplicada p ex ao rei Asa depois da sua morte (2Cr 16.14). Jacó e José, por outro lado,
como morreram ainda no Egito, foram mumificados segundo o costume local (Gn 50.2,26).
b
Esta indicação de tempo podia recordar já os primeiros leitores do dia de reunião dos cristãos (At 20.7;
1Co 16.2). Era o dia em que o Senhor tinha ressuscitado, o “Dia do Senhor” (Ap 1.10).
c
Lit. “sábados”, mas pode ter o sentido de semana, assim como o singular (Lohse, ThWNT VII, 20).
d
Lit. “vestido com uma túnica branca” (BJ); stole (túnica) é mais solene que himation e chama a atenção
para a posição especial dos que a usam (cf. 12.38n). Aqui ainda pesa o branco da veste, em que não se pensa
em uma cor uniforme, mas no caráter luminoso, como indicação de natureza celestial (cf. 9.3). A diferença
deste ser com o jovem de 14.51 é palpável.
e
“Buscar” aqui não é a investigação desinformada, pois as mulheres conheciam bem o lugar, mas o
anseio em sentido mais geral (Greeven, ThWNT II, 895).
f
Sobre egeiresthai e anastenai e sua tradução com o mesmo sentido, cf. 14.28n.
g
O singular neste contexto levou a alterações em manuscritos posteriores. Mas isto indica a falta de
compreensão da linguagem de Marcos (3.34n).
Observações preliminares
1. Contexto. Não demos o título “O Túmulo Vazio” a este trecho (como Schniewind, parecido com
Grundmann), assim como também não o sumariamos como “A Grande Pedra”, apesar de esta também receber
grande destaque. O ponto culminante e central são os versículos 6 e 7, a mensagem divina da ressurreição. A
narrativa é dominada pela distância maior que o céu entre as suposições humanas (v.  1-4) e a glória divina (v.
5-8). A mesma coisa pôde ser vista em relação aos sofrimentos de Cristo (8.33). Assim como a compreensão
da cruz, a fé no ressurreto também é revelação pura.
2. Destinatários. Os que são ricos em termos religiosos sempre olharão com um pouco de estranheza
quando se diz que, sem a Páscoa, seríamos os mais miseráveis de todos os seres humanos (1Co 15.14-19).
Também os pequenos pecadores, que um bom cônjuge já pode mudar, ou às vezes a prisão consegue emendar,
acham a afirmação um pouco exagerada. Mas aquele que sabe que seu futuro já era, talvez abra os olhos para a
Páscoa. É que na Páscoa não é só Jesus que recebe vida nova, mas também Deus recebe um novo nome.
Agora ele se chama “Aquele que ressuscita”. Todos os mortos e tudo o que está morto está desde então de
modo especial ao seu alcance. Uma realidade mais elevada está presente e quer ser percebida e aceita. Mas
será que não há em nós uma vontade muda que nos ordena que não entendamos nada? Não se coloca nossa
afirmação própria miserável contra o poder absoluto e a graça de Deus? Neste parágrafo da Páscoa é preciso
prestar bem atenção, tanto para aquilo que Deus quer ser para nós hoje em Cristo, como também para coisas
ocultas dentro de nós, que nos fecham.
