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120 A execução de Jesus, Mt 27.31-50

A execução de Jesus, Mt 27.31-50
(Mc 15.21-41; Lc 23.26,33-49; Jo 19.16-30)

31-50 Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias vestes. Em seguida, o levaram para ser crucificado. Ao saírem (da cidade), encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz. E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando -o, não o quis beber. Depois de o crucificarem, repartiram entre si as suas vestes, tirando a sorte. E, assentados ali, o guardavam. Por cima da sua cabeça puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.
E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és Filho de Deus, e desce da cruz! De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo, diziam: Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele. Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus.
E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificados com ele. Desde a hora sexta até à hora nona, houve trevas sobre toda a terra. Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Ele chama por Elias. E, logo, um deles correu a buscar uma esponja e, tendo-a embebido de vinagre e colocado na ponta de um caniço, deu-lhe a beber. Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo. E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.
Está iniciando a via crucis: Tornaram a pôr-lhe suas vestes. A seguir, eles o levaram para a
crucificação…
O Talmude de Jerusalém relata que, antes da crucificação, se oferecia ao condenado uma bebida
anestesiante, que pessoas compadecidas, geralmente mulheres distintas de Jerusalém, mandavam
preparar por sua conta. A cruz era composta de duas peças, uma viga vertical (staticulum) e outra
horizontal (antenna). Na primeira, mais ou menos no meio, estava afixado um pino de madeira ou
chifre (cornu ou sedile), sobre o qual o crucificado ficava montado. Do contrário o peso do corpo
rapidamente teria pro vocado a ruptura das mãos, de modo que o corpo cairia. Geralmente se erguia
primeiro a cruz que era afirmada no chão (Cícero, Verr. 5.66; Josefo, Guerra 6.4). Depois o corpo
era içado com cordas até a altura da viga transversal, e as mãos e os pés eram pre gados. Raramente se
pregava o condenado sobre a cruz ainda deitada e se erguia a cruz depois.
Os crucificados viviam em geral por cerca de doze horas, às vezes até o segundo e terceiro dia. A
febre que se manifestava em breve causava uma sede ardente. A cr escente inflamação das feridas nas
costas, nas mãos e nos pés, bem como a pressão do sangue contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o
inchaço de todas as veias causavam uma indescritível agonia, terríveis dores de cabeça, além da lenta
letargia dos membro s provocada pela posição desconfortável do corpo. Tudo contribuía para tornar
essa forma de execução, pela expressão de Cícero (em Verr., v. 64), o mais cruel e terrível castigo.
A execução tinha de acontecer fora da cidade (Lv 24.14). Isso constituía um símbolo de exclusão
da sociedade humana (Hb 13.12). Jo 19.17 diz que Jesus saiu da cidade e, segundo o costume (Mt
10.38) carregava pessoalmente sua cruz.
A partir desse fato retornamos ao v. 32. Tão logo fora proferida a sentença contra o acusado, os
judeus demandavam pressa. Pois desejavam, segundo seu costume em festas, que a crucificação
fosse realizada se possível antes do meio -dia e que o crucificado ainda pudesse ser removido antes do
pôr do sol e sepultado num túmulo. Por isso podemos supor que o cortejo caminhava a passos
rápidos, em tempo acelerado, até o alvo. Pela prática costumeira, Jesus, nessa marcha rápida, ainda
tinha de carregar pessoalmente sua cruz. Mesmo que a madeira da cruz não possuía as dimensões
gigantescas que muitas vezes lhe são dadas nas ilustrações, certamente representava um peso
considerável. Ademais, o Senhor já estava muito abalado fisicamente pelos sofrimentos anteriores. A
intensa luta no coração e espírito na noite pascal anterior, o grave combate no Getsêmani, a vigília,  as
tensões, os dramas do seu coração, e finalmente o terrível suplício, todos esses acontecimentos
tinham esgotado suas forças. A todos esses esforços somava-se, agora, a rápida caminhada sob o
peso da cruz. Totalmente esgotado, o Santo era tangido sob a carga da cruz. Apesar disso, chegou
com o peso até a entrada da cidade. Não sabemos se sucumbiu aqui sob a carga, ou se cambaleou.
