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114 A negação de Pedro, Mt 26.69-75

A negação de Pedro, Mt 26.69-75

69-75 Ora, estava Pedro assentado fora no pátio; e, aproximando-se uma criada, lhe disse: Também tu estavas com Jesus, o galileu. Ele, porém, o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes. E, saindo para o alpendre, foi ele visto por outra criada, a qual disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. E ele negou outra vez, com juramento: Não conheço tal homem. Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia. Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente.
Entre os discípulos em fuga, o primeiro a se recompor foi Pedro, juntamente com um segundo
discípulo, de nome João. Seguiram o pelotão que conduzia Jesus, naturalmente ficando à distância.
Quando chegaram ao palácio do sumo sacerdote, aquele segundo discípulo conseguiu entrar de
imediato na antessala, por ser conhecido daquele. Parece que está audaciosamente fazendo uso de um
relacionamento antigo com essa casa, a nós desconhecido. Pedro, por sua vez, parece ter sido
impedido por uma vigia na porta. Talvez seu companheiro tenha percebido sua falta somente depois
que ele próprio já havia entrado. Por isso retorna e fala com a vigia, podendo, logo,  levar Pedro para
dentro. Esta nota tem valor inestimável. Não podemos supor que o outro discípulo de Jesus tenha
negado sua relação com ele. Naturalmente ele tampouco esta preparado no seu espírito para ingressar
no salão do tribunal, para testemunhar a favor de Jesus diante das falsas testemunhas.
Cautelosamente, João adotou a posição de um amigo do acusado que o observava com simpatia.
Pedro, por sua vez, deve ter passado pela soleira da porta do palácio com preocupação.
Continuava viva em sua memória a lembrança de que há pouco desembainhara a espada contra os
empregados da casa.
É verdade, não sem um pressentimento terrível Pedro está entrando nesse local, pois Jesus lhe
havia anunciado claramente que ele o negaria. Num caráter tão ativo como o seu, essa grande
insegurança interior se exterioriza com nitidez, e muito mais na medid a em que a tenta reprimir.
Parece que foi exatamente esse esforço que se tornou a primeira causa dele ser tentado. Era uma
noite fria. Os empregados haviam acendido uma fogueira de carvão que queimava no pavilhão, e
sentaram-se ao redor a fim de se aquecer. Pedro entrou na roda, para se aquecer também. Conforme
Mateus, temos de supor, até, que ele primeiro se abaixou para se sentar, talvez para dar uma
impressão completa de uma firmeza segura de si. Contudo, é possível que sua inquietação interior em
breve o tenha levado a levantar-se. O fato de Pedro se aproximar dos empregados irritou a vigia, que
desde o início achara que aquele não era o seu lugar. Achegou-se ao discípulo e perguntou-lhe: Não
és tu também um dos seguidores daquele homem? Subitamente, pois, viu-se ele desmascarado no
meio dos vingadores a serviço do seu inimigo. Abalado e confuso, esqueceu-se de tudo e disse não.
Essa primeira negação, porém, soou quase como se Pedro quisesse negar-se também a si próprio. É
bem provável que Mateus nos transmitiu a expressão literal do discípulo que caía:  Não sei o que
dizes! Na triste situação em que se encontrava, talvez tenha tentado convencer-se inicialmente que,
com essa resposta, foi nada mais que uma evasiva inteligente. De acordo com Lucas, a criada,  ao
perguntar, o havia encarado firmemente sob a luz da fogueira. Ele, porém, a afastou de si com
indignação, pelo que se revelou sua agitação: Mulher, não o conheço! Essa foi a primeira negação.
Aconteceu diante dos ouvidos de todo esse círculo. Pedro já foi derrotado no interrogatório da
empregada.
Isto deve ter acontecido no momento em que Jesus, inquirido pela sumo sacerdote, apelou para os
seus ouvintes: “Pergunta-o aos que me escutaram. Eles bem sabem o que eu disse” (Jo 18.21).
