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20 A transformação em diabo pelos professores da lei e a advertência de Jesus, Mc 3.22-30

A transformação em diabo pelos professores da lei e a advertência de Jesus, Mc 3.22-30 
(Mt 12.22-32; 9.34; Lc 11.14-22; 12.10)

22-30 Os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam: Ele está possesso de Belzebu. E: É 
pelo maioral dos demônios que expele os demônios. Então, convocando-os Jesus, lhes disse, por meio de parábolas: Como pode Satanás expelir a Satanás? Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode subsistir; se uma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir. Se, pois, Satanás se levantou contra si mesmo e está dividido, não pode subsistir, mas perece. Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa. Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eternoIsto, porque diziam: Está possesso de um espírito imundo.

Em relação à tradução
     a
     Na superstição é fácil aparecerem e desaparecerem expressões especiais. “Belzebu” faltava nos
escritos judaicos mais antigos, e é evidente que os copistas tentaram adivinhar o que é esta palavra pagã
obscura, transmitindo-a sob três formas diferentes. O sentido mais provável é “dono da casa”, cf. v. 27. Em
todo caso a primeira sílaba tem a ver com “Baal” – senhor, de modo que há uma diferença de grau com os
demônios comuns. No NT Belzebu sempre aparece como nome próprio de Satanás (Mt 10.25; 12.24,27; Mc 3.22; Lc 11.15,18,19).
     b
     O termo hebr “amém” tem, no AT e no culto judaico, claramente caráter de resposta e serve para
confirmar e assimilar o que foi dito: “Está confirmado e válido!” A passagem de Dt 27.15-20, com seus doze améns, serve de ilustração eloqüente. Exceto em duas passagens discutidas da literatura da época, porém, o amém inicial só se encontra na boca de Jesus, e logo 59 vezes (em Mc treze: 3.28; 8.12; 9.1,41; 10.15,29; 11.23; 12.43; 13.30; 14.9,18,25,30). Por isso a teoria de J. Jeremias é ponderável (por último: Theologie, p
43s), que aqui nos foi conservada uma marca típica da linguagem do próprio Jesus. Na verdade este amém
inicial em Jesus também pode ser entendido como um tipo de resposta. O que ele acabara de receber colmo
inspiração em seu interior, ele confirma com um amém em voz alta. Desta maneira ele reivindica dizer o que
segue como recebedor da revelação (cf. Riesner, p 378).
     c
     Este tempo futuro, “será perdoado”, deve ser traduzido, de acordo com Jeremias, Theologie, p 149, de
modo virtual, acompanhando o aramaico, de modo que temos uma possibilidade, não um anúncio geral.
Lembrando de 2.10, também poderíamos pensar no perdão “na terra” (Mt 12.32: “neste mundo”) e não só no juízo final.
     d
     aion designa, não em todas, mas em muitas passagens o tempo sem fim. Aqui a seqüência favorece
esta hipótese (o adjetivo adoniso tem no NT sempre o sentido de “eterno”). Em Sl 9.19; 103,9 na LXX a
mesma expressão está em paralelo com “para sempre”.
     e
     hamartema também pode ter o sentido de “castigo pelo pecado” (Stählin, ThWNT I, 296,5).
Observações preliminares
1. Contexto. A frase final, no v. 30, reconduz claramente à frase inicial no v. 22, dando à inserção uma
impressão fechada e bem temática. Ao lado da rejeição pelos parentes nos v. 20,21 é colocada de modo
significativo a rejeição pelos professores da lei de Jerusalém (cf. opr 1 a 3.20,21). Trata-se de fato de uma
inserção redacional, não de uma continuação simples da narrativa depois que os parentes saíram. É só olhar
com atenção para enxergar isto. A difamação de Jesus pelos escribas, sua convocação por Jesus e a resposta
dele não podem ter-se dado na mesma casa em que Jesus estava sentado com seus parentes. A informação do
v. 22 também não se refere a um caso isolado, mas à agitação repetida e continuada do pessoal de Jerusalém
entre o povo. Já antes da chegada da família de Jesus eles tinham envenenado a atmosfera. Por último, em
Marcos nada indica que os professores da lei tivessem lançado sua calúnia no rosto do Senhor e que tivesse
havido um debate direto. A peça de inserção redacional, porém, preencheu exatamente aqui uma tarefa
importante.
