Pessoas que gostam deste blog

24 A razão de ensinar por comparações, Mc 4.10-12

A razão de ensinar por comparações, Mc 4.10-12 
(Mt 13.10-17; Lc 8.9,10; cf. Jo 9.39; 12.37-40)

10-12 Quando Jesus ficou só, os que estavam junto dele com os doze o interrogaram a respeito das parábolas. Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles.

Em relação à tradução
     a
     Expressão abreviada no grego: kata monas (acrescentar talvez: choras: “em regiões desertas”); no NT
só ainda em Lc 9.18, acentua o isolamento.
Observações preliminares
1. Independência do parágrafo. A pergunta dos discípulos no v. 10 pressupõe em primeiro lugar que Jesus
não está mais sentado no barco (cf. opr 1 a 4.1,2), mas se encontra em outro lugar, no círculo interno dos seus
adeptos (até v. 25). Em segundo lugar, ela não está vinculada especificamente à comparação do semeador dos
v. 3-9, mas a toda uma série de comparações (cf. v. 2), na verdade à maneira em si da pregação de Jesus a
partir de certo momento. Portanto Marcos, aqui como tantas vezes, não está seguindo a seqüência histórica de
eventos, mas razões práticas, ao colocar a peça de inserção redacional neste lugar. De fato, ela se encaixa
muito bem aqui, pois nestes três versículos fala-se de ouvir a palavra de Jesus como no texto circundante (ver
está ligado a isto, cf. v. 24) e, como na comparação do semeador, ocupa-nos também aqui a contraposição de
insucesso e sucesso maravilhoso. Além disso, o fato de Marcos acrescentar estes versículos exatamente a esta
parábola reforça a importância desta como comparação principal, básica e exemplar para o ensino de Jesus em
geral.
2. A dureza da mensagem e as declarações de inautenticidade. Será que Jesus tinha mesmo a intenção de
impossibilitar a compreensão e conversão do povo? Wrede já se deixou levar pelas emoções nesta passagem;
não deveríamos procurar aqui “algum farrapo de palavra autêntica de Jesus”. Tal “crueldade” jamais poderia
ser-lhe creditada, pois seria um tapa na cara do sentido de todas as suas palavras autênticas (p 61). “Se alguém
quiser mostrar que construções não históricas são possíveis em Marcos, este ponto sempre será um exemplo
excelente” (p 65). Por esta razão, até hoje muitos comentadores responsabilizam a igreja posterior por estas
frases. Esta estaria perplexa diante do fato de que o judaísmo rejeitou o Messias. Para explicá-lo, inventaram
esta terrível “teoria do endurecimento”. Uma misteriosa vontade de Deus teria destinado uma parte da
humanidade à perdição. Conzelmann, Theologie (p 158), nos acalma: “É evidente que esta teoria é
secundária”. Com isto, o comentador se livrou de todas as dificuldades, transferindo-as para Marcos e a igreja
que transmite a tradição. Esta fica sendo quem colocou palavras terríveis na boca de Jesus, sem o mínimo faro
para sua mensagem verdadeira. Além disso, Marcos contradiz a si mesmo, já que ele acha no v. 33 que Jesus
acabara de adaptar-se à capacidade de compreensão dos seus ouvintes. Ou Marcos não tinha entendimento, ou
não contava com o dos seus leitores. O contrário deve ser verdade. Ele esperava dos seus leitores um esforço
paciente adicional. Por isso nossa interpretação segue outro grupo de pesquisadores, não tão rápidos com
declarações de inautenticidade, podendo até chamá-las de “levianas” neste caso (Schürmann, Lukas, p 461;
além disso Michaelis; Jeremias, Theologie, p 122,124; Schmid; Goppelt, Theologie, I, p 225). Pelo seu
formato literário, o texto não fornece nenhum motivo para dizer que não procede de Jesus (Jeremias,
Parábolas, p 9-14; Theologie, p 21s,25,27,67). Peso especial tem a circunstância de que a citação de Is 6.10
difere tanto do texto hebr como da LXX, usada pelos primeiros cristãos. Em vez de “curar” (BJ), p ex, Jesus
fala em “perdoar”. Esta versão, porém, encontra-se em um Targum (cf. 2.26), portanto em uma paráfrase
aramaica de Is 6.10, comum nas sinagogas da Palestina (Bill. I, 663; IV, 216; Jeremias, Parábolas, p 12;
Schweizer, p 51). O texto, portanto, é tão antigo como só os que foram transmitidos nos evangelhos podem
ser.
