Pessoas que gostam deste blog

12 Perdão dos pecados e cura do paralítico, Mc 2.1-12

Perdão dos pecados e cura do paralítico, Mc 2.1-12
(Mt 9.1-8; Lc 5.17-26)

1-12 Dias depois, entrou Jesus de novo em Cafarnaum, e logo correu que ele estava em casa     Muitos afluíram para ali, tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam lugar; e anunciava-lhes a palavra. Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens.      E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o doente. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoadosMas alguns dos escribas estavam assentados ali e arrazoavam em seu coração: Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus? E Jesus, percebendo logo por seu espírito que eles assim arrazoavam, disse-lhes: Por que arrazoais sobre estas cousas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados – disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos cousa assim!

Em relação à tradução
     a
     en oiko pode ter o sentido de “em uma casa” (em contraste com “a céu aberto”), mas às vezes deve ser
traduzido por “em casa” (em contraste com “longe de casa”), p ex em 1Co 11.34; 14.35. Aqui o contexto
favorece a segunda opção. De acordo com o texto paralelo em Mt 9.1, Jesus veio “para a sua própria cidade”.
O direito pleno de cidadão era obtido depois de no mínimo doze meses de permanência (Bill. I, 493).
     b
     paralytikos descreve na Antigüidade em geral a pessoa que sofre de deficiência de movimento; não se
deve pensar em um diagnóstico moderno da paralisia progressiva.
     c
     apostegein, lit “destelhar”, pode ser usado para qualquer tipo de telhado, independente da técnica
usada.
     d
     exoryxein, termo técnico para “escavar” telhados palestinos: colocavam-se galhos atravessados sobre
troncos de árvore; sobre estes ramos, caniços e espinhos, cobertos com uma massa de argila e restolho,
umedecida para ser alisada com um rolo de pedra, e consertada antes de cada estação de chuvas.
     e
     A insegurança sobre a maneira de escrever krabattos (quatro variantes!) mostra que não se trata de um
termo da literatura, mas da linguagem popular, para a cama das pessoas comuns, uma esteira primitiva, fácil
de enrolar e levar embora (v. 12). Um evento significativo dos primeiros tempos da igreja: Em certo culto,
Trifílio substituiu krabattos por uma palavra mais fina. Spírido pôs-se de pé irritado e repreendeu-o diante de todos: “Será que você é melhor do que aquele que disse krabattos, a ponto de se envergonhar de usar a
palavra dele?”
     f
     Aqui e no v. 9, aoristo presente (na maioria das variantes): Agora, neste instante, ainda “sobre a terra”
(v. 10), você é perdoado!
     g
     Um relatório precisa relacionar logo no início todos os presentes, mas uma narrativa popular pode
inserir participantes mais tarde (cf. 5.11; 14.4; 15.7,40; Lc 2.8; At 2.5).
     h
     “ele”: referência depreciativa em lugar do nome próprio (cf. 14.71).
     i
     O travessão, de tradição geral, representa uma continuação mais ou menos nestes termos: “… eu curo
agora diante dos vossos olhos este paralítico, dizendo-lhe: Levanta-te, toma o teu leito e anda”. Interrupções
como esta no discurso, cuja continuação está subentendida na mente de todos, são encontradas também em
escritores gregos. Elas favorecem uma narrativa fluente e dramática. Aqui, p ex, teria destoado se a frase:
“Levanta-te, toma o teu leito e anda” fosse citada uma terceira vez, depois do v. 9 e antes do v. 11, além da
notícia em tom semelhante do cumprimento no v. 12.
Observações preliminares
1. Fontes? Não podemos estudar aqui todas as teorias, só uma que se popularizou. Wrede já pensava em
1904 que o “debate” em si dos v. 5b-10 foi uma história independente inserida mais tarde na história da cura.
Hoje em dia esta teoria geralmente é modificada no sentido de que esta inserção nunca existiu como história
separada, mas foi acrescentada mais tarde à história da cura. O que mais surpreende é o argumento de que no
v. 10 se possa reconhecer claramente uma costura. Depois do travessão ele retoma o “disse ao paralítico” do v.
5. Certamente o v. 10 chama a atenção, mas o simples fato de que exatamente este versículo foi assumido sem
retoques por escritores tão sensíveis ao estilo como Mateus e Lucas, mostra que ele também pode ser
compreendido de modo completamente diverso (cf. nota). Fiquemos, portanto, com o princípio sólido de que
um texto deve ser considerado como uma unidade enquanto puder ser entendido como tal, e de que as
propostas em contrário devem ser testadas quanto à sua construção com o mesmo critério como o texto
tradicional. Na interpretação trataremos, sem especificar, de outros argumentos da divisão de fontes, para
demonstrar que, na formação desta história, o enredo histórico se impôs. Por este motivo, algumas coisas
singulares e incomuns não devem ser niveladas, mas consideradas com maior cuidado.