2. Fontes judaicas da acusação contra Jesus. A suspeita de que Jesus era feiticeiro penetrou também na
literatura extrabíblica. Stauffer escreve (Jesus, p 19): “Por volta do ano 95, o rabino Elieser ben Hyrkanos fala
em Lida das artes mágicas de Jesus. […] Na mesma época (95-110) encontramos a fórmula de maldição:
„Jesus enfeitiçou, iludiu e desviou Israel‟…” A pena para feitiçaria em Israel era de apedrejamento seguido de
enforcamento do cadáver. É verdade que Stauffer observa (p 69): “Os homens de Jerusalém não podem
prender e eliminar sem a ajuda dos senhores do país, mas seu parecer incluía a ameaça de maldição ou pena de
morte. A situação é suficientemente perigosa para Jesus, seus parentes e discípulos, para todos que quisessem
permanecer-lhe fiéis.” Os adeptos de um feiticeiro estavam sujeitos ao mesmo destino que ele (Mt 10.25). Bill.
I, 631 ainda transcreve este trecho do Talmude: “Jesus foi enforcado no dia dos preparativos para a Páscoa, e
um arauto andara à sua frente durante 40 dias (proclamando): Ele deve ser apedrejado porque exerceu a magia
e seduziu e desviou Israel (cf. Jo 7.12). Quem tiver a dizer algo a seu favor, venha e o justifique! Mas não se
achou justificativa para ele, de modo que foi enforcado no dia que antecede a Páscoa.” Stauffer suspeita que a
acusação recorrente de feitiçaria e sedução proceda de uma fórmula oficial.
     22     Os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam. Acabamos de ouvir que os parentes de
Jesus “diziam”, o que coincide com o que lemos sobre os professores da lei: “Diziam”. Certamente
estes incrementam consideravelmente o juízo negativo dos parentes, mas mesmo assim origina-se um
paralelo, naturalmente contra a vontade destes. Marcos o viu e aplicou a todos que não querem, por
preocupação, medo ou reserva, expor-se a Jesus e seu movimento, dispor-se a ficar diferentes e
novos. Eles não devem ser ingênuos, mas entender a reboque de quem eles ficaram.
É claro que este “haviam descido” difere do “seguia-o de Jerusalém” dos v. 7,8. Estes homens não
parecem ser necessitados e dispostos a ouvir. Estão ali a serviço, enviados pelo Conselho Superior
(detalhes cf. 2.6). Sua missão consiste em impossibilitar a missão de Jesus. Por isso espalham um
boato devastador contra ele. O motivo que o desencadeou, segundo os relatos paralelos em Mt 12.23
e Lc 11.14, foi a admiração da multidão por Jesus.
De acordo com o v. 30, eles rotularam Jesus como possesso em termos gerais. Aqui esta afirmação
é tornada específica de duas maneiras. Primeiro, dizem: Ele está possesso de Belzebu, de modo que,
de acordo com Mt 10.25, ele podia ser xingado diretamente com este nome. Com isto ele é destacado
abruptamente de outros casos de possessão. O possesso de 1.23 estava assentado na reunião da
sinagoga sem ser incomodado. João Batista também foi considerado possesso, sem que os judeus
tomassem providências contra ele (Mt 11.18). Jesus, porém, é difamado como dignitário satânico
inigualado. É pelo maioral dos demônios que expele os demônios. Assim distorcem tudo. A
encarnação do Deus misericordioso, que visita e redime seu povo, torna-se a encarnação do maligno.
Ele é identificado como um diabo que faz o bem, portanto, um diabo especialmente diabólico, de
quem é preciso ter um cuidado especial! Jesus veio ao nosso mundo de uma maneira que tornou esta
distorção terrível possível, até hoje. Nós seres humanos podemos fazer com ele o que queremos e,
com bastante facilidade, mentir sobre ele e amaldiçoá-lo. Nietzsche declarou que a mensagem de
Jesus é a infâmia em pessoa e o mal fundamental do Ocidente. E quem de nós, que já não lutou com
espírito e mente com Jesus, não conhece pelo menos momentaneamente um assomo de má vontade
contra este Santo de Deus! Jesus está entre nós como auxiliador e libertador – em forma de maldição
(Gl 3.13; cf. 1Co 4.13).
