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13 O banquete dos cobradores de impostos, Mt 2.13-17

O banquete dos cobradores de impostos, Mc 2.13-17
(Mt 9.9-13; Lc 5.27-32)

13-17 De novo, saiu Jesus para junto do mar, e toda a multidão vinha ao seu encontro, e ele os ensinava. Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu. Achando-se Jesus à mesa na casa de Levi, estavam juntamente com ele e com seus discípulos muitos publicanos pecadores; porque estes eram em grande número e também o seguiam. Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntaram aos discípulos dele: Por que come [e bebe] ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores.

Em relação à tradução
     a
     para aqui não é “ao longo de” (com WB, p 1211), pois a idéia de que Jesus pregara andando,
acompanhado da multidão, não só é inverossímil, mas também tem passagens claras como 3.9; 4.1 contra si.
     b
     Como a lista dos apóstolos em 3.18 contém um “Tiago, filho de Alfeu”, alguns copistas pensaram ter
de corrigir “Tiago” aqui. Schlatter aceita as variantes e acha que se trata de um irmão de Tiago. Nosso relato
também não dá a entender que Levi se tornou membro do grupo dos doze, antes seu chamado é entendido
como um chamado comum (v. 17). Mateus é quem, em sua lista de apóstolos em 10.3, chama o Mateus de
“publicano” e tem o nome dele também neste chamado de cobradores de impostos, sem mencionar um pai
chamado Alfeu.
     c
     Lit “deitados”, o que mostra, como Lc 5.29 conclui, que Levi deu “um grande banquete”, pois
normalmente comia-se sentado no chão, com as pernas cruzadas. Só em ocasiões festivas usavam-se
almofadas com encosto (“mobília”, Mc 14.15), para servir-se de mesas baixas, acomodado com conforto
(Bill. IV, 611).
     d
     “sua” casa refere-se à de Levi e não de Jesus (como em Lc 5.29), conforme o sentido do texto.
     e
     telones, de telos (alfândega) e onousthai (comprar), portanto, uma pessoa que compra do Estado
direitos de cobrar impostos.
     f
     Este “e” não diferencia dois grupos de convivas, antes, o segundo termo (“pecadores”) define o
primeiro: publicanos, ou seja, pecadores. No versículo seguinte a ordem está invertida: pecadores, ou seja,
publicanos; todos os convidados pertencem à classe dos cobradores de impostos.
     g
     ischyein, lit ter força, derivado do termo aramaico para ter saúde (como em Lc 5.31).
Observações preliminares
1. Construção. Alguns comentadores tomam v. 13,14 como uma unidade separada e colocam outro título
sobre v. 15-17. Nós seguimos o ponto de vista de que temos aqui uma descrição única, bem pensada mesmo
que ocorrendo em três cenários (junto ao lago, na coletoria, na casa de Levi). Os v. 13s servem só de
introdução. V 13b não está redigido no tempo verbal comum de narrativa (aoristo) e está totalmente aberto
para a frente. O v. 14 só dá formalmente os dados essenciais de um chamado, e menciona a palavra-chave
“coletoria”, que torna os v. 15-17 necessários. Sobre a escolha de um homem tão impossível tinha de ser dito mais alguma coisa. Esta é introduzida com “aconteceu que” (v. 15, BJ). Começa o assunto mais importante que estava em vista.
2. Temática. Nosso trecho dá continuidade eclesiológica à narrativa cristológica anterior da autoridade de
Jesus. Pela primeira vez aparece a expressão importante “Jesus e seus discípulos” (v. 15; cf. qi 8f). Quem
Jesus chama para junto de si e quem não? No último versículo seu chamado do v. 14 é tornado geral: só
pecadores! Do seu perdão de pecados nasce a comunidade de pecadores agraciados. Por isso a comunhão da mesa de Jesus com os “publicanos e pecadores” – a expressão é escrita três vezes por extenso! – ocupa toda a cena. Deste modo, o chamado de um cobrador de impostos não foi um caso isolado, mas um caso exemplar de alcance fundamental. “Só para pecadores” está escrito sobre a salvação de Jesus. Pela conclusão do v. 15 os
publicanos compõem a massa de seus seguidores, mesmo que tenha havido entre eles quem não o fosse. Mas a coisa é levada ao extremo de modo provocador, para forçar uma brecha, para destruir o conceito farisaico de comunidade – um perigo atemporal, que avança pelos séculos!, e para fixar e impor a natureza da comunidade de Deus de modo inesquecível.
