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21 A proclamação da verdadeira família de Deus, Mc 3.31-35

A proclamação da verdadeira família de Deus, Mc 3.31-35 
(Mt 12.46-50; Lc 8.19-21)

31-35 Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos e, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo.  Muita gente estava assentada ao redor dele e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procuraEntão, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos?  E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse: Eis minha mãe e meus 
irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe. 

Em relação à tradução
     a
     ochlos denota “primeiro um grande número de pessoas que se movimentam desordenadamente ou
estão paradas numa aglomeração densa” (Meyer, ThWB V, 582), o que não diz nada sobre sua quantidade.
Aqui se pensa menos na multidão e mais nos discípulos. Em Mt 21.8,11 ochlos também se refere ao grupo
de seguidores que acompanhou Jesus a partir da Galiléia, contraposto a “toda a cidade” do v. 10. Em At 1.15
o termo indica a comunidade anterior a Pentecostes.
     b
     A tradução tenta mostrar os termos gregos diferentes aqui e no v. 34, o que Marcos evidentemente faz.
No v. 32 está idou, que só pretende despertar a atenção, sem que se possa ver algo literalmente (ainda em
1.2; 4.3; 10.28,33). O ide que está no v. 34 tem mais força em Marcos. Ele contém praticamente uma ordem para olhar (ainda em 2.24; 3.34; 13.1,21; 15.4,35; 16.6).
     c
     zetein significa, em termos gerais, procurar algo sem saber onde poderia estar. Aqui outra possibilidade
é plausível: buscar ansiosamente encontrar algo de que se está separado, ou até: pedir algo, exigir.
Observação preliminar
Contexto e tema. Depois que a ruptura entre Jesus e seus parentes ficou manifesta nos v. 20,21 e sua
profundidade assustadora foi iluminada nos v. 22-30 (cf. opr 1 aos v. 20,21), do outro lado a nova família
começa a tomar forma. Ao “do lado de fora” do v. 31, que é repetido com ênfase no v. 32, corresponde um “aqui dentro”. Dentro estão as pessoas “assentadas” na casa, repetido duas vezes. Além disto não se diz
nenhuma outra coisa sobre o que eles fazem. Lc 8.21 pelo menos menciona que eles “ouvem”, Mt 12.49 que eles são discípulos. Em Marcos a descrição se concentra totalmente em que eles estão sentados. Eles estão posando, para a resposta da frase que Jesus provoca no v. 33: Quem forma sua família verdadeira? Schweizer,
em Jesus (p 45), deixou de reconhecer esta descrição, simples como um desenho, ao concluir dogmaticamente:
“Quem, afinal, pertence a esta nova comunidade? […] Todos que acontecem estar sentados à volta dele. Ele nem mesmo pergunta se crêem ou não, se entraram por anseio sincero ou curiosidade, decididos ou por acaso.
Todos são mãe e irmãos para ele.” Schweizer chega à sua interpretação também por deixar o v. 35 de fora. Ele o considera um acréscimo posterior da igreja. Todavia, será que assim ele não está quebrando a ponta da coisa toda?
Usamos aqui a palavra “família”, que vem do latim, apesar de faltar na concordância bíblica. Ainda no
tempo de Lutero ela não era usual. A Bíblia e Lutero falavam da “casa”. Para o sentido deste termo “casa” Mc
10.29 é esclarecedor, no qual é ampliado por uma descrição subseqüente.
     31     Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos. Cinco vezes, em cada um dos versículos, aparece esta
frase: “sua mãe e seus irmãos” (invertida no v. 35). Ela domina todo o trecho. Ainda em At 1.14
Maria é notada com reverência, mas lá os parentes estavam “dentro”, aqui ainda “lá fora”. E lá, o fato
de fazerem parte da igreja baseava-se em princípios espirituais. Para um califado, um reinado no
oriente baseado em laços de sangue, não havia lugar entre os primeiros cristãos. Este tipo de prestígio
é exatamente o que é condenado aqui. Pela segunda vez (veja v. 22) forma-se um paralelo entre os
parentes físicos de Jesus e seus inimigos, que o empurraram para a morte, pois dos dois grupos diz-se
que estavam “fora” enquanto Jesus estava na casa (cf. 3.6). Os fariseus deixaram sua proximidade e
saíram, os parentes recusam aproximar-se e não entram. A separação física indica nas duas vezes
uma separação espiritual (sobre “lá fora”, cf. 4.11).
E, tendo ficado do lado de fora, mandaram chamá-lo. Nada no texto dá a entender que o local
estava lotado, como em 2.4, impedindo o acesso à família. Ela também nem queria aproximar-se para
ficar com ele, mas para trazê-lo de volta a ela (cf. v. 20). O olhar se volta primeiro para o grupo de
discípulos (cf. nota ao texto):
     32     Muita gente estava assentada ao redor dele. Diferentemente da posição de dignidade de 2.6, estes
estavam agachados no chão, expressamente voltados para Jesus. Estar assentado “aos pés” é a
posição de um discípulo, ansioso por aprender (Bill. II, 763s; cf. Lc 2.46; 8.35; 10.39; At 22.3).
E lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua procura. Os
