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106 A última ceia pascal, Mt 26.17-25

A última ceia pascal,  Mt 26.17-25
(Mc 14.12-16; Lc 22.7-13)

17-25 No primeiro dia da Festa dos Pães Asmos, vieram os discípulos a Jesus e lhe perguntaram: Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa? E ele lhes respondeu: Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos. E eles fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. Chegada a tarde, pôs-se ele à mesa com os doze discípulos. E, enquanto comiam, declarou Jesus: Em verdade vos digo que um dentre vós me trairá (delatará)! E eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor? E ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá. O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido! Então, Judas, que o traía, perguntou: Acaso, sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste.
A palavra Páscoa ou “festa dos pães asmos” refere-se à festa toda, de sete ou oito dias. O primeiro
dia da festa dos pães asmos não é o dia em que se mata e come o cordeiro pascal, mas sim o dia
anterior, ou seja, a quinta-feira. Nesse dia era obrigatório comer pães sem fermento. Esse dia devia
ser honrado pela comida e bebida (mechiltá). Acontece nele, portanto, uma refeição obrigatória,
precisamente à noite, e com essa ceia de abertura começa a festa dos pães asmos. Devemos ter em
mente essa ceia de abertura, quando se comia o cordeiro pascal, e não a refeição pascal propriamente
dita.
Por que Jesus não designa pelo nome o anfitrião que tem em mente? Para isso existe somente uma
resposta: a casa em que ele tenciona tomar a ceia deve permanecer ignorada pelo seu pequeno grupo.
Para que essas regras misteriosas? Jesus sabia o que Judas tinha em mente, conforme demonstra o
relato seguinte em Marcos. Por isso, tomando essas providências, quis antecipar -se às importunações
que, pela infidelidade de seu discípulo, poderiam interferir na finalidade para a qual Jesus tinha
planejado essa última noite.
Jesus deve ter sido conhecido do proprietário da casa. Senão as expressões  o Mestre e meus
discípulos teriam ficado incompreensíveis para ele.
A ceia pascal não podia ser celebrada em Betânia porque a ordem sacerdotal não o permitia. Era
necessário poder enxergar o templo, o que era impossível a partir de Betânia. Portanto, também os
moradores de Betânia tinham de se dirigir a Jerusalém.
A refeição começa no salão preparado pelos discípulos. “Jesus se sentou, ou melhor, se deitou
com os apóstolos em torno da mesa. Assim já se tornara costume geral antes do tempo de Jesus. Não
mais como no passado, com pressa e precipitação (Êx 12.11), pois a posição deitada justamente na
ceia pascal devia ser sinal de liberdade, que lembrasse a libertação da escravidão egípcia. No
Talmude, sobretudo no tratado Pesakim, da Mixná, encontram -se regras muito detalhadas sobre o
transcurso da ceia pascal. Mesmo que a anotação escrita dessas prescrições tenha acontecido somente
no início do século III, não há dúvida de que ne las se reflete a prática generalizada dos fariseus no
tempo de Jesus. Como o povo em geral seguia a orientação dos fariseus, Jesus também deve ter
cumprido, no essencial, essa prática com seus discípulos.
Por se tratar de uma festa de alegria, os “quatro copos de vinho” tinham uma função importante. A
cada um, mesmo ao mais pobre, esses quatro copos deviam ser proporcionados. Igualmente era
costume geral que cada conviva tivesse diante de si o seu próprio copo, que tinha de ser enchido no
mínimo quatro vezes. Naturalmente não somente com vinho: Para cada terço de vinho misturava-se
dois terços de água.
Quando o primeiro copo era enchido, o dono da casa, ou o cabeça da comunhão de mesa, dizia a
bênção sobre o vinho: “Louvado sejas, Senhor, nosso Deus, rei do  mundo, que criaste o fruto da
videira”, agradecendo também pela festa. Por isso comia-se, como entrada, ervas amargas, seguidas
de um tipo de mingau pastoso ou massa de frutas, de figos, tâmaras e amêndoas amassadas,
preparado em vinho com canela e outros temperos. As ervas amargas, que eram imergidas nessa
massa, deviam lembrar a amarga escravidão no Egito.
Depois de comida a entrada, misturava-se o segundo copo para cada conviva. Em seguida o chefe
da casa, perguntado pelo filho, dava uma explicação sobre o significado da festa, depois da qual era
recitada a primeira parte do assim chamado  Hallel. O Hallel completo abrangia os Sl 113–118.
Depois disso começava a ceia pascal propriamente dita, ou seja, comia-se o cordeiro pascal. O
momento era introduzido pela palavra de louvor que o dono da casa proferia sobre o pão sem
fermento que ele tinha nas mãos e depois quebrava.