3. Hipoteca oriental. O ceticismo humano diante da Páscoa de Deus é compreensível e generalizado. Para
nenhuma das primeiras testemunhas o ressuscitado veio como que por encomenda. Todos se fizeram de
difíceis, cada um à sua maneira, tanto os antigos discípulos como os antigos inimigos (Tiago, Paulo). A
espiritualidade oriental está sobrecarregada de dogmas específicos, que está tão distante do cientificismo com
que gosta de envolver-se como o nascente está do poente. Segundo eles, um texto só pode edificar quando for
destilada dele, pela evaporação de tudo o que é concreto, uma idéia pura, um princípio atemporal, uma
fórmula universal. A ressurreição literal de Jesus, física e do túmulo é, neste caso, um pensamento muito
rudimentar. O que é verdadeiramente divino deve estar livre do que é físico. Jesus só vive como realidade
espiritual. Sua causa imperecível avança, sendo indiferente o que aconteceu com o seu corpo. Isto tudo soa
patético, mas no fundo se conformou com a realidade brutal da morte, fez as pazes com as circunstâncias da
morte. – A ressurreição meramente espiritual de Jesus é um monstro antigo, contra o qual 1Jo 1.1-3 já foi
escrito. De acordo com Lc 24.37 o ressuscitado não era um “espírito”, ou um “demônio sem corpo”, segundo
Inácio (a Esmirna 3.2). Os primeiros cristãos não se curvaram àquelas imposições do pensamento humano,
mas conservaram-se abertos para a lógica divina. “Segundo as Escrituras” (1Co 15.4) “era necessário” (Mc
8.31) que Jesus ressuscitasse, e isto de modo tão físico como teve de sofrer e morrer fisicamente. Era
“impossível” que sua carne experimentasse a decomposição (At 2.24-31). Por isso, tão logo os testemunhos
dos primeiros cristãos se tornam mais detalhados, eles falam do túmulo vazio. Este também é o caso do nosso
relato antigo. Ele conta com toda a sobriedade, com a impressão de fatos muito bem comprovados. Com que
se parece a fantasia que passa dos limites, podemos ler p ex no evangelho apócrifo de Pedro (28-33,35-44).
4. A Páscoa e a palavra da cruz. Não vamos parar com o evangelho na cruz nem, por outro lado, esquecer
a cruz de tanta Páscoa. Nossos oito versículos não têm a intenção de s oterrar o testemunho extraordinário dos
capítulos da Paixão, antes, torná-los inesquecíveis. Na Páscoa a manifestação de Deus no crucificado se tornou
visível e foi eternizada. Deus ratificou a palavra da cruz, fazendo-a entrar em vigor. Um sinal disto também
pode ser o tempo perfeito, com que se fala do crucificado no v. 6 (como também com Paulo em 1Co 2.2). Este
tempo do verbo os gregos geralmente não usam para falar de coisas do passado, mas para expressar o efeito
duradouro e a condição presente de um fato acontecido no passado (cf. Joh. Schneider, ThWNT VII, 582).
5. O parágrafo como fim do livro. Com bastante unanimidade a pesquisa recente retorna a uma posição
muito antiga, de que nosso livro originalmente terminava em 16.8. Os argumentos a favor dist o serão
apresentados na opr a 16.9-20. Naturalmente é surpreendente que um evangelho termine com “e, de medo,
nada disseram a ninguém”. Não se fala em aparições do ressuscitado, nos discípulos que vêm a crer? É muito
compreensível que nos manuscritos os acréscimos se tornaram comuns. Por isso não prescindiremos do
adendo tão rico em conteúdo de 16.9-20 em nosso texto canônico, mas o comentaremos sem fazer distinção.
Nem por isso, porém, abdicaremos do término original de Marcos em 16.8. Este teve várias int erpretações:
a. Bornhäuser, em Leidensgeschichte (p 150ss), entendeu Marcos no sentido de que o medo das mulheres
não excluiu sua alegria e louvor a Deus. A favor disto ele pode apontar para Mc 2.12; 5.42; Lc 5.26; Fp 2.17.
Por esta razão também ele insere no último versículo de Marcos o sentido dos textos paralelos de  Mt 28.8 e Lc
24.9. Deve, porém, ser observado que Marcos não menciona a alegria delas; portanto, não volta a atenção do
leitor para ela.
b. Pesch II, p 541 (cf. Gnilka II, p 345; Marti, p 252s) pensa sobre 16.8: “O ouvinte é convidado a deixar -se
fascinar pela fé”. Conforme esta opinião, Marcos teria deixado seu relato intencionalmente sem encerramento,
para empurrar o leitor na direção da presença de Jesus em sua própria vida. Disto os relatos de aparições no
passado não devem distraí-lo. Mas isto são construções muito modernas.
