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19 A rejeição de Jesus por seus parentes, Mt 3.20,21

A rejeição de Jesus por seus parentes, Mc 3.20,21

20-21 Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de novo, de tal modo que nem 
podiam comerE, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam. Está fora de si

Em relação à tradução
     a
     Para esta tradução de eis oikon em vez de “para uma casa”, cf. WB 1109 e 2.1 nota a.
     b
     Não é a multidão que se vê forçada a não comer mas, conforme 6.31, Jesus e os seus discípulos.
     c
     Na linguagem semita, “comer pão” pode incluir alimentos de qualquer tipo (p ex Gn 3.19) e se refere
simplesmente a uma refeição.
     d
     Lit “os seus” (RC), referindo-se a enviados, séquito, empregados, moradores na mesma casa, mas
também os familiares mais próximos. O v. 31 facilita pensar na mãe e nos irmãos de Jesus.
     e
     A tradução, possível, “dizia-se”, faria parte das tentativas de tirar a responsabilidade de Maria e dos
irmãos de Jesus. Alguns copistas não quiseram admitir tal descrença da parte deles e acrescentaram: “Os
professores da lei saíram para prendê-lo. Eles diziam…” Ou evita-se o acréscimo dos escribas, mas os
parentes só dizem: “Ele fugiu de nós” ou: “Somos aparentados com ele”.
     f
     O sentido básico de exhistamai é uma mudança de local: alguém é tirado de si mesmo, da estrutura da
sua personalidade, e posto para fora, ele sai de si, perde o controle. Quando isto é feito pelo Espírito de Deus,
traduzimos que alguém caiu em êxtase ou foi arrebatado, mas isto não se aplica a Jesus. Ou se trata do
resultado de um susto. Isto inclui o sentido mais leve: fulano ficou perplexo (cf. 2.12; 3.21; 5.42; 6.51), mas
que aqui também não faz sentido. Os tradutores preferem a versão literal: “Ele está fora de si”. Mas, o que
significa isto hoje em dia? Na interpretação definiremos melhor o termo (cf. também opr 3).
Observações preliminares
1. Encadeamento. Colocamos os v. 20,21 debaixo de um subtítulo por razões práticas, apesar de ser
evidente que servem de introdução aos v. 31-35. Aqui os parentes partem de Nazaré, lá chegam a ele em
Cafarnaum. Aqui eles tomam o propósito de reintegrá-lo à família, lá querem integrá-lo. Mas por que Marcos
insere os v. 22-30? Evidentemente este encadeamento é um recurso bem pensado por ele. Da mesma maneira
ele insere na história da ressurreição da filha de Jairo a cura da mulher com hemorragia (5.21-43). Ele poderia
tê-la contado à parte ou deixado de fora. O relato da morte de João Batista está igualmente no meio de um
parágrafo sobre Jesus e seus apóstolos (6.6b-32). A história da figueira é interrompida pela purificação do
templo (11.12-24), a cooptação de Judas como traidor pela unção em Betânia (14.1-11) e, por fim, a negação
por Pedro pelo relato do interrogatório (14.53-72). Na maioria destes exemplos a comparação com os outros
evangelhos prova que a narrativa podia ser feita diferente. Portanto, com esta disposição do material, Marcos
tem um objetivo em vista, lançando uma luz especial com a inserção sobre a história interrompida. No caso
presente, o fracasso dos parentes poderia passar como limitação pequeno-burguesa lamentável mas
desculpável. Esta é a explicação psicológica de Dehn (p 83) para a “incapacidade do raciocínio pequeno-burguês” e de Joh. Weiss para a “limitação benevolente” das pessoas. Isto pode ser um achado, mas não está
em vista aqui. Pois, ao colocar em paralelo o juízo dos parentes (v. 21: “Porque diziam: Está fora de si”) com
o dos professores da lei (v. 30: “Porque diziam: Está possesso de um espírito imundo”), ele adverte ingênuos e
bem-intencionados de resvalar para o pecado imperdoável (v. 29). Os parentes, na sua maneira de ver, não se
colocavam contra Jesus, só queriam o melhor para ele. Mas ao se colocar contra a nova comunidade e
pretender encerrar sua atividade, eles ficaram em um contexto assustador.
2. Contexto. A polêmica em torno da pergunta sobre quem é Jesus, que acompanhamos desde 3.7,
prossegue nos juízos dos parentes e professores da lei. A rejeição dele forma novos círculos e se aprofunda.
Surgem indicações da Paixão. O fato de que o tema do novo povo de Deus é antecipado tem um sentido
profundo.
3. Sobre o juízo dos parentes no v. 21. Alguns intérpretes pensam que os parentes de Jesus o consideraram
possesso, de modo que o v. 21b diz a mesma coisa que os v. 30 ou 22 (Baumbach, p 32s; Haenchen, p 140).
Mas esta equiparação dificilmente procede. O que une a família aos professores da lei é a incredulidade, não a
inimizade. Eles queriam salvá-lo, não matá-lo. Outros intérpretes entendem o v. 21 como um diagnóstico de
doença mental ou loucura. No entendimento judaico, estas também podiam ser causadas por demônios – de
