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105 Adendo: A formação e difusão da fé pelo Senhor exaltado, Mc 16.9-20

Adendo: A formação e difusão da fé pelo Senhor exaltado, Mc 16.9-20
(Os textos paralelos estão relacionados na opr 4)

9-20 Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios. E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam. Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaramDepois disto, manifestou-se em outra forma a dois deles que estavam de caminho para o campoE, indo, eles o anunciaram aos demais, mas também a estes dois eles não deram crédito. Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criaturaQuem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sob re enfermos, eles ficarão curados. De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus. E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam.
Em relação à tradução
a
A terminologia aqui é grega (numeral ordinal), diferente da semita em 16.2 (cardinal).
b
phainesthai para aparição da Páscoa só aqui no NT.
c
para (a partir de), em vez de ek (de dentro de), como em casos semelhantes em Mc: 1.25; 5.8; 7.29;
9.25.
d
O pronome demonstrativo ekeine, atenuado como pronome pessoal, lembra o uso no evangelho de
João, e aqui logo quatro vezes.
e
O simples poreuesthai (sem prefixo) falta em Marcos, fora deste lugar. Ele prefere usar o mais popular
hypagein (há pouco no v. 7; ao todo 15 vezes). O poreuesthai aqui e ainda nos v. 12 e 15 é palavra
preferencial do culto - Lucas (89 vezes)!
f
apangellein com o sentido pleno de proclamar descreve o testemunho da Páscoa também em  Mt
28.8,10; Lc 24.9; Jo 20.18. Marcos só o tem em 5.14 com o sentido atenuado de “anunciar”.
g
Nos evangelhos só ainda em Lc 24.5,23.
h
apistein (ainda no v. 16) só mais em Lc 24.11,41. É mais pesado que “não dar crédito” (v.  13s) porque
pressupõe a rejeição de uma mensagem, enquanto “não dar crédito” também pode ser justificado porque
alguém ainda não foi alcançado pela mensagem.
i
meta tauta não é usado em outro lugar do evangelho de Marcos, mas é comum nos escritos de Lucas e
de João.
j
peripatein neste sentido também em Lc 24.17.
l
Sobre agros neste sentido cf. 15.21n.
m
O comparativo hysteron substitui aqui o superlativo (Bl-Debr, § 62.2).
n
eis ton kosmon hapanta; Marcos escreve em 14.9 no mesmo contexto eis holon ton kosmon.
o
Aqui, pelo contexto, “criatura” refere-se ao destinatário da proclamação, portanto, da criatura humana
(cf. Cl 1.23). A expressão é freqüente no judaísmo  e na LXX, mas incomum para os gregos.
p
Voz passiva média: acontece algo com a pessoa, mas para o que esta tomou a iniciativa.
q
parakolouthein tem aqui seu sentido original: andar ao lado de algo, seguir.
r
hairein tem um sentido duplo: levantar, mas também levar embora, eliminar matando (cf.  Jo 1.29).
s
“Senhor Jesus” (cf. ainda no v. 20 “o Senhor”), só aqui nos evangelhos, mas freqüente em Paulo.
t
analambanesthai tem relação estreita com a literatura lucana: Lc 9.51; At 1.2,11,22.
u
bebaioun, da terminologia judicial: fazer valer algo que tem validade (cf.  1Co 1.6; Rm 15.8; Hb 2.3,4).
v
epakolouthein: o prefixo reforça a idéia de ligação estreita. Alguém pisa nas pegadas de outro; cf. 1Pe
2.21; 1Tm 5.10,24.
Observações preliminares
1. Existência nos manuscritos. Para este trecho existe uma tradição segundo a qual Aristion, um
companheiro do apóstolo João, o redigiu depois do ano 100. Mais tarde os doze versículos foram anexados ao
evangelho de Marcos. Hoje em dia a maioria das edições da Bíblia e dos exegetas se aliam a este ponto de
vista, mas já a Bíblia de Elberfeld, de 1891, pôs o trecho entre colchetes. Também Fritz Rienecker, o primeiro
que comentou o evangelho de Marcos nesta série (1955), deu atenção às “dificuldades” nos manuscritos.
