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128 A Grande Comissão, Mt 28.16-20


A Grande Comissão, Mt 28.16-20
(Mc 16.14-18; Lc 24.44-49)

16-20 Seguiram os onze discípulos para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes designara. E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram. Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando -os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.
O envio dos discípulos ao mundo perfaz a conclusão do evangelho de Mateus.
Acabou a história do sofrimento, da morte e da ressurreição do Senhor em e diante de Jerusalém.
O último encontro do Senhor com seus seguidores realiza-se na Galiléia, ou seja, no lugar em que
o Senhor havia iniciado a trajetória oficial e pública na terra, onde também havia reunido seus
discípulos, onde os ensinara, onde os enviara pela primeira vez, onde efetuara os milagres, onde
fundara sua comunidade, enfim, lá onde predissera tudo o que agora já havia acontecido.
Portanto, é no lugar em que o Senhor tinha dado início ao seu grande e eterno ministério de
redenção, em que viveu e agiu e amou os seus até o fim, que também devia acontec er o término de
sua carreira na terra, de sua vinda em humildade.
Durante a Ceia ele dissera aos discípulos que, após a ressurreição, ele iria na frente deles até a
Galiléia (Mt 26. 32). É isto o que acontece agora.
Os onze discípulos estão reunidos ao redor dele. Esta é para ele, o Senhor, e para os seus onze
uma cena inesquecível, do mais marcante impacto. – Quantas vezes, durante sua caminhada terrena,
ele havia reunido os discípulos ao seu redor. E sempre de novo eles tinham ouvido com admiração o
seu discurso, seus pensamentos sobre a eternidade.
Agora, mais uma vez ele os ajuntou ao seu redor. Contudo, dessa vez a “reunião” é bem diferente.
O Senhor não é mais terreno, e sim eterno; não mais aquele que irá até Jerusalém para sofrer e
morrer – não, o Senhor agora é aquele que foi para Jerusalém, que sofreu e morreu e foi ressuscitado,
que conquistou a vitória, que consumou a obra da salvação!
Diante de seus discípulos, pois, está Jesus como o vencedor e o Filho de Deus, como o Messias
prometido, com glória e majestade, com fulgor eterno e esplendor sobrenatural. Nesta condição ele
profere de modo claro e audível, poderoso e divino, a palavra:  Toda a autoridade me foi dada no
céu e na terra.
Essa é a palavra de pena autoridade do Ressuscitado. A vitória está ganha. A redenção foi
consumada. – Essa palavra, porém, está acessível somente ao que crê. Não é um poder que o mundo
conhece. O poder do mundo é potência que se manifesta exteriormente, é sucesso, triunfo, é
demonstração de força em todos os níveis.
A autoridade que foi dada ao Ressuscitado é um poder de uma espécie muito diferente.
As maneiras como se manifestam os dois poderes, o mundano e o divino, devem ilustrar para nós
a essência dessas duas “potências”.
Inicialmente, o fato é este:
O poder do mundo, que recebe sua força do diabo, é a mais terrível realidade. O diabo é o grande
inimigo de Deus, é o deus deste mundo, o príncipe desse século. O  NT fala disso com toda a clareza.
Afirma: Vocês não estão lutando contra carne e sangue. O mundo jaz nas mãos do maligno. O diabo
anda ao derredor como leão que ruge. Ele se disfarça como anjo da luz.
A tentação de Jesus no deserto, sua luta no Getsêmani e a crucificação no Gólgota teriam sido
apenas simulações de batalha se não pudéssemos afirmar: Naquele momento realmente estava em
jogo a causa de Deus. O Senhor Cristo deparou -se de fato com um inimigo mortal, ao qual o Senhor
levou extremamente a sério. Por conseguinte, temos de pronunciar este terrível pensamento, se o
pudermos compreender ou não: Existe um poder sombrio que quer destronar Deus, e não é ponto
pacífico que esse poder seja vencido.
