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118 Barrabás ou Jesus?, Mt 27.15-26

Barrabás ou Jesus?, Mt 27.15-26
(Mc 15.6-15; Lc 23.17-25; Jo 18.39–19.1)

15-26 Ora, por ocasião da festa, costumava o governador soltar ao povo um dos presos, conforme 
eles quisessem. Naquela ocasião, tinham eles um preso muito conhecido, chamado Barrabás. Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo? Porque sabia que, por inveja, o tinham entregado. E, estando ele no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe: Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito. Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. De novo, perguntou-lhes o governador: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam eles: Barrabás! Replicou-lhes Pilatos: Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo? Seja crucificado! Responderam todos. Que mal fez ele? Perguntou Pilatos. Porém cada vez clamavam mais: Seja crucificado! Vendo Pilatos que nada conseguia, antes, pelo contrário, aumentava o tumulto, mandando vir água, lavou as mãos perante o povo, dizendo: Estou inocente do sangue deste [justo]; fique o caso convosco! E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos! Então, Pilatos lhes soltou Barrabás; e, após haver açoitado a Jesus, entregou -o para ser crucificado.
A preferência de Pilatos era conceder a vida a Jesus. Era tempo de festa. Israel celebrava sua
libertação da terra do Egito. A cidade estava repleta de alegria  e júbilo. Também o procurador Pilatos
costumava colaborar neste dia com a alegria popular, anistiando um preso. Acaso não seria possível
conceder o indulto a Jesus e libertá-lo?
No evangelho de João, Pilatos praticamente oferece ao povo a libertação de Jesus, relembrando-o
desse costume. Provavelmente foi assim que realmente aconteceu. Em Mateus, Pilatos apresenta a
opção entre Jesus e Barrabás. Em Marcos é o povo que interrompe a libertação referente a Jesus e
reivindica subitamente a libertação de um prisioneiro. Dessas diferenças depreende-se novamente
com toda a clareza que os evangelistas não copiaram um do outro, mas que cada autor é determinado,
em seu relato, pelas suas testemunhas oculares.
Não se sabe qual é a origem do mencionado costume. Não é provável que tenha sido introduzido
pelos romanos. Talvez o costume fosse um memorial da grande libertação nacional do êxodo do
Egito, que era festejado na festa da Páscoa. Os romanos, que faziam questão de preservar os
costumes dos povos subjugados, devem ter adotado esse costume. A escolha do povo é retratada por
Lucas como unânime e independente, enquanto Mateus e Marcos, mais exatos, a atribuem a uma
pressão exercida pelos líderes e seus empregados (isso coincide com Jo 19.6).
Marcos e Lucas caracterizam Barrabás como uma pessoa que tinha se tornado culpada de um
assassinato durante uma rebelião. Ou seja, era representante do mesmo espírito revolucionário do
qual o Sinédrio acusava Jesus. Encaminhar Jesus para a cruz e pedir a libertação de Barrabás
significava realizar, ao mesmo tempo, dois atos significativos. Significava rejeitar o espírito da
obediência e da fé que animava toda a obra de Jesus e que poderia ter salvo o povo. Simultaneamente
significava soltar as rédeas do espírito de revolta, que tinha de precipitar o povo na perdição. – Como
a libertação de Barrabás era um ato judicial, Pilatos, para concretizá-la, tinha de se sentar na sua
cadeira de juiz. É provável que naquele instante lhe tenha sido comunicada a mensagem de sua
mulher, da qual fala Mateus (v. 19): Quando estava sentado em seu estrado, sua esposa mandou
dizer-lhe…
A esposa de Pilatos o adverte, porque um sonho angustiante à noite lhe indicou que a condenação
do Justo, do Inocente, significaria grande perigo para Pilatos. É um sinal estranho: a mulher pagã,
com base num sonho, adverte Pilatos. Israel, que tem a Escritura e conhece Jesus, rejeita o Senhor.