3. Publicanos. Uma fonte importante de recursos do pequeno reino da Galiléia eram os postos de
alfândega, que cobravam impostos não só nas fronteiras, mas também na entrada e saída de povoados, na
encruzilhadas e nas pontes. Para isto era usado o sistema de locação, muito generalizado na Antigüidade: um
nativo arrematava um ou mais postos de cobrança leiloados, e se comprometia com o pagamento regular de
uma quantia fixa. Para garantir a aquisição deste valor dentro do prazo, além de um lucro pessoal e um bom
pagamento aos empregados nesta atividade altamente impopular, cobrava-se dos transeuntes sempre mais que o normalmente estipulado. Estes, então, com razão se sentiam logrados.
Os viajantes tinham de entregar todos os objetos que levavam consigo. Se o cobrador suspeitava que algo
lhe fora oculto, ele tinha o direito de revistar as cargas e as pessoas. Nem cartas e outros objetos de cunho
pessoal estavam a salvo. Produtos não declarados podiam ser confiscados e possivelmente ficavam para o
cobrador. Um terceiro que dava indicações sobre objetos escondidos podia obter uma recompensa. Não é
preciso ter muita fantasia para imaginar o estado de ânimo em uma coletoria: desconfiança, ódio, brigas,
mentiras dos dois lados.
Em torno do grupo de coletores ergueu-se um muro geral de ódio e desprezo. Todos preferiam ver um
coletor pelas costas. Nenhuma pessoa decente empregava-se com eles. O escritor pagão Júlio Pollux
relacionou 35 termos injuriosos contra locatários de alfândega. Os cobradores eram considerados ladrões e
assaltantes por definição. Era permitido enganá-los e perjurar perante eles. Doações de caridade da parte deles eram recusadas. Eles não podiam comparecer no tribunal como testemunhas, cargos importantes lhes eram vedados. Suas famílias, que participavam da riqueza roubada, também eram marginalizadas. Um fariseu que se tornasse coletor era expulso, e sua esposa podia divorciar-se dele.
O motivo do desprezo dos cobradores, pelo menos na Galiléia, não era a colaboração com as forças de
ocupação, já que os romanos tinham concedido a Herodes Antipas a mesma isenção de impostos e autonomia financeira como a seu pai; sua base era unicamente moral, pois a motivação deste negócio sujo era a ganância desenfreada, o pré-requisito era uma insensibilidade repugnante que não se impressionava nem com problemas de consciência nem com os preceitos de Deus. Disto resultava o oposto exato do fariseu, o judeu rigoroso na
Torá (cf. Lc 18.9-14). Levamos tudo isto em consideração quando lemos que Jesus arriscou-se a receber a
alcunha de “amigo dos publicanos” e que a lista dos apóstolos inclui “Mateus, o publicano” (Mt 10.3). Ainda 150 anos depois o filósofo romano Celso derramou sua zombaria sobre os cristãos e seu Jesus: bandidos, cobradores de impostos e pescadores eram seus discípulos.
