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113 O interrogatório perante o Sinédrio, Mt 26.57-68

O interrogatório perante o Sinédrio, Mt 26.57-68
(Mc 14.53-72; Lc 22.54-71; Jo 18.12-27)

57-68 E os que prenderam Jesus o levaram à casa de Caifás, o sumo sacerdote, onde se haviam reunido os escribas e os anciãos. Mas Pedro o seguia de longe até ao pátio do sumo sacerdote e, tendo entrado, assentou-se entre os serventuários, para ver o fim. Ora, os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte.
E não acharam, apesar de se terem apresentado muitas testemunhas falsas. Mas, afinal, compareceram duas, afirmando: Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e reedificá-lo em três dias. E, levantando-se o sumo sacerdote, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardou silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia! Que vos parece? Responderam eles: É réu de morte. Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!
Os mais ferrenhos inimigos do Senhor reuniram-se rapidamente à noite, a fim de encaminhar a
questão sem delongas. Entretanto, para manter pelo menos a aparência do direito, realizam uma
segunda reunião cedo de manhã, num horário legalmente permitido, não para prosseguir nas
investigações, mas para confirmar, no que fosse necessário, uma decisão já tomada.
Vemos como o Senhor, submetido às mais rudes torturas, mantém um inabalável  silêncio, assim
como antes diante das falsas testemunhas. Na história da Paixão somos informados  quatro vezes
sobre esse silêncio: diante de Caifás (v. 63), perante Herodes (Lc 23.9) e duas vezes diante de
Pilatos (Mt 27.12 e Jo 19.9). Constitui uma das tarefas mais marcantes interpretar esse silêncio em
toda a sua força. Contribuirá muitíssimo para aprofundarmos nossa vida de fé se observarmos quando
Jesus falou e quando se calou.
O sumo sacerdote e todo o tribunal procuravam por falsos testemunhos contra Jesus, a fim de
poderem matá-lo.
“A lei exigia que a acusação fosse comprovada pela declaração de testemunhas oculares. Se elas
faltavam, nenhum juiz judeu pronunciava uma sentença de conde nação. Essa também é a razão por
que inicialmente foi feita a tentativa de determinar, a partir de afirmações de testemunhas, que Jesus
estava em discórdia com Deus e sua vontade. Essa, porém, era uma tentativa complicada. Pois
ninguém o ouvira blasfemar contra Deus. Jamais ele censurou uma pessoa sequer sem que
fundamentasse sua afirmação perante todas as consciências. Mateus relata uma das expressões que
naquele tempo eram usadas contra Jesus: Este disse: Posso destruir o santuário de Deus e
reedificá-lo em três dias. É a mesma palavra de Jesus que está em Jo 2.19. Contudo, ela foi
distorcida pelos seus acusadores. Jesus jamais falou que destruiria o templo, mas sim que Israel o
estava destruindo por brigar com Deus e por rejeitar aquele que Deus enviou. No lugar do santuário
profanado por Israel, que caminha rumo à destruição, Jesus coloca a si próprio, na forma de
Ressuscitado, porque ele é que se torna o mediador da presença divina para o mundo e que manifesta
o senhorio de Deus.
“Os acusadores retiraram daquelas palavras a inculpação de Israel que elas continham. Não
captam que, por meio delas, Jesus descrevia a culpa deles, porém detectam nelas a intenção arrogante
de querer destruir o santuário de Israel. Tampouco se apercebem que, neste exato momento, tornava-se verdadeira a palavra pela qual eles o acusavam como pecador e insensato. Agora eles estavam
agredindo o templo de Deus, no qual Deus estava com eles, e começaram a obra da demolição que
Jesus reverterá novamente após três dias.
“Levantou-se o sumo sacerdote e perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem
contra ti? Mas Jesus guardou silêncio. Quando o sumo sacerdote exigiu que Jesus se posicionasse
quanto à sua atitude diante do templo, Jesus abriu mão de qualquer defesa.
“Teria sido muito fácil para Jesus declarar-se fiel à santidade do templo enquanto casa de seu Pai.
No entanto, ele evitou tudo que pudesse causar a impressão de que estivesse resistindo à sua morte.
Unicamente a direção do próprio Deus mostraria qual era o verdadeiro sentido daquela sua profecia.
Ela trará a demonstração de que em Jesus o templo foi quebrado e ressurge em nova forma. Agora
Jesus não podia esclarecer mais nada com palavras.
