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22 Introdução às comparações, Mc 4.1,2

Introdução às comparações, Mc 4.1,2 
(Mt 13.1,2, Lc 8.4; cf. 5.3)

1-2 Voltou Jesus a ensinar à beira-mar. E reuniu-se numerosa multidão a ele, de modo que entrou num barco, onde se assentou, afastando-se da praia. E todo o povo estava à beira-mar, na praia.      Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento.

Em relação à tradução
     a
     Lit. “maior multidão”, mas este superlativo geralmente tem no NT o sentido de ênfase (elativo).
     b
     “Mar” para o lago de Genesaré, cf. 1.16n e 3.7n.
     c
     parabole, “colocado ao lado (para comparar)”: coloca-se um objeto ao lado de outro para que se possa
comparar um com o outro. A retórica grega definiu várias formas do discurso comparativo (figura, metáfora,
comparação, parábola, paradigma e alegoria, cf. Peisker, ThBLNT, 584). Estas diferenças, porém, não
devem ser pressupostas no NT, e por isso parabole também não deve ser traduzido por “parábola”. O termo
foi usado na LXX para traduzir o hebr mashal, que abrange todas estas formas e ainda outras (cf. 4.10). É
neste sentido semita bem geral que usamos aqui o termo “comparação”.
Observações preliminares
1. Unidade do trecho das comparações 4.1-34. Os dois versículos iniciais 1s e os finais 33s destacam
claramente o intervalo como uma unidade. A palavra-chave “ouvir”, que aparece treze vezes (v.
3,9,12,15,16,18,19,20,23,24,32) transmite a idéia de interdependência. Por outro lado, os 34 versículos não
formam uma unidade no sentido de que Jesus os tenha dito sem interrupção. Não se trata de uma palestra
única, como os reinícios constantes: “e acrescentou” (v. 9), “ele lhes respondeu” (v. 11), “lhes perguntou” (v.
13), “lhes disse” (v. 21,24), “disse ainda” (v. 26), disse mais” (v. 30) já dão a entender. Uma leitura atenta
confirma isto. As palavras dos v. 11s não podem ter seguido imediatamente à comparação anterior, pois
pressupõem uma situação diferente, em que Jesus não está mais sentado no barco diante da multidão, mas
sozinho com seus discípulos (v. 10). Jesus também não se deixou conduzir à praia depois dos 45 segundos que
leva enunciar a primeira comparação, mas pronunciou ainda várias comparações. Portanto, o que Marcos nos
traz é uma seleção, em boa parte diferente da de Mateus e Lucas. Tanto mais se justifica a pergunta pela idéia
central que norteia a organização (cf. opr 3).
2. Contexto. A seleção de comparações está ligada diretamente ao que precede, só que tudo ganha em
intensidade. Em 3.31s a contraposição de “dentro” e “fora” já chamou a atenção, agora ela passa a ocupar o
centro, essencialmente e em formato grande (4.11). O processo de separação entre o povo e os discípulos
atinge seu ponto culminante (cf. v. 1). Logo em 4.1 o distanciamento de Jesus de certo contato pelo povo é
deixado bem claro. A partir destes sinais já se pode esperar que o capítulo das comparações continua a
controvérsia sobre a identidade de Jesus, que desde 3.7 foi o ponto de referência de todos os parágrafos.
3. Temática. As comparações de Jesus giram em torno do mesmo assunto que sua pregação como um todo,
ou seja, o reinado de Deus que se aproxima (opr 4 a 1.14s). Os versículos 11,26,30 confirmam isto
diretamente. Contudo, será que elas não representam um interesse específico, além disso? O que dá o tom é a
parábola monumental do semeador, que está em primeiro lugar nos três sinóticos e que, em Marcos, com todas
as explicações abrange 20 versículos. Ela contém três elementos básicos: semeadura, crescimento e colheita
(semelhante às outras comparações com sementes), dos quais o do meio chama a atenção. A fase de
crescimento é ampliada, destacando-se os empecilhos: a radicalidade do reinado de Deus também tem por
conseqüência a manifestação radical das forças hostis a Deus. Isto significa para a temática das comparações
que elas tratam do processo de aproximação do reinado de Deus especificamente à luz da resistência. Elas não
apresentam as boas novas de 1.14s em si, mas enredadas em uma luta e com sofrimentos inevitáveis, portanto,
sendo mal-entendidas e rejeitadas por serem tão enigmáticas. As comparações lidam exatamente com a
diferença entre a pregação do reino de Deus de Jesus e as expectativas judaico-humanas do reino de Deus, ou
seja, do “mistério” do reinado de Deus (v. 11).
4. As comparações como testemunho pessoal indireto de Jesus. O “mistério do reinado de Deus” do v. 11
deve ser entendido inseparável do mistério da pessoa do próprio Jesus, dentro da polêmica contínua sobre sua
identidade; pois este mensageiro não pode ser separado das suas boas novas. O destino delas é o seu destino, o