2. Perdão de pecados. Nossa história está no degrau mais baixo de uma escala que atinge seu apogeu só em
3.6, como vimos na opr 2 acima. De outra perspectiva, porém, ela representa um auge que não pode ser
ultrapassado. Melhor do que os parágrafos seguintes, ela apresenta a missão de Jesus e, com isto, o contraste
total entre Jesus e a escola dos rabinos: a realização do perdão dos pecados aqui e agora (“hoje”, no texto
paralelo de Lc), e isto no sentido da cura do homem todo, como fonte da nova criação. Aqui temos um
lampejo de coisas muito profundas.
O que João Batista anunciara em 1.4 agora é desenvolvido amplamente. Quatro vezes temos a expressão
completa “perdão dos pecados” (v. 5,7,9,10; cf. 3.28). O perdão é descrito como ressurreição. No comentário
seguiremos esta linha de pensamento. O momento de pecar foi para nós a hora da morte. Forças da morte
vieram sobre nós. Mais uma vez, o perdão não só esvazia do mal, mas inunda de forças de vida:
experimentamos o batismo do Espírito (1.8) e o reinado de Deus (1.14s), ligados a Jesus, o Filho do homem. O
perdão dos pecados, no entanto, não está “preso” à morte expiatória de Jesus (Beyer, Exegese, p 247)? Não é
isto que dizem textos decisivos como 10.45 e 14.24, e toda a pregação cristã antiga (1Co 15.3)? Nossa
história, todavia, a partir do v. 6 também está imersa em teologia da paixão. Em todos os seus atos e
sofrimentos Jesus é o mesmo como depois na cruz. No fundo, sua encarnação já foi sua paixão, assim como
sua paixão completou sua encarnação. Ele nunca pode ser dividido, nada nele pode ser tomado à parte. Trata-se sempre de todo o Cristo.
3. “Filho do homem” no v. 10. Este título será estudado em detalhe em 8.31. Nossa passagem, porém,
requer uma reflexão específica, porque em um sentido destoa das outras: Jesus fala em público do Filho do
homem! Ele que sempre deu tanto valor à preservação do mistério da sua pessoa. O ensino sobre o Filho do
homem estava restrito ao círculo dos discípulos, que era ensinado sempre fora da pregação pública (4.10s,34;
6.32; 8.27; 9.29,30s; 10.10,32). Em público Jesus falava do “reinado de Deus”, mas para os íntimos do
“mistério do reino de Deus” (1.14s e 4.11). É só neste ensino íntimo dos discípulos que se fala do sofrimento
do Filho do homem (8.31,38; 9.9,12,31; 10.33,45; 13.26; 14.21,41), até que o segredo seja desvendado em
14.62 (qi 7b). É em relação a isto que nossa passagem, onde Jesus se identifica como Filho do homem diante
do povo e dos professores da lei, é uma exceção tão destacada que foi explicada como acréscimo posterior
(para 2.28 cf. comentário). Eu sigo uma outra possibilidade.
“Filho do homem” na época de Jesus ainda não era automaticamente um título. Em Dn 7.13, em que Jesus
pensava, como mostram suas ligações freqüentes de “Filho do homem” com expressões deste capítulo, de
forma alguma temos um título. Ali se diz que, em contraste com uma série de comparações com animais
(“como leão, urso, leopardo”, v. 4,5,6; cf. 7), apareceu no céu “um como o Filho do Homem”, isto é, do tipo
de um homem, parecido com uma pessoa. Aqui, portanto, não temos o título da figura celestial, mas a
descrição da sua aparência. O estudo deste personagem levou à formação do título no judaísmo, pela primeira
vez no livro de Enoque, anterior a Cristo, e mais vezes em 4Esdras, posterior. Estes textos, porém, não eram
literatura popular, mas textos secretos para grupos pequenos, os ditos apocalípticos. O judaísmo oficial era
dominado por esperanças de salvação totalmente diversas. Enquanto Jesus se identificou como Filho do
homem só uma vez em público e seus discípulos até hoje entendem esta descrição como um título, seus
ouvintes judeus podiam, sem problemas, deixar este sentido passar despercebido. Para eles, ele não falava de
outra coisa do que do “ser humano” em sentido cotidiano. Um exemplo é Jo 12.34, onde Jesus claramente
apresentou um enigma com “Filho do homem”, a ponto de os judeus perguntarem: “Quem é esse Filho do
homem?” Que em nosso caso os ouvintes não pensavam em um personagem específico, como talvez o
salvador de Dn 7.13, fica evidente no texto paralelo de Mt 9.8. Ali os espectadores louvam a Deus que dera
“aos homens”, na pessoa deste, tamanha autoridade. Eles não viram um título de soberania nesta expressão, e
Jesus não lhes revelou o segredo da sua pessoa. Para isto seria necessário um ensino minucioso, como seus
discípulos receberam mais tarde.
