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17 O recuo para o mar e o segredo perante a multidão, Mc 3.7-12

O recuo para o mar e o segredo perante a multidão, Mc 3.7-12 
(Mt 4.24,25; 12.15,16; Lc 6.17-19)

7-12 Retirou-se Jesus com os seus discípulos para os lados do mar. Seguia-o da Galiléia uma grande multidão. Também da Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, dalém do Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidom uma grande multidão, sabendo quantas coisas Jesus fazia, veio ter com ele.      Então, recomendou a seus discípulos que sempre lhe tivessem pronto um barquinho, por causa da multidão, a fim de não o comprimirem. Pois curava a muitos, de modo que todos os que padeciam de qualquer enfermidade se arrojavam a ele para o tocar. Também os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e exclamavam: Tu és o Filho de Deus! Mas Jesus lhes advertia severamente que o não expusessem à publicidade.

Em relação à tradução
     a
     “para os lados do mar” poderia ter o sentido de “para o leste”. Neste caso, Jesus teria-se desviado para
o litoral do mar Mediterrâneo, como em 7.24 (assim WB 126; Jeremias, ABBA, p 245). Marcos, porém, a
julgar pelo contexto imediato do cap. 4, certamente não pensou neste sentido, mas no lago de Genesaré,
como já em 1.16; 2.13 (para “mar”, cf. 1.16n).
     b
     Aqui temos o diminutivo de ploion, ploiarion, “barquinho”, “navio pequeno”. Contudo, nós também
não pensamos necessariamente em uma criança quando dizemos “menina”; o diminutivo original desaparece
do consciente. Este deve ser o caso aqui, pois em 4.1,36,37 e em outras passagens é sempre ploion. Marcos às vezes tende aos diminutivos (qi 4).
Observação preliminar
O caráter do relato de resumo. Quem recorda o conteúdo da nova divisão principal até o cap 6, encontra
neste preâmbulo uma abundância de termos e características que lembram as histórias subseqüentes. Apesar
destes vínculos, porém, um olhar atento perceberá que curas e expulsão de demônios não são mencionados,
somente detalhes relacionados. Por isso títulos como “curas e exorcismos à beira do lago” não condizem com os fatos. As frases paralelas “a fim de não” no fim do v. 9 (para as curas) e “que não” no fim do v. 12 (para os exorcismos) formam o ponto culminante do respectivo pensamento e refletem uma polêmica sobre a pessoa de Jesus. Jesus se distancia de conceitos aplicados à sua pessoa. Desta forma, este relato de resumo (para a expressão, cf. opr 1 a 1.14,15) se mostra interessado na cristologia, destarte servindo de chave para a divisão principal que inicia.
     7     Retirou-se Jesus com os seus discípulos para os lados do mar. O rompimento com a sinagoga fora
completo, a perseguição pelas autoridades estava em andamento. Mas isto não forçava Jesus a fugir
logo do país, ele podia continuar sua atuação entre o povo em volta do lago. Por um lado havia ali
espaço para aglomerações maiores, o que também o protegia de ser apanhado (cf. 2.13; mais tarde o
povo serviu de escudo para Jesus em 11.18,32; 12.12; 14.2). Por outro lado, o lago permitia um
translado rápido e desimpedido para outros países. Na margem ocidental estava a Galiléia, na
margem nordeste a região de Filipe e na margem sudeste a Decápolis (5.1,20). O fato de os
discípulos aparecerem logo no primeiro bloco de narrativas é significativo. A partir de agora eles
passam sempre para primeiro plano.
Seguia-o da Galiléia uma grande multidão. Como esta multidão é diferenciada dos seguidores
de Jesus, dos discípulos, este “seguir” aqui não tem o sentido pleno (cf. 5.24). “Eis aí vai o mundo
após ele”, dizem mais tarde os professores da lei, com o mesmo sentido (Jo 12.19), com a diferença
de que aqui falta o toque de raiva e desprezo. Marcos conclui desta afluência de toda a Palestina a
verdade e o poder de Jesus. É como se ele pintasse um quadro, emoldurando a relação das sete
regiões de origem com a exclamação: “uma grande multidão!” (v. 7 e 8).
Os primeiros cristãos conheciam muito bem a condição de minoria, mas nunca gostaram dela nem
se conformaram com ela. Impedia-os sua confissão de Jesus como o senhor de todos, para cuja
glorificação conflui a história geral. Por isso registraram os grandes números que cercaram Jesus (p
ex os 3.000 e 5.000 em At 2.41 e 4.4), que são normais, comparados com o que deve ser e um dia
será. Não é uma pequena seita que está surgindo, mas uma criação restaurada.