Quando ele, por causa de várias suposições, achou com hesitação que poderia aceitar a redação também dos
versículos 9-20 por Marcos – é claro que em data posterior – ele não o fez sem conceder  expressamente: “[…]
Para a nossa vida de fé – seja qual for a resposta – os versículos 9-20 são palavra de Deus como todos os
outros versículos da Escritura, pois estão em nosso NT. Que isto seja dito bem claramente neste ponto” (p 27).
Para a tomada de uma posição, além do vocabulário (opr 2) e da linha de pensamento (opr 3) pesam
principalmente os manuscritos descobertos. K. Aland os revisou mais uma vez em 1974 de modo abrangente,
em seu artigo “A Conclusão do Evangelho de Marcos” (cf. também Pesch I, 41-44). Nós temos o livro, em
partes ou completo, em mais ou menos 1.800 manuscritos gregos. Elas parecem formar um quadro unânime,
pois 99% deles contém os v. 9-20. Olhando com atenção, porém, esta unanimidade desmorona. Depois de  16.8
reina uma confusão total, pois surgem seis continuações diferentes. Três adendos diferentes se destacam, que
foram acrescentados isolados ou em combinações depois do v.  8. Dois destes não entraram em nosso cânon,
que são o chamado “fim mais curto de Marcos” e o logion de Freer. O terceiro trecho, porém, chamado de
“fim longo de Marcos”, que forma os v. 9-20, era tão valioso e adquiriu tal reconhecimento que acabou se
impondo de modo generalizado, entrou na grande maioria dos manuscritos medievais e até hoje r epresenta a
forma normal aceita pela igreja. Temos quatro razões principais, porém, para dizer que o evangelho de Marcos
a princípio se espalhou sem qualquer um destes três adendos:
a. Exatamente nossos dois manuscritos completos mais antigos (Códice do Vaticano (B) e Códice Sinaítico
( ), do século  IV) terminam depois de 16.8 especificamente com um sinal final. Como se trata de Bíblias
oficiais de igrejas, eles não podem ser colocados de lado como versões paralelas. Já se pensou que os dois
copistas tivessem omitido os doze versículos intencionalmente, por se incomodarem com a indicação dos
sinais que acompanham, nos v. 17,18 e 20. Mas então, por que cortar já a partir do v. 9? E, neste caso, não
deveriam ter cortado muito mais no NT?
b. Eusébio, Pai da Igreja que escreveu no início do século  IV, confirma: “Este trecho não se encontra nos
manuscritos antigos do evangelho de Marcos; os manuscritos exatos encerram este evangelho […]; neste lugar
do texto está em quase todos os manuscritos do evangelho de Marcos a observação: Fim. O que é escrito
depois disto, encontra-se só raras vezes em alguns, mas não em todos.” Cem anos depois, o Pai da Igreja
Jerônimo, que Agostinho na época disse que era de longe o melhor conhecedor dos manuscritos, escreve sobre
os v. 9-20: “Este trecho se encontra em algumas poucas cópias, e quase todos os manuscritos gregos não têm
esta conclusão” (citações em Rienecker, p 26s). Os dois Pais da Igreja, portanto, conhecem bem os v.  9-20,
mas ainda estão diante de porcentagens inversas às nossas. Somente a partir do século V os v. 9-20 começam a
se impor. Mesmo então, muitos manuscritos ainda registram os versículos expressamente como adendo,
separado do v. 8 por um asterisco ou sinal, muitas vezes também por uma observação que lembra que  outros
manuscritos dão o livro por encerrado neste lugar.
c. Numerosas traduções antigas (antiga latina, siríaca, armênia, geórgia e copta) encerram o evangelho
igualmente em 16.8 – uma confirmação de que o Códice Sinaítico ( ) e o Códice do Vaticano (B) representam
a situação dominante no princípio.
d. Por último, também até um apoio para o fim em 16.8 do século I , que são Mateus e Lucas. Ambos
utilizaram o evangelho de Marcos até 16.8, e até ali andam juntos em sua estrutura. A partir dali seus relatos
se separam, um indício de que o evangelho de Marcos que  eles tinham terminava em 16.8.
