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11 A purificação do leproso, Mc 1.40-45

A purificação do leproso, Mc 1.40-45
(Mt 8.1-4, Lc 5.12-16)

40-45 Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me. Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. Fazendo-lhe, então, veemente advertência, logo o despediu e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas cousas e a divulgar a notícia, a ponto de não mais poder Jesus entrar publicamente em qualquer cidade, mas permanecia fora, em lugares ermos; e de toda parte vinham ter com ele.

Em relação à tradução
     a
     embrimasthai, de brime, o resfolegar dos cavalos de guerra em Jó 39.20, em Mc 14.5 dito dos
discípulos confusos, em Lm 2.6 do descontentamento de Deus. Expressão muito forte.
     b
     ekballein obviamente não deve ser traduzido por “expulsar”, como no v. 39, como se estivesse falando
com os demônios. A cura já estava realizada.
     c
     eis martyrion autois poderia ser testemunho da salvação. Em duas outras passagens de Marcos, porém,
o testemunho é de comprovação (6.11; 13.9), razão pela qual esta possibilidade aqui não se cogita. Cf Dt
31.26; Js 24.26 no AT, Tg 5.3 no NT.
     d
     Este archesthai com infinitivo, sem ênfase, aparentemente desnecessário, encontra-se 26 vezes em
Marcos e Lucas, 12 em Mateus (ex claros: Lc 3.8; Mc 6.7; At 1.1). De acordo com Mc 8.31 e 10.32 Jesus
“começou” duas vezes a ensinar. Tabachowitz (p 24ss), porém, provou que a expressão é típica do grego
bíblico (LXX), p ex Gn 6.1; 9.20; 10.8; 18.27, às vezes em tom muito solene: Dt 1.5; 2Sm 7.29 e Mq 6.13.
Este é o efeito do archesthai “pleonástico” sobre nós. Por isso deve ser traduzido.
     e
     polla aqui não pode ter o sentido de que o curado anunciou “muitas coisas”, pois o objeto é
identificado (logos). Como um termo típico de Marcos, ele deve ser entendido como advérbio: ele propalou
de modo incansável e continuado; cf. 3.12; 5.10,23,43; 9.26; 15.3. Nos outros evangelhos o uso como
advérbio falta completamente.
     f
     diaphemizein não é usado no NT de modo depreciativo no sentido de fofoca, mas com o sentido mais
amplo de “proclamar” (At 8.4s; 9.20; 10.42; 2Tm 4.2).
     g
     logos aqui não é a palavra pregada como em 2.2; 8.32, mas só o acontecimento (contra Schreiber p
110, com Pesch e Gnilka).
Observações preliminares
1. Contexto. Sem indicação de tempo e lugar, na verdade sem nenhuma nota pessoal concreta, esta história
não procede do contexto anterior do “dia em Cafarnaum” (opr 1 a 1.21-28), mas lhe foi acrescentada. Ela,
contudo, se encaixa bem no tema. A palavra-chave “puro”, que aparece quatro vezes, lembra as três menções a
“impuro” na primeira história (v. 23,26,27). Novamente Jesus se revela como o “Santo de Deus” (v. 24). Mais uma vez se destaca o que Jesus “pode” (compare o v. 41 com v. 22,27), ele é mal-entendido (cp v. 45 com v. 36), ele se retira para um lugar deserto (cp 45 com v. 35), repete-se o afluxo das massas e a pregação (cp v. 45
com v. 33,37,39). Com este apêndice Marcos coloca um ponto final forte, na verdade um ponto alto, dando voz à compaixão de Jesus (v. 41). Assim, ele interpreta a atuação de Jesus como cumprimento da mensagem de consolo de Israel: “O que deles se compadece” os “consolou”, e “dos seus aflitos se compadece”, “com
grandes misericórdias”, com a “ternura” do seu coração (Is 49.10,13,15; 54.7s; 55.7; 63.15). A cura do leproso também tem relação com a salvação escatológica (cf. opr 3).
Por outro lado, novos tons se manifestam, que já preparam o bloco seguinte de narrativas, especialmente o
traço anti-rabínico. Jesus não está eliminando a impureza demoníaca como no v. 23, mas a impureza cultual.
Com isto ele está rasgando a rede dos preceitos dos rabinos. Este tema passa para o centro a partir de 2.1, de modo que nossa passagem funciona como ponte entre os dois blocos de narrativas.