Muitas vezes se diz que a fuga das mulheres combina com a longa série dos fracassos dos discípulos em
todo o livro. Desta maneira o ser humano fica manifesto com toda sua fraqueza e culpa. Grande se torna
somente Jesus Cristo. Só ele supera a incredulidade. Isto também estaria subentendido aqui no fim (Roloff, p
93; Hengel, em Pesch II, p 536; Mann, p 71). Mas assim fica sem resposta a pergunta por que Marcos não
expressou isto com ajuda de uma história de aparição.
c. De acordo com Berger, em Auferstehung (p 135), faz parte do estilo das histórias de revelação que a
testemunha menor (aqui as mulheres) não tem coragem de contar a revelação adiante, aos destinatários de
posição mais elevada (aqui os discípulos) (p ex 1Sm 3.16). Em sua humildade, portanto, elas teriam guardado
silêncio sobre a mensagem do anjo. Bürgener, em Auferstehung )p 45), pensa que Marcos neste ponto
capitulou diante da grandeza da tarefa e preferiu contar com o testemunho oral de Pedro, muito melhor. Outros
ainda pressupõem que o túmulo vazio só tenha sido uma afirmação de um tempo posterior. Para explicar aos
seus leitores por que somente agora estavam sendo informados disso, Marcos os remeteu ao silêncio das
mulheres. Os intérpretes podem se desviar longe do sentido certo, mas esta verdade deprimente não nos
dispensa uma tomada de posição pessoal.
6. Relatos paralelos. As narrativas sobre a Páscoa nos quatro evangelhos se distanciam umas das outras em
não poucos pontos, e também não podem ser harmonizados sem mais nem menos. O que, porém, num
primeiro momento fala contra a sua confiabilidade, na verdade se torna o seu sustentáculo. É evidente que não
deparamos com a propaganda organizada de uma sede central, mas com uma tradição não enfeitada e bastante
independente. Sentimos com muita clareza como todos ainda estão abalados, e ouvimos da boca de várias
testemunhas a mensagem que em seu âmago é inequívoca: Jesus ressus citou em pessoa! O mais tardar quando
os quatro evangelhos foram reunidos (no começo do século  II), redatores poderiam ter tornado tudo uniforme,
sem contradições e pontos fracos. No entanto, conservou-se o respeito pelas testemunhas de primeira hora e
manteve-se uma boa consciência na questão. Assim nos foi preservada uma tradição em cuja timidez hesitante
temos o sabor do que é verídico.
1  Pela terceira vez as mulheres substituem os doze como testemunhas (cf. 15.40). Desta vez, por sinal,
elas não são mencionadas só de passagem, mas logo no primeiro versículo, pois aqui elas não são
somente espectadoras, mas pessoas que agem, com quem se fala e que recebem uma tarefa. “Pelo
depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato” (Dt 19.15), por isso também se
relacionam três nomes aqui. Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé,
compraram aromas. O dia de descanso terminava no sábado às 18 horas. Desde o sepultamento
tinham passado pouco mais que 24 horas. O “terceiro  dia” (cf. 8.31n) tinha começado, e elas
poderiam ter pensado na predição de Jesus quanto à sua ressurreição. Mas as mulheres passaram ao
largo disso. Enquanto elas, neste “grande sábado” (Jo 19.31), “descansaram, segundo o
mandamento” (Lc 23.56), não pensavam em outra coisa do que no seu intento de prestar a última
homenagem a Jesus morto. Assim que, com o pôr-do-sol, começava o movimento do dia-a-dia, elas
fizeram todas as compras, para,  logo na manhã seguinte, irem embalsamá-lo. De acordo com 15.42,
José conseguira comprar o linho ainda antes do começo do sábado e, de acordo com Jo 19.39,40,
espalhara mirra e aloés entre as bandagens. As mulheres queriam fazer algo como se nós ainda
fôssemos colocar posteriormente uma coroa de flores sobre um túmulo (cf. v . 1n). É claro que sua
homenagem ao morto expressaria ao mesmo tempo a morte da sua fé. Não há como falar de
prontidão para a ressurreição do Senhor, que poderia ter criado expectativas para possíveis aparições.