Sob estas circunstâncias, não precisamos participar das especulações variadas sobre uma “interrupção”
depois de 16.8 (por morte, doença, perseguição, disciplina eclesiástica, perda da última página, corte
intencional de uma continuação considerada problemá tica).
2. Vocabulário. As pesquisas de Morgenthaler (p 58s) confirmam de modo impressionante o que se
descobriu com os manuscritos. Das 92 palavras usadas nos v. 9-20, nem uma faz parte das palavras preferidas
de Marcos, sendo que 16 nem são usadas por ele. As notas à tradução trazem alguns exemplos. Os doze
versículos não têm nenhuma frase começando com “e”, que são tão típicas de Marcos, e logo seis que
começam com “mas”, raras vezes usadas por Marcos.
3. Novo início. Se o v. 8 era convincente como encerramento satisfatório, uma continuação no sentido
estrito também não se fazia necessária. Realmente, os v. 9-20 não se apresentam como tais. Sem retomar o fio
da meada do v. 8, o v. 9 começa de novo com um momento mais atrás no tempo (v. 2). Maria é apresentada
como se fosse um personagem novo. O v. 11 pressupõe que ela tenha visto Jesus, o que o trecho de 1-8 não
relatou. Apesar de várias mulheres terem sido encarregadas do testemunho da Páscoa no v.  7, somente a
comunicação de Maria está em vista aqui. Por outro lado, o que o leitor esperaria depois do v. 8, uma aparição
na Galiléia, não vem. Assim, falta a ligação direta dos doze versículos com 1-8. Eles subsistiam
independentes, mas foram acrescentados aqui porque os interessados estavam certos de que eles   eram úteis
(cf. v. 8 no fim).
4. Independência. Há muito se descobriu que nosso trecho tem pontos de contato com as narrativas da
Páscoa dos outros evangelhos:
v. 9-11:  Lc 24.9-11; Jo 20.1,11-20
v. 12,13:  Lc 24.13-35
v. 14:  Lc 24.36-43; At 1.4
v. 15,16:  Lc 24.47; Mt 28.18,19
v. 19:  Lc 9.51; 24.51; At 1.2,9-11,22
Aliás, a comparação mostra que o redator não costurou o material dos outros evangelhos, assim como mais
tarde se confeccionaram harmonias dos evangelhos (contra Schniewind e Schweizer, com Pesch II, p 544s).
Senão, poderíamos cortar os versículos como repetição pobre. A ordem missionária nos v. 15s, porém, mostra
detalhes bem próprios, em comparação com Mt 28.19. Em Mateus a pregação do evangelho em si está em
segundo plano, atrás do seu objetivo, que é ganhar pessoas de todos os povos e integrá -las no povo de Deus.
Em Marcos o peso está no encargo de pregar e na resposta do ouvinte, junto com suas conseqüências eternas.
As instruções sobre o batismo e sua administração ao crente são pressupostos e não mencionados
expressamente.
Evidentemente o autor de Mc 16.9-20 dispunha de acessos independentes à tradição apostólica de Jesus.
Assim como Paulo tinha acesso a trechos no estilo dos evangelhos (p ex 1Co 11.23-25; 15.3-7), independente
dos evangelhos, que ainda não tinham sido escritos, é evidente que isto tamb ém era possível depois que eles
foram escritos. Até no século  II  a tradição antiga de Jesus existiu paralela às grandes coletâneas, e tinha
exclusividades a oferecer. Uma tal contribuição com seu próprio valor é que temos aqui. Infelizmente este
valor próprio nem sempre foi reconhecido. P. Wendland pôde falar aqui de um “extrato que deixa a desejar”
dos outros evangelhos (Urchristliche Literaturformen, p 216). M. Barth achou que nosso trecho “de forma
alguma pode […] ser considerado em pé de igualdade com outros relatos do NT sobre as aparições de Jesus
Cristo” (Augenzeuge, p 165). Também Schlatter pensou: “Não está mais bem à altura do que nos contam
Mateus e Marcos” (Erläuterungen, p 128). O comentário precisa mostrar se estas opiniões estão certas.