Todo aquele que trabalha no reino de Deus está ciente da realidade funesta desse inimigo terrível
dentro e ao redor de si. Paulo sabe que está sendo esbofeteado por um mensageiro de Satanás (2Co
12.7). Ele também quer perdoar a pessoa que o ofendeu em Corinto , “para que Satanás não alcance
vantagem sobre nós, pois não ignoramos as intenções dele” (2Co 2.11). Ele entrega o incestuoso a
Satanás (1Co 5.5; cf. 1Ts 2.18). – Deus e Satanás são adversários irreconciliáveis, que se opõem,
entre os quais não há relacio namento, nem pacto nem intermediação! O diabo não é um macaco de
Deus, um duende, um instrumento de Deus, um funcionário subalterno na corte de Deus, como o
expressa o Mefistófeles de Goethe. O diabo não é “estrume para adubar a vinha de Deus!” (cf.
Heim).
Não, de fato não é isso, mas sim o temível sedicioso e rebelde contra Deus! – Esse poder do diabo,
quanto mais perto estivermos do fim do mundo, há de revelar-se de modo horrível. Na medida em
que se aproxima o fim, o diabo se desdobrará, revelando -se com todo o seu horror e crueldade. É o
que descreve também o Apocalipse de João. O poder da mentira, da crueldade sádica, o vício
antinatural, a descrença, o ódio, o desamor, tudo isso aparecerá mais e mais com todo o seu terror
diabólico, até a última tribulação que supera tudo o que até então aconteceu. Não é assim, que o
diabo julgado e vencido no Gólgota esteja preso como um condenado, mantido no cárcere, tornado
inofensivo; ele circula livremente, aterrorizador como um leão que ruge, a fim de  – se puder –
devorar os eleitos. A injustiça tomará conta. Os poderes do mundo, os poderes da perdição, os
poderes da morte exclamam com muitas vozes: “Foi-nos dada toda a autoridade. Quem não se dobra
a nós, será destruído!”
A esses terríveis desdobramentos do poder de Satanás, que se estendem até os extremos da terra, e
aos seus poderes de perdição e morte, contrapõe-se agora a palavra vitoriosa do Ressuscitado, a
palavra que tem de ser compreendida de modo absoluto e total: A mim foi dada toda a autoridade
no céu e na terra.
Como devemos entender essa palavra que desafia todas as experiências naturais, tudo o que está
“diante dos olhos”?
Como a compreenderemos? Seria, porventura, verdade que Deus é impotente frente ao que está
“diante dos olhos”? Seria a ressurreição nada mais que um fato invisível, que somente pode ser
compreendido no “sentido espiritual, interior”, que não se relaciona de nenhum modo com os
poderes visíveis?
O poder e a onipotência do Ressuscitado constituem uma autoridade de natureza totalmente
diferente dos poderes deste mundo, porque Deus e tudo o que é divino são sempre “totalmente
diferentes”. Inegavelmente, Deus tem o poder de aniquilar num instante o diabo e todos os seus
adeptos. Assim nós, humanos, faríamos com os nossos inimigos, se tivéssemos o poder para isso.
Contudo, essa não é a natureza da autoridade divina. Com tal ato súbito de onipotência o poder
contrário certamente estaria eliminado, mas não realmente superado. Com base em sua onipotência,
Deus, por isso, toma o caminho oposto. Ele supera o mal ao dar-lhe espaço, de modo que possa
desdobrar-se mais e mais. O maligno deve revelar todas as suas profundezas satânicas, mais
precisamente da maneira exposta acima.
Como senhor soberano da história mundial, Deus pode dar-se ao luxo de não esmagar com um
simples ato de onipotência o poder contrário satânico que se rebela contra ele.
A onipotência de Deus sempre age de maneira oposta ao nosso pensamento. Também Lutero
descobriu em Cristo que a onipotência de Deus vivifica quando leva para a cruz, que ela cura quando
ele fere os seus, que ele quebra você em mil pedaços quando quer usá-lo. Quando Deus age de modo
contrário às nossas orações e desejos, muitas vezes está atendendo essencial e profundamente as
nossas preces. Assim ele procedeu com todos os santos de Cristo. Muitas vezes ele os fez cumprir
com toda a vontade aquilo que menos queriam. Deu-lhes vitória quando estavam em desvantagem,
fortaleceu-os quando estavam fragilizados, abençoou-os quando os conduzia a tribulações e
escuridão. Assim a fraqueza, perseguição, tribulação e angústia são os meios pelos quais Deus salva
e põe de pé. Por isso os humilhados e desprezados são sempre os seus filhos que ele ama de modo
bem singular, dos quais está especialmente próximo (Sl 34.19). Deparamo -nos com uma estonteante
visão da vida!