     1     Jesus veio de novo, qualquer dia destes, não imediatamente depois de 1.45. Talvez Marcos tenha
acrescentado especialmente: dias depois, ou seja, depois de algum tempo. Portanto, depois que
entrou Jesus… em Cafarnaum, logo correu que ele estava em casa. Só de passagem ficamos
sabendo que Jesus tinha uma casa. Marcos muitas vezes pressupõe informações.
     2     Muitos afluíram para ali. O povo parece ter estado a postos e não demora a aparecer. Não é ele
quem os procura, mas eles, como em 1.37. Assim, a torrente de 1.40,45 não diminui. Jesus é como
um ímã irresistível. “…se arrojavam a ele…” como um enxame de abelhas, diz em 3.10, encobrindo-o de todos os lados com sofrimentos e fardos, tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam
lugar. A terminologia denuncia o testemunho ocular. Talvez a soleira seja a mesma de 1.33. Em
outro aspecto há uma lacuna no relato: nada se diz de curas, como em 1.34. O que importa aqui é que
o povo se reúne para a pregação: e anunciava-lhes a palavra. Como em 1.21, Marcos pode ficar
devendo o conteúdo da pregação de Jesus, já que tudo transcorre à luz de 1.14s.
     3     Encaminhando-se para a história em si, Marcos passa ao tempo presente: Alguns foram ter com ele,
conduzindo um paralítico, levado por quatro homens. Decisiva aqui não é a causa da paralisia,
mas a condição de total incapacidade e imobilidade. O homem jaz como um morto. Quatro homens –
outra recordação concreta – precisam carregá-lo.
     4     A tentativa de avançar com o doente até a porta – Lc 5.18b,19 esclarece – fracassa. E, não podendo
aproximar-se dele, por causa da multidão, eles subiram ao telhado da casa, por uma escada nos
fundos, e descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e, fazendo uma
abertura, baixaram o leito em que jazia o doente. Buracos como este no telhado, em caso de
emergência, são mencionados também em outras ocasiões na Antigüidade (Bill. II, 4). Assim, o
doente veio descendo como um morto numa maca. A esteira evidenciava também a sua pobreza. Na
Antigüidade os doentes geralmente eram pobres. Como não podiam prover o seu sustento, eram
forçados a se desfazer peça por peça dos seus bens, até passarem a viver de esmolas, ou seja, do que
conseguiam despertando muita compaixão. Isto marca a aparência e a vida interior e atrofia a
personalidade.
     5     Jesus, vendo-lhes a fé. De acordo com Calvino e Bengel, a fé do paralítico está incluída. Mas quando
se fala do olhar de Jesus para dentro de uma pessoa, geralmente se diz que Jesus via “por seu
espírito” (cf. v. 8). Certamente pensa-se aqui em olhar físico. A observação dos carregadores que não
se deixaram desanimar por nenhum obstáculo levou à constatação da sua fé. No paralítico nada havia
a observar. Em todo caso, não é possível concluir do texto que o doente fosse o motivador da
escalada do telhado. Por mais que acontecia ao seu redor, ele mesmo era totalmente passivo. Só no v.
12 é que entra movimento no homem. Aqui (v. 5) Jesus ainda fala com ele como com o jovem que
falecera em Naim.
A fé é uma súplica, que pode ser sem palavras, mas jamais sem ação, firmada na confiança na
disposição poderosa de Deus de ajudar. Em Marcos é sempre assim. Esta confiança brota sempre em
Jesus e de Jesus (9.23,24). Aqui, há pouco se falou da sua palavra (v. 2). A fé, nisto, sempre já é o
primeiro milagre (Mt 8.10), pois os poderes da dúvida e do desespero são grandes demais neste
mundo. Jesus vê admirado como estes homens “lhe sobem à cabeça” em nome de Deus. Uma fé
destas não é um salto no escuro; ao primeiro milagre há de seguir outro. A propósito, com base nesta
história não se deveria falar de fé substituta, mas de fé intercessora. Que outra pessoa pudesse crer
em Deus em nosso lugar, mesmo que por algum tempo, haveria de nos convir!
“Filho”, chama Jesus o homem. Disto não se pode tirar nenhuma conclusão sobre a idade do
endereçado. Em 10.24 Jesus chama seus discípulos de “filhos”, em 5.34 uma mulher adulta de
“filha”. Um rabino respondeu a um velho que lhe pediu conselho: “Filho…” (Bill. I, 499). Mesmo
que esta maneira de falar seja atribuída expressamente a Jesus em certos casos, não parece se tratar
de um floreio oficial de um conselheiro, mas de um termo cheio de conteúdo. Com este tratamento,
Jesus elimina a separação e vem ocupar sua casa, a “família de Deus” (cf. 3.33s). O paralítico de
repente também se vê envolto em proteção e comunhão.