2  Uma mudança no tempo do verbo aumenta a expectativa. E, muito cedo, no primeiro dia da
semana, que, para elas, apesar da predição de 8.33, não passava de um domingo de finados, foram
ao túmulo, cuja localização elas sabiam bem, segundo 15.47. Uma segunda indicação de tempo
especifica: ao despontar do sol. Em todo caso devemos pensar em uma hora anterior às 6. O leitor
sabe que o Senhor já vivia de novo. As mulheres, porém, estavam dominadas por pensamentos
totalmente ultrapassados e inúteis. Com toda a luz do sol, elas se movimentam no rei no das sombras
da morte. Suas ofertas e sua organização, seu planejamento e suas conversas, sua pressa e sua corrida
ainda estão a serviço do sistema da morte.
3  Diziam umas às outras: Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo? Para impedir a
entrada de ladrões ou hienas, os jazigos eram fechados com rochas circulares do tamanho de uma
roda de carroça, que eram roladas do lado para tapar a entrada. Elas corriam por uma vala inclinada
contra uma parede de rocha. Nosso versículo deixa transparecer a situação interior das mulheres. Sua
boa intenção estava em conflito com a percepção de que ela não tinha sentido. Com as palavras
“rolar para a entrada” (15.46) e “remover” (v. 3,4), esta rocha cresce para elas como uma avalanche
que parece vir diretamente na direção delas. Ela entope exatamente a pequena abertura que elas
tinham para ver o sol. A escuridão sepulcral que, no pensamento delas, domina sobre Jesus atrás da
pedra, ameaça devorar também a elas. Em outro sentido a pergunta delas é boa; elas  não perguntam:
Como nós removeremos, mas: Quem o fará por nós? O Todo -Poderoso respondeu com sua ajuda, e
elas só precisaram olhar (a partir do v. 4, quatro verbos traduzidos por “ver”).
4  E, olhando, viram. Esta expressão pode indicar de modo realista como as mulheres, que vinham
olhando tristes para o chão, de repente levantam as cabeças. O estilo, porém, também lembra a
expressão solene “erguer os olhos” na antiga linguagem bíblica, como introdução para exp eriências
sobrenaturais (Gn 18.2; 22.4,13; Êx 14.10; Js 5.13; Jz 19.17; Dn 8.3). Elas viram que a pedra já
estava removida. O olhar passa mais uma vez sobre o “inimigo” derrotado: pois era muito grande.
5  Entrando no túmulo. As escavações fornecem uma descrição completa de instalações como esta
(Kroll, p 391ss). Na encosta rochosa fora esculpido um corredor aberto com degraus descendentes.
Em baixo uma abertura pequena (Lc 24.12) levava a uma ante-sala cúbica com bancos nos lados. A
esta sala seguia a câmara mortuária em si, em nível mais baixo. A partir dela haviam sido cavadas em
várias direções oito ou nove galerias em que os corpos podiam ser enfiados (“túmulos de gaveta”). À
direita e à esquerda da entrada havia mais bancos debaixo de abóbadas, em que também se podiam
sepultar mortos (“túmulo de banco”). Pelas indicações dos evangelhos o corpo de Jesus parece ter
sido colocado sobre um destes bancos à direita (especialmente segundo Jo 20.5-7,12). As mulheres,
portanto, tinham passado pela segunda abertura e viram um jovem assentado ao lado direito,
vestido de branco. O simples fato de que havia alguém ali teria dado um susto nas mulheres. Aqui,
porém, o que lhes deu medo foi um ser de luz, que irradiava brilho celeste e proximidade de Deus à
primeira vista. E ficaram surpreendidas e atemorizadas. É sempre um sinal de autenticidade
quando uma pessoa perde todo o apoio no encontro com Deus. A posição sentada do anjo sublinha
sua autoridade.
6  Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis! É verdade que existe um temor desejado por Deus;
aos atrevidos se diz: Temei a Deus! Porém Deus não quer o temor que vem de corações que são
pequenos demais para o grande bem que Deus pode e quer fazer. Por isso há em numerosas
revelações de Deus a exortação inicial: Não temais! Em seguida o anjo deixa claro que sua
mensagem trata da mesma pessoa com que elas estão preocupadas: Buscais a Jesus. E ele esclarece:
o Nazareno. E, como que para dirimir uma última dúvida: que foi crucificado! Não se desvia da
realidade da morte terrível, no abandono de Deus. Um equívoco está fora de cogitação. As mulheres
estavam na câmara mortuária correta, em questão estava realmente Jesus, cujo corpo elas esperavam
encontrar.
