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14 A questão do jejum e a natureza nova abrangente do reinado de Deus, Mc 2.18-22

A questão do jejum e a natureza nova abrangente do reinado de Deus, 2.18-22
(Mt 9.14-17; Lc 5.33-39)

18-22 Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Vieram alguns e lhe perguntaram: Por que motivo jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão. Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres; e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos. 

Em relação à tradução
     a
     O tempo imperfeito descreve continuidade e dedicação. Lc 5.33 esclarece: “Freqüentemente jejuam”.
     b
     Plural impessoal, que deixa em aberto a questão de quem perguntou. Mt 9.14 diz que os discípulos de
João Batista fizeram a pergunta.
     c
     Em sentido estrito não havia “discípulos dos fariseus”, apenas aprendizes de escribas, que seguiam
com os fariseus. A expressão pode ter entrado aqui como paralelo para os “discípulos de João”.
     d
     Lit “filhos da sala do banquete”, um semitismo (Jeremias, ThWNT IV, 1096 n 40).
     e
     apairesthai neste contexto não tem o sentido de um arrebatamento milagroso, que não seria motivo de
tristeza, mas indica eliminação violenta. – Este “ser tirado” está aqui inserido entre dois tempos futuros
(“dias virão” e “jejuarão”), por isso seu momento deve ser definido como futurum exactum: não jejuarão só
no dia da morte, mas deste dia em diante (Roloff, p 231 n 98).
     f
     “Dia”, na linguagem antiga, muitas vezes tem o sentido de um espaço de tempo maior. O singular
(“naquele dia”) e o plural (“dias virão”) se eqüivalem. O singular é preferido p ex por Is 1–40 (mais de 40
vezes) e por Zc (mais de 20). Em Mc o singular está em 4.35; 13.32; 14.25, e o plural em 1.9; 8.1;
13.17,19,20,24.
Observações preliminares
1. Inserções? Quase quatro e meio dos cinco versículos consistem de palavras diretas de Jesus. Será que
Jesus as disse mesmo? A pergunta surpreende quem lê a Bíblia, mas não pode ser descartada sem mais nem
menos, em vista das condições técnicas do trabalho de escritor na Antigüidade. Escrevia-se sem separar
palavras e sem pontuação, como aspas para o discurso direto, só letra por letra. Quando Marcos quisesse
oferecer pequenos auxílios para uma melhor compreensão, ele tinha de incluí-las na seqüência regular do
texto. Os leitores da época estavam preparados para isto. Em nosso trecho eles poderiam explicar assim alguns elementos que interrompem a linha direta de pensamento. No v. 19 Jesus faz uma pergunta com efeito, cuja resposta era óbvia para qualquer judeu. Mesmo assim ela é detalhada na segunda metade do versículo, como
se fosse um reforço para leitores alheios ao país. No fim do v. 20 foi pendurado “nesse tempo”. No v. 21, “o remendo novo da veste velha” soa como uma exclamação de destaque. O final do v. 22 parece acrescentar uma aplicação de utilidade: “Põe-se vinho novo em odres novos!” Em todo caso, há razões respeitáveis para a investigação de acréscimos posteriores por Marcos ou um dos seus predecessores. Entretanto, o que dizer de
conclusões decisivas sobre isto? Os esclarecimentos não poderiam proceder do próprio Jesus? Naturalmente a
discussão é sem limites. Cada intérprete pode pensar o que quiser. Outro terá uma idéia melhor.
Uma hipótese, porém, de que todo o v. 20, que fala da remoção do noivo e do jejum dos discípulos, seria de autoria da igreja, põe em dúvida questões essenciais. Se o retirarmos, resulta um quadro que de forma alguma combina com a pregação de Jesus sobre o reinado de Deus. É claro que Jesus anunciou a boa notícia do reino
vindouro, de acordo com 1.14s, mas seus discípulos não são só um grupo que se diverte. Há sempre também o
“mistério” do reino de Deus (4.11). O mensageiro de alegria, desde o seu batismo, cada vez mais é também o servo sofredor de Deus. Neste caso, separar as fontes destrói a fonte.