     23     Este “convocando-os” já anuncia a “voz de comando” de quem realmente manda (cf. 3.13).
Marcos, porém, nem deve ter os integrantes da comissão de Jerusalém especificamente em vista,
como opositores de Jesus. Segundo os paralelos em Lc 11.14s, bem como Jo 7.20; 8.48,52; 10.20,
seu veneno já penetrara no povo. Jesus respondeu a esta cegueira e endurecimento que se espalhava,
falando por meio de parábolas. Assim realizou-se uma parte do julgamento e da separação entre
povo e discípulos (cf. 4.11; 12.1).
Com duas comparações breves (v. 24,25) Jesus constrangeu seus ouvintes a pensar até o fim a
suspeição maligna. Primeiro, uma frase demonstra o contra-senso: Como pode Satanás expelir a
Satanás? Ele não acabaria consigo mesmo. Haenchen (p 146) vê aqui uma “fraqueza na
argumentação”, e Schweizer (p 47) diz que a lógica da resposta “não é totalmente convincente”.
Realmente, para confundir, Satanás poderia expulsar demônios e curar doentes, como grande
imitador de Deus que é (cf. Êx 7.11; 8.3; 2Ts 2.9; Ap 13.13). Só aparentemente ele reprime o mal ou
se finge de fraco, para ter uma vitória ainda mais espetacular a longo prazo. Neste caso, um
exorcismo de forma alguma significaria a chegada do reinado de Deus (cf. Mt 12.28; Lc 11.20).
Mesmo assim, o revide de Jesus atinge os professores da lei bem especificamente. Dos v. 28-30
podemos concluir que Jesus olhou bem no fundo da consciência destes caluniadores. Quando dizem
em 12.14: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus”,
certamente seu tom é irônico, sem deixar de conter um sentimento genuíno. As palavras e ações dele
eram típicos de Deus. A sensação de liberdade que cercava Jesus não era oculta para ninguém. Havia
uma oposição autêntica ao mal e uma ruptura com o reino de Satanás. Se esta era a situação interior
do judaísmo, o falatório de que ele fazia tudo isto por Satanás não faz nenhum sentido, só evidencia
maldade.
     24-26     Com uma resposta de três partes, construída com arte, a incoerência do boato é iluminada. As
duas primeiras partes usam como figura um reino e um lar como estrutura de domínio grande e
pequena: Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode subsistir; se uma
casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir. O reino de Satanás, portanto,
é um sistema fechado – senão ele não subsistiria. A aparência pluralista é ilusória. No fundo – apesar
de oposição ferrenha – está tudo debaixo do mesmo pano. “Têm estes um só pensamento”, conclui
João sobre esta unidade de inspiração satânica e disciplinada, em Ap 17.13. Contra Jesus ela se
revelou: Pilatos e Herodes se tornaram amigos (Lc 23.12), Herodes e Pilatos “com gentios e gente de
Israel” (At 4.27) se uniram unânimes contra o Servo Santo de Deus. Isto faz sentido. Assim, por fim,
lemos sem uso de figuras: Se, pois, Satanás se levantou contra si mesmo e está dividido, não pode
subsistir, mas perece.
     27     Se, porém, o poder de Satanás mesmo assim está balançando e se desequilibrando visivelmente,
então um estranho e mais forte deve ter vindo de fora, pois ninguém pode entrar na casa do
valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa.
Estamos diante de uma auto-revelação velada de Jesus. Chegou o “mais poderoso” de 1.7s, aquele
que traz o Espírito (Lc 11.12 tem a mesma expressão). Com a manifestação de Jesus em palavra e
ação tem início o desmantelamento das forças ocultas. Satanás não tem mais sossego. Os exorcismos
são sinais específicos da sua perda de poder (cf. opr 3 e 4 a 1.21-28), que servem de degustação do
futuro, cf. Ap 21.1: “E o mar já não existe”. Existir sem abismo, sem ameaça, sem demônios!
Também o livro da Consolação de Israel trata do Servo de Deus que saqueia o valente (Is 42.24,25;
53:12; 61.1-3).
