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16 Cura da mão atrofiada no sábado e decisão de matar Jesus, Mc 3.1-6

Cura da mão atrofiada no sábado e decisão de matar Jesus, Mc 3.1-6
(Mt 12.9-14; Lc 6.6-11)

1-6 De novo, entrou Jesus na sinagoga e estava ali um homem que tinha ressequida uma das 
mãos. E estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem. 
E disse Jesus ao homem da mão ressequida: Vem para o meio! Então, lhes perguntou: É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la? Mas eles ficaram em silêncio.      Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada. Retirando-se os fariseus, conspiravam  logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida.

Em relação à tradução
     a
     De xeros, seco, magro, pode indicar algo sem seiva e força. Em 9.18 o verbo tem o sentido de
paralisação em convulsão. Aqui, uma infecção dos nervos pode prejudicado a circulação sangüínea e a
capacidade de movimento, até resultar na perda da musculatura, de modo que se formara uma mão em forma de garra.
     b
     Não era toda a multidão que observava Jesus, mas os fariseus mencionados no v. 6 e em 2.24 (cf. opr
2).
     c
     syllypeisthai dificilmente significa aqui que Jesus tinha compaixão dos fariseus e mesclou sua ira com
amor carinhoso, antes, o prefixo syl- reforça a expressão de sofrimento (WB, 1539).
     d
     symboulion didonai não deve ser traduzido aqui literalmente por “dar um conselho”, mas por “tomar
uma decisão”, de acordo com uma expressão aramaica (Klostermann).
Observações preliminares
1. A decisão de matar Jesus como ponto de chegada. O bloco de relatos 2.1–3.6 culmina em uma quinta
história de conflito, e esta tendo como sua última palavra “lhe tirariam a vida”. Isto expõe o tema de todo o
trecho: Jesus de Nazaré, que tinha proclamado a alegria de Deus em toda a Galiléia (1.14s), como alegado
transgressor da lei é merecedor da morte. Ele certamente não tinha quebrado a lei por indiferença ou
mundanismo superficial. Milhares de judeus daquela época faziam isto e nenhum era executado. No juízo dos
judeus ele agia assim a partir de uma presunção terrível. Ele afirmava, contra toda a sabedoria dos teólogos,
estar expondo o sentido original da lei, o único válido (p ex 2.25-27; 3.4; 10.6-9; 11.15-18; 12.1-12,24-27), ao
mesmo tempo em que acusava os professores da lei publicamente de estarem anulando a Palavra de Deus em
grande estilo (7.8,13). Este pensamento esses homens não podiam admitir nem por um instante, se não
quisessem condenar toda a sua espiritualidade. Assim teve início o endurecimento do coração deles contra
Jesus. Jesus, para eles, não podia ser o revelador verdadeiro, na verdade ele não podia ser, se eles não
quisessem acabar sendo servos de Satanás. Para salvar seu sistema religioso-político, Jesus tinha de retroceder,
como blasfemador. Nesta questão também a história posterior da paixão se concentra. Da violação do sábado e de transgressões menores em geral não se falará mais, a não ser da profanação do templo. Na verdade eles não discutirão mais, pelo contrário, assim como silenciam aqui no v. 4, também lá taparão as orelhas com as mãos
e gritarão: Ele blasfemou e merece a morte!
2. O processo religioso judaico. Já em 2.6 a conclusão estava bastante próxima de que os professores da lei
estavam presentes para examinar Jesus em caráter oficial. 3.22; 7.1 falam expressamente de enviados da
autoridade religiosa máxima em Jerusalém. Em 2.24 houve uma advertência formal, dentro de um
procedimento jurídico, por causa da questão do sábado. Stauffer reuniu as diretrizes judaicas com respeito a
isto (Rom, p 113-122; cf. Jesus, p 69s). Quando o advertido quebrou o sábado mais uma vez, seu crime estava
comprovado, e o processo podia ser iniciado. Para obter uma denúncia indiscutível, chegava-se ao ponto de
recomendar “testemunhas emboscadas”, que seguiam o suspeito e o atraíam para uma armadilha, com traição
e dissimulação (3.2; 12.13). Eles também assumiam a tarefa de dar voz de prisão ao ofensor apanhado e
transportá-lo para Jerusalém, onde o acusavam formalmente. Tudo isto acontecia na convicção de se estar
servindo a Deus (Jo 16.2). Ver em nosso texto simplesmente desconfiança pessoal de alguns fariseus fanáticos
significaria tirar-lhe a sua força.
     1     De novo, entrou Jesus na sinagoga, em qualquer lugar, em qualquer sábado. Somente o assunto é o
que nos arrebata aqui. Ainda ressoa em nossos ouvidos a grande palavra do “homem” de 2.27. Agora
um exemplo toma forma diante dos nossos olhos: e estava ali um homem que tinha ressequida
uma das mãos, e o sábado existia também para ele. Só que sua mão em forma de garra o marca: de
acordo com 1Rs 13.4-6 e Zc 11.17, ela é um sinal de maldição. Deficiências físicas, entre outras
coisas, tornam a pessoa inapta para a função sacerdotal. Para a era messiânica estavam prometidas a
cura e a anulação da maldição (p ex Is 33.23; 35.6). Tudo isto podia estar mexendo com as emoções
de judeus firmes na Bíblia.
