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109 A luta de oração no Getsêmani, Mt 26.36-46

A luta de oração no Getsêmani, Mt 26.36-46
(Mc 14.32-42; Lc 22.39-46)

36-46 Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar; e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres. E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Tornando a retirar-se, orou de novo, dizendo: Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade. E, voltando, achou-os outra vez dormindo; porque os seus olhos estavam pesados. Deixando-os novamente, foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Então, voltou para os discípulos e lhes disse: Ainda dormis e repousais! Eis que é chegada a hora, e o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos de pecadores. Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima.
Quando apreciamos toda a história da vida de Jesus em comparação com a de outras pessoas
famosas, é curioso que justamente se deva atribuir ao fim de sua  vida ainda um valor singular e um
fruto especial para a humanidade.
É sabido que, na teologia protestante atual, há uma concepção bastante disseminada da vida de
Jesus segundo a qual com Jesus teria acontecido o mesmo da regra geral. Coloca -se, então, toda a
ênfase exclusivamente no quadro de sua vida e atuação na terra.
Contudo, conforme sabemos, a resposta da comunidade de Jesus àquela questão soa bem
diferente. Tanto no testemunho e ensino quanto na fé da comunidade, é precisamente o próprio
sofrimento de Jesus como tal e a própria morte de Jesus como tal, é a cruz e o s angue de Cristo que
constituem o cerne autônomo da doutrina e da fé na salvação. Por mais alto apreço que se dê à
importância da vida e ação terrenas de Jesus, o centro da pregação e da fé na salvação, a saber a
reconciliação do mundo pecaminoso e culpado  com Deus, não está relacionado tanto com sua vida e
atuação na terra, porém muito mais com a morte e o sangue de Cristo. Já para Paulo a cruz é o centro
de seu evangelho. “Porque resolvi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co
2.2).
A luta no Getsêmani travou-se em torno da aceitação clara e espontânea da morte na cruz. Esse
instante da aceitação espontânea corresponde ao momento da tentação no deserto, quando Jesus
rejeitou o domínio sobre o mundo. Naquela vez, renunciou a gover nar sobre nós sem Deus. Agora ele
concorda em morrer por nós com Deus. A luta em sua alma é introduzida com as palavras (em
Mateus e Marcos):
Começou a tremer e a angustiar-se.
Estamos diante do mais profundo mistério da história evangélica. Do monte da transfiguração
observamos o Senhor rumar para Jerusalém com passos serenos e firmes. Vimos como, no caminho,
efetuou, de maneira majestática, suas maiores realizações de poder e proferiu as mais profundas
verdades sobre sua pessoa. Ouvimo-lo falar com divina serenidade sobre seu sofrimento, sua morte,
seu sepultamento. Fomos testemunhas de sua atitude régia e superior diante de seus inimigos em
Jerusalém. Acompanhamo-lo à sala da ceia pascal e vimos como instituiu a Ceia, oferecendo aos
discípulos o seu sangue como se já derramado, e celebrando com os seus sua morte como se já
consumada. Até agora, vimo-lo ir ao encontro do sofrimento com soberania divina, paz celestial,
calma sobre-humana e dignidade.
E que vemos agora? Que contraste! Que mudança inconcebível! O homem, a quem os elementos
da natureza obedeciam imediatamente, de quem a morte fugia, que não conhecia o medo  – este está
aí, diante de fracos discípulos, lamentando, triste, tremendo, fraquejando! Todo o seu ser treme e se
abala. Dor inexprimível se evidencia no seu rosto. Ansiedade, temor, angústia, agonia de morte  – ele
vacila até quase quebrar. Ele estremece no corpo e na alma, até sucumbir, até desfalecer!  – Ele não
pode ficar. Vigiem e orem comigo, diz ele aos discípulos, e desprende-se deles à distância de uma
pedrada.
Lucas diz: “Ajoelhou-se”. Marcos informa: “Caiu no chão”. Mateus: Caiu de rosto em terra. –
Jesus cai de joelhos e exclama, das profundezas de seu coração, de maneira que soe longe pela noite
enluarada: Meu Pai, se é possível, que esta taça passe longe de teu Filho! Prostra-se sobre o rosto,
deita-se no chão e se retorce como um verme, e grita “com grande clamor e lágrimas” (Hb 5.7)  as
mesmas palavras: Aba, Pai, tudo te é possível. Se for possível, livra-me desse cálice!