2. Lepra. Um “leproso” na verdade é alguém “com a pele descascando” (lepros, de lepein, descascar). Por
isso a “lepra” (v. 42), diferente do sentido de hoje, abrangia alergias da pele em geral, das quais os rabinos
tinham relacionado 72 (veja a relação de Lv 13), tanto curáveis como incuráveis. A lepra de hoje provêm de
um bacilo que também produz tuberculose, e destrói os nervos periféricos; em seus primeiros estágios ela é
curável. Atualmente calcula-se a número de leprosos em 20 milhões, dos quais uns 3 milhões estão em
tratamento. Dependendo das circunstâncias, o doente, em um espaço de 20 a 30 anos, se transforma em uma carcaça repulsiva, e termina entrevado. – No caso presente devemos pressupor uma doença grave e incurável.
A voz pode ter saído rouca e esganiçada de um rosto branco de escamas (cf. Êx 4.6, Lv 13.13; Nm 12.10; 2Rs 5.27). Um hálito malcheiroso se espalhava. Talvez o homem tenha-se arrastado com muletas até onde Jesus estava, sem força muscular e com alguns membros apodrecidos.
Na realidade, em nossa história o aspecto físico-médico nos interessa pouco. Em vez de palavras como
“doente”, “curar”, “são” lemos sobre “purificar”, “puro”, “purificação”. “Puro – impuro”, porém, na Bíblia se
refere à relação com Deus e corresponde a “santo – profano”. A aparência do doente era tão repugnante que, nas circunstâncias daquela época não havia como não ver nela um castigo do céu. Uma pessoa assim devia ter cometido pecados tão graves que Deus o rejeitou. A palavra hebr para lepra expressa que a pessoa foi atingida
por Deus, tanto que o judaísmo p ex entendia o homem “ferido de Deus” de Is 53.4 como leproso. Um
sacerdote judeu dava ao leproso este conselho: “Vá, examine-se e converta-se. A lepra é conseqüência de
blasfêmias, as escaras vêm por causa do orgulho”.
Assim se pode explicar as diretrizes tão duras para os leprosos. A intenção não era só evitar a
contaminação dos bacilos, mas isolar alguém que foi marcado por Deus e proteger a comunidade dele.
Ninguém deveria tornar-se culpado pelo contato com este miserável, e macular-se. Ao menor toque a
“impureza” seria transmitida, diante de Deus. Por isso Lv 13.45s diz: “O leproso trará suas vestes rasgadas e seus cabelos desgrenhados (gestos de arrependimento!); cobrirá o bigode e clamará: „Impuro! Impuro!‟…” Os escritos judaicos reforçam isto: “Quando um leproso entra numa casa, todos os objetos nela se tornam impuros, até a trave do teto”. Na verdade o país inteiro se torna impuro com estes doentes. As cidades eram consideradas mais puras que o restante do país, porque os leprosos eram expulsos para fora dos muros sob a ameaça de chicotadas, o que lá não era possível. Jerusalém era uma destas cidades. O culto no templo era proibido aos leprosos, enquanto que em sinagogas nas aldeias eles podiam participar, trancados em salas especiais. De um rabino se conta que ele se escondia quando vinha um leproso. Era obrigatório manter 4 côvados (1,3 m) de distância de um leproso em dias sem vento, no mais até 100 côvados. Um rabino jogou pedras num leproso: “Vá para o seu lugar e não manche as pessoas!” Outro não comia ovos postos por uma galinha da rua de um leproso. Um doente destes, então, tinha um destino terrível ao triplo: ferido por Deus, expulso pela comunidade, para si mesmo um nojo. Era considerado um morto-vivo: “Quatro são comparados ao morto: o pobre, o leproso, o cego e o que não tem filhos” (cf. Nm 12.12).
Nada mais lógico do que, em conseqüência, considerar a cura da lepra como uma ressurreição. Só podia ser esperada de Deus. Quando o rei de Israel, em 2Rs 5.7, leu a ordem de curar o leproso Naamã, e exclamou,
horrorizado: “Acaso, sou Deus com poder de tirar a vida ou dá-la?” (cp para o tema geral Bill. IV, 745ss).
3. Variantes textuais para v. 41. Para a expressão “profundamente compadecido” no v. 41 há uma variante
digna de nota. O Códice de Cambrigde (D), tardio e com lacunas em vários sentidos, nos surpreende como o único manuscrito grego que nesta passagem traz “e irado”. Entretanto, como quase todos os intérpretes mais recentes dão preferência a esta variante, vendo no texto que conhecemos um arredondamento, o caso carece de uma explicação.