Por isso Lutero entoa sempre de novo o cântico daquela autoridade de Deus que quebra e destroça,
pois é justamente por meio dessas medidas que ele quer revelar seu poder divino. A tribulação faz
parte do cristão. É o sinal da graça. Por isso o ser humano deve alegrar -se quando lhe é permitido
sofrer. Por isso deve agradecer quando Deus realiz a o contrário daquilo por que ele suplicou.
Somente quando existe a submissão de si próprio, sim, quando não existe nada, a ação onipotente de
Deus se torna possível.
“Deus é alguém que tem vontade de realizar o que perante o mundo é tolo e ineficaz.”
Essa onipotência foi dada ao Ressuscitado. Uma onipotência que, por um lado, não vale nada e
não é nada perante o mundo, mas que, por outro lado, incessantemente, contra todos os obstáculos do
mundo, contra todo o ódio do diabo e todas as decisões opostas a Deus, conduz os pensamentos,
planos e intenções de Deus ao mais maravilhoso e grandioso alvo, de modo milagroso e
superpotente. É uma plenipotência que deverá se revelar na eternidade com toda a eficácia e
maravilhosa transfiguração.
De nenhuma outra maneira temos de entender a palavra de Jesus:  A mim foi entregue toda a
autoridade sobre o céu e sobre a terra, uma autoridade de característica divina, um poder agora
oculto diante dos olhos do mundo – mas que então será manifesto diante de todos, com julgamento e
glória.
À palavra de autoridade do Ressuscitado segue a ordem plenipotenciária do Príncipe da vida, que
diz: Ide! O magnífico e único enviado Jesus Cristo, ressuscitado, vivo e poderoso – está enviando.
Agora o envio não é provisório, limitado, transitório e para uma vez, como em Mt 10, mas definitivo,
ilimitado, permanente, duradouro. Rompeu-se o estreitamento étnico da sinagoga e abriu-se a
universalidade da comunidade. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu o
modo etnicamente fechado de pensar da velha aliança pela nova aliança que rompe todas as barreiras.
Por isso a ordem com autoridade universal: Ide!
A essa ordem poderosa, Ide!, acrescenta-se a tríplice ordem de serviço ou ordem de missão de
Jesus:
•  Façam que todos os povos sejam discípulos!;
•  Batizem-nos!;
•  Ensinem-nos!


a. Façam que todos os povos sejam discípulos!
A expressão “façam que todos os povos sejam discípulos”, de acordo com o texto original grego,
significa algo bem diferente e muito mais amplo que a tradução com o sentido de “ensinar todos os
povos”. – O próprio Jesus mostrou e representou o que significa “fazer discípulos”. Seus discursos
nada mais eram que um chamado ao discipulado, a segui-lo. Seguidor de Jesus é aquele que se voltou
com toda a seriedade ao Senhor e está empenhado em viver conforme a vida do Senhor, ou seja, em
buscar a santificação com disposição total.
Não é, de modo algum, uma questão óbvia que todos os povos devam ser convocados ao
discipulado. Isto é um milagre nada menor que a própria ressurreição do Senhor, um milagre que já
se anunciava na história do Encarnado e que acontece de modo poderoso ao se abrirem as portas para
o mundo, depois que Israel fechou suas portas para Deus e rejeitou o Cristo com descrença!
É esse o sentido de “façam que todos os povos sejam discípulos!”. Convoquem para a decisão por
Jesus, o Exaltado! Para isto, façam uso da “palavra” da cruz e da ressurreição!