O fato de Jesus mencionar em primeiro lugar os pecados não deve ter surpreendido os quatro
carregadores nem os professores da lei do v. 6. Para os judeus, o sofrimento e a culpa estavam
estreitamente ligados, e as doenças eram consideradas castigos para os pecados. Eles tinham até uma
relação de castigos para os diversos pecados, com base na qual eles não só sabiam que desgraça
segue a certo pecado, mas também que pecado causara a desgraça de certa pessoa (Bill. II, 193s). Em
todos os casos, para eles os doentes eram pessoas com as quais Deus está especialmente irado. Um
rabino constatou: “Nenhum doente será curado dos seus males enquanto todos os seus pecados não
forem perdoados” (por volta do ano 270, em Bill. I, 495). Jesus rejeitou expressamente esta dedução
automática da doença a partir do pecado (Jo 9.3; Lc 13.2s). Só neste único caso ele, antes da cura,
levantou a questão da culpa, e em outro caso depois (Jo 5.14). Portanto, nesta questão deve
prevalecer o maior cuidado no aconselhamento. Quanta crueldade apregoar os fracos e sofredores
sempre como os maus – uma ideologia típica dos sãos! Certamente o sofrimento está ligado à culpa
por muitos fios, mas será que é sempre a culpa do próprio doente? Será que a doença é realmente
algo particular, e não antes um convite a todos para que reflitam sobre atitudes e situações que fazem
adoecer tantas pessoas no corpo e na alma? Obviamente não é o caso de calcular a parte de culpa de
cada um.
Para a mentalidade de hoje, o procedimento de Jesus naturalmente é estranho. Este homem carecia
de saúde e “só” recebeu perdão – que decepção! Haenchen opina sobre este trecho que Jesus não
pode ter sido tão insensível e anti-social; isto foi forjado mais tarde pela igreja. Fica claro: nós
queremos saúde, serenidade, melhora da situação e também um pouco de paz interior; Jesus, porém,
passa ao largo desta maneira de pensar. Pode ser que ele seja o único que leva os nossos pecados a
sério. Eles lhe dão “trabalho” (Is 43.24). Para ele o perdão continua sendo o substantivo que importa,
e não há nada maior na terra.
Os teus pecados, é o que Jesus diz. Ele não fala de sentimentos de culpa dos quais é preciso se
livrar, como os psiquiatras. Nossos sentimentos de culpa ou inocência de todo modo são
questionáveis, pois nossos pecados muitas vezes são como pedras jogadas na água, que logo afundam
e não voltam mais à tona. Muitas vezes temos uma consciência limpa porque temos memória fraca.
Os irmãos de José insistiram em Gn 42.11: “Somos homens honestos”, quando eram criminosos.
Jesus está interessado na culpa em si, e contra ela não ajuda distrair-se, esquecer, ser preso, ir ao
psiquiatra ou ter um bom cônjuge, só Deus.
Jesus fala da ação de Deus com uma voz passiva misteriosa: os teus pecados estão perdoados.
Fala-se do perdão dos pecados nos mesmos termos em outras passagens (3.28; 4.12). Trata-se do
passivum divinum, tão típico de Jesus. “Ele se presta acima de tudo para descrever a ação
escatológica misteriosa de Deus… Todos estes passiva divina anunciam que chegou o tempo da
salvação” (Jeremias, Theologie, p 24). Aqui, portanto, está em questão bem mais do que um pouco
de felicidade particular. Em Jesus o Deus perdoador entrou em cena e começou a cumprir suas
últimas e maiores promessas. Nada menos está dito aqui. No pensamento judaico, o ato perdoador de
Deus estava no futuro (Bill. III, 495, cf. 1.4). De modo sensacional, porém, Jesus o amplia para o
presente. Por esta razão, também, no louvor a Deus dos espectadores, o “hoje” em Lc 5.26 tem um
papel tão decisivo.
     6     Com dignidade que impunha respeito, alguns dos escribas estavam assentados ali (opr 5 a 1.21-28). A classe profissional dos escribas granjeara uma posição superior desde a luta nacional contra a
aculturação grega na guerra dos Macabeus. Para defender o tesouro da fé, estes homens erigiram uma
“trincheira de fogo”, que foi a educação e monitoração do povo no sentido da lei divina. Em uma
nação em que todas as instituições tinham relação com Deus, este poder era todo-abrangente.
Educação, justiça, culto, teologia, economia e vida privada – eles se metiam em tudo. O povo os
honrava, até porque na maioria dos casos eles eram um exemplo de rigor e fervor de conduta.
Apresentavam uma vida judaica pura, impermeabilizada contra toda influência pagã. Diferentemente
dos sacerdotes e anciãos, que se misturavam demais com os opressores pagãos, eles eram tidos como
judeus-modelo, e estabeleciam os padrões (cf. At 5.34).
Haenchen acha que “a menção deles entre os ouvintes na pequena Cafarnaum é um mistério”.