5. Propósito. Já a palavra-chave “fé”, em suas várias formas (sete vezes nos v. 11,13,14,16,17) dá uma
impressão uniforme e indica uma linha de pensamento. A estrutura também aponta para um objetivo. Primeiro
são relacionadas de maneira condensada três aparições (v. 9-14). Nestas, o interesse está na reação dos
discípulos: “primeiro” no v. 9, “depois disto” no v. 12, “finalmente” no v. 14. A incredulidade deles aumenta a
ponto de desesperarem, quer primeiro uma pessoa pode ver o Senhor e depois duas e depois eles todos, quer
apareça ele em uma ou outra aparência. De fato, a idéia é que eles creiam em algo que é inacreditável. Não se
conta algo aqui para nos fazer menear a cabeça, mas para deixar claro que a fé remonta à ação do próprio
Senhor. Em discurso detalhado e como ponto culminante, então, o encargo missionário é dado aos discípulos
emendados (v. 15-19). Um olhar de relance sobre o trabalho missionário subseqüente até a época do redator
encerra o trecho (v. 20). Não há nada aqui fora do contexto (contra Schmid, p 311).
O objetivo central é mais ou menos o mesmo daquilo que Lucas expôs em grande estilo em seu livro dos
Atos dos Apóstolos. Ele é duplo. Primeiro, a origem da expansão missionária cristã deve ser localizada no
período entre a ressurreição e a ascensão, portanto, no próprio ressuscitado. Missões é Páscoa levada a sério.
Por outro lado, a execução da tarefa missionária constitui a continuação da atuação do ressuscitado, por meio
dos seus discípulos, no mundo inteiro até hoje. Quem leu todo o evangelho de Marcos  deve compreender
agora definitivamente que não teve uma visão geral da história distante, mas que foi convidado a experimentar
esta história pessoalmente.
9  Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a
Maria Madalena. Diferentemente do v. 1, menciona-se uma característica dela: da qual expelira
sete demônios. Sete demônios –  isto era o máximo de escravidão (cf. Mt 12.45). Com certeza a
lembrança da libertação dela aqui tem sua razão de ser. Ela, que fora lib ertada dos demônios, podia
ser encontrada ainda em seu túmulo. Como uma pessoa que jamais poderia deixar de lhe ser grata,
ela se tornou a primeira testemunha do rompimento de todas as cadeias. É claro que ela era
“somente” uma mulher, cuja declaração naquela época foi rapidamente colocada de lado como
“delírio” (Lc 24.11). Mesmo assim ela conservou, como mostra a tradição da Páscoa, um lugar
importante no seio da igreja. No campo missionário era diferente. Ali era necessário apresentar
testemunhas masculinas. Uma lista em que Pedro serve de primeira testemunha temos em 1Co 15.5 -8.
10  E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus.  Os destinatários
também são identificados com uma lembrança anterior. O fato de “estarem-com-ele” lembra seu
destino comum com Jesus (cf. 3.14). Que isto reaparece exatamente aqui e vale para homens que, da
parte deles, tinham cancelado sua relação com ele (14.50,67ss), é um sinal de promessa. Jesus não
pode revogar seus dons e chamados (Rm 11.29), na verdade, com sua ressurreição estes também
ressuscitaram. Só que os discípulos ainda nem suspeitam disso. Eles ainda lamentam pelo que estava
vivo como se estivesse morto, se achavam na Páscoa como que em uma casa de luto, tristes e
choravam.