2. Os primeiros cristãos jejuavam? Na opinião de uma parte dos comentadores, nosso parágrafo tem sua
origem em boa parte no interesse de alguns grupos dos primeiros tempos do cristianismo no jejum anual da
Sexta-feira da Paixão ou até no jejum semanal (em dois dias da semana, veja abaixo), como marca do
cristianismo, como regra da igreja. Esta regra se tornara motivo de discórdia nas igrejas na época de Marcos, e nosso texto representa a tentativa de resolvê-la com auxílio de uma história escrita por Marcos ou adaptada de uma de Jesus. Esta interpretação mantém-se como idéia fixa, apesar de colidir com várias dificuldades.
Não temos nenhuma notícia de que os primeiros cristãos tinham um jejum regular por norma. O primeiro
indício está no Didaquê 8.1, por volta da virada do século: “Os jejuns de vocês não devem coincidir com os
dos „hipócritas‟ (judeus). Eles jejuam no segundo e no quinto dias da semana, mas vocês devem jejuar no
quarto dia (quinta-feira) e no dia dos preparativos (sexta-feira).” Portanto, os dias de jejum dos judeus tinham-se tornado costumeiros na igreja, que deveria transferi-los para outros dias da semana, para estabelecer uma distinção. Como obrigação geral, porém, marcando a quarta-feira como dia da prisão de Jesus e a sexta-feira como dia da sua morte, este jejum semanal dos cristãos aparece só depois do século III; o jejum anual na
Sexta-feira da Paixão no século II (Behm, ThWNT IV, 934s). Mesmo admitindo que o jejum da Sexta-feira da Paixão já era fundamentado e defendido nas igrejas na metade do século I, como é desajeitado tomar para isto uma palavra de Jesus que mostra com tanto vigor que os discípulos não jejuavam! Por que começar depois da Páscoa (!), só com uma mudança de data? E por que levar junto os exemplos dos v. 21s, que condenam os remendos nas coisas velhas?
Por último, quero chamar a atenção para a nota no v. 20, que mostra que não se deve jejuar no dia da morte de Jesus, mas em todo o tempo subseqüente.
3. O jejum dos religiosos no judaísmo. Não está em questão o jejum judaico em geral, mas o daqueles
religiosos que queriam ser judeus com seriedade especial (v. 18) e que esperavam com fervor a vinda do
Messias. Típico para eles é o fariseu que ora em Lc 18.12: “Jejuo duas vezes por semana”. É um jejum
voluntário, extra, praticado semana após semana, em dias não muito próximos do sábado, em que a lei
mandava festejar, nem uns dos outros, para que o corpo não ficasse enfraquecido. Assim, restavam a segunda e a quinta-feira (Bill. II, 241ss). A “fome” de jejum, porém, foi aumentando, a ponto de os exageros terem de ser proibidos. Havia rabinos que passavam fome em 300 dias do ano, sempre das 6 às 18 horas. Bill. IV, 95
conta de um rabino que durante 40 anos só chupara passas de figos, e emagreceu até ficar só esqueleto. O
jejum fazia parte da vida ideal imaginada pelos judeus (Behm, ThWNT IV, 930).
Que convicção subjaz a este costume? A palavra aramaica para “jejuar” também tem o sentido de “estar de
luto”. O jejum é originalmente o jejum do luto, como em casos de falecimento e outras perdas. Em seguida, os gestos de luto traem traços de auto-humilhação e diminuição: com vestes rasgadas ou vestida com um saco preto e com cinzas sobre a cabeça, a pessoas fica deitada no chão e recusa qualquer refrigério (2Sm 12.16,21;
1Rs 21.27; Is 58.5; Sl 35.13). O jejum torna-se um lamento diante de Deus pela condição de perdição pessoal, e um ritual proeminente de conversão. A intenção é conseguir algo com Deus: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? (Is 58.3). Por último, o jejum envolvia mais que o próprio pecado. Com razão Bill. II, 241
suspeita de movimentos de conversão como os dos fariseus: “Os homens que se decidiam a isso sentiam em si o chamado para entrar na brecha que o pecado da massa de povo abria sempre de novo entre Deus e Israel, para acalmar a ira de Deus com a força expiatória do seu jejum…” Portanto, o jejum dos fariseus adquiria um caráter de arrependimento vicário. Aquele rabino que jejuou 40 anos, fizera-o “para que Jerusalém não fosse
destruída”. Dali para o orgulho do jejum em Lc 18.12 é um passo, acompanhado de uma olhadela lateral para
o publicano que nunca economizava na mesa. Para o valor meritório do jejum voluntário há muitas provas
judaicas. O jejum era considerado equivalente aos sacrifícios no templo e superior às esmolas dadas aos
pobres. Contra este aspecto Jesus se volta em Mt 6.16-18. Em nosso trecho o valor meritório do jejum não está em questão tanto como seu direcionamento para o tempo messiânico, talvez também para apressar sua
chegada com sofrimento fiel.