caminho de luta e sofrimento delas é a sua Paixão. O resultado é que este 4º capítulo de Marcos, onde não
aparece nenhuma vez o nome de Jesus, testifica de forma ampliada de Jesus. Seu contexto o forçou a esta
maneira nova. Já nos capítulos anteriores, Jesus passava ao discurso figurado sempre que o caráter de luta e
sofrimento da sua missão estava em jogo (2.17,19s,21s; 3.24-27). Especificamente depois da agressão tão
maligna de 3.23 lemos que ele lhes falava “por meio de parábolas”. Em nosso capítulo, a resistência e a falta
de entendimento se espalharam, de modo que “sem parábolas não lhes falava” (v. 34). Somos lembrados de
Ezequiel, que também teve de falar com comparações veladas, depois que Israel se tornara “casa rebelde”
notória (24.3; cf. também 17.2 com 12).
Ernst Käsemann exclamou no Dia da Igreja de Hanôver em 1967: “O homem de Nazaré foi compreensível
para todos. Por que os cristãos de hoje não o são mais?” Os textos não confirmam este quadro. Se não
quisermos ficar reduzidos a lugares-comuns moralistas com acabamento cristão e renunciar à condição de
igreja de Jesus, temos de encarar o “mistério” de Jesus. Nem suas comparações são tão simples e tocantes
como gostaríamos, antes, chocam a mente e a natureza humanas. Neste sentido, a interpretação terá de
redescobrir o grito para despertar que perpassa todo o capítulo (opr 1 e 2 a 4.2b-9).
5. A compreensão das comparações. Por outro lado, parece contradizer a natureza de uma comparação que
seu sentido seja velado em vez de esclarecido. Jesus também, de acordo com o v. 33, queria, com suas
comparações, ir ao encontro da capacidade de compreensão dos seus ouvintes e estender-lhes a mão.
Entretanto, só na tradição ocidental o discurso figurado limita-se a este aspecto. A comparação hebr (mashal,
cf. 1.2n), consegue unir as duas coisas, a função de esclarecer e de ocultar. Isto cai na vista na comparação dos
vinhateiros maus em 12.1-12. Por um lado eles “compreenderam”, ou seja, “que contra eles proferira esta
parábola”. Por outro lado, “procuravam prendê-lo”, isto é, não entenderam nada, não captaram seu chamado
gracioso à conversão nesta comparação. Eles ouviam e não ouviam. Num caso como este, uma comparação,
apesar de toda sua clareza, permanece obscura, torna-se palavra de condenação. Um efeito de irritação amplia
a separação entre adversários e amigos de Jesus. Este primeiro aspecto é tratado por 4.10-12. Mas lá a
interpretação mostrará que este efeito de condenação não é mecânico, forçoso. A marca da bondade continua
evidente.
     1     Voltou Jesus a ensinar à beira-mar. E reuniu-se numerosa multidão a ele. Marcos relata com
freqüência a aglomeração geral em torno de Jesus, mas em nenhum lugar com esta expressão e
ênfase. Evidentemente Jesus está no auge da sua atuação. É verdade que ele não o goza sem reservas,
entregando-se ao triunfalismo. A exposição de 3.9 mostrou que, na seqüência, certo ceticismo já se
faz presente: de modo que entrou num barco, onde se assentou, afastando-se da praia. E todo o
povo estava à beira-mar, na praia.
A menção tríplice do “mar” animou Schreiber (p 169s,204,209s) a simbolizar, fazendo do “mar”
uma grandeza mítica. “Jesus sobre o mar” torna-se igual a “Jesus na cruz”, ele está “assentado”
secretamente no trono, como crucificado glorificado, seu ensino é um chamado para o seguirem na
cruz. As pessoas “na praia” estão “endurecidas”. Por que, porém, este desvio pela alegoria, quando é
tão mais fácil dizê-lo diretamente? E quem comprova estas idéias? Será que esta maior
“profundidade”, linha por linha, se paga? Será que toda a história não acaba ficando mais enevoada?
Esta tradição original não se torna uma construção dogmática tediosa? – Sobre o contexto histórico
desta mudança acentuada da atividade de ensino para a margem do lago da Galiléia, cf. 2.13; 3.7. A
indicação de que Jesus se sentou geralmente abre períodos mais longos de ensino (9.35; 13.3).
     2     Assim, lhes ensinava muitas coisas por parábolas, no decorrer do seu doutrinamento. Sobre a
ênfase do ensino por Jesus, cf. opr 2 a 1.21-28. De forma alguma devemos pensar em mero
doutrinamento intelectual sem desafio pessoal à decisão; “ensinar” em Marcos sempre inclui o apelo
da pregação ( cf. 1.21). O fato de Jesus, neste ponto, passar ao discurso por meio de comparações tem
a ver com a situação tensa que os professores da lei, segundo 3.22, tinham provocado com sua
demagogia (opr 4). Do grande número de comparações e sua riqueza, Marcos passa a selecionar
algumas que são típicas.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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