De acordo com Mateus e Marcos, parece que logo após a primeira negação Pedro tinha a intenção
de deixar esse lugar perigoso. Somente a partir de João podemos supor que ele ainda permaneceu por
um tempo entre os empregados em torno do fogo. Provavelmente não quis trair seu embar aço íntimo
e assegurar, pela demora, a sua retirada. Contudo, no momento em que queria sair do salão para a
antessala (onde talvez o outro discípulo permanecera por cautela), a segunda tentação se pôs no seu
caminho. Agora a agitação do discípulo acuado era enorme. Segundo Marcos, podia-se escutar o
primeiro cantar do galo, sem que isso chamasse à consciência o discípulo cambaleante. Nos relatos
também ficou registrado este seu nervosismo. A criada o viu de novo, diz Marcos, começando a falar
dele entre os presentes: ”Este aí é um deles” [Mc 14.69]. Outra mulher também o viu, segundo
Mateus, e a afirmação ali transmitida é, pelo conteúdo, a mesma. Outro o viu, diz Lucas, e falou: “Tu
também és um dos dele” [Lc 22.58]. E, de acordo com João, vários dos empreg ados em redor do
fogo lhe perguntaram: “Não és, porventura, também tu um dos seus discípulos?” [Jo 18.25].
Pedro nega de novo! Com um juramento, ele reforça sua palavra: Não conheço esse homem!
O perigo passa a aumentar incrivelmente, porque outras pessoas no círculo o reconheceram e
gritavam: Sem dúvida alguma você também é um deles! Aliás, o seu sotaque o denuncia [v. 73].
João informa que quem falou assim era empregado do sumo sacerdote, um parente daquele de
quem Pedro cortara a orelha. João simplesment e prossegue: “Ele negou mais uma vez”. Mateus e
Marcos acrescentam o significativo “e ele começou”: Então ele se pôs a jurar com imprecações:
Eu não conheço este homem!
Neste momento de desgraça ouviu-se o cantar dos galos. Era a segunda vez.
Nesse instante Jesus estava sendo conduzido pelo lado do grupo que cercava de modo assustador o
discípulo que o negou. Talvez Jesus ainda ouviu as últimas palavras de Pedro se amaldiçoando.
“Jesus, voltando-se, pôs os olhos em Pedro” diz Lucas [Lc 22.61].  Seu olhar expressava a
profundidade em que o discípulo caíra, o quanto ferira o seu coração, e como este sangrava, não
apenas por causa dele, mas também em favor dele. Talvez o discípulo ainda pudesse constatar as
marcas das torturas que Jesus sofrera. Todavia, a agitação deste cortejo, cujos integrantes não podiam
parar de maltratar o Senhor, lhe dizia que o seu Senhor fora maldito e condenado pelo Sinédrio,
culpado de morte!
Nessa situação ele reencontrou-se consigo mesmo. Da profundeza da alma lembrou-se do que
Jesus dissera: Antes que o galo cante tu me negarás três vezes. Então retirou-se e chorou
amargamente.
Pedro saiu para a noite, mas não para a noite do desespero como Judas. Chorando amargamente,
caminhou em direção da alvorada. O anjo da graça o conduziu no árduo caminho para o tribunal do
espírito, o qual condenaria à morte a sua velha vida, sobretudo o seu velho orgulho. Dessa forma, foi-lhe dado que ele pudesse caminhar para morte com Cristo de uma maneira muito mais salutar do que
ele imaginara. Primeiramente seu arrependimento tinha de ser completo, ele tinha de obter a paz da
misericórdia e da reconciliação da boca de Cristo. Somente depois ele teria condições de prestar a
reparação de sua culpa contra as pessoas, por meio de um grandioso test emunho, diante do qual
desapareceu o escândalo de sua grande negação.
Deve ser observado muito bem que, pelo caminho de seu arrependimento, Pedro se apresenta
como o primeiro grande tipo radiante da verdadeira salvação, enquanto Judas tomou o rumo oposto
com seu remorso. Este tentou primeiro fazer reparação perante os inimigos, perante os quais se
tornou culpado, um caminho pelo qual jamais conseguiu chegar a Cristo. Quando a doutrina cristã
descreve a natureza de uma conversão sincera, ela de forma alguma pode esquecer-se de olhar para o
coração e a vida de Pedro, a figura davídica da nova aliança.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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