3. Propostas para adotar outras versões. Nossa tradução traduziu o hina do começo do v. 12 como
introdução a uma frase de intenção: “para que […] não percebam e não entendam” (Schmid, Gnilka etc.). Este
hina de finalidade encontra-se em Marcos mais de trinta vezes e corresponde ao uso original e predominante
no grego. No entanto. têm sido sugeridas cinco outras possibilidades, que atenuam a dureza da declaração em
menor ou maior grau:
a. Causal (p ex Lohmeyer, Klostermann): Jesus fala aos de fora em sentido figurado porque eles não vêem,
etc. O paralelo em Mt 13.13 também tem “porque”. Não poder ver é o castigo. Esta possibilidade, porém, deve
ser desconsiderada para Marcos, porque o hina causal apareceu só mais tarde e no NT não pode ser
comprovado claramente em nenhum lugar (Lampe, EWNT II, 461).
b. Relativo (cf. Hauck, ThWNT V, 755 nota 101): Jesus fala aos de fora em sentido figurado aos que não
vêem etc. Neste caso “não ver” precede “não entender” ou anda junto. É conseqüência penal, como em a.
Aplica-se o mesmo argumento literário como em a.
c. Consecutivo (p ex Peisker, TBLNT, 588): Jesus fala aos de fora em sentido figurado, de modo que não
vêem, etc. Esta idéia (“não ver” como efeito da linguagem figurada), porém, quase não tem diferença com a
idéia final (“para quê”), pois a conseqüência seria intenção divina.
d. Explicativo (P. Lange; BV): Jesus fala aos de fora com o uso de comparações em razão de não verem,
etc. A condição do povo que ele tem diante de si nos elementos figurados da comparação do semeador, é igual
à do povo em Isaías. Em Is 6.10 o texto é direto e é explicado aos discípulos. Mas não há uma conseqüência
ou intenção adicional, só o resumo da parábola. Isto, porém, não responde à pergunta dos discípulos pelo
sentido do ensino por comparações.
e. Complementar (Jeremias, Parábolas, p 13; BJn): Jesus fala aos de fora em sentido enigmático para que
seja cumprido o que está em Is 6.10: Vendo, não vêem etc. Na prática chegamos a um resultado como em d,
que não satisfaz no contexto. No v. 11 já é preciso enfrentar a afirmação que o v. 12 esmiuça: a ação de Deus
nos ouvintes da sua palavra pode fracassar.
Para o fim do v. 12 também têm sido sugeridas traduções atenuantes, quase opostas e bastante apreciadas.
Aí se diz, em vez de “para que não venham a converter-se”: “talvez se convertam…” (Pesch I, 236; cf.
Bertram, ThWNT II, 726; Jeremias, Parábolas, p 13; Bl-Debr. § 370.5). O uso da passagem de Isaías ainda em
Jo 12.38-40; At 28.26,27 e Rm 11.7,8 mostra que os primeiros cristãos não tiraram deste texto do AT seu peso
pleno. Deus pode negar-se a certos ouvintes do evangelho, para dar-se a eles por meio de juízo. Esta é a
posição de Paulo em Rm 11.
Estas tentativas de atenuação, por sua vez, lembram pelo menos de longe as tendências de rabinos judeus
que se pronunciaram sobre Is 6.9s. Obviamente esta passagem era insuportável para eles. Assim eles se
aventuraram na interpretação de que Isaías poderia não ter entendido Deus direito, mas virado as palavras de
Deus no seu contrário. Para Israel não existe condenação ao endurecimento da parte de Deus. Por isso
quebravam o tom de condenação com antecedência e reformulavam a parte final em uma palavra de
esperança: “para que venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se
converta, e possa ser perdoado” (Bill. I, 663). Jesus não teve participação nesta distorção da palavra do AT. Ele
realmente via que seu povo incorrera em condenação. Só depois da Sexta-feira da Paixão e da Páscoa a
conversão entra em consideração para Israel.