11  Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram. Mais tarde eles devem ter
constatado em outros como as pessoas podem permanecer insensíveis à palavra de Deus. Esta
decepção, então, não deve tê-los separado imediatamente dos seus ouvintes, já que a mesma
experiência não separara Jesus deles. Ela só desencadeou um segundo e um terceiro impulso:
12,13  Depois disto, manifestou-se em outra forma a dois deles que estavam de caminho para o
campo. Desta vez Jesus não aparece como jardineiro, mas como viajante, e não diante de uma
mulher, mas de dois homens. A história, considerada conhecida, só é iluminada de determinada
perspectiva. Ela também só levou ao mesmo estribilho de ceticismo.  E, indo, eles o anunciaram aos
demais, mas também a estes dois eles não deram crédito. As pessoas de antigamente, pelo visto,
não eram tão crédulas como se gosta de pintá-las hoje em dia. Os discípulos foram bem modernos.
14  Finalmente, apareceu Jesus aos onze. Este “por último” sugere uma refeição de despedida. O v.
15 leva sem interrupção ao legado de Jesus aos seus discípulos. Esta refeição ao mesmo tempo era de
reconciliação, pois a referência à sua revelação pressupõe que ele primeiro encontrou os corações
deles endurecidos. A incredulidade deles sobreviveu a tudo: ao testemunho da mulher e ao dos dois
homens e, a princípio, também à aparição do próprio Senhor (cf. Mt 28.16; Jo 20.27). Isto porque as
aparições em si não são um meio infalível de despertar fé. A fé não é convicção de  fatos, mas um
encontro pessoal com o Senhor gracioso. Neste sentido é que o Senhor chama Maria pelo nome (Jo
20.16), estende o pão aos discípulos de Emaús (Lc 24.30) e se dirige aos onze (Mt 28.18). Ninguém  –
por mais que esteja cercado de uma nuvem de testemunhas e milagres – crê no ressurreto sem tornar-se também um ressuscitado. Na Páscoa, no fundo, só se crê por meio de uma Páscoa experimentada
pessoalmente.
Aqui isto acontece por meio da repreensão do Senhor que os corrige (oneidizein, enquanto Marcos
para isto usa epitiman; cf. 1.25). Quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e
dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado.  A crítica
humana geralmente é um sinal de fraqueza. A censura de Jesus é parte  da sua autoridade divina.
Através dele a realidade de Deus abre caminho. Ela desmascara as trincheiras da incredulidade e da
dureza de coração (cf. 10.5), submete-as ao julgamento de Deus e assim lhes tira o poder. O resultado
é liberdade para o Espírito Santo.
15  A narrativa se torna mais detalhada e passa para o discurso direto. E disse-lhes: Ide por todo o
mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Jesus descreve nossa palavra “missões”, para a qual
ainda falta ao NT o termo correspondente, com  “ir e pregar”. Esta proclamação também poderia estar
circulando incansável entre os crentes mais antigos. Mas este círculo foi rompido definitivamente
pela Sexta-feira da Paixão e pela Páscoa. O crucificado estabeleceu uma relação de Deus com os
“muitos”, e o ressuscitado com “todo o mundo”. Ele agora recebeu uma autoridade que excede à do
Jesus terreno (Mt 28.18; At 2.36; Fp 2.9ss). Ela faz os discípulos se mexer e falar diante de pessoas
estranhas.
Falta em tudo isto qualquer indício de vingança. “Evangelho” é boa notícia, não mensagem de
ameaça (cf. 1.1). O Jesus terreno já era a mão de paz de Deus estendida. Ela foi ferida e recusada.
Porém o ressuscitado agora é a mão de reconciliação, cheia de cicatrizes, que Deus novamente
estende para a sua criação desviada. Ele não a recolhe nunca e em nenhum lugar, “até à consumação
do século” (Mt 28.20). De acordo com Rm 10.21, ele a estende “todo o dia”, ou seja, durante todo o
tempo da salvação. O mundo cativado por Satanás ficará sabendo que recebeu um Senhor
incrivelmente bondoso, e é capacitado as submeter-se a ele, invocando o seu nome (At 2.21).
