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18 A instituição dos doze, Mc 3.13-19

A instituição dos doze, Mc 3.13-19
(Mt 10.1-4; Lc 6.12-16; cf. At 1.13)

13-19 Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele.      Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios. Eis os doze que designou: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro;      Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer: filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu. 

Observações preliminares
1. Forma do texto. Um raro espécime original! Como uma cadeia de montanhas escarpadas ele já se
projetara no presente do evangelista que escrevia, um contraste completo com um texto suave, construído na
escrivaninha. Uma tradução bem literal permite ao leitor de hoje ter a mesma impressão desajeitada que
tiveram Mateus, Lucas e os copistas antigos. Estes tentaram arredondar todos os cantos. Um completa no v. 14
que Jesus nomeara doze “discípulos”, outros que ele os chamou de “apóstolos”, ainda outros que os enviados
deveriam proclamar o “evangelho”. Para alguns copistas, faltava no v. 15 que os discípulos também curavam
enfermos, e no começo do v. 16 a repetição “eis os doze que designou”. Em lugar disto, em alguns o versículo
começa com “primeiro Pedro”. De fato, falta seu chamado. O “nome” dos filhos de Zebedeu torna-se
“nomes”, já que são duas pessoas. Enigmas específicos são levantados pelas quatro listas dos doze no NT. É
evidente que seguiam uma ordem básica comum. Pedro sempre é o primeiro e Judas o último, e entre os dois
também há poucas mudanças. Mas nos detalhes nenhuma coincide com outra. Isto espelha o fato de que os
nomes das primeiras testemunhas, antes de serem registrados pelos evangelistas, tinham sido levados para
muitos países pelos missionários. Orelhas estrangeiras tiveram de assimilar estes sons judaicos em parte nada
costumeiros, bocas estrangeiras tinham se repeti-los com esforço. Isto causou distorções (“Boanerges” foi
anotado de quatro maneiras diferentes). Letras são suavizadas, trocas se inserem (Tadeu em muitos
manuscritos é Lebeu). Melhorias queriam eliminar obscuridades e as pioraram. Nomes de pais são tidos por
nomes próprios (“Bartolomeu” quer dizer “filho de Talmai”). Nas diferentes províncias firmaram-se várias
formas da lista. Levando-se em conta estes “sinais de envelhecimento”, aumenta considerávelmente a
reverência pelas listas dos doze.
2. Contexto. O bloco de narrativas de 2.1–3.6 mostrara como Jesus estava destinado à morte desde o início
da sua missão. Marcos conhece tampouco como Paulo outro Jesus que o crucificado (1Co 2.2). Este mistério
causa sempre de novo dificuldades para as pessoas que se aglomeram à volta de Jesus. Isto o preâmbulo do
novo bloco de narrativas fixou em termos programáticos. As frases “a fim de não” e “que não” dos v. 9 e 12
expressaram esta idéia: por duas razões o Senhor teve de distanciar-se, de uma comunhão falsa e de um
testemunho falso. Em comparação com isto, na história que se segue, duas frases positivas com “para”
chamam a atenção. A primeira, em 14a, mostra a comunhão desejada e criada por Jesus, na qual sua
identidade como crucificado pode ser experimentada. A segunda, em 14b, anuncia a pregação da sua pessoa
autorizada por ele. Para as duas coisas ele escolhe os doze como cerne do verdadeiro povo messiânico.
3. Linguagem subentendida. Se cortarmos esta perícope do seu contexto, ela esvai-se imediatamente. Por si
só, limitada às suas palavras, ela não contém nada teológico. Falta o nome “Jesus”, bem como todo título de
majestade, também “Deus” e “evangelho”. Falta também o conceito de apóstolo, para nós tão próximo. Na
época da redação do evangelho ele já era bem habitual, como provam as 30 menções por Paulo e quase 40 em
Lucas. Numerosos manuscritos o inseriram no v. 14: “os quais também chamou de apóstolos”. O grego
erudito desta expressão trai o empréstimo literal de Lc 6.13. “Apóstolo” como designação de um cargo
permanente só surgiu entre os primeiros cristãos. Mateus, Marcos e João nem adotam o termo para seus
escritos anteriores à Páscoa, o que testifica da sua fidelidade às fontes (para o uso funcional cf. 6.30). Neles
trata-se mais de 30 vezes simplesmente dos “doze”. Claramente esta é a designação antiga dos apóstolos;
Paulo só a usa mais uma vez na confissão antiga de 1Co 15.3-5.