O que segue forma uma só palavra em grego: Ele ressuscitou! Não está mais aqui. A série de
informações com que toda biografia humana termina: morreu, foi sepultado, apodreceu e, talvez,
ainda tenha recebido romarias em seu túmulo, no caso de Jesus é interrompida radicalmente. É
verdade que o túmulo ainda foi uma realidade para ele, mas não a decomposição. Seu corpo desceu
para baixo da terra, nas não se transformou em terra. As romarias que já principiavam caíram fora.
Carpideiras retornam como mensageiras da alegria (cf. v. 10).
Se perguntarmos pelo sentido espiritual, a Páscoa é em primeiro lugar a impugnação da
impugnação de Jesus. No Gólgota, é bem verdade, o escárnio e o triunfo do mal se esbaldaram. Jesus
orou e gritou. O céu silenciou, nenhum Elias ou anjo apareceu. Jesus parecia refutado. E Deus não
podia interferir, tinha de sofrer junto, pois se identificava com o sacrifício do seu Filho. Mas depois
que este sacrifício fora feito, de forma alguma a identificação de Deus com este sepultado podia
faltar. Com a ressurreição de Jesus, Deus validou seu amor. Isto não deve ser entendido em sentido
muito limitado. Com a ressurreição de Jesus, ressuscitaram também todas as suas palavras, vocações
e poderes milagrosos, sua missão e autoridade. Por causa desta ressurreição, toda a vida terrena de
Jesus vale a pena ser contada. Por isso cada linha dos evangelhos transpira a Páscoa. Tudo isto vive e
está presente, hoje em dia como naquela época.
Mais uma vez, Jesus não leva simplesmente sua vida adiante, como talvez Lázaro depois de ser
ressuscitado. A vivificação de Jesus foi ao mesmo tempo uma exaltação para uma nova maneira de
ser e de atuar. Esta existência em uma ordem superior é definida melhor pelos próximos versículos.
Em seguida lemos, de certa forma como em Lc 2.12: E isto vos servirá de sinal! Em nosso caso :
Vede o lugar onde o tinham posto! Somente agora os olhos se voltam para o túmulo vazio.
Conforme Jo 20.4-8, ele não estava totalmente vazio –  isto só teria indicado um roubo do corpo  –
mas estavam ali em ordem peculiar as bandagens curvas, endurecidas pelo óleo resinoso, com o
sudário ao lado. É isto que se queria que as mulheres contemplassem (sobre o “vede” enfático, cf.
3.34n). Disto elas eram testemunhas oculares: O túmulo não fora saqueado, mas o corpo também não
estava ali. Para além disso, porém, nenhum olhar humano passou. O processo de como o corpo se
tornou no Senhor vivo, deixando para trás as faixas e a câmara mortuária, ficou sem testemunhas.
Ficou oculto no passivum divinum (cf. 2.5) da mensagem do anjo: “Ele foi ressuscitado!” Por isso a
ressurreição de Jesus jamais pode ser explicada, mas continua sendo algo “maravilhoso aos nossos
olhos” (Sl 118.23).
Observemos a ordem divina. No centro não está o túmulo vazio, acompanhado de um anjo
intérprete para explicá-lo. É o contrário. O mais importante é a palavra divina de revelação, que
desperta a fé. Nos mesmos termos argumenta também Paulo em 1Co 15.4: “Ressuscitou  segundo as
Escrituras”. Jesus contesta todos os que negam a ressurreição: “Não provém o vosso erro de não
conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” (12.24). Portanto, a fé surge da palavra de Deus.
Deus, porém, sempre faz sua mensagem ser acompanhada de sinais auxiliares. O sinal do túmulo
vazio nos impede de esquartejar a ressurreição de Jesus na subjetividade humana, ou seja, entendê-la
como realidade somente da experiência interior. A Páscoa não é real somente primeiro em nossa fé,
mas já antes, em vista de todas as dúvidas e para todo o mundo incrédulo. O túmulo vazio supre a
moldura objetiva da ressurreição de Jesus, acessível a todos, tão acessível como a realidade da
crucificação (cf. K. Barth, III/2, p 553).
