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23 A comparação do semeador, Mc 4.3-9

A comparação do semeador, Mc 4.3-9 
(Mt 13.3-9; Lc 8.4-8)

3-9 Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se.       Outra parte caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.      Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta e sessenta e a cem por um. E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Em relação à tradução
     a
     O artigo definido aqui tem sentido geral, como acontece com freqüência no discurso figurado no
aramaico.
     b
     para, “ao lado”, aqui com certeza tem o sentido de “no” caminho, como no aramaico (cf. WB, 1211).
     c
     O tempo imperfeito do verbo grego descreve aqui os esforços da plantinha para penetrar na terra. Mas
ela não encontra nada.
     d
     Mais uma vez um tempo imperfeito descreve assombrado o transcorrer da história.
     e
     Aqui e no v. 20 o numeral “um” é usado como multiplicativum (Bl-Debr, § 207.4).
Observações preliminares
1. Título. Qual é o centro desta comparação: os quatro tipos de terra, a semente ou o semeador seguro de
si? As três respostas têm seus defensores e já serviram de título. A favor da primeira solução, poderia depor a explicação dos v. 13-20. No entanto, é recomendável observar a comparação como um todo na primeira vez; toda interpretação é subseqüente e não dirigida ao povo. A favor da segunda possibilidade, o próprio texto da
comparação poderia depor, já que não menciona outra palavra tantas vezes como semente e semeadura. Nós optamos, com Mt 13.18, pelo título “a comparação do semeador” e, com isto, pela interpretação messiânica.
As opr 204 a 4.1,2 já prepararam o caminho para isto.
2. O chamado para “ouvir”, nos v. 3 e 9. O fato de que este chamado sustenta todo o capítulo (para as
passagens, cf. opr 1 a 4.1,2) confere-lhe um peso próprio. Em primeiro lugar, no Oriente ele tem um sentido
bem concreto, pois ali a orelha encoberta por turbante ou véu é bem comum. Quando alguém queria transmitir
algo vital a outra pessoa, para o que importava ouvir direito, “revelava-lhe” a orelha (1Sm 9.15; 2Sm 7.27) ou “despertava-a” (Is 50.4). Ou exortava-a a “abrir as orelhas” (Ez 28.23), isto é, fazer o favor de tirar o pano.
Este seria o gesto da prontidão total para ouvir, que também podia ser recusada. Por isso, o chamado para
ouvir muitas vezes pressupõe ouvintes reticentes. “Ouve o que eu te digo, não te insurjas!”, lemos em Ez 2.8.
É claro que a resistência tem seus motivos. O chamado de Deus não agrada porque prega julgamento e exige
conversão. Muitos apelos para ouvir mostram este contexto (Is 1.10; Jr 5.21; Am 4.1; 5.1; 7.16; 8.4). Também
nas cartas do Apocalipse o “ouçam!” é para os ouvintes que carecem de conversão e que não deveriam resistir
ao Espírito Santo (Ap 2.7,11,29; 3.6,13,22). Com isto voltamos à situação em nosso texto. A multidão,
envenenada pela propaganda dos professores da lei (3.22), estava em vias de fechar-se para este mensageiro
irritante e sua “palavra” de boas novas. O auge exterior do movimento (4.1) não iludiu Jesus. Ele sentiu a
surdez espiritual das pessoas e mais uma vez se torna bem intensivo, grita com este “ouvi!” um “efatá” para a
multidão (cf. 7.34): Abram-se à palavra e ao Espírito, deixem o ouvir acontecer plenamente, até obedecerem e
seguirem! Trata-se de um ouvir adicional, intenso, sem reservas, que vai além de ouvir Fulano ou Beltrano
para ser “ouvir e receber” (4.20), “ouvir e entender” (7.14).
O versículo 2 terminou falando de “doutrinamento”. Naturalmente a “matéria de ensino” de Jesus
está relacionada à mensagem de boas notícias de 1.14,15. Mas isto inclui, em termos bíblico-teológicos: o mensageiro chegou! Seu ensino está vinculado à sua pessoa, aponta para quem ensina.
De modo indireto, sem alarde, Jesus introduz a si mesmo. Ele é o reinado de Deus que vem
chegando, é ao mesmo tempo semeador e semente, entrega a si mesmo à lavoura deste mundo. O
chamado para ouvir, no começo e fim da comparação, também sublinha que algo importante está em
jogo em seu ensino:
     3     Ouvi! É muito mais que um floreio retórico para acalmar uma grande aglomeração (opr 2), Depois,
como dois pontos, um Eis dá início à comparação. Saiu o semeador a semear. Seu personagem só é
mencionado na introdução. Depois do início em si, no versículo seguinte, a semeadura já é relatada
sem ele, como grandeza própria. Depois é sempre a semente que causa a ação: ela cai, procura solo
fértil, brota etc. Mas, por mais que o semeador fique à margem, tudo só é contado por causa dele. A
semente e seu destino é o destino dele, seu sofrimento e, no fim, seu lucro. Neste estilo Jesus também