Apesar desta linguagem à primeira vista não teológica, nosso relato está carregado de teologia como
nenhum outro, só que tudo em linguagem oculta. Aqui aparecem termos como “subir”, “o monte”, “chamar”,
“querer”, “designar”, “estar com ele”, “dar o nome”, “doze”, “trair”. Eles podem trazer mais do que só
informações históricas. Na explanação temos de indagar seu sentido espiritual.
     13     Depois, subiu ao monte. Quem está seguindo o desenvolvimento histórico, pode muito bem
traduzir: “para as montanhas, a região montanhosa”. É que um monte isolado não existe ali, porém as
margens norte e leste do lago são cercadas por um planalto desértico (cf. 5.5; 6.46). Para lá Jesus se
dirigiu com seu séquito considerável. Se ele tivesse ido sozinho para o deserto, certamente isto seria
mencionado (cf. 4.10,34,36; 6.31s; 9.28,33). Marcos diferencia com exatidão nesta questão.
Ao mesmo tempo, temos razões de tomar a expressão “ao monte” por seu valor ideal. Também em
6.46 e 9.2,9 Marcos fala em termos abstratos do “monte” que Jesus sobe. Nestas ocasiões a geografia
claramente desvanece e exemplos do AT aparecem. Ali, 19 vezes subir a montanha eqüivale a
aproximar-se de Deus e a Deus encontrar-se com seus servos (Stock, p 9). Nestas passagens a relação
é com a revelação do Sinai e a formação do povo de Israel: Êx 19.3,12,13; 24.1s,12,18; 34.2,4; Dt
5.5; 9.9; 10.1,3. Não há muito como negar as ligações entre aqueles textos e o nosso (Schmauch, p
80ss), que ainda aumentarão.
E chamou os que ele mesmo quis. Em oito ocasiões entre nove, Jesus é quem chama (3.13,23;
6.7; 7.14; 8.1,34; 10.42; 12.43). Em cada vez ele é totalmente Senhor, e os que ele chama estão a seu
serviço. Sua vontade soberana é sublinhada aqui ainda mais por “ele mesmo quis”. Lembramos de Jo
15.16: Não fostes vós que me esconhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros”. Já em
relação a 1.16-20 ouvimos que os rabinos daquela época conseguiam alunos quando jovens tomavam
a decisão de matricular-se com eles. Em 5.19 Jesus recusa uma solicitação como esta. Ele chama a si
os que ele quer. Seu chamado vem da última instância, a divina (cf. 1.40s). Deus quer porque quer.
Ele é bondoso com quem ele quer ser bondoso. Isto nos leva de novo à revelação de Deus na época
de Moisés (Êx 33.19). Com isto não queremos perder de vista o mundo de amor que há nesta escolha
soberana. Certamente se trata de um amor que toma posse, mas um amor tão autêntico que não
reprograma o jovem rico em 10.21s à força, antes este pode recusar-se-lhe e ele o deixa ir embora.
E vieram para junto dele. Não mecanicamente, como marionetes, eles passaram para o lado
dele, mas deram passos próprios na direção dele, preenchidos e iluminados por seu chamado. Todas
as tensões soltaram-se. O sangue fluiu, a razão recobrou o juízo, a vontade pôde querer, e eles foram.
Nunca tinham sido tão plenamente humanos, agora que Deus lhes gra plenamente Deus.
     14     Então, designou doze. Nós sabemos o que é ser nomeado ministro ou porteiro. Assim também na
Bíblia alguém é “constituído” sacerdote (1Rs 12.31), carregador ou capataz (2Cr 2.18). Lucas usa
palavras mais escolhidas em seu texto paralelo: chamar, escolher. Em nosso título falamos de
“instituir”. A Bíblia fala em “fazer”, a mesma linguagem da criação, como em 1Sm 12.6; Mc 1.17;
At 2.36; Hb 3.2; Ap 1.6; 3.12; 5.10 e expressamente Is 43.1; 44.2 com relação ao povo de Israel.