O códice é bilingüe, com o texto grego na coluna da esquerda e um texto em latim na direita. Neste códice,
portanto, os dois lados falam da ira de Jesus. Ele, porém, provavelmente provêm de uma região em que havia um certo interesse pelo texto grego, mas o latim era a língua corrente, razão pela qual o texto latino era
necessário. Com isto o manuscrito faz parte da tradição latina, e temos três outros manuscritos, dos séculos IV, V e VII, que escrevem sobre a ira de Jesus. Como, porém, esta expressão pode ter entrado na tradição latina?
No Códice de Cambrigde foi identificada certa influência síria, com base em outros sinais, e, como a variante acima também se encontra no evangelho sírio de Taciano (escrito por volta de 180), a sua origem poderia estar com Taciano. Ele ou sua fonte podem ter aproximado o v. 41 do v. 43, onde Jesus também trata o homem com dureza. Ou simplesmente aconteceu um engano, pois a palavra aramaica subjacente pode ser facilmente confundida com uma outra (B. M. Metzger). – Em conclusão: uma tradição bastante forte, antiga e boa testifica que Jesus estendeu ao leproso sua mão cheia de compaixão, não cheia de ira contra demônios ou professores da lei. Disto fala só um filete muito tênue da tradição.
Com freqüência levanta-se contra a autenticidade do texto de Marcos, que “profundamente compadecido”
falta em Mateus e Lucas. “Irado”, porém, também falta! Eles costumam deixar fora as “demonstrações de
emoção” de Jesus. Lc 9.10 não tem o “compadeceu-se” de Mc 6.34, Mt 19.21 e Lc 18.22; Mt 19.14 pulam o “fitando-o, o amou” de Mc 10.21, Mt 19.14 e Lc 18.16 também ignoram a irritação de Jesus em Mc 10.14, como Mt 12.12 e Lc 6.10 a ira de Jesus em Mc 3.5. Ninguém, porém, questiona a autenticidade to texto de Marcos.
     40     Aproximou-se dele um leproso. Com a omissão de todos os dados sobre origem, destino e
composição, este homem se torna modelo para todos que sofrem por não serem aptos para Deus (opr
3), e da constatação: “eu não combino com ele, não sirvo para a convivência permanente com Deus.
Isto me sobrecarrega, não consigo me livrar de uma consciência pesada crônica. Não sou espiritual,
mas um mundano típico, só lambuzado um pouco com maquiagem cristã. Na devoção da igreja eu
me sinto como um corpo estanho. Não sou autêntico.” “Seria, porventura, o mortal justo diante de
Deus? Seria, acaso, o homem puro diante do seu Criador?” (Jó 4.17).
Do v. 45 entende-se que o miserável forçou a passagem até Jesus no meio de um povoado. Ele
simplesmente rompeu a zona de proteção com que os sadios tinham-se cercado. Quando ele surge,
para horror dos circundantes, num piscar de olhos os lugares ficam vazios. Só Jesus não foge. Jesus
deixa que ele se aproxime. Até aqui se falou que Jesus “veio” (v. 7,9,14,21,24,29,35,38); agora
alguém vem a ele (aqui e no v. 45), demonstrando que entendeu a vinda dele. O doente roga-lhe, de
joelhos, como se pede a um Todo-Poderoso: Se quiseres, podes purificar-me. Com isto ele está
dizendo: Este pode! Bem diferente do pai do jovem lunático de 9.22: “Se tu podes alguma coisa…”
A expressão: “Se quiseres”, que Jesus retoma em sua resposta: “Eu quero!”, é levada pouco em
consideração pelos comentadores. O homem tem confiança que Jesus pode, mas, apesar da sua
miséria indizível e de sua ânsia compreensível de ser curado, ele não assedia Jesus. Em sentido
literal, o que ele diz nem é um pedido, mas uma constatação, uma homenagem. Em rendição extrema
ele se prostra aos seus pés e diz duas vezes “tu”, e só mais uma vez “eu”. “Se quiseres” lembra o que
diz alguém diante da última instância; é linguagem da oração. Diante do Altíssimo esta submissão ao
“se” divino é absolutamente apropriada (At 18.21; 1Co 4.19; Tg 4.15). O próprio Jesus praticou isto
(Lc 22.42; cf. Mc 14.36) e o ensinou aos seus discípulos (Mt 6.10). Ao aplicar esta forma de
tratamento a Jesus, o pedinte está tateando pelo Filho. Ele lhe atribui uma dignidade que ultrapassa
em muito a autoridade dos profetas. Eles também “podiam” fazer milagres, mas não todos que
queriam ou que lhes eram solicitados. Eles mesmos estavam debaixo do “se Deus quiser”. Ao
encontrar Jesus, no entanto, o leproso deu de encontro com o próprio Deus (cf. 1.3). De acordo com
Mt 11.27, Jesus em pessoa é a vontade de Deus de salvar, estendida a nós: “Tudo me foi entregue por
meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a
quem o Filho o quiser revelar.” E Jo 5.21 (cf. 17.24; 21.22): “Assim como o pai ressuscita e vivifica
os mortos, assim também o Filho vivifica a quem quer”. Comparamos também com Mc 3.13:
“Chamou os que ele mesmo quis”.