Em todo caso, chamaram um substituto para continuar carregando a cruz por ele, logo que saíram da
cidade. Diante do portão encontraram um homem, de nome Simão de Cirene (situada na Líbia, ao
norte da África, onde viviam muitos judeus), que vinha do campo. Quando redigiu seu evangelho,
Marcos o identificou como pai de Alexandre e Rufo, dois homens que devem ter sido conhecidos da
comunidade cristã do seu tempo. Portanto, sem dúvida eram companheiros de fé. Provavelmente
Simão não tinha um relacionamento mais próximo com Jesus. Pelo menos permaneceu fora, no
campo, enquanto Jesus estava sofrendo diante do tribunal romano. Talvez tenha sido por isso que
chamou a atenção do cortejo, por entrar sozinho pelo portão em direção oposta, enquanto todo o
povo corria junto de Jesus para fora da cidade. Esse homem, portanto, foi chamado pelos soldados e
forçado, sob a forma de requisição militar, a levar a cruz atrás de Jesus. Obviamente o trecho desse
lugar até o local da execução não podia mais ser muito longo.
Não apenas para o próprio Simão, mas também para o Senhor foi significativo que esse Simão de
Cirene prestou uma ajuda ao Senhor Jesus por um breve período. Simão Pedro não está nas
proximidades, apesar de ter prometido seguir seu Mestre até a morte. Da distante Cirene, porém,
precisa surgir outro Simão que deve aliviar o difícil caminho do Cordeiro de Deus até o “matadouro”.
Esse Simão não tinha idéia da graça e honra que lhe foi concedida, pois não podia imaginar a glória
daquele a quem deveria servir. Foi coagido a servir por meio da violência. Mais tarde, porém, seus
filhos aparecem na história da comunidade, e ele próprio com certeza  também compreendeu
posteriormente que serviço lhe foi permitido realizar.
Mc 15.21 comprova que esse evento serviu para estabelecer contato entre Simão e o Salvador, e
que logo depois ingressou com a esposa e os dois filhos na comunidade. Mais tarde estes residiam
em Roma (Rm 16.33).
O v. 33 nos leva a um ponto na história da Paixão em que tudo, mesmo o menor detalhe, se torna
importante, porque está em foco o eixo em torno do qual gira a história da humanidade. Chegamos a
um ponto na vida de Jesus em que, a rigor, não se pode mais falar dos feitos de Jesus. Mãos e pés
estão pregados na cruz – ele não pode fazer mais nada, nem sequer se mexer. Não consegue
movimentar nenhum membro. O corpo todo está amarrado numa dor indizível. Jesus somente
consegue pronunciar palavras com gemidos.
O nome lugar da caveira  não se origina de cabeças espalhadas de pessoas executadas, pois então
o termo grego stranion deveria estar no plural: “local das caveiras”. Tampouco seria permitido que
os ossos ficassem insepultos. Pelo contrário, o nome se origina do formato arredondado e despido do
monte.
A via do suplício ficou para trás de Jesus, o santo e precioso cordeiro de Deus. O morro do
suplício foi alcançado. Jesus subiu os degraus até o altar maior. Até agora ele carregou a c ruz,
chegou a hora em que a cruz deve carregá-lo. – Estamos diante do mais horrível episódio que o
mundo já presenciou, diante do mistério que os próprios anjos desejam em vão espiar, diante de um
testemunho da profundeza insondável do amor divino, como nã o existe igual no céu e na terra. Aqui
se anula aquela maldição que, com suas terríveis conseqüências, com seus horrores que prolongam
até a eternidade, pesa soturnamente sobre a humanidade que geme. Aqui se destroçam as portas do
inferno e se quebra o poder de Satanás. Aqui se consuma a redenção da humanidade. Aqui está a
cruz, essa árvore da vida, da qual emanam forças salutares sobre a humanidade doentia, essa
bandeira, sob a qual cada cristão luta e vence, esse abrigo seguro, para onde o cristão se refu gia
diante das tempestades e intempéries do mundo, esse signo sagrado, sob o qual o cristão vive e
morre!
Chegando ao Gólgota, deram-lhe de beber vinho misturado com fel. No hebraico, a palavra
“fel” também pode significar “absinto” ou “vermute”. Portanto,  era vinho para anestesiar. Marcos
diz: “Deram-lhe vinho misturado com mirra” [Mc 15.23]. O costume entre os judeus era dar essa
bebida anestésica aos condenados à morte (cf. Pv 31.6s). Jesus não tomou essa bebida. Queria sofrer
com plena consciência.