4. Os fariseus. Quando, no século III a.C., o helenismo experimentava um avanço triunfal em volta de todo
o Mediterrâneo, a atração pela arte e literatura, língua, costumes e espirituosidade, por teatro e esporte dos
gregos afetou também o povo judeu. Cada vez menos a massa popular, assim como a classe dominante,
acreditava que ainda fosse possível viver de acordo com as antigas leis de Moisés na época moderna. Por volta do ano 200 a.C., porém, um grupo de cerne duro do povo judeu começou a resistir. Conscientes de oferecerem a única alternativa para a civilização predominante, a única com futuro, eles se firmaram ainda mais sobre a Torá e a herança dos antepassados. O resultado foi algo espantoso no helenismo, em que eles realmente conseguiram preservar em grande parte a singularidade do judaísmo.
Para isto eles se uniram em comunidades bem organizadas, como um partido político. Havia
condições para admissão, tempo de carência, juramento, tratamento de irmão, reuniões regulares,
medidas disciplinares e de exclusão. Seus mantenedores provinham de todas as camadas da
população, mas principalmente da classe dos comerciantes e artesãos. Na época de Herodes o Grande
o movimento abrangia não mais que uns 10.000 membros em uma população total de meio milhão,
mas se tornava cada vez mais a força que liderava o povo, devido ao seu ímpeto extraordinário.
Determinantes nele eram os teólogos formados e os escribas (opr 5 a 1.21-28).
Seus principais objetivos eram a separação completa de tudo o que não fosse judeu, e a
observância rigorosa da tradição mosaica. Por isso eles se chamavam de “separados” (“fariseu”, do
hebr perushim e do aram perishajja). Usando uma expressão moderna, poderíamos falar de uma
religiosidade de Apartheid. Para prevenir qualquer transgressão da Torá, os professores fariseus a
comparavam com um canteiro de flores muito bonito, que em nenhuma hipótese pode ser pisado e,
por isso, recebe uma cerca em volta, a certa distância. A “cerca” (Bill. I, 693) em volta da Torá era
formada por centenas de prescrições adicionais dos professores da lei, tornadas obrigatórias para
quem quer que quisesse ser judeu a sério. Ali teria de deter o passo quem se importava com a Torá.
No sábado, p ex, não era proibido apenas o uso de ferramentas, mas já tomá-las na mão. O dia de
descanso não começava ao pôr-do-sol, mas um pouco antes. Desta maneira surgiram uma porção de
sutilezas que marcavam a vida e o pensamento dos que eram fiéis à lei.
Um papel destacado tinham os mandamentos sobre comer e beber (Gn 43.32; Dn 1.8; 3Mac 3.4;
cf. Mc 7.1-23; At 11.3,8). A coisa ficava bem crítica quando era o caso de aceitar um convite para
um banquete. Em primeiro lugar, a cozinha alheia era difícil de controlar. Era muito fácil ingerir
alimento impuro ou pelo qual não fora dado o dízimo, ou comer de tigelas não consagradas! Acima
de tudo, porém, temos de considerar o efeito da solidariedade da comunhão à mesa, que é tão
importante no Oriente. Corria-se o perigo de encontrar pessoas que não levavam a pureza ritual tão a
sério. Era imperativo jamais tocá-las. Portanto, era necessário informar-se sobre os outros
convidados, especialmente sobre os possíveis vizinhos à mesa. A melhor coisa que um homem
religioso podia fazer era ficar longe deste tipo de promoção. Estas festas não combinavam com
alguém que queria combinar com Deus. Se a participação era inevitável, havia regras de conduta
minuciosas à mão (Bill. II, 510s).
     13     De novo, saiu Jesus para junto do mar (cf. 1.16n), e toda a multidão vinha ao seu encontro, e
ele os ensinava. Nesta fase da vida de Jesus as sinagogas já não lhe abriam mais as portas, mas o
povo ainda o seguia. Assim, ele se encontrava com as pessoas a céu aberto, sob o signo da
hostilidade que se formava, não para retiros idílicos à beira-mar. As cidades não eram construídas
diretamente na praia, com receio de eventuais tempestades com inundações. Pela mesma precaução,
a faixa de terra livre também não era plantada. Com isso havia espaço para aglomerações populares.