     28     Com esta auto-revelação de Jesus chegamos a um ponto culminante. Jesus está falando sob forte
inspiração (cf. nota b). Com uma afirmação que começa com “amém”, pela terceira vez no livro
toma-se posição em relação ao perdão dos pecados. Em 1.4 os batizandos no Jordão chegaram ao seu
alcance, em 2.1-12 ele se tornou realidade em uma casa, agora ele é proclamado globalmente. É este
Jesus debaixo de maldição quem traz a revelação do Deus próximo: Em verdade vos digo que tudo
será perdoado aos filhos dos homens. Tudo ocupa aqui a posição inicial de ênfase e torna a frase
uma das palavras mais grandiosas da Bíblia. Ela, no entanto, perde o seu brilho se o v. 29, que na
prática contém um “não tudo”, não é lido junto, ficando aguada em pobreza reveladora: Deus perdoa
de qualquer jeito. Sendo amor eterno, ele nem pode diferente. É verdade que as religiões pagãs da
Antigüidade e também a Idade Média cristã o retrataram como irado e vingativo, de modo que as
pessoas da época lamentavam profundamente suas transgressões, se preocupavam e se flagelavam.
Nos novos tempos, porém, os horizontes finalmente se aclararam e Deus foi reconhecido como Pai
amoroso. A gente só precisa dizer-lhe as bobagens que fez, e ele, por sua vez, reconhece ter sido um
pouco severo demais. Assim, todos vamos para o céu. Dizem que Jesus foi um ensinador muito à
frente da sua época, apesar de se expressar em termos um pouco mitológicos. Para crianças e
ingênuos hoje em dia este também é o nível apropriado, no mais pode-se dizer a mesma coisa
também sem Jesus, de modo bem claro. Antes de respondermos, indaguemos pelo contexto. Lucas
insere a palavra num discurso sobre confessar a Cristo sem medo (12.10). Em Mateus a continuação
é diversa de Marcos. No evangelho de Tomé (44) ela está no meio de outras afirmações sem relação
entre si. Outro uso ainda faz o Didaquê (11.7, veja abaixo). Marcos, por sua vez, parece preservar o
contexto original. No v. 30 ele estabelece mais uma vez expressamente a relação com as insinuações
sobre Jesus por parte dos professores da lei. Nisto pode estar a primeira proteção contra uma
interpretação errada:
A palavra grandiosa de perdão pressupõe, em primeiro lugar, a presença do portador do Espírito
(cf. v. 27). O Espírito Santo, que agia no Israel antigo e ainda nos últimos profetas, mas depois
silenciara durante séculos (cf. 1.10), retornara na pessoa de Jesus de Nazaré. Se, porém, o tempo do
Espírito chegou, então é tempo de graça. Deus risca a culpa de Israel, e também dos outros povos, e
tudo pode ser perdoado. Nisto o perdão não é uma verdade atemporal, uma dedução possível de um
conceito filosófico de Deus, mas a intervenção do próprio Deus em nossa história de pecado.
Em segundo lugar, nosso contexto pressupõe que “o valente foi amarrado” (v. 27). Sem que ele
seja expulso e sua casa ocupada por Deus em Jesus Cristo, nem uma consciência sequer pode ser
curada. O culpado pode elaborar quantos raciocínios limpos e justos quiser, tomar propósitos os mais
radicais – neste próprio pensar e querer ele já não é livre. Só podemos fingir que somos livres. Livres
de verdade só ficamos pelo libertador, o “mais forte”.
Nosso contexto pressupõe, em terceiro lugar, que Jesus assumiu de modo crescente a figura
maldita do Servo Sofredor de Deus, fraco a ponto de ofender, indizivelmente mal-entendido, passivo
de modo repugnante. Mais adiante ele não apóia o esforço desesperado dos seus discípulos nem um
milímetro (14.47), pelo contrário, estende as suas mãos para ser algemado. Ele não desce da cruz
para que creiam nele (15.32). Ele evita aparecer de modo convincente e não intimida ninguém. Ele
morre por nossos pecados, conforme a Escritura. Para tudo isto, naturalmente, nosso texto só fornece
sinais suaves. Mas um pianíssimo também pode ser poderoso.
Sob estes pressupostos, portanto, ouvimos que Deus agora quer perdoar tudo, os pecados que as
pessoas cometem umas contra as outras, mas também as blasfêmias que proferirem contra a honra
e o poder de Deus. Não devemos deixar nada de fora. O monte mais alto da maldade é sobrepujado
pelo cume da graça (Rm 5.20b). Pelo sofrimento de Cristo, o mundo, sem colaborar e sem querer,
teve empurrado para debaixo dos pés o chão firme da reconciliação (cf. 2Co 5.19). Todo aquele que,
então e agora, recebe seu chamado, é candidato a maravilhosas novidades da parte de Deus.