Para repartir suas vestes, os soldados lançaram a sorte. O sorteio das roupas, por meio do qual
o executado se torna uma espécie de objeto de brincadeiras, pertence à mesma série de fatos como o
escárnio relatado nos v. 39ss. De acordo com a lei romana, as roupas dos executados pertenciam aos
algozes. É provável que cada cruz era vigiada por um pelotão de quatro soldados. A sorte era lançada
duas vezes: Primeiro sobre as quatro peças das vestes de Jesus que eram bastante iguais em valor
(manto, chapéu, cinto e sandálias). Em segundo lugar sobre a camisa ou túnica, que era preciosa
demais para ser cortada em quatro pedaços.
Acima da cabeça do crucificado os soldados afixaram uma placa que continha a indicação de sua
culpa. De acordo com o costume, essa placa era carregada na frente do cortejo. O conteúdo da placa é
citado de memória por Mateus de modo um pouco diferente que em João. Mateus diz:  Este é Jesus,
o rei dos judeus. Em Jo 19.19 lê-se: “Jesus de Nazaré, o rei dos judeus”.
O fato de que no mesmo dia foram executados mais dois criminosos além de Jesus contradiz o
direito romano, de acordo com o qual somente uma pessoa podia ser executada a cada dia. Para Jesus
essa crucifixão no meio de dois criminosos significa mais uma humilhação.
Jesus Cristo, o Senhor de todos os senhores e Rei de todos os reis, está pendurado como um líder
rebelde e criminoso entre dois malfeitores que, pelo visto, foram legitimamente condenados (cf. Lc
23.41)!
Quando Jesus abria um pouco os olhos, não via nada além de rostos maliciosos e hostis, e com os
ouvidos não ouvia nada além de sarcasmo e escárnio.
Até mesmo os senhores do Sinédrio não conseguem reprimir sua atroz alegria pela desgraça de
Jesus!
Os que passavam, destacavam com satisfação que mais uma vez ficou provada a grandeza do
templo, porque não era o templo que saía derrotado, mas sim aquele que falara da ruína do templo.
Eles não tinham a mínima idéia de que justamente agora aquela palavra estava se cumprindo.
Soam extremamente rudes e cruéis as palavras de escárnio: A outros salvou, mas a si próprio
não consegue salvar!
É comportamento subumano, demoníaco, escarnecer de uma pessoa moribunda, pessoalmente
indefesa e fraca, que durante sua vida toda, em todo luga r onde passava, ajudou os outros. Outra
exclamação cruel de gozação era: Confiou em Deus, que este o salve. Pois falou de si: Eu sou
Filho de Deus.
De acordo com Mateus e Marcos, também os dois homens crucificados ao lado dele participaram
do escárnio.
Do meio-dia até às 3 horas da tarde, todo o país foi envolto em trevas. É como se o sol não
pudesse ficar assistindo quando a luz do mundo se apaga. Chegou a hora das trevas. Em torno da
cruz fez-se silêncio. Jesus está calado. Tampouco os escarnecedores se manifestam.
A hora chega até às três da tarde. Então, como um grito, ecoa a partir da cruz uma voz forte,
atravessando o silêncio: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? É Jesus, Jesus que está
morrendo. São as palavras iniciais do Sl 22, oradas por ele em voz alta. – Enquanto a dor dilacera o
seu corpo, uma noite terrível penetra em sua alma. Isso é o pior na vida, essas lutas da alma, quando
ela se torna solitária, quando tudo nela é revolvido, moído e queimado.  – As dores na alma de Jesus
constituíram tormento máximo e extremo. – O grito de dor da alma de Jesus tem a ver com Deus. O
Senhor não se lamenta que Israel o abandonou, que seus discípulos fugiram dele. O fundamental em
sua dor é que Deus o abandonou! O seu Deus! – Qual foi o motivo por que Deus teve de deixar seu
Filho só? (Falamos em termos humanos quando pensamos que ele, o Filho de Deus, foi entregue sem
misericórdia à morte, como um maldito.) – Qual foi o motivo desse terrível abandono e dessa
horrível maldição? O motivo foi este: Jesus fo i feito pecado por nós!