Além disso o orador podia subtrair-se rapidamente à ameaça de intervenção da polícia, evadindo-se
pela água para regiões de outros países. Este é o contexto de várias histórias que transcorrem no lago
da Galiléia, nos evangelhos (p ex 1.16; 4.1s,35; 5.1,21; 6.45; 8.13). Ao colocar esta informação sobre
a prática de ensino de Jesus à frente da vocação de discípulos do v. 14 – como em 1.14-20! – Marcos
está inserindo o discipulado basicamente na mensagem de Jesus. As pessoas não vêm a Jesus para
satisfazer quaisquer anseios, mas em resposta ao que ele traz, ecoando sob e com a boa notícia de
Deus. Os seguidores de Jesus sabem quem os chama e para quê ele os chama, e eles também se
tornam membros de uma comunidade concreta, como aqui no v. 15 e os primeiros quatro discípulos
em 1.29-31.
     14     Em um momento qualquer, indo para a beira do lago ou voltando, aconteceu o encontro com Levi.
Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria. Ele não era “chefe dos
cobradores de impostos”, como Zaqueu em Lc 19.2, com empregados trabalhando para ele. Ele
atendia o público, sentado atrás de uma mesa, exigia pagamentos e passava recibos. Podemos dar um
outro sentido a este “sentado”: ele estava estabelecido e arraigado neste negócio, cobrador por dentro
e por fora, que sabia que cada passante queria mandá-lo para o inferno. Mas agora passou este que
era bem diferente, trazendo consigo o reinado de Deus. Este o “vê” e disse-lhe: Segue-me! Ele se
levantou e o seguiu. A estrutura básica de todos os chamados inclui a menção de Jesus passando em
frente e vendo, identificação por nome, origem e profissão, por fim também o rompimento, o dispor-se e a execução da ordem (cf. 1.16-20). Olhando para 10.17ss, porém, nos precaveremos contra o
mal-entendido de que o chamado de Jesus é um poder mecânico que vem sobre nós. O jovem rico
ficou “contrariado” e não o seguiu, mas “retirou-se”. E Levi não deu um salto sem mais nem menos,
como um marionete, mas ouviu e obedeceu com toda a sua vontade.
     15     No tempo presente, que aumenta a atenção, Marcos chega no ponto central da sua narrativa:
Achando-se Jesus à mesa na casa de Levi, estavam juntamente com ele e com seus discípulos
muitos publicanos e pecadores; porque estes eram um grande número e também o seguiam.
Assim como Levi levou o Senhor para a sua casa, Pedro tinha feito em 1.29, Zaqueu fez em Lc 19.5
e também Lídia, quando disse em At 16.15 aos mensageiros de Jesus: “Se julgais que eu sou fiel ao
Senhor, entrai em minha casa e aí ficai” (cf. At 9.42,43; 10.48).
Em primeiro lugar trata-se de festejar a salvação, como no caso do filho perdido e reencontrado,
em Lc 15.23. A salvação quer expandir-se além do cérebro e do coração e invadir também a esfera
corporal: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34.8) – não fiquem só falando! Em segundo lugar,
no entanto, já temos a estratégia missionária: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa!” (At
16.31). O objetivo é a casa do salvo. A salvação deve ser trazida para seu espaço vital atual, ser
plantado ali como sinal do reinado de Deus. O novo discípulo professa pertencer a Jesus e Jesus
professa pertencer a ele.
Haenchen sente falta que Jesus aqui não se importa pelas pessoas, como diz sua tarefa no v. 17:
“Uma festa assim não é pastoral” (p 110). A frase está certa, desde que se omita uma palavra: uma
festa assim é pastoral! Ao sentar-se com estes pecadores notórios, ele lhes oferece, com força
simbólica, comunhão de vida, paz e confiança.