     2     E estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia de sábado. Será que os fariseus
chegaram ao ponto de trazer o aleijado, assim como mais tarde arranjaram testemunhas falsas? Ou
será que só o descobriram em meio ao povo reunido e agora especulam quanto à intervenção de
Jesus? Ou será que provocam Jesus (cf. Mt 12.10)? Ou, por fim: será que o doente pediu que Jesus o
curasse? Assim o enfeita o Evangelho Nazareno do século II, talvez em vista da informação de Lucas
de que a mão em questão era a direita (6.6): “Eu era pedreiro e ganhava a vida com as minhas mãos.
Eu te peço, Jesus, que me restituas a saúde, para que eu não tenha de passar vergonha mendigando a
minha comida.” Marcos deixa tudo em aberto.
Esta passagem é uma das provas de que nem os adversários de Jesus duvidavam da sua
capacidade para curar (cf. 1.34). Parece também que Jesus, quando se tratava de curar e ajudar, não
se importava com o dia da semana. Também neste sábado eles podiam contar com sua prontidão para
ajudar. Assim, a concretização do alvo deles já lhes sorri: a fim de o acusarem. Isto porque curar era
um dos trabalhos médicos proibidos no sábado. Só perigo de vida teria servido como exceção (opr 2
a 2.23-28). Deste modo, os rabinos podiam dizer com Lc 13.14: “Seis dias há em que se deve
trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes curados e não no sábado”.
     3     E disse Jesus ao homem da mão ressequida… Dos rostos à espreita o olhar volta para esta figura
triste do homem com sua mão inútil recolhida no colo. Para Jesus, este é o argumento mais forte. Seu
amor pelo ser humano deformado é maior que a preocupação com sua própria segurança. Como em
resposta à intimidação pretendida, diante de todas as testemunhas ele estabelece sua relação com este
aleijado. O que acontece agora tem o público em vista: Vem para o meio! O ser humano no meio
das atenções! Que todos vejam seu sofrimento, mas também vejam o bem que Deus tem pronto para
os seus seres humanos, especificamente levando o sábado em consideração.
     4     Então, lhes perguntou, aqueles cujas intenções ele conhece: É lícito nos sábados fazer o bem ou
fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la? Jesus não brinca com a questão do que Deus permite ou não
permite (cf. 2.24). O que ele quer mesmo é obedecer. Sua vida poderia ser descrita como um levante
da obediência em um mundo de desobediência. Ele não revogou a lei, mas a interpretou com
autoridade (cf. Mt 5.17-20; Rm 3.31). Aqui, com uma pergunta, ele traz o sábado para a sua luz. A
pergunta ele faz de uma maneira que ela já traz em si a resposta. É óbvio que o bem sempre deve ser
feito e o mal proibido. O próprio fato de Jesus fazer esta pergunta aos judeus devotos já os acusa, no
sentido de que evidentemente o mais claro de tudo não está mais claro neles. A tal ponto as suas
consciências estão sufocadas pelo caos religioso.
Quem concentra, em si e nos outros, no sábado todas as energias em não fazer nada, até que, a não
ser o culto, tudo pára, como uma máquina pára, tem de sentir-se chocado por Jesus. Para Jesus, o
sábado é para fazer alguma coisa, naturalmente o bem. O sábado pretende ser uma festa de amor a
Deus e aos outros. O conceito farisaico de descanso atrofiara em relação ao conceito bíblico. Deus
descansou no sétimo dia, mas não por ter ficado esgotado com a criação, mas por ter “terminado no
dia sétimo a sua obra” (Gn 2.2), tê-la levado ao seu ponto culminante. Por isso ele abençoou o sétimo
dia, isto é, encheu-o de forças vitais. Santificou-o, isto é, separou-o e o transformou em uma
preciosidade. Para o ser humano este sétimo dia foi o primeiro, ou seja, foi um presente em
adiantado, do Criador para o ser humano. Ele não precisou começar trabalhando, para merecer o dia
de descanso, mas primeiro festejou, às custas de Deus. Por isso o essencial do descanso objetivado
por Deus não consiste em estar livre do fazer, mas em estar livre do fazer sob a pressão da
produtividade. Essencial é ser presenteado e presentear, em vista da alegria, da liberdade e da paz.
Quem está preocupado só em não fazer nada no dia de descanso, é culpado de se parar de fazer o
bem. Contudo, onde se pára de fazer o bem não surge um espaço sem ação, mas o mal entra
desfilando (Tg 4.17). Este “mal” não é limitado à esfera moral, mas deve ser entendido como
demoníaco. O mal fere os religiosos com tédio mortal, com melancolia e solidão.