Os três relatos têm em comum a figura do cálice. Ela ficou gravada indelevelmente na tradição. O
cálice, por cujo afastamento Jesus pede, é símbolo da terrível morte na cruz, cuja imagem sangrenta e
horrível está neste momento diante dele com extraordinária intensidade. Marcos acrescenta: “Aba,
Pai, tudo te é possível” [Mc 14.36]. Esta é a última e suprema invocação do amor do Pai e,
simultaneamente, da onipotência de Deus. Em momento algum Jesus renuncia à obra de reconciliar a
humanidade. Ele indaga somente se a cruz é o único meio para alcançar essa meta. Acaso Deus, com
seu poder ilimitado, não poderia encontrar um outro caminho para a reconciliação? Por conseguinte,
também Jesus teve de obedecer sem entender, e teve de aprender a “andar por fé”. As expr essões de
Hb 5.8: “Ele aprendeu a obediência”, e de Hb 12.2: “o Consumador da fé”, iluminam profundamente
essa luta do Getsêmani.
O Pai não responde. O grito de Jesus ecoa pela noite solitária e silenciosa. Nenhuma gota de
consolo refresca o sofredor cansado. As ondas do medo se avolumam, mas o Pai calado deixa seu
Filho lutar.
O Senhor levanta e vai até os três discípulos, na esperança de obter algum consolo da oração
conjunta. Mas em vão! Eles estão dormindo, de tristeza. Com voz suplicante ele os exorta  a não o
deixarem sozinhos nesta hora, mas que vigiem e orem com ele. Depois retorna ao mesmo local.
Prostra-se no chão. Ora as mesmas palavras. Ora com mais insistência. Ele tem de romper a noite.
Tem de penetrar até o coração de seu Pai. Tem de obter uma resposta.
Será que dessa vez o comovente “Aba, Pai!” atingirá, através da noite, o céu? Será que mais uma
vez o Pai permanecerá calado? Acaso seu coração não se partirá diante de uma angústia tão terrível,
de uma dor tão indescritível, que pesa sobre o Filho, no qual ele tem prazer? Se naquela hora
pudéssemos ter olhado no coração do Pai! Ele não podia responder!
Pela terceira vez o Senhor se precipita pela noite, ao local solitário. “E aconteceu que estava em
agonia de morte. […] O seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” [Lc 22.44]. A
morte faz estremecer seus membros abatidos. As vagas do medo chegam ao máximo, abatem-se
sobre sua cabeça.
Enquanto o Senhor trava a mais amarga e terrível luta de oração jamais travada sobre a terra, os
discípulos dormem!
“O Senhor teve de pisar o lagar sozinho!” Certamente esse sono dos mais fiéis amigos na hora do
terror de sua alma tinha de causar dor extrema ao Salvador. Como uma pessoa gravemente enferma
ficaria sentida se os seus amados dormissem, e m vez de vigiarem com ele no leito!
Também pode ser possível que esse sono representou a ação de Satanás, inconsciente aos
discípulos, porque, enquanto atacava o Senhor, com certeza não deixaria impunes as ovelhas.
Jesus levanta da batalha, liberto do medo , como diz a carta aos Hebreus, ou seja, completamente
dono de si, como resulta no ânimo da pessoa que se entrega numa obediência total. Obviamente a
morte na cruz não perdeu de forma alguma seu tormento. Porém não é mais a mesma a impressão
que a expectativa dela causa em Jesus. Ele se rendeu integralmente. Fez o que anunciou, antes de
atravessar o Cedrom: “Por eles eu me consagro a mim mesmo” (Jo 17.19). É um ato descrito da
seguinte maneira pela carta aos Hebreus: “Pelo Espírito eterno ele se ofereceu a  Deus como vítima
sem mancha” (9.14). Uma vez que assumiu sobre si o sacrifício, sente de antemão a paz pela
realização desse sacrifício. Daqui em diante, caminha a passos firmes em direção da cruz, diante da
qual há pouco tremera. Com os discípulos é diferente. Eles não encararam com firmeza a ameaça do
perigo de se tornarem infiéis, e não se prepararam contra ele por vigília e oração. É bem natural que
sucumbirão.
De acordo com a opinião dos evangelistas e com as palavras que eles colocam na boca de Jesus, a
morte dele não é o resultado histórico do conflito surgido entre ele e as autoridades teocráticas.
Acontece com Jesus somente o que foi determinado acerca dele (Lc 22.22). “É preciso que assim
aconteça” (Mt 26.54).
Jesus morre em prol da remissão dos pecados do mundo (v. 28). A doutrina apostólica, no fundo,
não diz nada mais do que isso. No entanto, obviamente as epístolas destacam mais o plano divino, e
os evangelhos, os fatores humanos. Ambos os aspectos se complementam. Deus age através da
história, e a história concretiza o pensamento de Deus.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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