     18     Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Como em 7.3,4, Marcos antecipa uma
explicação de um costume tipicamente judaico para leitores estrangeiros (opr 3). Nesta questão o
movimento de João Batista era contado com o judaísmo (1.6; Mt 11.16-19), apesar de sua posição
especial. A mudança de tempo do verbo, na segunda metade do versículo, indica o início da história
em si: Vieram alguns e lhe perguntaram: Por que motivo jejuam os discípulos de João e os dos
fariseus, mas os teus discípulos não jejuam? Seis vezes, a ponto de quase irritar, aparece a palavra
“jejuar” em três versículos, chamando nossa atenção para o destaque deste costume entre os
religiosos de Israel. Em meio a este ambiente geral tendente ao jejum, a falta de jejum por parte de
Jesus tinha de se destacar. Por um lado ele anunciava Deus como ninguém mais (1.21), por outro ele
fica “comendo e bebendo” e se deita como “glutão e bebedor de vinho”, “amigo de publicanos e
pecadores” em volta das mesas de banquete deles (Lc 7.34, Mt 11.19). Daqui a ênfase de Mc 2.13-17
também vem mais uma vez para o centro. Grande confusão e estranhamento é evidente nas perguntas
aqui e lá. Pelo contexto, o problema não é o jejum em si, mas o jejum individual típico dos fariseus
(opr 3).
     19     A resposta de Jesus consiste em outra pergunta, e é ao mesmo tempo clara como um dia de sol e
escura como um enigma. Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o
casamento, enquanto o noivo está com eles? Qualquer judeu poderia responder a pergunta sem
problemas. Quando ouvia a palavra-chave “casamento”, diante dos seus olhos formava-se um cenário
de alegria desmedida, uma alegria que ofuscava tudo o mais. Professores da lei interrompiam seu
estudo da Torá, inimigos se reconciliavam, mendigos e quem mais aparecesse podia comer de graça.
Rufavam os tambores, nozes eram jogadas aos convivas, a procissão dançava diante da noiva e
louvava sua beleza. “Quem diverte um noivo é admirado como se tivesse oferecido um sacrifício”
(Bill. I, 504ss). Depois de uma semana a penumbra da lealdade sombria à lei voltava a descer sobre a
vida da aldeia. O casamento era uma das poucas ocasiões de quebra da monotonia, ele “quebrava”
até o jejum judaico, isto é, este era marcado de maneira a não coincidir com uma festa destas.
Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar.
Como em 1.14s, também aqui Jesus está proclamando um tempo de alegria. O jejum pelos
pecados “já é findo” (Is 40.2), o consolo da salvação chegou. Na verdade ele estava respondendo
uma pergunta específica sobre seu círculo de discípulos e, assim, sobre sua pessoa como Senhor
deste círculo. Só seus discípulos ele pode congratular como “convidados para o casamento”, porque
estão reunidos em torno dele, que é o noivo. Com razão Kümmel fala aqui de um “auto-predicado
oculto” de Jesus (Verheissung, p 51, no 123). Nesta altura a resposta se torna enigmática também
para os ouvintes da época. Na Bíblia deles Deus, não o Messias, era o noivo de Israel (Os 2.14-20).
