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104 A unção em Betânia, Mt 26.6-13

A unção em Betânia, Mt 26.6-13 
(Mc 14.3-9; Lc 7.36-50; Jo 12.1-8)

6-13 Ora, estando Jesus em Betânia, em casa de Simão, o leproso, aproximou-se dele uma mulher, trazendo um vaso de alabastro cheio de precioso bálsamo, que lhe derramou sobre a cabeça, estando ele à mesa. Vendo isto, indignaram-se os discípulos e disseram: Para que este desperdício? 
Pois este perfume podia ser vendido por muito dinheiro e dar-se aos pobres. Mas Jesus, sabendo disto, disse-lhes: Por que molestais esta mulher? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes; pois, derramando este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento. Em verdade vos digo: Onde for pregado em todo o mundo este evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.
Esse acontecimento deve ser equiparado ao relato de Jo 12.1-8. Os v. 14ss mostram por que a
unção em Betânia, ocorrida seis dias antes da Páscoa, foi inserida neste ponto. A ação  nobre de
Maria deve ser contraposta à ação vil de Judas. Para ilustrar a história de como Jesus foi ungido e m
Betânia, relatamos algo do evangelho de João (cf, no que segue, o comentário de Godet ao evangelho
de João).
A partir da contingência de que Lázaro estava presente como convidado e não como hospedeiro
ou anfitrião (Jo 12.2), depreende-se que os fatos se desenrolaram não na sua casa, mas numa outra.
Disso decorre naturalmente a concordância com os relatos de Mateus e Marcos, que afirmam com
convicção que a ceia aconteceu na casa de Simão, o leproso, que sem dúvida era um doente curado
por Jesus e que solicitou o privilégio, diante dos demais, de hospedar Jesus. Não era possível que
todos hospedassem Jesus, mas cada um queria contribuir ao máximo com a homenagem que lhe
estava sendo prestada: Marta pela prestação de seus serviços, ainda que numa casa alheia,  Lázaro por
meio de sua presença que, como tal, já contribuía mais que tudo para a glorificação do Senhor, e
finalmente Maria, por meio de uma despesa realmente régia, que expressa o sentimento que movia
sua alma.
De acordo com o costume daquela época no Oriente, as pessoas se deitavam em torno da mesa
sobre um tipo de almofada ou divã. A cabeceira do divã estava próxima à mesa. As mesas eram
consideravelmente mais baixas que as nossas. Com o braço esquerdo as pessoas se apoiavam sobre a
almofada na cabeceira, com o braço direito pegavam os alimentos. O corpo ficava estendido para
trás. Na extremidade do divã pousavam os pés, despidos das sandálias (cf. Lc 7.36 -50). Maria faz uso
dessa oportunidade e entra com uma vasilha de alabastro cheio de um perfume de  alto preço.
Era costume geral entre os povos da Antigüidade ungir a cabeça dos convidados em dias festivos
com óleo perfumado. Davi declara a Iavé, descrevendo a felicidade da comunhão com Deus com a
figura de uma ceia preparada por Deus: “Preparas-me uma mesa. […] Unges-me a cabeça com óleo.
O meu cálice transborda” (Sl 23.5). Em Lc 7.46 o Senhor constata que constituía um esquecimento
ofensivo não realizar esse costume. Em Betânia não houve por que culpar os hospedeiros dessa
omissão. Maria assumiu este serviço e se reservou o direito de executá-lo à sua maneira. – Myrón é o
termo geral para todos os líquidos perfumados, e  nardos, é o nome da variedade mais preciosa.
Mateus usa o termo myrón, João usa nardos, e Marcos emprega ambos. Essa palavra,  nardos,
originária do sânscrito (em persa nard, em sânscrito nalàdá), designa uma planta nativa da Índia. Seu
sumo era guardado em vasos de alabastro. O preço de uma libra romana desse perfume (Jo 12.3),
igual a 300 gramas, perfazia 300 denários, o que correspondia  ao salário anual de um trabalhador (cf.
Mt 20.2; Jo 6.7).
Inegavelmente esta história de Mt é a mesma que a contada em Jo 12.1 -8 e Mc 14.3-9. No entanto,
Mt e Mc dizem que o perfume foi derramado sobre a cabeça, enquanto João diz que foi sobre os  pés.
Essa pequena diferença é fácil de explicar. Após a unção da forma costumeira (sobre a cabeça),
começava a lavagem dos pés com o perfume, que, nesse caso, ocupa o lugar do lava -pés costumeiro
(Lc 7.44). Somente João transmitiu à posteridade a memória dessa ação, atribuindo-a a Maria. Não
seria fácil imaginar que Maria tivesse derramado meio litro desse perfume sobre a cabeça.  – A
relação dessa unção com o acontecimento narrado em Lc 7, porém, é diferente. Destaquemos
brevemente os poucos traços que impossibilitam uma identidade dos dois relatos. Simão, o leproso
de Betânia, do qual falam Mateus e Marcos, tem em comum nada mais que o  nome com Simão, o
fariseu, citado por Lucas. Dentre o pequeno número de nomes que conhecemos das histórias dos
evangelhos, podemos contar de 12 a 13 portadores do nome Simão. Como não poderia haver duas
pessoas com um nome tão difundido, em cujas casas houve acontecimentos semelhantes? Um viveu
na Judéia, o outro na Galiléia. Um recebe Jesus no meio de seu ministério na Galiléia,  o outro poucos
dias antes de seu tempo de padecimento. Na Galiléia o assunto da conversa é o perdão dos pecados,
na Judéia é a despesa feita por Maria. Quanto ao fato de que as duas mulheres secam os pés de Jesus
com os cabelos, uma delas está enxugando as suas lágrimas, a outra o perfume com que embalsamou
o seu Senhor. Essa diferença caracteriza suficientemente as duas mulheres. Ademais, o sentimento
cristão sempre protestará se Maria de Betânia for identificada com uma mulher mal-afamada.
Os discípulos começam a criticar a ação de Maria. Essa manifestação de irritação deve ter sido
causada por Judas (Jo 12.4).
O tom de ordem da parte de Jesus aos discípulos é a única atitude acertada. Deixem essa mulher
sossegada e em paz! Não a incomodem mais com inúteis e inoportunas acusações de um suposto
desperdício fútil! Jesus declara que Maria possui justamente aquilo que, pelo juízo dos discípulos, lhe
faltava, enquanto os discípulos não o possuem. Não derramou esse perfume em vão. “Ela fez o que
pôde. Antecipou a unção de meu corpo para a sepultura” (Mc 14.8). Em outras palavras: Ela fez
desse dia o dia do meu sepultamento. Mateus diz: Ao derramar este perfume sobre o meu corpo,
ela o fez para me preparar para a sepultura.
O sentido do v. 11 é: Se os pobres realmente forem alvo da preocupação de vocês, sempre haverá
tempo para vocês lhes demonstrarem sua solidariedade. Contudo, a minha pessoa em breve estará
afastada do cuidado e da assistência amorosa de vocês. A primeira parte da sentença parece estar
apontando para Dt 15.11.
Para os discípulos essas palavras de Jesus significaram uma vigorosa exortação para aproveitarem
bem as últimas horas de convívio com ele.
Com o v. 13, Jesus inaugura um memorial duradouro para Maria. O Senhor honra a cada pessoa
que lhe agradece e que o engrandece de coração.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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