Reflitamos um pouco sobre o pecado do mundo! Há seis mil anos o pecado se arrasta pela
humanidade, como uma torrente negra, larga e profunda. Nosso mundo é um oceano escuro de
pecado, que fede como a peste. Pensemos nos crimes que clamam ao céu, praticados há milênios
contra inúmeras pessoas. Lembremo-nos de nosso próprio pecado e digamos a nós mesmos que entre
os bilhões de pessoas que viveram nesta terra não houve um sequer que não tenha merecido o juízo,
que não tenha acrescentado pecados à enxurrada dos já existentes. Apenas consideremos quanto mal
sobe diariamente da terra para o céu, desafiando o sagrado julgamento de Deus. Creio que nenhuma
pessoa seria capaz de suportar a visão das crueldades do pecado já praticadas na terra  – pois ela o
mataria.
No entanto, essa imensurável culpa da humanidade o Senhor teve de contemplar espiritualmente
no Getsêmani. Como nuvens negras de um temporal, o pecado se acumulou sobre a sua cabeça e
preencheu o horizonte inteiro. Neste momento ele o separou de seu Pai. Provavelmente como nunca
antes, Jesus vê agora toda a indescritível miséria da humanidade caída, toda a torrente de perdição, o
mar insondável do pecado, a culpa incalculável. Como não tomaria conta de todo seu ser o
desespero?
Mas isso não era tudo. Jesus não apenas viu esse quadro terrível, mas se empenhou por esse
pecado horrível, pagou por ele, assumiu a sua culpa, suportou o castigo por ele. Era o único que
conhecia o santo Deus. Era também o único que podia aquilatar que castigo merecia essa imensa
culpa do pecado. Ele, o Filho amado, foi feito maldição!  Ele foi feito pecado, i. é, ele foi
transformado nesse mar terrível, horrível, diabólico, que ele vê diante de si! Ele, que até então não foi
atingido por nenhum pecado, que lhe tinha a maior aversão, ele agora carregou sobre si esse fardo
terrível, envolveu-se com ele, identificou-se com ele. É verdade, quem já se colocou diante do santo
Deus, trêmulo com o seu próprio pecado, e depois imagina o sagrado “Filho do Homem”, estremece
e precisa indagar como foi possível que o Senhor perseverou naquelas seis horas.
Entretanto, nesse quadro escuro não podemos esquecer a maior escuridão: o poder das trevas. É o
próprio Senhor que chama a atenção para esse inimigo, quando diz um pouco antes,  nos discursos de
despedida (Jo 14.30): “Doravante eu já não falarei muito convosco, pois aproxima-se o príncipe deste
mundo…” “Agora é a vossa hora, é o poder das trevas” (Lc 22.53), diz Jesus aos seus adversários
logo após sua prisão. As profundezas extr emas desse poder se abrem diante de Jesus. Não somos
informados como o poder das trevas o ataca, mas basta saber que é neste momento que ele promove
sua luta mais terrível e intensiva contra ele. Deve tê-lo cercado todo o horrível e sombrio exército
espiritual do inferno. Esse sinistro exército assassinará, agora, o Príncipe da vida, o Puro, o Santo.
Em silêncio dobramos nossos joelhos e nos calamos envergonhados. Nesta vida jamais
compreenderemos cabalmente como o Senhor Jesus consumou uma reconciliação pa ra o mundo, ou
como aquilo que ele suportou podia ser eqüivalente ao castigo que uma geração pecadora deveria
sofrer. Não temos critério para comparar. Não dispomos de nada que alcance as profundezas desse
mistério insondável.
Apesar de Jesus saber de sua vitória e sua ressurreição, ele não ignorou a dor do presente por
causa do futuro, mas viveu o sofrimento na cruz com a mais plena e cruel realidade e veracidade. Ele
experimentou, naquelas horas, não a graça e comunhão de Deus, mas, em grau inexprimível,  sua ira e
seu juízo.
O clamor de oração de Jesus em hebraico: Eli, Eli, lamá sabactâni, traduzido ao português como:
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?, foi entendido mal. As pessoas diziam:  Ele
chama por Elias, o profeta, que deveria vir como precursor do Cristo. Os escarnecedores
achavam que estava mais do que na hora de que viesse Elias, para reabilitar a Jesus, enforcado, o
Cristo, como Filho de Deus. – Era uma zombaria gratuita, este escárnio: Este chama Elias.