Realmente, nada sabemos de fariseus e escribas organizados fora de Jerusalém antes do ano 70. Sião
e Torá estavam intimamente ligados (Hengel, Geschichtsschreibung, p 71). Todavia, passagens como
3.22 e 7.1 trazem uma solução boa (cf. 1.42 e opr 2 a 3.1-6). Estes homens provavelmente estavam
ali em caráter oficial. O sinédrio em Jerusalém, a mais alta autoridade legal religiosa do povo, os
encarregara. Passagens como At 9.2,14 mostram que até as comunidades judaicas no exterior
acatavam suas decisões. Em que poderia ter consistido o encargo neste caso? Quando em qualquer
lugar parecia surgir um movimento dissidente, o sinédrio enviava uma comissão de inquérito (At
21.21), que deveria formar uma idéia da situação no próprio local. Se a avaliação fosse negativa, a
cidade poderia ser declarada “seduzida” – um tipo de disciplina eclesiástica. Havia instruções
específicas para inquérito e levantamento de provas (Stauffer, Rom, p 116ss). A indicação em nosso
texto de que os escribas estão sentados apóia esta explicação. “Sempre que alguém de Jerusalém
chegava à província, ofereciam-lhe uma cadeira, para que pudessem ouvir a sua sabedoria” (Bill. I,
691). Os lugares para sentar são de honra, em contraste com a multidão, que se sentava no chão ou se
acocorava “ao redor dele” (cf. 3.32).
Caso este grau tão oficial de inquérito ainda não tenha sido atingido aqui, é bem provável que os
escribas da sinagoga local ficassem de olho neste profeta novo. Já no material transmitido pelo cap. 1
houvera uma série de provocações por parte de Jesus e uma inquietação no povo, que tinha de
alvoroçar muito a classe magistral. Seria de estranhar se os professores não tivessem vindo!
Assim, eles estão ali sentados, ouvindo, vendo e ficando mudos. Com tanto maior intensidade
trabalha a mente deles: e arrazoavam em seu coração. Jesus fala mais duas vezes do raciocínio
deles (v. 8; cf. 9.33n) e uma vez do conhecimento (insuficiente) deles (v. 10).
     7     Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Na época de Jesus, qualquer pessoa que de algum
modo questionasse a majestade de Deus era um blasfemador digno de morte, mesmo que não
aplicasse uma fórmula expressa de maldição ao nome de Deus (Bill. I, 1017s). Para eles, este era o
caso aqui. Jesus não se colocara sob a Torá, mas ao lado de Deus (cf. Jo 10.33). Quem pode
perdoar pecados, senão um, que é Deus? A expressão “um, que é Deus” é bastante freqüente em
Marcos (ainda em 10.18 e 12.29) e vem do início da confissão de fé judaica, o chamado Sch’ma
Israel de Dt 5.4-9, com acréscimos de Dt 11.13-21 e Nm 15.37-41. Todo homem judeu aprendia esta
confissão logo que começava a falar e, a partir dos seus 13 anos, recitava-a pelo menos duas vezes
por dia, no nascer e no pôr-do-sol. No culto ela também recebia destaque. Até hoje ela é a confissão
mais solene dos judeus. Até na hora da morte ela deve ser dita. Na recitação, a palavra “único” é
acentuada e estendida. Conta-se de um moribundo: “Ele se deteve ao dizer a palavra echad (um), até
expirar a sua alma” (Bill. IV, 189ss).
Esta singularidade de Deus é que estava em questão para os judeus aqui, pois Jesus parecia ter
profanado este precioso tesouro da fé. Ele se colocara como Segundo ao lado do Único, pois só Deus
perdoa pecados: “Eu, eu mesmo, sou o que apago os teus pecados”, diz expressamente Is 43.25. E em
55.7: “Deus é rico em perdoar”. Em 48.11: “A minha glória, não a darei a outrem”. Miquéias
pergunta em 7.18: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade?” Aqui parece que
alguém se atreve a levantar a voz: Eu também! É claro que Jesus não disse: Eu perdôo os teus
pecados; ele falara no passivum divinum do perdão de Deus. Mas isto dá no mesmo (cf. v. 10). Se ele
o dizia, é porque Deus o fazia. A questão é “dizê-lo” (v. 9). Nisto é que estava a blasfêmia. Nem do
Messias ou do Filho do homem o judaísmo ensinava algo assim (Goppelt, Theologie, p 86).