7  Mas ide. Que as mulheres tinham de abandonar o túmulo para informar os discípulos era óbvio.
Como tiveram de ser incentivadas a fazê-lo, trata-se de uma fórmula de liberação como 1.44; 5.34;
6.38; 7.29; 10.21,52. Dizei a seus discípulos e a Pedro. A expressão “seus discípulos”, que antes
aparecera em todos os capítulos, foi usada pela última vez em 14.32. Desde 14.72, depois de uma
vala larga de 53 versículos, é a primeira vez que se fala deles. Assim, com a Páscoa reaviva -se um
dos temas principais do livro. Os discípulos nenhuma vez estiveram depostos, mas tinham sido
substituídos temporariamente pelas mulheres (cf. 15.40). Agora, para testemunhar as aparições, as
mulheres deveriam passar o bastão de volta para os doze. Jesus queria retomar a relação com eles.
Pedro era, como sempre, o representante especial deles.
Pelo visto, pensa-se aqui em 14.27,28. Ele vai adiante de vós para a Galiléia (cf. 14.27s). O
tempo sem pastor passou. O Senhor que foi morto, mas que com sua morte e ressurreição foi
confirmado como pastor verdadeiro, voltará a reunir o seu rebanho. Depois que o prenúncio do
fracasso deles se cumpriu, a promessa de fidelidade dele também deverá ser concretizada. A palavra -chave “Galiléia” conserva a relação da comunidade renovada com a anterior. A nova re coloca em
vigor a antiga com todos os seus conteúdos. Todo o ensino dos discípulos conserva sua validade (cf.
Mt 28.20). Senão ele não teria sido transmitido com tantas minúcias. Em outro sentido, porém, agora
existe uma maneira bem diferente de seguir Jesus. Exteriormente ela corre em direção contrária à
anterior. A direção anterior da Galiléia para Jerusalém é invertida. Básico agora é o “para fora” de
16.15; Mt 28.19, ou seja, a opção pelos pagãos. Além disso, Jesus não andará mais visivelmente à
frente deles. Só a ordem do ressuscitado vai à frente deles.
Uma outra frase conduz para o centro do novo. Antes da Páscoa, Jesus não podia levar os
discípulos para além de um certo ponto. No limiar dos seus sofrimentos ele tinha de deixá-los
sozinhos com o anúncio do fracasso inapelável deles. Agora ele tem autoridade para levá -los adiante:
Lá o vereis, como ele vos disse. “Ver o Senhor” eqüivale à vocação pela graça (cf. Is 6.1). Jesus não
está se mostrando a eles como um objeto neutro a ser admirado, mas como o  Senhor deles sobre
pecado, morte e diabo. Por isso as histórias das aparições, em seu sentido básico, são histórias de
conversão e envio. Ver o Senhor depois de infidelidade, desespero, incredulidade e dureza de
coração, significa ficar indizivelmente alegre. “Ele vive!” sempre significa também: nós também
podemos viver e podemos apascentar novamente os cordeirinhos de Jesus (Jo 21.15). Assim, a
ressurreição de Jesus continha a ressurreição e preservação do grupo dos discípulos.
8  E, saindo elas, fugiram do sepulcro. Em primeiro lugar deve ser dito que esta fuga nada tem em
comum com a fuga dos discípulos em 14.50. Lá os discípulos queriam se esconder, mas estas
mulheres atenderam à sua missão. O fato de saírem correndo da câmara mortuária se explica pela
condição em que se encontravam: Porque estavam possuídas de temor e de assombro. Nossa
surpresa diante disto pode estar relacionada com nosso embotamento quanto à mensagem da Páscoa.
Nós festejamos a Páscoa todos os anos. Imperturbáveis tiramos da gaveta a liturgia que já estava
pronta para isso. Estas mulheres, porém, não tinham experiência na área. A Páscoa simplesmente as
derrubou. Encontraram no túmulo algo totalmente diferente do que tinham ido “buscar” (v. 6).