     10     A frase inicial, quando Jesus ficou só, evoca por um instante a impressão de que Jesus estava
totalmente sozinho. A continuação, porém, mostra-o separado somente da multidão, não das pessoas
em geral: os que estavam junto dele o interrogaram. Não se trata de presentes aleatórios mas,
como em 3.32,34, de um círculo íntimo de seguidores (cf. 1.36). Dentre estes, Marcos identifica um
grupo que o interessava especialmente. É a segunda vez que fala deles: com os doze. De modo
crescente eles sobressaem no seu livro como a nova comunidade, o cerne do povo messiânico
renovado (cf. 3.14). Ao mesmo tempo a separação de povo e discípulos corresponde a uma
diferenciação clara entre pregação pública de Jesus e ensino imediato dos discípulos (aqui v. 10-25;
depois 4.34; 6.31,32; 7.17-23; 9.2-13,28,29; 10.10-12; 13.3). Muitas vezes os discípulos, como aqui,
tomam a iniciativa e fazem uma pergunta ao Senhor (7.17; 9.11,28; 10.10; 13.3).
Interrogaram-no a respeito das parábolas. Como nosso parágrafo remete, em termos literários,
ao mundo aramaico em volta de Jesus (opr 2), “parábola” não deve ser entendido no seu sentido
grego ou moderno, mas como tradução para mashal (cf. 4.2n). Neste processo de tradução aconteceu
algo familiar a todo tradutor: a nova palavra só cobre parcialmente o termo traduzido. Mashal
contém o significado que os gregos e os literários de hoje ligam ao termo “parábola” mas, além disso,
abrange expressões como provérbios, poemas pedagógicos, frases profundas de sabedoria, alegorias,
expressões figuradas, exemplos, oráculos, observações humorísticas, zombaria ou apelido, portanto,
praticamente toda expressão cujo sentido não é evidente e exige alguma reflexão. Talvez os sábios
judeus tivessem se arrepiado com nossa maneira direta, franca e abstrata de falar. Ele “gosta de falar
usando comparações que não são compreensíveis imediatamente, para desafiar o raciocínio dos
ouvintes” (Hauck, ThWNT V, 748). A pregação dos profetas também se encaixa aqui. Apesar de
totalmente compreensível, de modo que todos podiam assentir com a cabeça, o sentido do seu
discurso só se descortinava diante de uma disposição especial para ouvir. A reclamação referente à
maneira obscura com que os profetas falavam encontramos p ex em Ez 21.5; cf. 17.12.
A opr 1 mostrou-nos que este trecho curto originalmente tinha um sentido bem geral, também
independente da chamada pregação do lago. Ela trata do caráter enigmático, de tipo mashal, da
proclamação do reinado por Jesus em termos gerais. O paralelo em Mt 13.11 esclarece a pergunta
deles “por que os ensinas por parábolas”: só por parábolas, de acordo com Mc 4.34. Em Jo 7.4 seus
irmãos de sangue reclamam da reserva dele, e em Jo 14.22 o outro Judas lhe pergunta diretamente:
“Por que não te manifestas ao mundo?” Neste caso não basta apontar para a predisposição oriental
por fábulas e discurso floreado. A opr 4 a 4.1,2 já mencionou outro motivo: o segredo é reação a
certo bloqueio e endurecimento entre os leitores. Por parte dos líderes judeus esta oposição já existia
desde a primeira aparição pública de Jesus. 1.21 já indicava um quadro de tensão profunda com os
professores da lei, e 1.44 com os sacerdotes. É significativo que é em debates que Jesus se identifica
indiretamente como Filho do homem (2.10,28), médico messiânico (2.17) ou noivo (2.19). À medida
que a ruptura com o povo aumentava (opr 2 à divisão maior 3.7–6.29), Jesus não se fechou, não
interrompeu a proclamação do reinado de Deus, mas apresentou-a de modo cifrado e exigiu uma
disposição especial para ouvir (cf. opr 2 a 4.3-9). A forma cifrada abordava o ponto em que o reinado
de Deus se torna concreto e vem para o meio das pessoas, isto é, a identidade de Jesus e seu papel
escatológico (cf. Goppelt I, 223). Este estilo obscuro e indireto de comunicação nesta altura também
se reflete na opinião difusa que o público tinha sobre Jesus (6.14-16; 8.27,28). Isto seria inexplicável
se Jesus se tivesse confessado abertamente como Messias. Parece óbvio que neste ponto havia um
branco em seu ensino. Seu agir e falar estava cheio de cristologia, mas esta era tão pouco clara,
eficaz, à flor da superfície, que os discípulos ficaram angustiados e desafiados não só uma vez. Sua
impaciência e até irritação se manifestou, ainda com mais força quando o círculo íntimo de
discípulos se cristalizou e fortaleceu, enquanto maldade e endurecimento aumentavam entre o povo.