Não havia em cada sacrifício de expiação no templo uma declaração de justificação pelo
sacerdote, que devia soar parecido? No entanto, temos de estabelecer uma diferença. Expiação por
pecados anunciada por um sacerdote e perdão dos pecados por Deus não coincidem. Quando a boca
do sacerdote pronunciava a purificação depois de trazido o sacrifício, da parte do pecador as coisas
estavam em ordem só juridicamente. Ele recebera a confirmação de ter-se portado como exigia o
sistema. Podia continuar a viver e recebia permissão para retornar aos cultos. No julgamento final,
porém, Deus, que sonda os corações e reconhece o arrependimento verdadeiro, estava totalmente
livre para conceder o perdão eterno dos pecados ou para retê-lo. Sim, ele pode até perdoar quem não
é justo. O campo do perdão de pecados, portanto, é especial, de foro exclusivo de Deus. Jesus,
porém, pronuncia esta palavra absoluta e eterna de perdão, à parte de sacerdócio, sistema de
sacrifícios, templo e culto, direto do coração de Deus. “Quem, pois, te fazes ser?” perguntam-lhe os
judeus indignados em uma situação comparável em Jo 8.53, 10.33, tomando pedras para apedrejá-lo.
Contudo, Jesus não se fazia ser nada, só revelava quem ele é, o Filho. Exercia a autoridade que lhe
competia como Filho do homem celestial (v. 10). O próprio Deus estava por trás dele, o tempo do
fim começara. O julgamento final era aberto já “sobre a terra” (v. 10), e o Deus único perdoava pelo
homem único, Jesus.
Esta hora se aproxima da noite do sofrimento e da morte na cruz no sentido em que os escribas,
com as suas pressuposições, já poderiam irromper aqui no coro de 14.64: “Ele é réu de morte!” E
assim como diante de Caifás, também aqui Jesus não se retrata da sua suposta blasfêmia, inseguro.
Com sua atitude ele se entrega na mão deles e, invisível, o travessão da cruz desce sobre os seus
ombros. Como Filho do homem humilhado, aqui como lá ele tem o poder de perdoar pecados.
Tudo isto não cabe no “arrazoado” dos escribas (v. 6,8). Em que sistema teológico ou filosófico
do mundo há lugar para o evangelho do Jesus crucificado! Com a graça prevista sempre se sabe antes
como e quem Deus perdoa. Só que o deus que resulta disto é sempre um ídolo. Jesus, porém, é a
graça inimaginável para você e para mim. Nossa mente sempre terá de gritar em protesto diante dele,
porque, em sua graça, ele blasfema contra os nossos ídolos e revela o Deus vivo.
     8     Um “logo” indica o próximo sinal messiânico: E Jesus, percebendo por seu espírito que eles
assim arrazoavam. “Espírito” aqui não representa os pensamentos ou o “interior” no sentido
antropológico; é o portador do Espírito de 1.8 quem está em ação. Pelo Espírito do Deus que sonda
os corações (Sl 7.10; Pv 11.20; 17.20; 20.12) ele penetra nos corações hostis deles, surpreende os
pensamentos deles e os traz à luz: Por que arrazoais sobre estas cousas em vosso coração? “Estas
cousas!” O olhar sobe pelo edifício dos pensamentos deles, que se eleva como uma fortaleza
intelectual. É que o raciocínio deles os torna inimigos não só de Jesus mas também do paralítico,
deitado em uma esteira a seus pés e a quem a palavra de libertação de Jesus fora dirigida. É um
raciocínio, além de anti-cristão, também profundamente anti-humano!
     9     Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te,
toma o teu leito e anda? A dedução do mais fácil para o mais difícil era um dos métodos de ensino
bem conhecidos dos rabinos daquela época (a minori ad maius, Bill. III 223ss). O interessante nisto
está em apresentar um evento como muito difícil, quiçá impossível. Para isto ele é contraposto a
outra coisa reconhecidamente difícil, que então é descrita como ninharia. Comparações como esta, da
perspectiva do mais fácil, encontramos mais duas vezes nos evangelhos. Em Lc 16.17 Jesus diz: “É
mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei”. Mc 10.25, porém, está mais
próximo: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino
de Deus”. A seqüência evidencia a intenção da frase: a segunda parte é humanamente impossível,
imaginável só como milagre de Deus.
Em um sentido, porém, nossa passagem se diferencia claramente destes paralelos. Aqui não é
Jesus quem decide o que é mais fácil e o que, em comparação, é humanamente impossível, mas ele
deixa esta avaliação com os professores da lei. Eles é que devem dar-se a resposta. Seu raciocínio tão
típico deve ser empurrado para um beco sem saída e, assim, para os braços de Deus. Eles não deviam
falar, mas ver, compreender e, depois, talvez juntar-se ao louvor de Deus do v. 12. Por isso o v. 10
diz expressamente: “Ora, para que saibais…” Ao explanarmos a pergunta de Jesus, portanto, deve
ficar claro como ele apanhou os judeus no raciocínio deles.