pensamentos deles são evidentes, não como os dele nos v. 34s. Para eles, como para todos os
orientais, o clã é autoridade máxima. Pela boca deles, Jesus é convocado a reconhecer esta lealdade.
     33     Este versículo é como uma plataforma giratória. Continua-se falando da sua mãe e dos seus irmãos,
mas daqui em diante de maneira totalmente diferente. Ser mãe e irmão é questionado radicalmente,
para voltar a vigorar “nascido de novo”.
Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? O Senhor adota o
ideal da família para preenchê-lo de forma insuspeita. Apesar de tantas decepções na família (p ex
13.12!), ela continua sendo o símbolo da solução ansiada para a convivência humana, em que sexos
diferentes, gerações diferentes e capacidades e interesses diferentes se tornam em comunidade.
Ninguém é revistado nela quanto ao seu valor utilitário, ninguém é despedido dela um belo dia, cada
um tem ali o seu lar e é ajudador do outro. Na família o ser humano vive de modo humano. Todavia,
onde e como surge esta família?
     34     E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor… Em resposta à sua própria
pergunta provocadora, ele abarca os que estão assentados a seus pés com um olhar ostensivo em
círculo (segundo Mt 12.49, acompanha um gesto expressivo). No entanto, ele não o faz como em 3.5,
“indignado”, mas como em 10.23, com amor convidativo e acolhedor (cf. 1.16): Eis – olhem em
volta, olhem para vocês mesmos – minha mãe e meus irmãos! Apontando para uma lição objetiva,
ele proporciona novamente um dos seus gestos simbólicos marcantes. Assim ele imprime palavras
que, de outra forma, jamais teriam entrado no coração dos implicados. O pensamento deles o v. 32
indicou. Mas Jesus os surpreende com sua palavra de revelação e torna visíveis no meio deles as
bases do futuro povo de Deus, válidas até hoje. Quais são elas? No fundo, numa coisa só: eles
estavam assentados ao redor, à volta dele. Em um círculo, o ponto mais importante não está na sua
linha, mas no centro, que determina cada ponto da linha, fazendo com que o círculo exista. Este
ponto, no caso (v. 34), não é uma coisa, uma missão, um livro ou um ensino, mas o próprio Jesus
Cristo. Especificamente, ele a caminho dos seus sofrimentos. Mesmo assim, é a ele que querem ouvir
(cf. 9.7), aprender dele sentados a seus pés, deixar por ele sua casa com a família antiga (9.29). Por
isso Jesus anuncia solenemente que eles são seus irmãos. Aliás, para nossas tendências
neoromânticas vale uma observação de Schniewind (p 72): “Ele nos chama de irmãos. Mas o NT
jamais se atreve de chamar a ele de „meu irmão, nosso irmão‟” (cf. 3.14).
     35     Deste modo, a observação sobre o fato de o grupo estar assentado deixou bem para trás o interesse
na ordem em que estão sentados. O fato físico se torna expressão de algo em que já tentamos tatear.
No v. 35 segue uma definição que ultrapassa a relação do grupo com Jesus: Portanto, qualquer que
fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe. A verdadeira família de Jesus, ou – usando
o termo bíblico – sua “casa”, é a casa do Pai. Deus Pai pessoalmente é seu criador e governante. Sem
esse Pai não há irmãos, sem que se faça sua vontade não há comunhão verdadeira. Por isso o Pai faz
parte da definição de uma comunhão humana fraternal (cf. Ap 21.3). Entretanto, para ter este Pai
entre nós, precisamos ter Jesus como centro. De acordo com 1.15 ele traz o reinado próximo de Deus
ou, em 4.11, seu mistério. Neste sentido, a transição do v. 34 para o v. 35 expressa uma relação
essencial que de forma alguma pode ser rompida.
Fazer a vontade de Deus tornou-se, no NT, definição de ser cristão (Rm 12.2; Hb 13.21; 1Pe 4.2;
1Jo 2.17 etc.). Acontece que os judeus religiosos também gostavam de falar da vontade de Deus
(Bill. I,219s,653,664). Eles tinham orgulho de sabê-la e mostrá-la aos outros (Rm 2.17,18). Todavia,
eles diferiam de Jesus quanto ao que seja a vontade de Deus. O que para Jesus significava fazer o
bem para eles podia ser tão mau que queriam matar quem o fazia (p ex 3.4-6). Isto porque reconhecer
a vontade de Deus é um absurdo para quem não quer Deus e não quer o Filho – por mais que conheça
a Bíblia e seja fervoroso a favor dela.
Para terminar, recordemos a separação totalmente diferente dos familiares no povo da aliança
antiga. Em Êx 32.27 lemos: “Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo
arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um a seu amigo, e cada um a seu
vizinho”. Jesus, por sua vez, não tratou com desamor nem mesmo seus inimigos. Mais ainda ele
respeitava o 4º Mandamento e não expulsou nem sua mãe nem seus irmãos. O sentimento maternal,
porém, deve e pode renascer no reinado de Deus. Este dom precioso Jesus ofereceu também aos seus
familiares. Mas para poder manter a oferta, ele teve de rejeitar as pretensões deles.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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