É a este contexto que pertencem nossos versículos.
Agora eles são inseridos aqui. Apesar de não se referirem primariamente à explicação de
elementos bíblicos isolados, eram aplicados agora também a estes, especialmente à comparação
principal do semeador messiânico. O v. 10, entendido assim, torna-se chave para a resposta de Jesus.
     11a     Jesus respondeu com uma exclamação de júbilo (v. 11a) e uma ameaça (11b,12). Combinações
semelhantes a Bíblia usa com freqüência: os exemplos mais conhecidos encontramos nas cartas do
Apocalipse, bem como talvez em Ap 21.7,8 e 22.13,14, onde a ameaça é dirigida aos de fora, como
aqui.
A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus. “Mistério”, que aparece oito
vezes em Daniel, tinha-se tornado um termo técnico entre os judeus (Bornkamm, ThWNT IV, 820-823). Referia-se aos “desígnios secretos de Deus” (Sabedoria 2.22, BJn) que ele tem em mente para o
nosso mundo. Como tendências eles já existem em nosso tempo, mas ocultos, muitas vezes sob a
impressão contrária.
Entretanto, assim que alguém recebe uma “revelação”, torna-se realista de verdade e passa a olhar
impassível para o jogo de cena do presente. Ele sabe melhor porque foi iniciado, enquanto os não
iniciados continuam perseguindo ilusões. Ser iniciado eqüivale a ser eleito, enquanto não ser eleito
eqüivale à condenação.
Na base, trata-se sem dúvida de pensamentos bíblicos, mas “mistérios” e “revelações” estavam
tanto na moda naquela época, brotavam em todo lugar e eram tão baratos que é perceptível como
Jesus e os primeiros cristãos evitavam este termo. Os evangelhos têm “mistério” só nesta passagem, e
mesmo um livro como o Apocalipse de João somente o usa quatro vezes. Com mais freqüência a
palavra ainda se encontra nas cartas de Paulo, mas ali o singular tem mais peso, no sentido da
singularidade do mistério de Cristo. Cristo é o fim de todos os “mistérios”.
O mistério transmitido aos discípulos não foi o reinado de Deus em si este, Jesus proclamou
publicamente mas uma parte dele, o ponto da sua concretização, que é a pessoa e ação do próprio
Jesus. A partir de 8.31s sua Paixão e ressurreição tornam-se o conteúdo declarado das palestras
reveladoras aos discípulos. Estas, a graça soberana de Deus lhes tinha dado a conhecer; a mesma
coisa diz a exclamação de júbilo de Mt 13.16,17; Lc 10.23,24. Ninguém e nada pode tirar-lhes isto de
novo. Este é o milagre da comunidade de discípulos que se forma em meio ao povo que se rebela.
Trata-se de um presente que fica com eles (tempo perfeito!), apesar de incluir no v. 25 que eles
precisam continuar recebendo. A entrega total está prevista, mas ainda não realizada. O quanto os
discípulos são desajeitados, pode-se ver logo no v. 13 e em todos os capítulos (4.40; 6.52; 7.18; 8.14-21,33; 9.6,14-19,28; 10.32; 14.19,27-31, 37-40,47,50,66,72). Da mesma forma, porém, também
chama a atenção a dedicação incansável de Jesus por eles.