acordo com Bill. IV, 523.25, os judeus conheciam um “espírito da loucura” – mas seria uma possessão de grau
menor. Nesta interpretação, Jesus seria levado como um paciente e isolado. Mas isto não combina com o
quadro testificado da manifestação de Jesus. Ele não se apresentava como um extático ou enlouquecido; cf. a
descrição da loucura em 1Sm 21.14ss. Stauffer oferece uma variação desta interpretação (p 69). Na verdade a
família não se importava com a saúde de Jesus, mas observara a tensão política entre ele e Jerusalém e viam
com preocupação que ele não se impunha reservas nem neste estágio, antes cambaleava como um cego para os
braços dos seus inimigos. “Aí sua mãe tem a idéia desesperada de declarar Jesus inimputável, para assim
salvar a ele bem como todos os seus parentes e amigos.” Neste caso o v. 21 significa: eles começaram a
circular esta versão. Mas isto nos parece ser bastante fantasioso. A interpretação tenta mostrar o que o próprio
contexto nos indica.
     20     Então, ele foi para casa, mas não para Nazaré, e sim para o novo lar (em Cafarnaum?) que
encontrara com seus discípulos. Não obstante, a multidão afluiu de novo, como p ex em 2.2. De
acordo com o v. 34, ela ocupa todos os cantos, porém diferentemente de 2.2, desta vez não se destaca
a falta de espaço, mas de tempo: de tal modo que nem podiam comer. Ele foi exigido totalmente, e
ele os serviu sem poupar-se.
     21     O grupo dos que “estão com ele” (v. 14) fica agora em contraste gritante com o grupo dos “seus”
(cf. v. 21n), a família nova e a antiga. A família nova veio a ele em virtude do seu chamado, a antiga
vem sem ser chamada, por iniciativa própria. Saíram para o prender. Assim reluz uma palavra-
chave da Paixão (12.12; 14.1,44,46,49,51). Sem querer e sem saber, eles são um instrumento das
trevas. Um adendo típico de Marcos (cf. v. 10) explica sua intenção: Porque diziam: Está fora de
si.
O verbo exhistamai, que aqui não pode ter simplesmente seu sentido comum (cf. nota sobre
tradução), é difícil de definir nestas circunstâncias. Mateus e Lucas não ajudam, porque deixaram de
fora este pequeno trecho da tradição. Esclarecedor, porém, é o paralelo detalhado em At 26.24. O rei
Agripa fica sob o poder espiritual do discurso de Paulo a ponto de a fé germinar nele, e ele está na
iminência de tornar-se cristão. O procurador Festo só consegue evitá-lo rasgando o ar com uma
exclamação veemente. No grego ele só diz uma palavra, além do vocativo: “Deliras!” A palavra
usada, mainomai, na literatura muitas vezes tem o mesmo sentido de exhistamai. O que ela significa
no contexto? Será que Festo afirmava que Paulo estava em êxtase? Mas Paulo não espumava pela
boca nem tinha o olhar distante dos fanáticos. Sem ser rebatido, ele pode responder que está
consciente, dizendo “palavras de bom senso”. Será que Festo queria declará-lo débil mental? Isto
também é duvidoso, pois na seqüência ele lhe atesta uma erudição impressionante. Acompanhando
os tradutores, podemos descrever este “delirar” como “estás louco, maluco, doido varrido”, desde
que estas expressões fiquem claramente limitadas ao campo da religião. O que Paulo dizia era, para o
rei e seu ambiente depravado, espiritualmente tão diferente e, especialmente, tão transformador –
mundos da fé avançavam sobre mundos do pecado – que a única maneira de a desobediência se
manter era qualificando esta diferença angustiante negativamente como excesso religioso, como
desvio. Em português temos para isto o termo técnico “fanatismo”. Os fanáticos têm, no campo
religioso, alguns fusíveis queimados, de modo que palavra e vida começam a cambalear.
Voltemos ao texto de Marcos. A expressão questionada, pelo contexto, também se refere à
atividade da pregação. De acordo com os v. 34s, Jesus ensinava naquela casa absolutamente a
vontade do Deus próximo, independente de tradições rabínicas (1.21). Ele alegava ser um portador
inigualado de revelação, e exigia obediência incondicional . Seus parentes, porém, permanecem
conformes à Nazaré incrédula (6.6), ao Israel antigo e suas autoridades. “Pois nem mesmo os seus
irmãos criam nele”, lemos em Jo 7.5. Eles podiam ter feito eco à família de José: “Reinarás, com
efeito, sobre nós? Viremos a inclinar-nos perante ti em terra?” (Gn 37.8,10; cf. Zc 13.3-6; Sabedoria
5.1-5). A família antiga de Jesus não queria tornar-se família nova. Para isto fizeram uso do mesmo
mecanismo que Festo no livro de Atos: “Fanático!” Ao mesmo tempo enceta um esforço conjunto de
reconduzir o fugitivo a usos e costumes, tradição e ortodoxia. Imperiosa, ela levanta mais uma vez as
antigas autoridades.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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