     7,8     A lista de regiões começa com o centro da atuação de Jesus, a Galiléia. Só a partir dali era possível
“segui-lo”. Os outros “vinham ter com ele”, de ouvir falar dele. Primeiro menciona-se a Judéia com
Jerusalém, a cidade messiânica. Depois faz-se um círculo em torno da região habitada por judeus, a
começar do sul, passando para o leste para além do Jordão e terminando no noroeste, na costa do mar
Mediterrâneo: Também da Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, dalém do Jordão e dos arredores
de Tiro e de Sidom uma grande multidão. Não deveríamos perguntar a razão de não se mencionar
Samaria e a Decápolis. A intenção é o grande círculo, a impressão geral. Não passa de falta de
sensibilidade dizer, com base em passagens como esta, que o autor não faz nenhuma idéia da
geografia da Palestina (contra Wrede, p 129; Schreiber, p 160 Tc).
O que atraía os sofredores em tão grande número era o eco das ações de Jesus em toda a Palestina:
sabendo quantas coisas Jesus fazia, veio ter com ele. 1.5,45 já descrevera o novo êxodo, como
estava prometido para o tempo do fim, mas os dados aqui são um ponto culminante em Marcos, por
seu conteúdo e riqueza de detalhes. Não está dito se os que acorriam das regiões pagãs eram pagãos
ou judeus lá residentes. Mas a simples menção dos nomes das regiões pagãs lembra de promessas
como Is 49.6: “Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os
remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à
extremidade da terra”. A primeira manifestação de Jesus na terra dos pagãos, em 5.1-20, confirma
esta perspectiva. Coisas grandiosas são iminentes. A afluência das multidões para este Jesus
destinado à morte anuncia profeticamente a reunião de judeus e pagãos no povo de Deus, exatamente
sob a palavra da cruz. Neste ponto inicia-se a próxima perícope (“perícope” significa “o que foi
cortado em volta”), que trata da fundação do Israel renovado, através da instituição dos doze como os
novos patriarcas.
     9     Então, recomendou a seus discípulos que sempre lhe tivessem pronto um barquinho, por causa
da multidão, a fim de não o comprimirem. É claro que ele não exige um barco para poder
atravessar todo o lago. Em primeiro lugar isto não seria necessário para escapar ao aperto e, em
segundo lugar, ele não o faz. Na verdade ele nem se distancia da multidão, só da opinião que ela tem
do seu ministério.
     10     Com um “pois” Marcos traz novamente um esclarecimento posterior (como já em 1.16,22,38;
2.15): Pois curava a muitos, de modo que todos os que padeciam de qualquer enfermidade se
arrojavam a ele para o tocar. Eles não só o apertavam de todos os lados, mas até de cima se
arremessavam sobre ele, para tocá-lo de algum modo e experimentar seus poderes milagrosos. Como
um enxame de abelhas eles o envolvem, de modo que ele mal conseguia espreitar sob o peso. Este
anseio descontrolado por cura, principalmente ou exclusivamente por cura, Jesus corrige com sua
atitude (cf. 1.37s; Jo 6.26). Ele não quer ser somente um curandeiro e, por isso, cria espaço para a
proclamação do reinado de Deus que se aproximou (4.1s). Ele não é só um profeta que faz milagres
(6.15; 8.28), mas o mensageiro das boas novas de que falou Isaías e é também – misteriosamente – a
própria boa notícia (1.14s).
     11     Também os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e exclamavam: Tu
és o Filho de Deus! Esta confissão coincidia palavra por palavra com a da voz do céu e dos
discípulos (1.11; 8.29). Portanto, ela é condizente e sobrepuja a opinião popular. A natureza
espiritual dos demônios é mais perspicaz que a razão humana. Ela capta a identidade verdadeira de
Jesus (sobre prostrar-se, cf. 5.6s). Apesar disto, Jesus se distancia também neste caso:
     12     Mas Jesus lhes advertia severamente que o não expusessem à publicidade. O sentido desta
ordem tem sua melhor explicação na ordem explícita de silêncio dada aos discípulos em uma
situação semelhante em 9.9: até a morte e a ressurreição, nenhuma palavra sobre Jesus como Filho!
No âmbito da mensagem da cruz a confissão do Filho de Deus pode acontecer (15.39). Assim, faz
parte do conhecimento pleno de Jesus a noção de todo o seu caminho e missão, até o fim. Percepções
parciais sem o todo só levam a distorções. Por isso o Senhor força o silêncio dos demônios, para
garantir a revelação completa e pura (sobre a ordem de silêncio cf. também 1.33,44; 8.30).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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