b. O segundo ponto é: Batizem os povos no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
A fórmula em tríade do batismo, que aparece aqui pela primeira vez, ainda não constitui uma
confissão de fé trinitária elaborada, mas sim uma fórmula litúrgica correspondente aos três
mergulhos da pessoa a ser batizada. Nela naturalmente se prepara o posterior desenvolvimento para
uma confissão de fé. A locução “no nome de” significa a entrega do batizando ao Pai, Filho e
Espírito. A realidade de Deus é desdobrada em três aspectos num só nome. O nome único previne o
mal-entendido de que seriam três deuses aos quais o batizando é consagrado e aos quais a fé se dirige
em três perspectivas (K. Barth).
O tríplice desdobramento, porém, atesta como o Deus único se volta  para nós e se revela no
batismo.
Tanto a palavra como o batismo adquirem seu sentido e sua força do fato de que é o Ressuscitado
quem transmite ambos (palavra e batismo) aos seus discípulos. Estão imbuídos da vida a partir da
morte, inerente ao Ressuscitado, e têm o propósito de concretizar essa vida.
Em relação ao batismo de João, este batismo tem um novo sentido, mesmo que, como aquele
constitua a sentença de morte sobre o velho homem e o selo da salvação eterna. A novidade deste
batismo, instituído pelo Ressuscitado, é que Jesus Cristo entrou nele e tornou-se o seu conteúdo,
através da sua morte e ressurreição. Ser batizado significa, agora, morrer com Cristo e erguer -se com
ele para uma vida nova (Rm 6.1ss; cf. G. Bornkamm, em:  Göttinger Meditationen, 1947, vol. 4, p.
411ss).



c. À palavra e ao batismo que expusemos acima agrega-se ainda outra palavra: Ensinem-nos a
cumprir tudo o que eu tenho mandado.
Palavra – batismo – palavra: esta é, portanto, a tríplice ordem de serviço do Ressuscitado.
Este ministério do ensino é a condução e liderança do grupo de seguidores de Jesus, realizadas
através da palavra. A palavra não é apenas palavra de  arauto, palavra de chamado, que visa a
decisão, mas a palavra também é de aprofundamento, de cura de almas, de ensino, de exortação, de
consolo, a palavra que deve conduzir de conhecimento a conhecimento, que d eve desvelar mais e
mais a riqueza da vocação celestial em Jesus Cristo.
A tríplice ordem missionária é emoldurada pela palavra da onipresença: Eis que estou convosco
todos os dias até a consumação do tempo.
A palavrinha “eis” sempre aponta para algo muito especial, importante e digno de atenção. Nesta
palavra o especial e importante é que Jesus exteriormente deixa de ser visível, porém interiormente
permanece com eles, invisível, e precisamente em todo o tempo (“todos os dias”) e em todo o lugar
(“com vocês”). A essência da comunidade de Jesus é que o Jesus Ressuscitado continua vivo e
atuante. É a comunhão oculta dos cristãos com o Cristo, dos chamados com o que chama, dos
enviados com o que envia.
Essa promessa do Senhor é a verdadeira preparação e legitimação da comunidade de Jesus, que a
potencia e capacita para o serviço. Ela retira os discípulos do presente século. Sem ela, seguir a
Cristo seria uma ação movida por recordações, presa aos altos e baixos da história, ao destino de
viver e morrer. Sob essa promessa, no entanto, ser discípulo constitui, em meio ao presente século,
um pedaço do novo mundo de Deus. A comunidade não está isenta das angústias deste mundo, pelo
contrário, de acordo com a vontade de Jesus Cristo, e sendo seus discípulos, está ainda mais exposta
a elas. Não obstante, ela já as atravessou, porque está com ela aquele Senhor para cuja revelação se
direciona todo o curso do mundo, quando o estou com vocês todos os dias será mudado para
estaremos com o Senhor para sempre (1Ts 4.17; Jo 14.3; cf. G. Bornkamm).
Mateus não encerra com a ascensão de Jesus. O fim de seu evangelho é dado com as palavra da
autoridade, do serviço e da onipresença. Esse acontecimento não representa o encerr amento apenas
em sentido formal, mas também de modo mais profundo perfaz o alvo de toda a mensagem de
alegria. Constitui a culminância da história de Jesus Cristo, e ao mesmo tempo a última palavra sobre
o mundo e sobre sua última incumbência e o legado do  Ressuscitado para a sua comunidade.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança


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