16  Diante da boa nova, a existência humana e as suas motivações se tornam assustadoramente
importantes. O ouvinte está imediatamente entre morte e vida. Jesus não hesita encarar também
decisões negativas. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
O NT sabe aplicar a salvação ao presente (Lc 19.9; 2Co 6.2), mas em nossa passagem o tempo futuro
e a contraposição com a condenação sugere o pensamento na salvação “da ira vindoura” (1Ts 1.10).
Para quem ouve a boa nova, a entrada no reinado perfeito de Deus depende da fé. O que é fé e
incredulidade, o contexto explanou muito bem aqui. Incrédula é a pessoa que depois da Páscoa ainda
se comporta como se fosse antes (v. 10); que se fecha ao testemunho vivo e se desvia para o campo
das palavras (v. 11,13); que, enquanto a boa nova o cerca como o mar, conserva a sua dureza de
coração (v. 14). Crer, por sua vez, quer dizer dar ouvidos à boa nova e – como se pressupõe aqui com
freqüência – comprometer-se publicamente com esta mensagem e se deixar batizar. Todo aquele
que chega à fé também chega ao batismo, assim como aquele que se recusa a crer também não chega
a ser batizado. Por isso a menção ao batismo pode ser omitida na segunda parte do versículo.
Em vista da relativa falta de ênfase no batismo, esta passagem realmente não serve de base para a
opinião de Lohmeyer (p 363) de que o batismo é um “salvador” da parte de Deus. O vínculo direto
entre os termos não é “batismo e salvação”, mas “fé e salvação”, ou “incredulidade e condenação”. O
batismo está vinculado à fé. Ele é, sem sombra de dúvida, um batismo de fé. A fé poderia continuar a
ser um segredo do coração, ou afundar na vida particular do cidadão. Contudo, em obediência a Deus
e com a ajuda do Espírito Santo, ela irrompe para fora no batismo, torna -se pública, comprometida e
social (Mt 28.19). Quem fala em batismo, pensa em comunidade. A continuação mostrará como este
pensamento tem pouco a ver aqui.
17  Começa a descrição da comunidade dos “crentes”. De forma alguma o Senhor tinha em vista apenas
a primeira geração, antes, conforme o v. 16, todos os batizados.  Estes sinais hão de acompanhar
aqueles que crêem. Eles não estão vinculados a cargos, mas em primeiro lugar à fé que deixa Deus
ser Deus (cf. 5.36; 9.23; 11.22s). Em segundo lugar eles fazem parte do contexto missionário, pois o
fato de eles “acompanharem” pressupõe que os discípulos estão a caminho para difundir o evangel ho.
Conforme o v. 20 os sinais reforçam a palavra missionária, de modo que esta não chega às palavras
como teoria desnuda, como afirmação rígida. Paulo não podia renunciar à confirmação das suas
palavras “por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15.19). Aos coríntios,
que colocaram em dúvida sua condição de apóstolo, ele lembrou que seu ministério entre eles contara
com “as credenciais do apostolado” (2Co 12.12; cf. Hb 2.4). Não se pensa em provas convincentes;
sinais sempre podem ser mal-interpretados (3.22). Aquele que foi elevado, porém, legitima a entrada
em cena dos seus mensageiros com sinais de atenção.
Os cinco exemplos relacionados a seguir são confirmados especialmente pelos Atos dos
Apóstolos. Exorcismos encontramos ali em 5.16; 8.7; 16.16ss; novas línguas em 2.1-11; 10.46; 19.6;
milagres com serpentes em 28.3-6 e curas em 3.1-10; 4.30; 5.12,15; 9.12,17,33s,29ss; 14.8ss; 19.11;
28.8s. Só para a preservação em caso de veneno falta um exemplo.
Como primeiro está um sinal que também tem muito peso no evangelho de Marcos (1.34,39;
3.11,15; 6.7,13; 9.38): Em meu nome, expelirão demônios. A mudança de governo pascal que os
crentes proclamam não agrada aos senhores anteriores. A má vontade deles também pode manifestar -se com resistência em altos brados. Mas o nome de Jesus os faz calar.