“E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Messias,
o Filho de Deus. Uma vez que era impossível declarar Jesus um pecador a partir de uma prova
testemunhal, o sumo sacerdote exigiu de Jesus que ele próprio declarasse sua vocação real. Para que
não tentasse esquivar-se, pronunciou sobre ele a fórmula de juramento, para lhe abrir a boca com a
ameaça do julgamento divino. Também o sumo sacerdote conecta as duas expressões, tal como o
discípulo, quando confessou Jesus [Mt 16.16]: Cristo, o Filho de Deus. Desse modo ele lembra Jesus
a base sagrada, a partir da qual o Prometido receberá seu poder e sua missão. Quem lança mão da
promessa como se fosse destinada a si próprio, esse se posiciona diante de Deus como seu Filho. Se o
faz com usurpação, essa atitude contém uma maldosa negação da  santidade divina“ (Schlatter, p.
338s).
Ou seja, o sumo sacerdote resolveu formular a pergunta final e decisiva. Praticamente para forçar
a resposta, emprega a fórmula do juramento. Chegou, pois, o instante decisivo. Da boca do sumo
sacerdote ouve-se a pergunta: “És tu o Filho de Deus?” Quem aprendeu a compreender a fundo este
interrogatório, experimenta ainda hoje a tensão ansiosa que prende a atenção de toda a assembléia. O
que dirá ele? Com tranqüilidade e clareza, para que todos o ouçam, ele declara: “T u o dizes! Sou o
que acabaste de dizer.”
Como isso parecia inacreditável aos juizes, Jesus acrescenta que Deus, muito além de todo
pensamento humano, confirmará e consumará gloriosamente sua afirmação sobre si mesmo. No
momento atual, é verdade, ele está diante deles batido, pisado e amarrado. De agora em diante,
porém, ele se encontra no caminho de volta ao Pai, onde se assentará  à direita de Deus, e de onde
retornará um dia com grande poder e glória como juiz do mundo.
Naquele instante o sumo sacerdote rasgou as suas roupas. Tamanha blasfêmia que tinha de ouvir
com os seus ouvidos o deixou sobressaltado. A blasfêmia o abalou extremamente. Como sinal de
pavor, porque teve de ouvir tamanha ofensa a Deus, de modo que se tornava pecador também, rasgou
sua roupa na altura do peito.
Qual é a sentença condenatória em caso de blasfêmia? A resposta não pode ser outra: ele é
culpado de morte (veja também as pesquisas inteligentes de Bornhäuser sobre a confissão de Pedro e
a pergunta do sumo sacerdote!).
A controvérsia sobre a pessoa de Cristo persiste até hoje. Mais de cinqüenta gerações passaram
desde que Jesus declarou sob juramento que ele é Filho de Deus. Em cada geração esta questão foi
levantada, houve lutas a favor e contra ela, e assim será até o fim  – até que ele, no seu glorioso
retorno, porá fim à controvérsia para sempre.
Ainda hoje está de pé, com toda a nitidez, a pergunta pela decisão, como a formulamos acima: Ou
Cristo testemunhou a verdade e é Filho de Deus, ressuscitou e está à direita de Deus como rei de seu
reino e retornará como juiz do mundo,  ou ele cometeu perjúrio. Neste caso, o cristianismo seria o
mais grandioso golpe que enganou o mundo, e os cristãos seriam “os mais infelizes de todos os
homens” [1Co 15.19]. Uma posição intermediária, uma fé que não traça essa conseqüência lógica,
mas que tenta conciliar entre esses dois extremos, é um absurdo, uma inverdade por excelência.
“Depois que a sentença foi proferida, os juizes dão livre vazão ao seu ódio. É sabido que a boa
educação, mesmo diante do condenado, e mais ainda, o respeito diante da magnitude da justiça,
exigem que se o condenado seja protegido de quaisquer maus tratos, para que possa triunfar nele
unicamente o direito. No entanto, os inimigos de Jesus desconhecem tais sentimentos. Não há limites
para seus atos pessoais de zombaria e maus tratos.
Segundo o teor de Mateus, todos esses escárnios e abusos devem ser atribuídos aos próprios
membros do Sinédrio. Não são mais capazes de controlar sua fúria e se divertem dando-lhe pancadas
e tapas, a ponto de esquecerem sua dignidade de juizes. A segunda palavra grega também poderia ser
traduzida com “cacetadas”, que é o sentido que possui em toda a literatura profana. No entanto, será
mais correto neste contexto o significado de “dar bofetadas”, o qual é comum a todas as demais
passagens do NT e que também cabe melhor no nexo da cena toda. Pois ao que parece fizeram com
Jesus a brincadeira de moleque, que o escritor grego Pollux descreve assim (no seu  Onomasticón
9.29): “Vedam os olhos de alguém e  lhe dão bofetadas. Depois ele precisa adivinhar quem o bateu ou
com que mão o fez”. O fato de que Jesus precisa tolerar sem resistência todos os maus tratos deles,
deixa claro, segundo eles, que a opinião dele sobre sua filiação divina é uma mentira” (em r elação a
isso, cf. Lauck, p. 136).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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