     41     Quatro verbos esboçam a reação de Jesus ao pedido do homem a seus pés. O primeiro é
compadecendo-se. Os sinóticos, em doze passagens, nenhuma vez usam este termo para a
compaixão humana. Ele expressa a amplidão da misericórdia de Deus. Por isso também não se vê
uma “expressão emocional” de Jesus aqui; sua divindade é testificada. O campeão, como o qual Jesus
foi descrito nas histórias anteriores, levanta um pouco a viseira e mostra seu rosto: ele é a disposição
poderosa de Deus para ajudar (cf. 6.34n).
No segundo verbo sua compaixão se torna ação: estendeu a mão. Em Jesus, Deus faz uma ponte
entre ele e os excluídos (1.31; At 4.30).
Em terceiro lugar lemos: tocou-o. Este toque, sem ser qualificado por um objeto, fica ainda maior.
Ele é guarnecido, por assim dizer, por três pontos de exclamação. Este toque quebra o sistema
judaico em um lugar decisivo (opr 3), na verdade, o sistema do mundo. O céu desce até a terra, Deus
volta para sua pobre gente. Esta quebra da desesperança e da sua cobertura de dogmatismo se repete
sempre de novo em Marcos, mesmo que não com tanto destaque como aqui (3.10; 7.33; 8.22; 10.13;
cf. 5.27,31; 6.56).
Por último, Jesus fala na autoridade perfeita de Deus: Quero, fica limpo! Os espectadores podem
ter imaginado horrorizados que, neste toque, o puro ficou impuro. Entretanto, o puro purificou o
impuro (cf. 1.24) e o envolveu na imensa bondade de Deus. “Já nenhuma condenação há para os que
estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
     42     No mesmo instante – esta palavrinha muitas vezes, em Marcos, chama a atenção para um milagre
em andamento (1.12n) – lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. Foi o atendimento simples do
pedido do v. 40, com diferenças marcantes das curas de lepra que o AT nos relata (Nm 12.14s; 2Rs
5.8-14).
     43     Fazendo-lhe, então, veemente advertência, ouvimos com surpresa. O compassivo de repente se
torna um lutador ofegante. Da sua própria compaixão brota a irritação, porque vê sua obra em perigo.
Sua ira, porém, aqui não pode referir-se ao poder da doença, como em Jo 11.33,38, pois este já foi
quebrado. Além disso, aqui se diz que Jesus se dirigiu de forma dura ao purificado, não a outra coisa.
Exaltado, Jesus logo o despediu, mandando-o embora da cidade. Ele quer separá-lo da multidão e de
certo tipo de divulgação, como o v. 44 mostrará. As conseqüências lamentáveis desta propaganda
apressada e arbitrária aparecem no v. 45: a apresentação de Jesus nas sinagogas da província foi
interrompida.
     44     E lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém. Se esta ordem de silêncio significasse que não
deveria falar sobre sua purificação com ninguém, o contraste seria gritante com o trecho seguinte do
versículo. Naturalmente o sacerdote e a sinagoga precisavam ficar sabendo oficialmente da sua cura.
Afinal de contas, ele não fora purificado para continuar bancando o impuro, mas para pertencer
novamente ao povo de Deus. Como o cego de Jo 9.11,15, ele haveria de dar testemunho da sua cura
por Jesus.
Então, o que é que ele não deveria dizer? Pesch acha que ele não deveria revelar a fórmula de cura
de Jesus. Schmithals vê aqui a dica de que um tempo sagrado de silêncio deveria ser guardado antes
da manifestação no templo. O sentido da proibição, porém, deve ser depreendido do diálogo dos v.