fala de si em outras ocasiões. Ele se mantém em segundo plano, sem deixar de ser o centro. Este é o
“mistério” do reinado de Deus anunciado por ele (4.10). Assim, por trás da frase do v. 14: “O
semeador semeia a palavra”, está bem visível a todos esta outra: Jesus “lhes expunha a palavra”, de
2.2 e 4.33.
Sem esta interpretação cristológica, a parábola não contém uma sabedoria superior, somente uma
descrição inócua de coisas óbvias para os ouvintes daquela época. Não se trata de um agricultor
ingênuo que tem azar, menos ainda de um agricultor burro que é castigado e depois consolado. A
comparação não descreve, ao contrário do que pensa Schniewind (p 74), uma “farsa”, mas confirma
o conhecimento profissional dos camponeses galileus.
     4     E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho. Na Galiléia não havia lavouras amplas. Como
lençóis estreitos, elas volteavam pelas encostas e tinham de ser contornadas pelos transeuntes, que
deixavam suas trilhas aqui e acolá. Estes o agricultor de forma alguma podia considerar ao lançar a
semente, também não ao virá-la na terra em seguida (Jeremias, Parábolas, p 8; Linnemann, p 121;
Bill. I, 655ss). Estas sementes eram pisadas quando os caminhos se formavam de novo (Lc 8.5), ou
descobertas com mais facilidade pelas gralhas no curto intervalo entre a semeadura e a viração. E
vieram as aves e a comeram.
     5,6     Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca. Os numerosos lajeados de calcário da
Galiléia muitas vezes eram cobertos somente por uma camada fina de solo arável. Este, realmente,
estava umedecido pela manhã pelo orvalho forte e oferecia ao grão de semente, apesar da noite
fresca, uma condição favorável à germinação, pois o subsolo pedregoso ainda refletia o calor do sol
do dia anterior. E logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porém, o sol, a queimou.
Os raios do sol têm, nesta região, uma intensidade devastadora. Agora faltavam a proteção contra o
calor e as reservas de umidade que o solo mais profundo fornece, especialmente possibilidades de
expansão: e, porque não tinha raiz, secou-se.
     7     É perfeitamente natural que as lavouras locais unissem tipos diferentes de solo. Outra parte caiu
entre os espinhos, termo que representa ervas daninhas espinhosas em geral. Não havia arado que
conseguisse arrancar suas raízes de até 30 cm de profundidade. Assim, o agricultor só os queimava
por cima no outono, de modo que em pouco tempo brotavam novamente, com vantagem diante da
semeadura de cereal. Em alguns lugares eles formavam uma cerca viva fechada, no meio da qual
alguns pés de cereal até conseguiam crescer, mas ficavam medíocres e não carregavam a espiga: e os
espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.
     8     Apesar de a segunda e positiva parte da comparação ser mais breve, pela lei do peso de oito ela
sustenta a parte principal do orvalho. Por isso o peso maior não é da parte trágica. Apesar do
insucesso e do sucesso aparente, o trabalho do semeador é produtivo: Outra, enfim, caiu em boa
terra e deu fruto, que vingou e cresceu. Aqui podemos contemplar o processo bonito de
crescimento, impedido nos outros casos, até a sua colheita em abundância: produzindo a trinta, a
sessenta e a cem por um. Os números de registro correspondem à maneira de falar oriental e só
sublinham a produtividade. Não é razão para pensar em uma lavoura dividida em seis partes.
     9     E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Chamamos mais uma vez a atenção para a
opr 2. A compreensão desta comparação não deve ser deduzida superficialmente. Só em sua
profundidade messiânica é que ela adquire seu sentido especial, também em seu paralelo com textos
judaicos (p ex Ed 8.41; 9.31). O melhor comentário continua sendo a atuação e sofrimento
messiânico tão singular do próprio Jesus. É exatamente por este caminho que ele avança vitorioso até
a colheita de Deus.
É verdade que a cristologia autêntica sempre inclui a eclesiologia. O “semeador” messiânico tem
um povo messiânico que ele inclui em seu destino. Neste sentido, a parábola não esclarece somente o
caminho do Senhor, mas também contém uma advertência para a igreja missionária. Jesus diz para
ele, hoje como naquela época: Não deixem que as resistências os façam duvidar do reinado de Deus
que se aproximou. Andem passo por passo, joguem mão após mão de sementes na lavoura do mundo,
independentemente do sucesso ou insucesso imediato (1Co 13.7; 15.58; 2Co 6.4-10; 1Tm 4.2). A
palavra não volta vazia (Is 49.4; 55.10,11; Jo 15.5). Participem do mistério do reinado de Deus,
tomando sobre si a sua cruz!

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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