Podemos meditar por que logo aqui se fala dos discípulos de Jesus. Pelo menos quatro deles eram
pescadores e, como tais, não deveriam ter em conceito muito elevado os colegas da coletoria. Já no
caminho da praia para a cidade, estes devem ter-lhes tirado muitas vezes uma parte do fruto do seu
penoso trabalho noturno. Schlatter suspeita além disso que em Cafarnaum também se recolhessem
taxas para a liberação dos direitos de pesca. Não devemos nos deixar levar, portanto, por nossa
compaixão romântica pelos publicanos. Os pescadores estavam encontrando aqui os seus
exploradores! Todavia, o perdão de Deus se expande também horizontalmente. Pessoa e pessoa têm
um novo encontro (cf. Lc 19.8!).
Assim Jesus reuniu todos em volta da mesma mesa, se bem que não à mesa da sinagoga. Estas
pessoas não foram encaminhadas ao judaísmo rabínico; as estruturas do reinado de Deus romperam
as estruturas do mundo velho. Coisas maravilhosamente novas e grandes se anunciam.
     16     Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos. De acordo
com Bill. IV, 615, casas em que se realizava um banquete eram consideradas casas abertas, em que
pessoas não convidadas também tentavam entrar para arrebatar alguma guloseima. Conta-se de
banquetes judaicos com 85 hóspedes, numerosos atendentes e até 80 pratos. Com este alvoroço os
curiosos não tinham dificuldades para entrar, mesmo que não participassem do banquete em si. Aqui
são os escribas dos fariseus que fazem as suas observações. Havia, mesmo que em número menor,
escribas que faziam parte do partido dos saduceus, um movimento que naquela época já perdia sua
força e que desapareceu com a destruição do templo (cf. opr 1 a 12.18-27). Marcos só os menciona
em 12.18, contra doze referências aos fariseus. Estes perguntavam aos discípulos dele – até parece
um grito de horror: Por que como [e bebe] ele com os publicanos e pecadores?
A indignação pressupõe que na verdade eles consideravam Jesus como sendo um deles. Não podia
ser ele encontrado regularmente nas sinagogas? Não era ele um homem da Escritura e de oração?
Não levava ele uma vida consagrada a Deus? E agora eles o vêem lá com os outros. Na verdade Mt
11.19 dá a entender que Jesus atendia com freqüência convites como este, portanto, seguia
objetivamente uma linha pré-estabelecida. Talvez foi por isso que os professores da lei se voltaram
para os discípulos dele, porque entendiam que somente estes ainda podiam ser influenciados, e
queriam inserir uma cunha entre discípulos e mestre. Eles são convocados a fazer um julgamento e
confessar lealdade.
Em todo caso, estes homens acostumados ao respeito vêem que Jesus é um homem que se atrevia
a desprezar esta tese básica, passando por cima da separação entre eles e os cobradores de impostos.
Parecia que ele renunciava às bem-aventuranças do Sl 1.1: ele estava assentado na roda dos
escarnecedores! Naturalmente os cobradores de impostos não escarneciam na presença dele, antes
começavam a segui-lo, como o v. 15 registra claramente. Mas será que isto não estava acontecendo
muito facilmente? O fariseu também sabia da sua Bíblia que em Deus há muito perdão. Mas depois
sua lógica farisaica se manifestava: perdão sim, mas só depois de mostrar que o arrependimento é
sincero, consertando os erros e mudando toda a direção da vida. Perdão só no fim de uma caminhada
longa de cumprimento duro da lei. Só então, só depois disto Deus se voltava ao seu pecador. Até lá
era preciso manter-se separado do pecador – por amor ao pecador. Assim lhe mostravam que de Deus
não se zomba.
     17     Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.
De forma alguma Jesus, com sua comunhão à mesa com os cobradores de impostos, estava
sancionando os abusos das coletorias, de forma alguma ele bagatelizou o desprezo da Torá. Seus
críticos deveriam reconhecer que a interpretação que faziam da atitude dele não é mandatória.
Também existe solidariedade com base em disposição de ajudar. Em certa área isto é inconteste.