Assim como Deus “fez” o céu e a terra no princípio, seu poder quer agir mais uma vez de modo
criativo no fim dos tempos. Este é o contexto aqui.
Portanto, Jesus conta até doze e então basta. No exato momento em que um número tão grande de
adeptos estava à sua disposição (v. 7s), ele limita. Como isto combina com o desejo universal de
Deus de salvar? A Bíblia não começa com a criação do universo e não objetiva um novo céu e uma
nova terra? Não temos um Deus que quer o todo e aposta tudo? Sim, mas quando há bloqueios como
aqui (3.6), Deus anda caminhos estreitos de tirar o fôlego, na verdade caminhos novos para todos,
desde Gn 12.1 até Mc 1.11. Por trás dos doze, nos quais ele quer se concentrar de maneira especial a
partir de agora, estão os 120 de At 1.15, os 3.000 de At 2.41 e os 5.000 de At 4.4, a multidão, para
nós incontável, dos 144.000 de Ap 7.4,9 e, por fim, os povos abençoados na nova terra de Ap
21.3,26. Os doze, portanto, são o cerne de um Israel restaurado e de uma raça humana renovada. Por
isso, este estreitamento não significa exclusão, nem por um segundo.
A relação do grupo dos doze com Israel, o povo das doze tribos, era tão evidente e óbvia, que
Marcos menciona os doze em seu livro dez vezes sem qualquer explicação. Mateus e Lucas têm uma
palavra específica sobre isto (Mt 19.28; Lc 22.29s). É verdade que o Israel atual diminuíra para duas
tribos. Do paradeiro das demais dez tribos não se sabia nada (Bill. IV, 906). Quem falava de doze
tribos, referia-se ou ao passado ou ao futuro. Palavras proféticas antigas como Is 11.11,16; 27.12s;
35.10; 49.22; 60.4,9; 66.20 alimentavam a esperança da restauração nos últimos dias, e nas sinagogas
o povo não se cansava de implorar diariamente pelo cumprimento, por um Israel completo, sem
lacunas, como milagre de Deus. Ao criar manifestamente os doze e levá-los consigo como os novos
patriarcas para todo lugar, Jesus apresentou seu programa em uma lição objetiva profética: a resposta
às orações raiou, todo o Israel será restaurado, e Jesus é o centro da restauração. Pois onde se lançam
alicerces, pode-se contar com a construção. O “como” não é tratado aqui. Em outras passagens, o NT
ensina o mistério de um Israel que vem de todos os povos, por meio do evangelho. Os pagãos, na
medida em que crêem, são “circuncidados” (Rm 2.29; Cl 2.11) e “incorporados” em Israel (Ef 3.6)
ou “enxertados” (Rm 11.17). “E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.26).
Sob a forma de duas frases com “para quê” segue a finalidade dupla da vocação dos doze. A opr 2
propôs que se vissem estes dois “para quê” contra o fundo das frases “a fim de não” e “que não” dos
v. 9 e 12. A primeira finalidade é material importante exclusivo de Marcos: para estarem com ele.
Enquanto Jesus estabelece uma distância entre ele e a aglomeração sedenta de milagres dos v. 9s,
temos aqui os escolhidos cuja proximidade ele deseja. Este estar-com-ele ultrapassa o vínculo
espiritual com Jesus e significa participação concreta no grupo itinerante (cf. 5.18; 14.67) ou na
grande família de Jesus (cf. 3.34). Eles serão seus discípulos não só pela instrução intelectual, mas
também pela convivência.
Contudo, seria um equívoco falar de uma vida comunitária com Jesus. Os nomes dados nos v. 16s
indicam isto. Mudar o nome, reprogramando o sentido da vida, não é um ato comunitário, mas o uso
do direito paterno e divino (ThHWAT II, 962). Isto nos coloca nos trilhos. Jesus é “Deus conosco”
(Mt 1.23) e a comunhão com ele é comunhão com Deus Pai. Realiza-se um pedaço do paraíso
escatológico de Ap 21.3: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles
serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.” Esta inundação futura de reconciliação e
afirmação já é saboreada e vista em volta de Jesus. Ele próprio goza de comunhão paradisíaca (1.13),
razão pela qual pode transmiti-la.