Em segundo lugar, falarão novas línguas. O NT geralmente é mais curto: “falar em línguas”. Só
duas vezes a expressão é mais longa: “falar em outras línguas” (At 2.4), e: “falar em línguas
estrangeiras” (1Co 14.21. BV). Aqui a intenção é esclarecer: “falar novas línguas”. Será que se pensa
realmente na mudança para uma das línguas do mundo antigo, que só são subjetivamente novas para
a pessoa em questão porque não as conhecia até então? Provavelmente a expressão “novas línguas”
deve ser colocada ao lado de expressões como “nova aliança, nova criação, novo céu, nova terra,
nova Jerusalém, novo cântico e novo nome”. Como parte da nova criação, elas se distanciam da
confusão de línguas babilônica, são “língua dos anjos” com Deus (1Co 13.1). É claro que se pode
contar com manifestações diferentes, já que há “variedade de línguas”, conforme 1Co 12.10. No
contexto missionário elas podem ser um sinal de condenação ou de advert ência (1Co 14.22).
18  Pegarão em serpentes. Cumprimentos literais temos em At 28.3-6 e na história recente de missões
(p ex E. Seiler, Wunderbar sind seine Wege, Hänssler V., 1970, p 7ss). Além disso, “pisar em
serpentes e escorpiões” ilustra já no AT a submissão dos poderes malignos. Lc 10.19 também está
próximo deste sentido. O ser humano governa novamente sobre os animais (Gn 1.26,28; Is 11.8).
Anuncia-se a restauração da criação e do ser humano.
E, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal. O acréscimo conduz a Ap 11.4-7,
onde se promete proteção à comunidade de testemunhas, igualmente vinculada ao tempo do seu
testemunho. Ninguém poderá encurtar o serviço delas, nem por um dia. Também em Mt 6.25-34
Jesus garante a existência terrena dos seus mensageiros até nos detalhes. Segundo Jo 17.15, ele pede
por milagres de proteção para eles, sempre tendo em vista que eles buscam em primeiro lugar o reino
de Deus e executam sua missão.
Se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados. Como com seu Senhor, a
imposição de mãos também para eles não é um meio de transmitir poder (cf. 7.32), mas é um gesto
de bênção e intercessão.
Os sinais não são demonstrações a bel-prazer, mas fazem parte do objetivo. Por isso a relação
pode ser ampliada, mas não reinterpretada, talvez em sentido moralista: em nossas obras de amor,
paz e justiça temos uma confirmação muito melhor da Palavra (p ex Marti). Ou espiritualizando,
trazendo a campo os milagres interiores muito maiores: qualquer pessoa pode crer em todo o amor de
Deus. Recebe certeza do perdão e pode perdoar ao seu próximo. Experimenta paz e alegria na dor.
Albert Schweitzer acrescentou um ponto de vista da filosofia da história (em: Allerlei Festfreuden II,
em H.-H. Jenssen, Evangelische Predigtmeditationen 1976/77, p 204): A atuação do Espírito é muito
parecida com um rio. Na proximidade da sua fonte, ele corre animado e ruido so, espirra e espuma,
mas ainda tem pouca força. Mais abaixo, ele corre calmo e até parecendo preguiçoso, mas carrega
grandes cargas, abriga uma abundância de peixes e gira turbinas elétricas. Assim, os milagres
instigantes do primeiro tempo do cristianismo diminuíram, tudo passou para dentro das margens
organizadas da vida eclesial, mas em vez disto a torrente de amor derramada por Jesus  – e o amor é
maior que tudo! – aumentou tanto em largura e força no transcorrer da história da igreja, que não há
mais motivo para ter saudade dos começos. – Tão cor-de-rosa não podemos mais ver o
desenvolvimento no fim do século XX.
Mais cinco pontos de vista para classificar o texto:
1. Os sinais não são a coisa em si mas, de acordo com os v. 17 e 20, a acompanham, mais o u
menos como na visita de uma alta autoridade o carro oficial é escoltado por batedores. Mas, pela
causa, a ausência de sinais precisa ser considerada uma deficiência (cf. 1Co 14.24; Lc 7.18 -23).