Não podemos pressupor que eles conhecessem passagens como 2Co 11.2; Jo 3.29; Mt 25.1-13; Ef
5.23-33; Ap 19.7; 21.2; 22.17. Para eles era muita pretensão ver, em qualquer sentido, neste bando de
peregrinos já meio perseguidos por aldeias e cidades um cortejo de casamento, e neste mestre que
causava tanta admiração com sua autoridade, mas que também trazia uma confusão tão intrigante, a
existência de Deus como noivo. Mesmo assim eles deveriam suportar esta afirmação de Jesus. Ele
proclamava o fim do jejum de arrependimento. Ele abalara o muro da culpa (2.10,16). O perdão
chegara, o jejum era substituído pela alegria. Jesus é mais que um profeta, mais que um rabino. Seu
chamado à conversão não empurra as pessoas para o lamento saudoso – ao contrário do judaísmo –
mas para a grande alegria (1.15). Por isso seus discípulos também são religiosos de maneira
diferente. Conservar as tradições judaicas do jejum significaria para eles manter as lâmpadas acesas
depois que o sol nasceu.
     20     Como esta alegria, porém, não está no nível da diversão, antes, Deus a leva a sério, algo mais
precisa ser dito. Dias virão. Muitas vezes a Bíblia introduz as intervenções de Deus quando fala em
“dias” ou naquele “dia” (cf. 1.9). Aqui o termo também tem carga teológica, pois o passivum divinum
a seguir (cf. 2.5) anuncia solenemente uma ação de Deus: lhes será tirado o noivo, iniciada por um
contudo cheio de significado (como em 4.29; 8.38; 9.9; 12.23,25; 14.25). Como em Is 53.8 (“Foi
cortado da terra dos viventes”), a maneira do cumprimento terreno ainda está totalmente em aberto.
Nada sobre o quando, como, onde, para que e por quanto tempo – só que a ação de Deus está por
trás. De modo que, aqui, ainda não temos um ensino formal sobre a paixão como mais tarde no
círculo dos discípulos (8.31; 9.12,31; 10.33s).
Nesse tempo, jejuarão. Não o farão no sentido de uma recaída resignada na vida antiga. A boa
notícia de 1.14s não será anulada como alarme falso. A retirada do noivo não significa o
cancelamento do casamento, mas uma ação positiva do próprio Deus, mesmo que inescrutável, que
faz parte da notícia de alegria, na verdade é seu mistério. Alegria e paixão estão ligadas de maneira
ainda a ser esclarecida, de modo que o v. 20 não diminui a força do anterior, talvez reinstituindo o
jejum dos fariseus – só mudando os dias.
Entretanto, o que significa o “jejum” dos discípulos, em sentido positivo? No judaísmo o uso
inapropriado do termo era bem conhecido, o jejum como luto. Jo 16.20 serve de paralelo aqui:
“Chorareis e vos lamentareis… ficareis tristes”. Os primeiros cristãos souberam manter lado a lado as
afirmações dos v. 19 e 20. Por um lado ficaram firmes na certeza de que é tempo de salvação. Este
continuou sendo a base do conceito que tinham de si mesmos. Por outro lado, rejeitaram a tentação
rir em meio ao luto da separação do noivo. É verdade que em Corinto Paulo teve de enfrentar
algumas tentativas nesta direção. Alguns grupos ali já se sentiam satisfeitos, ricos, no alvo, espertos,
fortes e totalmente tranqüilos (1Co 4.8-10). Mas o apóstolo rasgou as ilusões da maneira mais dura
possível. E aponta para a medida de renúncia, sofrimento e insignificância que marcou a sua vida.
Carregava sempre em seu corpo o morrer do Senhor Jesus (2Co 4.10). Passava sua existência ainda
“ausente do Senhor” (2Co 5.6), ainda não estava “com Cristo” (Fp 1.23). De acordo com Ap 22.12 e
cap. 12, a igreja como um todo é comparada a uma noiva que espera, ou até a uma grávida em suas
dores, de acordo com Lc 18.1-8 a uma viúva empenhada em suas súplicas, e de acordo com Jo 14.18
a uma turma de órfãos carentes de consolo. O que quer que experimentemos de liberdade e alegria, o
que recebamos de palavras, milagres e presentes – tudo vem igualmente marcado com a cruz do
nosso Senhor.