Mas este estar-com-ele não está ligado somente à idéia do paraíso, mas também do testemunho.
Quem quer ser testemunha, precisa ter estado lá. Por esta razão Jo 15.27 argumenta: “Vós também
testemunhareis, porque estais comigo desde o princípio”. O acompanhamento contínuo de Jesus os
faria conhecer a sua identidade, para poder testemunhá-la depois de modo válido. E agora importa
tomar conhecimento do interesse teológico na paixão do nosso parágrafo (opr 2). Jesus está agindo
como condenado à morte, tendo em vista que sua identidade deve ser revelada acima de tudo em seu
sofrimento (15.39). Por isso os doze devem acompanhá-lo especialmente no sofrimento (14.33,37),
por mais que fracassem no meio dele. Não é em vão que nosso trecho encerra visualizando a traição
de Jesus (v. 19).
Assim, a vocação principal dos doze consistiu em expor-se como testemunhas originais
autorizadas a Jesus e sua salvação, deixar Jesus ser Jesus. Paulo desenvolveu mais tarde este estar-com-ele em toda uma seqüência de verbos seguidos de “com”: sofrer com ele, ser crucificado com
ele, morrer com ele, ser sepultado com ele, ressuscitar com ele, viver com ele, ser moldado com ele,
reinar com ele, ser glorificado com ele.
Infelizmente mais tarde, e até hoje, no quadro dos apóstolos este elemento primeiro e básico
retrocedeu, sobrando todo o peso sobre o seu envio, seu serviço de pregação. Este segundo elemento
também tem seu lugar, mesmo que a princípio só como declaração de objetivo. O estar-com-ele não
desemboca em um idílio particular. Forçosamente a função de acompanhar resulta na de testemunhar,
o ser chamado no ser enviado: para os enviar a pregar. Em contraste com os espíritos de 3.12, que
Jesus silenciou, estes homens são por ele ordenados (instituídos) para o ministério da proclamação.
Como, porém, sua pregação pressupunha a experiência da identidade dele exatamente no sofrimento,
seu ministério pleno só começou depois da Sexta-feira da Paixão e da Páscoa (sobre o envio limitado
no tempo e no espaço, cf. 6.7). O conteúdo da sua pregação (keryssein) não precisa ser detalhado
aqui, já que os doze são um elo da corrente de proclamação que vai de João Batista (1.4,7), passando
por Jesus (1.14,38,39) e por eles até toda a igreja (13.10; 14.9). A boa nova é sempre a mesma: o
reinado de Deus vem, convertam-se! (1.4,14s; 6.12).
     15     Se o ministério deles é um prolongamento da atuação de Jesus, eles atrairão também a mesma luta
sobre si. Para tanto precisam ser equipados: e a exercer a autoridade de expelir demônios. Neste
contexto, Marcos não diz nada sobre curar. Aventamos sua intenção principal nas opr 3 e 4 a 1.21-28.
Ele coloca no centro que a boa nova precisa ser ladeada pela palavra de luta, já que o reinado de
Deus que se aproxima em nosso mundo também chama sempre as forças destrutivas à cena. De
acordo com o parágrafo seguinte, a vinda de Deus eqüivale à ocupação de uma casa com a expulsão
dos donos antigos, que não se conformam com isto. De modo que os discípulos estão envolvidos em
luta renhida que, porém, podem enfrentar a partir da esfera de influência e poder de Jesus (cf. 6.7).
     16     Eis os doze que designou. O artigo definido aponta de volta para o começo do v. 14. Marcos volta
para lá, não para mostrar, como lá, o que os membros do grupo de doze são, mas quem eles são.
Dados pessoais são importantes para testemunhas. Sobre os “sinais de envelhecimento” da lista, cf.
opr 1.
Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro. Trata-se aqui somente de um segundo nome, não
de uma mudança de nome, e o Senhor continuou chamando este discípulo de Simão (p ex 14.37). Um
segundo nome era comum no judaísmo, até indispensável devido à difusão ampla de nomes da moda.