Que Jesus declarou o perdão de Deus com eficácia eles não creram nem por um segundo. Como
eles tinham acabado de formular em seu coração, perdoar era para eles sempre humanamente
impossível, só possível ao próprio Deus. Portanto, eles classificaram a palavra de perdão da boca de
Jesus como falar à toa de um charlatão, que se aproveita do fato de que ninguém pode verificar a
eficácia da sua palavra. Deste modo, a questão da verificação se torna o ponto chave. Senão, a
palavra de perdão seria humanamente impossível, quando existiam tanto no AT como no judaísmo da
época numerosos operadores de milagres. Se, porém, a questão é como a autoridade espiritual se
torna visível e verificável, sem dúvida a palavra de cura toma a frente. É neste sentido que “os judeus
pedem sinais” (1Co 1.22; cf. Mc 8.11). Em nosso caso eles tinham certeza absoluta que a cura não
ocorreria, pois como Deus poderia estar aliado a alguém que acabara de blasfemar contra ele? Só
levaria alguns segundos para eles confirmarem como aquele homem na esteira continuaria imóvel.
É aqui que Jesus entra: Muito bem, prestem atenção! e cura o paralítico diante dos olhos deles.
Com isto os professores da lei estavam presos na armadilha, já que vinculavam tão estreitamente a
cura ao perdão. Quando Jesus deu movimento a este corpo paralisado, ficou evidente que ele antes
movera o coração de Deus, isto é, colocara a graça em movimento. Neste momento os escribas
teriam de irromper no louvor escatológico, como o povo simples lhes mostrou. Pois, de acordo com
Is 35.6, o fato de os paralíticos andarem significava mais que a restauração da capacidade de
movimento de corpos; era a chegada dos dias messiânicos.
     10     Na explanação nos antecipamos ao texto. Ainda estamos no v. 10: Ora, para que saibais que o
Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados… Todo leitor da Bíblia
pode comparar como Jesus fala diferente do Filho do homem do que Dn 7.13. Lá aparece depois do
julgamento do mundo, independente da questão do pecado, um personagem celestial que recebe
autoridade para governar eternamente sobre todos os povos. Com “Filho do homem” Jesus
obviamente pensa em si mesmo, portanto em alguém inserido na história da terra, e relaciona sua
autoridade com a questão do pecado. Também nas outras afirmações de Jesus sobre o Filho do
homem, este tem a ver diretamente com a questão do pecado. Ele é o resgate (10.45), e tomará seu
lugar no trono do juiz (14.62). Assim, Dn 7 é citado, mas ao mesmo tempo explodido. O
cumprimento sempre é maior que a promessa.
Sem que a majestade do Filho do homem de Daniel seja cortada, diminuída ou limitada em sua
pureza, ela é enriquecida. Assim como um filho não deixa de ser filho, na verdade o expressa melhor
ainda, quando se sacrifica pela vontade do pai, também o Filho do homem não perde a majestade
quando ele desce, pela vontade de Deus, à humilhação maior. Nestas circunstâncias, na verdade, sua
humilhação nada mais é que o reflexo da sua majestade. Nela sua autoridade adquire um brilho
especial. Em nosso contexto, a humilhação de Jesus acontece quando ele é declarado blasfemador
notório no v. 6. Com isto ele é considerado malfeitor e imediatamente é candidato à morte. Ao
mesmo tempo, ele não fez nenhum gesto no sentido de retratar-se ou explicar o equívoco. Já aqui ele
toma sobre si a sua cruz. É exatamente desta sua existência como sacrifício é que provém a palavra
de perdão do julgamento final, pressionada para a frente, para o nosso presente e nosso aquém,
“sobre a terra”.
Para os ouvidos dos judeus esta teologia era terrível, pois para eles a aceitação por Deus tinha de
ficar em aberto por princípio, até o ajuste de contas final diante do trono de Deus. Até sobre o
espírito do judeu mais fiel a segurança de salvação pairava como um céu nublado que nunca se abria
realmente. Disto temos um testemunho tocante mais ou menos do ano 80 (Bill. IV, 1934):
“Quando o rabino Jochanan ben Zakkai adoeceu, seus discípulos foram visitá-lo. Quando os viu, ele começou a chorar. Seus
discípulos lhe disseram: Lâmpada de Israel, coluna ereta, martelo poderoso, por que choras? Ele lhes respondeu: Se eu fosse
levado diante de um rei de carne e sangue, que hoje está aqui e amanhã no túmulo, sua ira, caso estivesse irado comigo, não
seria eterna, e suas cadeias, caso me acorrentasse, não seriam eternas e, caso me matasse, seu matar não seria eterno; além
disso eu poderia conciliá-lo com palavras e corrompê-lo com dinheiro, e mesmo assim eu choraria. E agora me levam diante
do Rei dos reis, do Santo, louvado seja! que vive e existe por todas as eternidades. Se ele estiver irado comigo, sua ira é eterna,
e se ele me prender, suas correntes são eternas, e se ele me matar, seu matar é eterno. Também não posso conciliá-lo com
palavras nem suborná-lo com dinheiro; e não só isso, diante de mim há dois caminhos: um vai para o paraíso celestial e o outro
para o Gehinom (lugar da perdição), e eu não sei por qual serei conduzido – e não deveria chorar?”