     21     Quão pouco o v. 20 intenciona reintroduzir antigos costumes do jejum mostram os v. 21s que o
seguem de perto. O assunto continua sem emendas, mesmo que generalizando, pois a partir de agora
falta a palavra-chave “jejuar”.
Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte
da veste velha, e fica maior a rotura. As roupas eram usadas por muito tempo, às vezes por
gerações, e remendadas sempre de novo. O pano de remendo não deve ser tirado direto do tear, para
não encolher desproporcionalmente ao se molhar e aumentar o rasgo. Ele precisa ser de pano forte já
usado, que combina com o material em volta.
     22     Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres; e tanto se
perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos. Até poucos anos atrás,
garrafas de vidro e barris de madeira eram desconhecidos no Oriente. Para armazenar líquidos
usavam-se sacos de couro de ovelhas e cabras. Os buracos do pescoço e das pernas eram costurados
ou, na medida em que eram necessários como aberturas para encher ou servir, amarrados com uma
tira de couro. Que estes sacos rasgavam ou estouravam é mencionado com freqüência (Bill. I, 518).
Com as palavras do v. 21 uma mãe poderia instruir sua filha, com a frase seguinte um pai poderia
ensinar o filho a guardar vinho. Pai e mãe, em seguida, também poderiam ter generalizado: coisas
velhas e coisas novas não combinam! Querer unir as duas coisas não tem sentido e não vai dar certo.
A primeira ilustração nos lembra, assim como a inclusão de “remendo da veste velha”, que coisas
diferentes não ficam juntas. A segunda mostra, como o acréscimo “vinho novo em odres novos!”
enfatiza, que coisas iguais devem ficar juntas. Assim, a mesma idéia é gravada uma vez do lado
positivo e outra vez do negativo.
Não é recomendável destrinchar as ilustrações como um mecânico de precisão, para tentar
descobrir diversas especialidades. A duplicação serve unicamente para sublinhar a mesma coisa. O
vinho, p ex, não é símbolo do tempo messiânico, pois ainda não se trata de vinho em geral, mas de
vinho novo (ao contrário de Jeremias, Theologie, p 109). Jesus também não está ensinando a “cuidar
do que é velho” (ao contrário de Schlatter, Matthäus, p 313ss). Também não lemos como Lohmeyer
o ensino de que devemos separar o velho do novo, mas sem nos decidirmos pelo novo. Schniewind
diz corretamente que veste “velha” e odres “velhos” aqui têm um tom não neutro, mas de censura. E
a questão central é que o novo, que é melhor, é incompatível com o velho, que é ruim.
O que, então, é este “novo” sem a ilustração? Para responder esta pergunta, devemos construir
sobre a ligação estreita com a conversa sobre o jejum. Os dois casos tratam do novo grupo de
discípulos que surge por meio de Jesus, o cerne da igreja posterior e, um dia, de toda a nova
humanidade. Aprendemos um capítulo importante de eclesiologia bíblica. O que causava estranheza
nos discípulos de Jesus era que eles eram religiosos de maneira diferente do que outros grupos de
discípulos. A prova esperada de que a coisa era de Deus era a adaptação. Jesus, porém, apresentou
uma lógica oposta. O reinado de Deus, se é mesmo reinado de Deus, liberta amplamente de outras
dominações, sistemas e ordens. Nisto, é claro, ela separa o sinal da cruz de uma falta de compromisso
orgulhosa. Pelo menos nenhuma mistura da comunidade de discípulos na comunidade da sinagoga!
Não se pode e não se deve usar a plenitude como um enchimento, nem a planta nova do todo como
uma peça de reposição do antigo. Aqui não funciona o enxerto, o transplante, a simbiose. O povo de
Deus não existe para salvar a moral dos povos, perpetuar sua cultura ou melhorar o mundo. O
evangelho não se presta a programas de aperfeiçoamento do mundo, porque é radical demais. Assim,
o povo de Deus espera pelo mundo de Ap 21. Neste ele finalmente caberá. Até lá ele precisará existir
de alguma forma “nu” ou “no estrangeiro”. Sem este “jejum”, não poderá ter a sua liberdade.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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