40,41. Ele roçou o mistério da pessoa de Jesus: nele retornaram a intenção de Deus de criar e salvar.
Ele não é só profeta, mas o cumprimento da profecia, o “Filho” de 1.11. Nenhuma palavra sobre isto!
Para o motivo, veja 1.34; 3.11s. Só que este purificado quebrou o mandamento de silêncio. Este é um
traço constante em Marcos. Mesmo onde lampeja certa compreensão de quem é Jesus, até entre os
mais fiéis e com as melhores intenções, ao mesmo tempo se vê esta incompreensão. O “Filho” é
solitário também entre seus mais próximos (14.27-31) – eles chegam a calcá-lo aos pés (Jo 13.18).
Este gesto de falar “por” Jesus, sincero mas tão dolorosamente enganado, coincide, em sua
tendência, com o modo de ser de Satanás (1.25,34; 3.12; 8.33). Assim se explica a dureza marcante
de Jesus neste lugar. Desde o batismo, Satanás quer atrair o Filho para longe do caminho da cruz, do
caminho do Filho de Deus isaiano para o do filho de Deus helenista (opr 1 a 1.9-11). Para isto ele se
esconde atrás do povo ávido por milagres, e até de discípulos dedicados.
Jesus continua: mas vai, mostra-te ao sacerdote. Este que fora trazido de volta à comunhão com
Deus também deveria ser reintegrado em Israel, de toda forma reocupar seu lugar na sociedade.
Ligação com Deus e contatos sociais estão relacionados. Assim, Jesus envia o homem às instâncias
respectivas. A primeira parada não é logo Jerusalém. Os milhares de sacerdotes e levitas moravam
espalhados pelo país, e também na Galiléia sua presença é atestada (Jeremias, Jerusalém, p 224, nota
9). Lv 14 qualificava todo sacerdote para fornecer um atestado de saúde e pronunciar a purificação
(Bill. IV, 758). Mais tarde, depois de certo tempo de espera, um sacrifício no templo em Jerusalém
era devido (Lv 14.10,21s). Por isso Jesus acrescenta: e oferece pela tua purificação o que Moisés
determinou.
Contudo, o que significa a conclusão curta para servir de testemunho ao povo? “Testemunho”
neste caso dificilmente pode ser limitado à confirmação verbal. Preste atenção no plural, que inclui
tanto o sacerdote na Galiléia ao qual o purificado se apresentaria, como o sacerdote em Jerusalém
que ajudaria a oferecer o sacrifício. Todo este processo passa a ser um testemunho: um homem se
apresenta aos sacerdotes e, em resposta às perguntas, conta o que Jesus fez e refere às prescrições de
Moisés, por ordem de Jesus. Desta forma, Jesus, Moisés e a própria convicção deles, de que só Deus
pode curar a lepra, acusam sua incredulidade e os conclamam à fé. A história pode ser de uma época
em que Jesus já vivia em tensão com “eles”.
     45     Certamente o purificado trilhou o caminho pelas instâncias competentes, pois sem a declaração de
pureza de um sacerdote não havia como ser reintegrado na sociedade, mesmo faltando-lhe a
qualificação para a divulgação entre o povo, da qual se fala em seguida: Mas, tendo ele saído,
entrou a propalar muitas cousas e a divulgar a notícia. Ele deveria ser testemunha, mas só na
esfera dos procedimentos jurídicos. Por conta própria ele se transformou em arauto que cruza a
província, transgredindo seu encargo (diferente do que foi curado em 5.19s). Jesus sofreu as
conseqüências: a ponto de não mais poder Jesus entrar publicamente em qualquer cidade, mas
permanecia fora, em lugares ermos. Deste versículo já falamos acima, no v. 44.
Este ritmo de revelação e dissimulação passa como uma série de ondas por todo o livro. Em 7.36
diz expressamente: “Quanto mais recomendava, tanto mais eles o divulgavam”. E em 7.24: “Não
pôde ocultar-se”. Ele proibiu severamente a divulgação, mas a compreensão errada frustou seu
intento. Só que ele suportou estas frustrações e não interrompeu seu ministério, pelo contrário, levou-o à frente com ímpeto cada vez mais forte, apesar das circunstâncias cada vez mais difíceis. Aqui o
resultado da sua atuação prejudicada é um novo e grande êxodo, que lembra 1.4: e de toda parte
vinham ter com ele.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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