Neste contexto Jesus utiliza a figura do médico, que naquele tempo era bem conhecida, sob várias
formas. Só quem não conhece a missão do médico surpreende-se com quem ele se encontra. O
médico rompe com o conceito tão antigo e desumano do “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem
és” e aparece como são entre doentes, obviamente não para tornar-se como eles, mas para
transformá-los. Ao mesmo tempo esta resposta contém uma crítica à crítica. Em Mateus ela está mais
detalhada. Jesus acusa os fariseus de falta de misericórdia (9.13): Vocês, tão abençoados pelo estudo
da Escritura a vida inteira, deveriam ser médicos! Indiretamente Jesus está dizendo que ele é médico,
apoiado também no fundo do AT desta figura. Médico é uma antiga profissão-símbolo para o
salvador messiânico, semelhante a um pastor (cf. Ez 34.16; Êx 15.26; Jr 8.22; Lc 4.23). Jesus é o
portador da disposição divina de ajudar. Por isso ele se ajusta tão bem a estes desajustados. Por isso
ele também, mais tarde, morre debaixo da maldição entre dois malfeitores. A comunhão na refeição
com os malditos (Jo 7.49) já o anuncia.
Sem usar a figura, Jesus acrescenta: não vim para chamar justos, e sim pecadores. Esta
continuação confirma que Jesus acabara de falar da sua missão fundamental, da sua vinda. Vir está
vinculado a ser enviado. Jesus é o mensageiro de Deus.
Mas será que ele, de acordo com esta palavra, traz sua mensagem só para uma parte da
humanidade? O melhor é ficarmos no contexto da palavra bíblica anterior: o médico entra em uma
casa e procura seu paciente. O fato de, nisto, ele passar ao largo das casas dos sãos não o torna
contrário aos sãos por princípio. Assim, da negação de Jesus, “não vim para chamar justos”, devemos
tirar só o aspecto positivo, que ele está fazendo seu trabalho como um médico bom e consciencioso.
De forma alguma seu amor pelos pecadores implica em falta de amor com os justos. Exatamente em
nossa história ele discute com eles com muito respeito. Em 10.21 está dito expressamente que ele
ama os que são fiéis à lei, e em 12.34 ele afirma a um professor da lei que ele está próximo do reino
de Deus. Há uma preferência na seqüência, mas não a exclusão de um lado. A lógica é exatamente
esta: se Jesus encarna a vontade divina de ajudar até para estas pessoas totalmente condenáveis, então
ele tem ajuda para todos. Seu apelo aos que estão longe contém um apelo indireto mas insistente aos
que estão perto, de modo que todos são chamados. Esta verdade o Senhor atestou, de acordo com Mt
21.32: “Publicanos e meretrizes creram […] para acreditardes nele”. A preferência por uns deveria
ser um estímulo para os outros. Neste sentido Paulo também esperava que as conversões dos gentios
“despertariam ciúmes” e “incitariam à emulação” o antigo Israel (Rm 10.19; 11.11,14).
Voltamos à opr 2 (temática). Existe um sentido atemporal permanente para as muitas histórias
com fariseus nos evangelhos porque existe um farisaísmo intrínseco à igreja.
Assim Paulo, p ex, em suas cartas às igrejas tinha de lutar muito para que a igreja de Jesus
continuasse sendo o lar dos fracos (Rm 14.1,10,13,15; 15.1,7; 1Co 8.9-13). Ela praticamente precisa
dos fracos para poder apresentar-se como igreja de Jesus.
Não foi por acaso que Paulo jogou todas as fichas em uma mesma carta em Gl 2, quando da
questão de os crentes comerem todos juntos. A comunhão à mesa sempre celebra a reconciliação.
Senão o evangelho seria traído e a cruz esvaziada. Segundo 1Tm 1.15, todos devem reconhecer que
Jesus Cristo veio “para salvar os pecadores”.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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