O próprio retorno à vida de um morto era algo de dar pavor, naquele tempo como hoje em dia (Lc
7.16). Em grau incomparavelmente maior isto valia para este crucificado, que mantivera até o último
suspiro sua reivindicação messiânica – era um evento realmente “revolucionário” (v. 4). O próprio
anúncio disto em 9.32; 10.32 foi respondido com temor. No caso de Jesus, Deus não estava adiando a
morte por mais alguns aninhos, mas interferiu na lei da morte, tirando dela a última palavra. Nisto se
enganaram Pilatos, Caifás e todos nós que organiza mos nossos alvos com cuidado, levando a morte
em conta. Jesus não ficou morto, nosso próximo um dia não ficará morto, nós mesmos não ficaremos
mortos. Tudo perdeu sua segurança e Deus ficou como algo terrivelmente certo (sobre o temor de
Deus cf. 4.41; 5.33-42).
Naturalmente as mulheres não tinham a cabeça cheia de teologia, mas pelo menos o que
importava, o que revolucionava tudo, elas tinham entendido. As cinco referências ao medo a partir do
v. 5 mostram isto. De forma alguma quis Marcos retratar a desobediência delas aqui, mas sua
obediência de fé. E nada disseram a ninguém. “Não dizer nada a ninguém” aparece literalmente
também em 1.44. Jesus não queria que o homem que fora curado desandasse a falar ou missionar,
mas fosse ao sacerdote como lhe fora dito e desse ali o seu relatório. “Ninguém”, portanto, deve ser
entendido em seu contexto e não em termos absolutos (p ex 5.43; 7.36; 8.30; 9.9). Também em nossa
passagem seguimos o fio de meada da narrativa. As mulheres obedeceram direitinho. Nada lhes fora
ordenado além de notificar os doze, e elas não se deixam desviar para o anúncio generalizado pelas
ruas e praças, no templo ou em casa.
A pregação a todos será tarefa dos doze. Deste modo, as mulheres formam um contraste com as
muitas transgressões da ordem de guardar silêncio no evangelho de Marcos. Elas eram um espelho
limpo da sua tarefa.
O que as enquadrou nesta disciplina santa é logo explicado: foi de medo. É uma crítica sem
sentido criticar o livro por terminar com um profundo temor de Deus, na comoç ão do acontecimento
inaudito: Deus, em sua graça inexplicável, transformou em pedra angular aquele cuja causa parecera
estar tão perdida e que judeus, pagãos e discípulos tinham rejeitado de modo tão unânime (12.10).
Isto é um milagre diante dos nossos olhos, “o evangelho de Jesus Cristo” (1.1).
Em retrospectiva damos lugar à surpresa por Marcos levar seu “evangelho” somente até a manhã
da Páscoa, portanto, abrangendo somente “morto, sepultado e ressuscitado”. Segundo Paulo, não
fazem parte dele p ex também  as aparições (1Co 15.3-5)? Sim e não. Os dois pontos de vista têm
seus motivos e, portanto, também seus defensores.
A base programática deste evangelho mais antigo são as predições de Jesus em 8.31; 9.31; 10.34.
Ali as aparições ficam fora. Elas pertencem, como explicamos no v. 7b, mais à eclesiologia que à
cristologia, ou seja, mais aos efeitos do evangelho para os discípulos que à atuação de Deus em seu
Filho. Em contraste, Paulo, Mateus, Lucas e João levam em conta que as aparições não foram
duradouras e por isso não podem ser incluídas entre a história e o ensino “normal” da igreja. Eles
ainda estão lidando com as bases da igreja, não com sua continuidade. Por isso essas testemunhas
fazem a divisão diferente e alinham as histórias das aparições ainda co m a literatura das bases, que
são os evangelhos.
Esta posição impôs-se nas décadas seguintes à solução antiga de Marcos e obteve a supremacia.
No sentido deste desenvolvimento, este evangelho mais antigo acabou recebendo no século II um
adendo baseado em fontes antigas, que incluiu as aparições (16.9-20). Não se deve ver nisto uma
correção de Marcos. Sua obra foi preservada intacta e era para ser respeitada em sua apresentação
original. Mas um adendo como este tornava-a ao mesmo tempo útil para a instrução que se tornara
costume nas igrejas.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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