Depois de toda uma vida de fidelidade à lei, este judeu dedicado não tinha nenhuma certeza
quanto ao essencial. Será que Deus o aceitará, será que Deus não o aceitará? “Não sei por qual
caminho serei conduzido.” Não dá para saber (uma tradução melhor: Não se pode saber). No quadro
do sistema judaico era considerado blasfêmia atribuir este conhecimento a alguém. Seu arrazoado
deixava as pessoas em condição crônica de medo, em insegurança por princípio e, assim, em
escravidão, sujeitas sempre a mais extorsões. Só a autoridade do Filho do homem pode quebrar esta
maldição. Paulo, o ex-escriba, exulta sob o poder divino do evangelho: “Temos recebido o Espírito
de Deus para que conheçamos o que por Deus nos foi dado!” (1Co 2.12).
Portanto, nesta casa em Cafarnaum houve um lampejo de coisas profundíssimas, que ficou
preservado pela tradição como algo incomum, de modo que os sinóticos aqui se achegam nestes
versículos quase literalmente ao mesmo texto. Revelou-se aqui um evangelho que “nem olhos viram,
nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para
aqueles que o amam” (1Co 2.9).
– disse ao paralítico: Claramente objetivando os professores da lei, que duvidavam da sua
palavra de perdão, Jesus se prepara para a palavra de cura. Ele a diz pensando nos ouvidos e olhos
deles, pois contrapõe consciente ao “para que saibais” o “eu te mando”. Com isto a cura está
classificada como sinal de legitimação (cf. Êx 4.1-9; Is 7.10-14; Rm 15.18s). Um mensageiro precisa
poder apresentar suas credenciais, também um mensageiro de Deus. A mensagem de Deus é tão
estranha em nosso mundo, tão pouco óbvia, que as dificuldades para crer são muito compreensíveis.
Por isso Deus torna seus mensageiros confiáveis através de sinais especiais. Ele constrói pontes para
o ouvinte, oferece bases sólidas para a fé, se bem que não provas, pois também os falsos profetas
podem fazer milagres (13.22; cf. 3.22). Do outro lado, Deus torna a descrença algo arriscado. Ele lhe
rouba sua tranqüilidade e uma porção de argumentos.
     11     Então Jesus diz: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. A repetição
tríplice do termo da ressurreição, “levantar-se”, ressoa no ouvido e cria um ambiente pascal. Aquele
que até há pouco fornecia um quadro da morte torna-se agora um quadro da ressurreição, e de uma
ressurreição que não se detém no campo físico. Para isto a palavra de perdão e a palavra de cura
estão ligadas no seu sentido. A cura libera as forças e tendências inerentes ao perdão: poder da
ressurreição e vida completa. Importa, sob a palavra do perdão, não recolher-se ao “milagre interior”,
deixando, talvez, o “milagre exterior” à mercê da crítica.
     12     Então, sem toque ou tratamento, sem fórmula, gesto ou ritual por parte de Jesus, também sem
jejum e oração, ele se levantou simplesmente porque Jesus dissera. Jesus é quem pode “dizer” algo:
este termo passa por toda a narrativa (v. 5,7,9 duas vezes, 10,11), e este também é o sentido de
“autoridade”: “o poder de alguém que pode dizer” (Foerster, ThWNT II, 560). Jesus fez uso deste
poder, e Deus legitimou seu porta-voz fazendo o paralítico soltar-se da sua esteira, tomando o leito.
A esteira também recebe ênfase (v. 4,9,11,12). Fora ela que até então o acorrentara a si, como
símbolo da sua miséria. Agora ela é suspensa como se suspende a escravidão, e retirada em triunfo,
como despojo levíssimo à vista de todos – sinal da sua libertação.
A ponto de se admirarem todos. “Todos” novamente não deve ser forçado (cf. 1.33s), como se os
professores da lei também tivessem exultado. É especialmente o povo anônimo que, por um
momento, percebe o sentido da hora. Eles ficaram “assustados” (1.27; 5.42; 6.51). Será que
acontecera algo assustador? Sim, mas algo assustadoramente bom: perdão de pecados escatológico e
cura do homem todo! Em Jesus há coisas boas tão inesperadas que trememos como vara verde: como
Deus pode ser tão maravilhosamente bondoso comigo e me amar tanto! E deram glória a Deus. Não é
nem do que foi curado que se diz isto, mas dos espectadores. A bondade de Deus com este os torna
todos confiantes, pois este gesto isolado eqüivale à andorinha que traz o verão ao país inteiro. Ao
jubilarem: Jamais vimos cousa assim!, eles expressam que pressentem uma era de qualidade nova, o
tempo final messiânico, do qual tratara a “palavra” do v. 2. O mensageiro das boas novas de 1.14s
chegara com suas credenciais. A comunidade que lê, por sua vez, guarda com esta história: esta
salvação brota da autoridade do crucificado.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!