Em cada povoado havia vários meninos que atendiam a nomes como Simão, Tiago ou Judas – nomes
de uma família famosa de combatentes pela liberdade do século II a.C. Só o NT já conhece dez
pessoas diferentes com o nome Simão: o leproso, o zelote, o mago, de Cirene, filho de João etc.
Detalhes os mais diversos serviam à identificação. De fato, também aqueles dos doze que na lista têm
um xará recebem um segundo nome.
Com esta explicação externa, porém, não chegamos à intenção da lista. Pedro já tinha um segundo
nome, “filho de João”, que Jesus usa em Jo 21.15ss. Se Jesus mesmo assim lhe agregou o nome
“Pedro” (em aramaico Cefas, p ex 1Co 15.5; em português “rocha”, Mt 16.18), estava abençoando-o
com um programa de vida novo, divino (cf. v. 14). Não se trata de um apelido, que usa uma
observação psicológica. Pela psiquê, Simão era antes um homem de areia que uma rocha. O Senhor,
porém, declarou este que foi o primeiro discípulo a ser chamado como a primeira pedra de uma
construção que Deus faria. Abraão também pôde ser chamado de “rocha” (Is 51.1).
Da mesma forma os dois filhos de Zebedeu são identificados por sua natureza ao receberem o
segundo nome “filhos do trovão” (segundo o sentido semita de “filho”: “trovões”). Antes, deve-se
pensar na tarefa pública para a qual foram escolhidos. Foi-lhes previsto um testemunho poderoso,
eles seriam “vozes de Deus” (com Schlatter, Schweizer). Tempestades, em algumas oca-siões,
servem de figura da voz de Deus (Êx 20.18; Jó 37.2ss; Jo 12.29; Ap 4.5).
     17-19     Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer
dizer: filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu,
Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu. Como Jesus aproximou os que chamou a
si também uns dos outros, podemos contemplar a formação do grupo. Este chamado reuniu homens
muito diversos. Ao lado de portadores de nomes judaicos conservadores encontramos portadores de
nomes gregos modernos. Na pessoa de Judas, um homem da Judéia é acrescentado aos galileus (cf.
1.14). Mateus, João e Tiago eram considerados abastados, mas os outros discípulos foram
desprezados mais tarde por causa da sua condição social inferior. O contraste mais extremo, todavia,
era entre os cobradores de impostos (Mateus!), que zombavam de todos os sentimentos de povo e
moral, e os zelotes patriotas (Simão o cananeu, ou zelote; cf. opr 3 a 12.13-17). Criar um grupo como
este era um risco incrível. Mas em Cristo não há nem galileu nem judeiano, nem conservador nem
progressista, nem pescador nem cobrador nem zelote. Foi feito algo novo!
Por fim, Jesus chamou também aquele que lhe preparou o sofrimento mais profundo, Judas
Iscariotes, que foi quem o traiu. Por menos prolixa que seja esta descrição, mais indelével ela é (cf.
1.14). De 22 menções deste homem, em 20 ele é indicado de modo mais ou menos direto como
“aquele que o entregou”. O que uma cicatriz grande e vermelha faz com um rosto, este ato fez com
Judas. Judas o traidor e o Filho do homem traído – este é o mistério da maldade e o mistério do amor
neste grupo básico dos seguidores.
E. Hirsch atribuiu ao “que” um significado especial. A pequena frase aposta serviria para
reafirmar o que o cognome “Iscariotes” já dizia. Iscariotes, com base no hebr, significaria “falso” ou
“traidor”. Wellhausen viu no termo o latim sicarius, adaga. Como os zelotes, Judas fora um fanático,
terrorista. A frase, porém, é uma sentença subordinada simples. A melhor explicação para Iscariotes
ainda é Jo 6.71: “Judas, filho de Simão Iscariotes”. Ali, Judas provinha de Hazor em Judá, que nos
tempos antigos se chamava Queriote (Js 15.25; Bill. I, 537). Iscariotes, então, teria o sentido hebr de
“homem de Queriote”.
Uma visão geral do papel dos doze no livro como um todo encontramos em qi 8f. Para seu papel
como modelos, 8g.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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