     29     Segue-se um “mas” que deve ser muito bem entendido: Mas aquele que blasfemar contra o
Espírito Santo não tem perdão para sempre. No judaísmo fazia-se diferença entre três tipos de
pecados: aqueles que podiam ser perdoados neste mundo através de um sacrifício, outros que só eram
purificados no mundo futuro pelo fogo do inferno ou um gesto especial da graça de Deus e, por fim,
pecados imperdoáveis como assassinato, imoralidade e blasfêmia contra a lei de Deus (Bill. I, 636).
O terceiro ponto mostra que os professores da lei tinham a posição mais dura possível quanto à
blasfêmia. Por isso permeavam seus discursos preventivamente com o seu contrário, com doxologias.
Assim acreditavam ter colocado uma distância suficiente entre si e o pecado imperdoável. Mesmo
assim, estes homens são aqui advertidos contra o próprio. Como entender isto?
Espírito Santo – este é o próprio Deus que se voltou para nós, aproximou-se e perdoa, é o reinado
de Deus em ação (compare 1.8 com 1.15). Abre-se para nós um campo de visão e de poder
totalmente novo. O Espírito Santo carrega Deus e Cristo para o meio da nossa existência, penetra em
nosso espírito, consciência e mente como um dedo pontiagudo (Lc 11.20), cria uma possibilidade
real de querer e fazer a vontade de Deus (v. 35; cf. Fp 2.13). Depois de toda teoria e anseio, toda
abstração do além e toda hipocrisia do aquém, o Espírito Santo está presente como aquele que torna
tudo realidade. Exatamente esta situação pode tornar uma pessoa impura. Em um momento em que
poderia crer, na verdade só crer, ela faz o impossível e não crê, antes torna-se um agitador anti-cristão. Estamos tratando expressamente de palavras blasfemas que “eles diziam” (v. 22,30). Neste
ponto encontramos a advertência: visto que é réu de pecado eterno. Em 9.42 encontramos o mesmo
contexto: “Quem fizer tropeçar a um destes pequeninos crentes, melhor lhe fora que se lhe
pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse lançado no mar”.
Neste caso o perdão claramente não é desejado, mas combatido ativamente. O perdão, porém,
precisa ser desejado. Graça que fosse lançada sobre nós como o reboco na parede não seria graça.
Portanto, este versículo no fundo não restringe a exclamação antecedente, apenas a protege de ser
esvaziada. O perdão seria vazio se fosse roubado do seu caráter gratuito e nos sobreviesse como com
naturalidade tediosa, sem arrependimento, súplica, gratidão e vida na nova família de Deus. No
Espírito Santo, portanto, a graça continua sendo graça. Por esta razão, este Espírito também é o
hóspede mais importante que se pode imaginar. Ele não entra em nenhum aposento sem bater, e
reage ao apelo mais imperceptível de anseio assim como ao endurecimento oculto do coração. Disto
resultam as advertências do NT contra “entristecer” ou “apagar” (Ef 4.30; 1Ts 5.19) e, aqui, contra o
caso extremo de “blasfemar” contra o Espírito. É surpreendente como a Bíblia anima à confiança no
perdão dos pecados, sem incentivar que se peque. Nosso versículo está a serviço desta ressalva.
     30     Uma frase final elucidativa arredonda o parágrafo, voltando ao v. 22: Isto, porque diziam: Está
possesso de um espírito imundo. Esta acusação, portanto, acabou sendo um tributo involuntário dos
rabinos ao poder de Jesus sobre os demônios. Jesus, por sua vez, não pagou mal com mal aos seus
caluniadores. Ele não os chamou de demônios. É verdade que ele descobriu a condição deles e os
advertiu mas, além da maldade sem sentido deles, acima de tudo ele trouxe à luz os fundamentos do
povo de Deus renovado. Ele testificou o abalo decisivo do reino de Satanás pelo mais forte, a
libertação dos presos, o perdão de todos os pecados e a era do Espírito Santo. Com isto, a
proclamação da verdadeira família de Deus está preparada.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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