Em seguida à exclamação de Jesus, “Eli, Eli, lamá sabactâni” = “Meu Deus, meu Deus, por que
me abandonaste?”, Mateus conta que se matou a sede de Jesus com auxílio de uma esponja com
vinagre. O evangelista João justifica esse ato de dar de beber (Jo 19.28): “Sabendo que, a partir de
então, tudo estava consumado, para que a Escritura se cumprisse (integralmente) até o fim, Jesus
disse: Tenho sede.” Portanto, o nexo é o seguinte: No mesmo salmo, cujas palavras iniciais Jesus
grita noite a dentro, lê-se alguns versículos depois: “Meu vigor secou como um caco, minha língua se
me cola no palato” (Sl 22.16). E no Sl 69.22 encontra-se uma misteriosa referência típica do Messias
que desmaia: “Quando tenho sede, dão-me vinagre de beber”. Jesus, ciente de ter agora tomado todo
o cálice de sofrimento que o Pai lhe serviu, quer cumprir também essa última profecia ainda não
realizada, pois dedica-se a cumprir a vontade de Deus até nos mínimos aspectos, apesar de estar
imerso na mais dura agonia do corpo e da alma, e apesar de estar abandonado por seu qu erido Pai.
Por isso acrescentou à exclamação do abandono de Deus esse lamento pela sua sede. Afinal, era a
sede que mais atormentava os crucificados. De tudo o que acabamos de dizer sobre a crucifixão de
Jesus, pode-se deduzir quanto sofrimento essa sede t rouxe para Jesus. Apesar disso, ele, que suportou
tudo calado, não teria externado nada, se a profecia não o tivesse levado a dizê -lo. Enquanto isso, lá
embaixo, os homens fizeram suas piadas sobre o grito do abandono de Jesus. Afinal, seriamente
ninguém deve tê-lo entendido mal. Mas a brincadeira estava à mão. Elias não apenas retornaria nos
dias do Messias, para apresentá-lo ao povo. Também circulava uma porção de falatório estranho
entre os judeus acerca do grande profeta que “voa pelo mundo como um pássaro” e liberta os fiéis de
tudo que é angústia e aperto. Esses escarnecedores naturalmente faziam parte dos judeus que estavam
em redor da cruz, e que conheciam o aramaico. Quando um soldado compadecido (Lc 23.36) chegou
correndo para atender o clamor de Jesus por causa da sede, eles continuaram seus gracejos,
acompanhando a ação do soldado com expressões sarcásticas como:  Ainda veremos. Vamos ver se
Elias vem para salvá-lo.
A bebida oferecida a Jesus era a mesma que os soldados sempre carregavam consigo em seus
exercícios, a chamada posca, uma limonada preparada com água, vinagre e ovos batidos. Jesus, que
rejeitara a primeira bebida anestésica, agora bebeu avidamente esse líquido refrescante (Jo 19.30).
Quanto ele deve ter sofrido na cruz! Precisamente esse seu último gesto de beber revela muito a esse
respeito. Em seguida falou: “Está consumado” (Jo 19.30).  Gritando novamente com voz forte,
rendeu o espírito (cf. Lauck; Strack-Billerbeck; e Bornhäuser).
É Lucas quem nos relata que grito era esse: “Jesus deu um grande grito. Ele disse: Pai, em tuas
mãos entrego o meu espírito” – e, com essas palavras, expirou” (Lc 22.46).
Jesus inclinou a cabeça e faleceu! Calou-se a voz que se fez ouvir para os milhões e milhões de
habitantes da terra. Apagou-se o olhar que perscrutava o grande e o pequeno, os motivos ocultos das
pessoas e as profundezas de Deus. Encolheu-se o peito que abraçou o mundo inteiro com amor.
Quebrou-se o coração que batia calorosa e fielmente para amigos e inimigos. Desfaleceu a mão que
afastava aflição e morte, tempestade e doença. –
No madeiro da vergonha morreu Jesus. Desprezado pelos escarnecedores, aos poucos literalmente
supliciado até a morte. Morreu como alguém cuja obra e tarefa de vida fracassou totalmente. Faleceu
como uma pessoa horrivelmente “desnudada”, como alguém “derrotado”, como mentiroso e impostor
– perante o mundo!

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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