     11b     Mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas. Em 3.31s eles estavam do lado de fora
literalmente, fora da casa. Mas mesmo se eles o apertassem lá dentro, em sentido figurado estariam
“do lado de fora”. Esta expressão era comum na época. Da perspectiva da sinagoga judaica os pagãos
e hereges estavam “do lado de fora”; do ponto de vista de qualquer povoado, todos os que não
fossem dali; Paulo pôde descrever assim os que não eram cristãos (1Ts 4.12; 1Co 5.12s; Cl 4.5). Os
que estão do lado de fora são como pessoas que contemplam os vitrais maravilhosos de uma igreja
apenas da rua e, por isso mesmo, não os acham interessantes, porque não vêem a luz passando por
eles. Assim é a incompreensão da multidão aqui. Ela acolheu os preconceitos dos seus líderes em vez
de passar a seguir a Jesus. Agora era testemunha ocular e auricular de Jesus como os discípulos, mas
só de fora e, por isso, cega e surda.
     12     Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não
venham a converter-se, e haja perdão para eles. Esta palavra de Is 6.9,10 é o ápice da resposta de
Jesus e requer toda a nossa concentração. Assim como o insucesso da pregação de Isaías não foi um
acidente e o semeador não desistiu com seus insucessos, aconteceu com Jesus. Ele trilhou o caminho
de Isaías. E, ao sofrer o destino causado pelas pessoas mas desejado por Deus, até o “crucifica-o!” de
15.13s, cumpriu-se a Escritura. Para isto ele também sabia, como Isaías em 6.13, da formação do
novo povo de Deus como centro da nova raça humana. A certeza espiritual sobreviveu à rebelião da
multidão, à traição e negação pelos discípulos, ao Getsêmani e à Sexta-feira da Paixão e encheu Jesus
de júbilo, como se vê em 11a.
Naturalmente, a palavra de Isaías a princípio é dura. Mas de forma alguma ela ensina que uma
parte dos ouvintes da pregação está condenada aleatoriamente, sem motivo. Isaías não está pregando
a páginas em branco, mas a um povo obtuso como um boi ou um jumento (Is 1.3), que preferia ser
destruído a voltar para Deus (1.5,6) e que tinha, com sua religiosidade oca, cansado Deus a mais não
poder (1.14). O que mais o Senhor poderia fazer a seu povo, nestas circunstâncias (5.4)? Por isso
enviou-lhe seu oficial de justiça. Para que um processo judicial seja justo, porém, o acusado precisa
ser desmascarado. Por isso Deus fez, através de Isaías, que estas pessoas fossem o que eram,
culpados. Ele tornou evidente como o “não” contra Deus fazia parte da sua natureza, como estavam
perdidos em si mesmos. Ele entregou os teimosos à sua teimosia e ainda lhes tirou o que tinham (Mc
4.25). Este processo não podia e não devia ser atalhado, digamos por uma conversão barata. Nesta
fase, o próprio Deus bloqueou o retorno. É compreensível que Isaías tenha perguntado por quanto
tempo teria esta tarefa terrível. A resposta: até seu pleno êxito, isto é, até o insucesso total da
pregação, até que a árvore velha caísse, o toco ficasse descoberto dando lugar a um broto novo (v.
11-13). Assim a Palavra de Deus mata para revivificar. Um dia os surdos haveriam de ouvir e os
cegos de ver (Is 42.20; 43.8).
Vista de perto, a pregação de condenação de Isaías, levada ao extremo, foi um último chamado ao
arrependimento. O mesmo aconteceu com Jesus. Ele iluminou a profundidade do conflito que se
abria, o discernimento de espíritos desejado por Deus e causado pelas pessoas, para mais uma vez
construir a ponte (também cf. 4.33). Um paralelo em Ap 22.11 pode esclarecer esta atitude.
Assombrados por lermos algo assim na Bíblia, encontramos ali a exortação de continuar fazendo
injustiça e sendo imundo. Mas o sentido é: Se você está disposto a não se deixar advertir, então
continue em frente! “O que pretendes fazer, faze-o depressa” (Jo 13.27). Torne-se totalmente o que
você é e reconheça-se como quem você é e assuste-se consigo mesmo, para sua salvação! É assim
que o amor suplica, apaixonado, preocupado, despertador. A favor deste sentido fala também o fato
de que as ameaças sempre são acompanhadas de promessas ou testemunhos jubilosos da graça (aqui
v. 11a e e Ap 22.14). Tanto menos cabe a nós atenuar as ameaças.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!