Após o recolhimento dos restos da comida, era servido o terceiro copo, o “copo da bênção”. Ele é
chamado assim porque sobre ele era proferida a bênção de gratidão pela refeição toda.
Quando, depois disso, se terminava de orar a parte final do Hallel, um quarto copo encerrava a
festa. Como festa séria, não deveria estender-se além da meia noite.
Mateus e Marcos relatam duas coisas especiais acerca dessa ceia pascal, tão repleta de
acontecimentos, a saber: Jesus aponta o traidor e Jesus institui a Ceia” (Lauck, p. 109; cf.
especialmente Strack-Billerbeck, NT, vol. 4.1, p. 41-76; e Rienecker, Begrifflicher Schlüssel zum
griechischen NT).
Primeiramente vejamos a designação do traidor. Jesus diz: Em verdade, eu lhes digo, um de
vocês me vai entregar. Visto que esta palavra de Jesus é dita com tanta determinação, os discípulos
ficam assustados. Não compreendem bem o sentido das palavras de Jesus. Mas perguntam, abalados:
Seria eu, Senhor? A ação de Jesus, como resposta, ainda deixa indefinido quem o seria. Jesus
declara: O que põe comigo a mão na bacia, este é que me vai entregar, em outras palavras: Um de
meus amigos e companheiros de mesa o fará. Jesus continua: O Filho do Homem parte… – não
porque fosse indefeso perante o traidor, mas porque essa traição está contida na deliberação de Deus.
A traição de Judas acontece porque a decisão divina da morte do Messias precisa ser cumprida e
porque a traição representa o meio para ela. Apenas que permanece responsável pela traição, em
qualquer circunstância, aquele que a realiza.
O “ai” que o Senhor exclama contra Judas representa uma dor profunda de sua alma. Ele tem dó
dessa pessoa, até às origens de seu nascimento. Atormenta-se pela vida e eternidade dessa pessoa, a
tal ponto de conseguir esquecer, por isso, a própria dor que ele lhe causa. A dor é tanto maior porque
sabe que esse perdido não pode lhe trazer nada mais do que o Pai determinou. O Filho do Homem
parte inevitavelmente, assim como foi estabelecido (v. 23). O fato de que, depois dessas palavras, os
discípulos discutiram entre si, comprova a habilid ade com que Judas sabia ocultar sua mentalidade e
sua intenção. A expressão: Acaso seria eu? dos discípulos está inserida num momento natural.
Considerou-se improvável que Judas também tenha perguntado assim (Mt 26.25). Porém, como
todos os outros perguntavam, ele não podia deixar de fazê-lo, para não se delatar. A palavra de Jesus:
Tu o dizes! expressa exatamente o mesmo que as palavras dele em Jo 13.26: “Tendo molhado o
pedaço de pão (da ceia de abertura), deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes”. Exatamente esse gesto
de Jesus foi a resposta que Mateus transformou nas palavras: “Tu o dizes!“
Judas tinha perguntado da mesma forma como os demais discípulos ao Senhor: “Acaso sou eu,
Rabbi?“ Ou seja, ele tentou tudo o que podia para se ocultar. Imitou o susto dos discípulos e se
portou tão preocupado e ansioso quanto eles.
“Foi somente Mateus quem relatou essa pergunta de Judas. Contudo, não se pode negar que Judas
se esforçou cuidadosamente para ocultar sua culpa. Não podia mostrar -se informado, enquanto todos
os demais estavam espantados. De sua parte, também precisava concordar com a repulsa a essa
traição e também tinha de fingir que desejava ouvir de Jesus uma palavra tranqüilizadora. Por querer
trair Jeus, precisava ser cuidadoso para não se trair pessoa lmente. Por isso ouviu a palavra que o
inculpou. Jesus fez uma destruição completa da farsa de Judas, indicando -lhe claramente que não
pode safar-se por meio de dissimulações.
“Mateus interrompe a narrativa, voltando a falar de Judas somente quando este chega com a horda
armada ao Getsêmani. Não informa quando Judas se separou de Jesus. O olhar do evangelista está
total e exclusivamente voltado para Jesus. Ele quer que observemos com que firmeza e santidade
Jesus se encaminha para a cruz. Todas as outras pessoas são questão secundária. Por causa deles
Mateus não desvia nosso olhar de Jesus. É presumível que Judas tenha saído do recinto
imediatamente depois daquelas palavras e se dirigido ao palácio do sumo sacerdote.
“Depois de pronunciar de modo tão solene a sentença divina sobre aquele que repeliu de si a
graça, Jesus realiza ainda uma segunda ação naquela noite. Ele explica aos demais discípulos a
bênção de sua morte, e não apenas isto, mas também a concede. Após afastar de si aquele discípulo
perdido e entregá-lo à morte, outorgou aos outros a participação plena na sua morte na cruz“
(Schlatter, p. 386).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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