A opção por Barrabás constituiu o primeiro ato da última rejeição definitiva de Cristo, o primeiro
expoente de alcance mundial do fato de que os judeus recusam o Messias e o entregam aos gentios.
Uma vez que fracassaram todos os esforços da parte de Pilatos para salvar Jesus, ele ainda tenta
oferecer uma última resistência, mas em vão. Os inimigos de Jesus sentem-se agora senhores da
situação.
A gritaria dos judeus (segundo Marcos e Mateus): Fora com ele, fora com ele. Seja crucificado!
concretizou, enfim, o grau máximo e último da repulsa do Messias em direção dos gent ios.
Rejeitando e amaldiçoando Jesus, lançaram fora também a própria esperança pelo Messias.
Distanciaram-se de todas as profecias messiânicas, a fim de saciarem unicamente sua sede do sangue
de Jesus. – Depois de declararem que rejeitavam Jesus, os judeus, em termos legais, estavam
totalmente rendidos ao poder romano. Do mesmo modo Pilatos estava agora entregue ao poder
demoníaco dos judeus, inimigos de Cristo, de maneira que cedia à vontade deles  – porque não via
outra saída. Por um medo supersticioso, porém, não quis que o ato de condenação parecesse como
um ato dele. Lavou as mãos, a fim de eximir-se de toda culpa por essa quebra do direito.
“Para os judeus, a ação de Pilatos era muito mais impressionante. Na lei de Moisés consta a
determinação (Dt 21.6ss): „Quando no país que o Senhor, teu Deus, der para o possuíres, for
encontrado uma pessoa assassinada, da qual não se sabe quem a assassinou, os anciãos da localidade
mais próxima do corpo devem pegar uma novilha e conduzi-la a um riacho que nunca seca.  Ali
devem quebrar a nuca da vaca, de tal modo que o sangue corra para o riacho. Depois disso todos os
anciãos da localidade devem lavar as mãos sobre a vaca, da qual foi quebrada a nuca, e dizer em alta
voz: Nossas mãos não derramaram esses sangue, e nosso s olhos nada viram desse crime.‟ Ou seja,
solenemente Pilatos imita esse costume judeu na sua cadeira de juiz: „Sou inocente desse sangue.
Vocês são responsáveis.‟ Uma horrível resposta ecoa pelos ares: „Seu sangue venha sobre nós e
nossos filhos!‟ Jamais foi dita uma maldição mais horrenda. E jamais uma maldição se cumpriu de
maneira tão terrível. Se aqueles que a proferiram naquela manhã na fortaleza de Antônia pudessem
ver 40 anos à frente, o seu sangue teria congelado nas veias. Mesmo antes do cerco a Jerusalém o
sangue jorrava „torrencialmente‟ no país. No final do ano 66 foram trucidados 20.000 judeus em
Cesaréia por seus concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios enfurecidos massacraram 13.000
judeus. Algo semelhante aconteceu em outras cidades e ald eias. Em Alexandria, onde os judeus
administravam para si dois bairros através de um etnarca, foram chacinados 50.000 deles,
parcialmente pelos gregos, parcialmente por soldados romanos, e sua casas reduzidas a cinzas. Na
conquista de Gamala pelos romanos  foram mortos até mesmo os bebês. Somente duas mulheres, que
se esconderam, escaparam com vida. Mais cruel foi o massacre em Jerusalém. Na cidade a guerra
civil se desencadeava até mesmo no templo, onde os sicários combatiam uns aos outros (cf. o
comentário a 24.15). Durante uma celebração sacrificial, o pátio interno ficou como que
„transformado num mar‟ pelo sangue dos chacinados. Quando, mais tarde, durante o sítio, os
moradores famintos, que haviam sido forçados sob tortura a entregar seus últimos estoques aos
líderes da rebelião e a roer o couro de calçados e cintos velhos, tentavam à noite, em bandos,
procurar plantas fora dos muros da cidade, era caçados pelos soldados enfurecidos, torturados e
crucificados. Diariamente morriam 500 ou mais na cruz, até que não houvesse mais madeira para
confeccionar cruzes. Quando, enfim, a cidade foi conquistada, a espada romana grassou sem piedade
contra tudo o que a fome e a peste ainda tinham deixado com vida, quer criança ou velho, quer
homem ou mulher. De acordo com Josefo, 1,1 milhões de pessoas foram mortas durante todo o
tempo do sítio. Os vitoriosos pouparam somente os homens ainda jovens e saudáveis, para
transformá-los em escravos. 97.000 foram levados à escravidão. Contudo, para que todos esses
escravos não superlotassem o mercado, milhares deles foram destinados a lutar no anfiteatro como
gladiadores ou com animais ferozes. Os demais desapareceram nas minas da Frígia ou tiveram de
prestar trabalhos forçados na construção do Coliseu.”



Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos! Então ele lhes soltou Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o ter mandado flagelar, entregou-o para ser crucificado.


Mateus compreende os açoites como início da crucificação, porque cada pessoa condenada à
morte na cruz era primeiramente açoitada pelos romanos. De fato, foi assim também no caso de
Jesus. Contudo, por meio de Lucas sabemos que, com esse ato, Pilatos tentou combinar ainda outro
objetivo, qual seja, torturando Jesus, queria saciar a ânsia sanguinária da multidão e assim livrá-lo.
Precisamente a partir dessa intenção uma execução bem severa dessa punição terrível lhe deve ter
sido bem-vinda. Também a lei judaica conhecia a pena do açoitamento (sobre isso, cf. o exposto em
10.17). Muito diferentes e mais cruéis eram os açoites do s romanos. Para eles não valiam as
limitações e medidas de cautela. Sobretudo não havia uma legislação sobre o número de chibatadas.
Um limite somente se alcançava quando os algozes estavam exaustos ou tinham satisfeito sua
crueldade. Os verdadeiros açoites não podiam ser executados num cidadão romano (cf. At 22.25ss).
Por isso o açoitamento era aplicado somente em provincianos e escravos, às vezes como preparação
para a crucificação, outras vezes como tortura para forçar uma confissão. Para executá-la eram
usadas tiras estreitas de couro duro, em que foram trançados pedaços de ossos, chumbos e espinhos
agudos. O delinqüente era amarrado numa coluna baixa, assim que seu corpo curvado permitia ser
alcançado pelas chicotadas de todos os lados. Os relatórios gerais dos autores clássicos e das atas dos
mártires explicam muitos aspectos. Por exemplo, no escrito especial da comunidade de Esmirna,
elaborado por testemunhas oculares, acerca da morte do santo Policarpo, lê-se na introdução, em que
se relata acerca dos demais mártires: “Dilacerados pelos açoites, a ponto de ser possível ver os vasos
sangüíneos interiores e a estrutura do corpo, eles os suportavam de tal modo que mesmo os que
estavam em redor tinham compaixão e choravam”. Eusébio informa acerca do açoita mento do santo
Doroteu (sob Diocleciano) que “até os ossos ficaram expostos”. As diversas expressões para designar
essa punição falam uma linguagem inequívoca: “recortar”, “dilacerar”, “quebrar”, “moer”,
“perfurar”, “lavrar”. As veias, os músculos, as entranhas ficavam expostas diante dos olhares
apavorados dos espectadores. Não raro o delinqüente morria sob a violência das chicotadas.
O Filho de Deus foi açoitado. Aqui toda boca humana deve parar de falar, e o escritor deve parar
de descrevê-lo. Nesse momento cabe apenas silenciar (cf. Lauck; sobre o assunto, Strack-Billerbeck
e Bornhäuser; mais detalhes na bibliografia indicada no final do livro).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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