A melhor maneira de entender o contraste “salvar a vida – tirar a vida” é fazê-lo de modo bem
concreto. “Salvar”, na Bíblia, muitas vezes é sinônimo de “curar”. Assim, a intenção de Jesus de
curar defronta a intenção dos fariseus de matar (v. 6!). Isto levanta a acusação mais grave possível
contra eles. O sábado deles não tem mais poder para curar, só para matar. Jesus tenciona fazer dele
de novo um dia de salvação, em que se pode experimentar Deus e ver seu bom reinado.
Mas eles ficaram em silêncio. Não há debate, mas há resposta. O tempo imperfeito do verbo
desenha um movimento. Primeiro eles não conseguem abrir a boca, depois não querem e, por fim,
eles a mantém fechada com raiva. De acordo com o v. 5, trata-se de um processo de endurecimento.
Eles se recusam a refletir sobre a palavra de Jesus, e se aferram com cada vez mais teimosia à sua
não-ação. A propósito, o ideal rabínico era não refletir sobre certas coisas. “Não tens autorização
para refletir sobre isto”, diz um ditado rabínico sobre a Torá (em Rang, Handbuch für den biblischen
Unterricht, Berlim 1939, p 163). Naturalmente isto subentende em parte uma reverência
incondicional diante do senhorio de Deus. Ele determinou, e isto basta. Ao mesmo tempo, porém,
esta atitude subtrai ao senhorio de Deus o uso disposto e profundo da razão e a disposição de ouvir da
consciência. A letra é declarada autoridade inquestionável, e isto serve de esconderijo quando
atitudes anti-humanas e, assim, também anti-divinas se imiscuem na religiosidade. Recuar para a
obediência pura à letra denuncia a carência de amor e de Deus. Esta conseqüência é palpável em
nosso parágrafo. Os fariseus podem promover uma caçada ao salvador de vidas, no sábado, em honra
a Deus. Religiosidade acima do bem e do mal!
     5     Olhando-os ao redor – Jesus encara este endurecimento coletivo com sua unanimidade satânica (cf.
Ap 17.14), indignado. Ele é tomado de comoção espiritual. Sua ira sempre indica a presença do
satânico (1.43; 8.33). Sitiado de tal escuridão, Jesus fica profundamente condoído, como no
Getsêmani (14.34; cf. o grito da paixão em 9.19). A expressão com a dureza do seu coração, que
aparece ainda em 10.5, deve ser entendida como em Dt 29.18. Ela tem a apostasia de Israel em vista.
Outros manuscritos têm a palavra perosis ou nekrosis em vez de porosis. Isto coloca lado a lado três
condições terríveis: endurecimento, cegueira e morte.
Em meio a este mundo de morte ressoa uma palavra de vida. Ele disse ao homem: Estende a
mão. Estendeu-a – o membro crispado relaxou-se. O que estava imóvel se moveu. Sangue e vida
tinham fluído nele. Antepondo o verbo na frase seguinte, o resultado é um grito de júbilo: e a mão
lhe foi restaurada. Este termo raro, para Marcos com certeza tem uma importância que excede o
sentido médico da cura (ainda em 8.25; 9.12). Seu sentido político é restaurar um reino, o
cosmológico é renovar o mundo, o messiânico é que, depois do caos em que o adversário lançou a
criação antiga, surge uma nova criação (cf. Ml 3.24; At 3.21). Desta forma, percebemos aqui além da
benfeitoria física em um indivíduo um sopro da perfeição futura. Aquele sábado tornou-se o que um
sábado deve ser, um antegozo do mundo curado.
     6     Os acusadores, porém, só pensam em reunir material para sua acusação. Retirando-se os fariseus,
conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida. “Logo” –
novamente esta indicação de um evento que irrompe de fora. Esta era a maneira deles de “santificar”
o sábado. Sua “dedicação” a Deus deixou-os totalmente “por fora”: “Retiraram-se”. Lá dentro
ficaram Jesus e, à sua volta, os aspirantes ao novo povo de Deus (cf. 3.31).
Os fariseus de repente se entendem com os herodianos (cf. 12.13). Este termo não designa um
partido judaico formal, mas adeptos em geral da dinastia real herodiana e, assim, uma linha política,
cujo fundamento era a amizade judaico-romana. Desta forma, os herodianos eram tudo menos aliados
naturais dos fariseus, que suplicavam diariamente pela destruição de Roma e juravam vingança.
Todavia, assim como os judeus mais tarde precisaram de Pilatos para poder processar Jesus,
precisaram aqui de Herodes e do seu pessoal para poder prender e neutralizar Jesus.
Pode-se ver o paralelo entre Jesus e seu precursor, João Batista. Ambos gozam a princípio de uma
discrição benevolente de Herodes, que lhe permite uma atuação abrangente em seus domínios. Ao
mesmo tempo há o paralelo entre Herodes e Pilatos. Este também já conhecia Jesus há algum tempo
e chegou a defendê-lo até que a pressão o fez passar para o lado dos perseguidores. Em volta de
Jesus, como antes de João Batista, surgira um movimento tal que os representantes da ordem política
e religiosa viram nele um perigo que tinha de ser sufocado.
Com isto voltamos ao mistério da morte de Jesus. Por trazer liberdade e vida, ele tinha de morrer.
Morrendo, ele realizou sua missão.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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