2. No território fora do cristianismo há manifestações iguais ou semelhantes (9.38s), de modo que
estes sinais não podem servir, sem verificação, como prova de identificação com Cristo e de sua
autoridade.
3. Conforme 6.5; 8.10-13 e 15.31,32, de vez em quando os sinais devem ser recusados
legitimamente.
4. As listas de carismas no NT não são idênticas, mas têm diferenças de comprimento, conteúdo e
terminologia (Rm 12.7,8; 1Co 12.8-10,28-30; Ef 4.11; Hb 2.4; 1Pe 4.11 e Mc 16.17,18). O quadro é
necessariamente variado, porque as situações mudam. Por isso não se deve ceder à tentação de pinçar
dons à vontade. Não concordamos com brincadeiras carismáticas em que a seqüência de carismas é
praticada para alegria própria e mútua. Também não aceitamos a imposição de uma obrigatoriedade
de sinais, independente de necessidades concretas.
5. A passagem sobre os sinais apostolares em 2Co 12.12 é acompanhada de uma observação
chamativa: Paulo os fazia “com toda a paciência” (BLH). Isto não parece combinar. Quem tem
autoridade não precisa mais de paciência! No entanto, a impaciência é exatamente o sinal dos
profetas falsos, é a maneira dos senhores mundanos. A paciência, por outro lado, é o estilo do nosso
Senhor. Jesus suportou a cruz renunciando às orações atendidas e à alegria, e concordando com a
vergonha e o mal-entendido (Hb 12.12; cf. 1Pe 2.20s). Também para Paulo a autoridade se combinou
com as insígnias da insignificância de Jesus. Sua autoridade não serviu ao seu próprio bem-estar, à
sua auto-estima, à sua reputação e à sua aparência. Repetiu-se com ele Mc 15.31: “Salvou os outros,
a si mesmo não pode salvar-se” (cf. 2Co 4.12). Todo aquele que, em vista dos sinais apostólicos, é
incendiado pelo desejo: “Também a mim!” (At 8.19), pense nestes contextos.
19  De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de
Deus. “Os rabinos viam uma diferença considerável entre estar sentado ou de pé no céu. No céu só
Deus está sentado, como sinal do seu governo e divindade. Todos os demais ficam de pé. […]
Quando se aceita que, ao lado de Deus, mais alguém fica sentado, tem-se o perigo do dualismo e,
assim, da heresia” (Bietenhard, p 71). Em contraste com isto, o  NT fala mais de vinte vezes que Jesus
está sentado à direita de Deus (segundo Sl 110.1). Ele está exaltado muito acima dos anjo s. Como
mão direita de Deus, ele é seu executivo com plenos poderes para levar a cabo suas metas. Portanto,
pelo fato de estar sentado, Jesus nem de longe se acomodou. Como destaca o próximo versículo, sua
atuação está começando em grande escala.
A “ascensão ao céu” levanta problemas de cosmovisão. Mas qual cosmovisão, afinal de contas, se
presta para abranger o criador dos mundos? As testemunhas da Bíblia, como pessoas de Deus,
sempre demonstraram ter a noção de que Deus deixa muito para trás o quadro das  suas cosmovisões.
Neste sentido a mudança de cosmovisão com o passar do tempo tem pouca importância para a fé em
Deus e também não deveria ser enfatizada.
20  E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando
a palavra por meio de sinais, que se seguiam. Sobre os detalhes desta frase, cf. v. 17s. Somos
lembrados da estrutura dos Atos dos Apóstolos (opr 5 no fim). A continuação da história de missões
é, de certa forma, a história prolongada, ininterrupta de Jesus. O Senhor exaltado vai à frente da
comunidade de crentes, está por trás dela e atua em seu meio. Ele tem toda autoridade no céu e na
terra. Ele também terá, em todas as coisas, a palavra final.


Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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