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26 As figuras da lâmpada e da medida, Mc 4.21-25

As figuras da lâmpada e da medida, Mc 4.21-25 
(Mt 5.15; 7.2; 10.26; 13.12; Lc 8.16-18; cf. Mt 25.29; Lc 11.33; 12.2; 6.38; 19.26)

21-25 Também lhes disse: Vem, porventura, a candeia para ser posta debaixo do alqueire ou da 
cama? Não vem, antes, para ser colocada no velador? Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça. Então, lhes disse: Atentai no que ouvis. Com a medida com que tiverdes medido vos medirão também, e ainda se vos acrescentará. Pois ao que tem se lhe dará; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.

Em relação à tradução
     a
          Para imitar a assonância entre os vocábulos gregos para lâmpada e suporte (lychnos e lychnia) e
expressar sua afinidade, poderíamos traduzir “lustre” como portador da luz, o que, porém, nos faria pensar
em nossos belos lustres de sala. O objeto em questão é a lâmpada simples de barro, que usava óleo como
combustível e não podia faltar em nenhuma casa. Ela era colocada sobre um pedestal de metal ou madeira
para fornecer um pouco de luz para toda a casa de um cômodo só (Mt 5.15!). O artigo antes de “candeia” e “velador” não identifica um objeto definido e conhecido, mas tem um sentido geral no contexto semita.
     b
     modion (do latim) significa primeiro “medida”, depois o utensílio de medir, muitas vezes traduzido por
“alqueire” (palavra antiga para “recipiente”). Nele cabiam uns 9 litros de cereal e ele era indispensável em
uma casa judia até para medir o dízimo. Era costume colocá-lo por cima da luz para que as vigas do teto não pegassem fogo, apagar ou ocultar a luz de inveja dos outros moradores. O primeiro caso não se aplica aqui nem o segundo, já que a luz acabou de ser acesa. O terceiro se aplica. Muitas vezes várias famílias
conviviam em uma casa destas.
     c
     kline pode significar desde uma esteira primitiva até uma liteira feudal. Aqui devemos pensar em
condições de vida simples: as camas dos moradores são esteiras, isto quando um manto não tinha de bastar.
Colocar a lâmpada debaixo de “camas” como estas eqüivaleria a pôr fogo na casa. Talvez pensa-se em um
sofá estofado de madeira para pessoas alquebradas (Gn 48.2) ou usados em banquetes (14.3,15,18).
     d
     “oculto, manifesto, revelado” (cf. “mistério” no v. 11) são expressões da linguagem das sociedades
secretas judaicas sobre as quais Jeremias, Abendmahl (p 119-125) nos informa. Por ocasião da admissão em uma destas sociedades era preciso comprometer-se com juramentos e maldições a jamais transmitir certos ensinos e práticas destas seitas a pessoas de fora. Durante as refeições nenhum não-iniciado podia entrar na sala. Além disso, naquela época existia literatura secreta abundante, que circulava em certos círculos e se expressava em código (“Apocalipses”, cf. opr 3 a 2.1-12). Por último, o prestígio dos professores da lei da época de Jesus (cf. 2.6) não por último residia em que eram portadores de segredos. Eles levavam em consideração, p ex, se entre os seus ouvintes havia pagãos. Alguns ensinos eles só passavam sussurrando e só para um ou dois de cada vez, que tinha de ser uma pessoa seleta e madura. Os motivos para o mistério eram de ordem política, pedagógica mas, acima de tudo, religiosa. Quanta mais santa uma coisa era, tanto menos pessoas podiam ter acesso a ela. Neste clima de mistério religioso olhava-se de cima para baixo para os srs. João-Ninguém, excluíam-se os “muitos” (contraste com 10.45).
     e
     Lit “vede”, o que é um contra-senso: não se pode ver uma expressão acústica. No entanto, “ver” tem
aqui uma função espiritual: Esforcem-se para não ver de qualquer jeito! (cf. Lc 8.18).
     f
     O povo era pobre, o dinheiro escasso, de maneira que muitos pagamentos eram feitos em espécie. Por
isso no mercado havia um movimento inimaginável de barganhas por preços, tipos de dinheiro, mas também
pelas medidas. Uma medida de comprimento, p ex, que está sempre à disposição, é o braço da pessoa.
Todavia, há pessoas com braços longos e outras com braços curtos. Para medir uma mercadoria que seria
vendida chamava-se alguém de braço curto, para que o lucro fosse maior, mas para medir a compra
respectiva este estava ausente, de modo que outro de braço mais longo tinha de servir. Naturalmente a outra
parte insistia no uso da mesma medida. A mesma coisa acontecia com medidas de volume. Cada família
tinha o seu recipiente, mas todos eram diferentes. A desconfiança era grande, assim como a intenção de
ludibriar. As diferenças também podiam ser obtidas sacudindo e apertando bem um recipiente, para colocar
mais nele (Lc 6.38).
Observações preliminares
1. Unidade. Como mostra a comparação entre os sinóticos (cf. as passagens sob o título), nossas quatro
máximas aparecem isoladas e com pequenas mudanças em várias passagens de Mateus e Lucas, em diversos
contextos e também com sentidos diferentes. Ao mesmo tempo pode-se provar que Jesus colocava a seu
serviço ditos da sabedoria popular. Lâmpada e medida, que estavam diariamente diante dos olhos em todas as
casas, naturalmente integravam a linguagem figurada geral, assim como o princípio comercial importante de
“medidas iguais” (Bill. I, 231,236s,444ss,660ss). Jesus falava a língua do seu povo. Aqui, porém, as quatro
máximas formam um só bloco. Ao fazer seguir duas vezes a uma figura (v. 21 e 24, com introdução
semelhante) um comentário (v. 22 e 25, iniciados por “pois”) provido de um chamado à atenção (v. 23 no fim,
v. 24a no começo), surge uma comparação paralela intencional. Ambos também são unidos pela palavra-chave
“medida” (v. 21 “alqueire” e v. 24). Esta formação do texto propõe também a unidade do conteúdo. Por isso a
interpretação não se deveria deixar desviar pelos paralelos.
2. Contexto. A introdução “também lhes disse” (v. 21 e 24) une o trecho para trás com os v. 11 e 13,
portanto, com o ensino ainda restrito aos discípulos desencadeado pela pergunta deles no v. 10. Por outro lado,
o “disse ainda” mais geral (sem o “lhes” que se refere aos discípulos) dos v. 26 e 30 introduz novamente a
pregação pública a partir do bote. Contudo, também há palavras-chave que vinculam nosso trecho à instrução
dos discípulos “mistério” e “oculto” (v. 11 e 22) e “dado” e “dará” (v. 11 e 25). Não por último, o tema do
“ouvir” é continuado (v. 9,15,16,18,20 e, aqui, v. 23,24). Deste modo, nosso trecho contribui com mais
esclarecimentos para a comparação do semeador. Com isto a ênfase passa mais da Paixão para a ressurreição,
isto é, para o v. 9 da parábola, repetido no v. 20 quase sem interpretação. É verdade que aparece uma mudança
de estilo. A partir de agora Jesus deixa o tom de ensino de exposição objetiva. As perguntas do v. 21 já
incluem os discípulos, a ordem dos v. 23,24 é um apelo, e o discurso direto do v. 24 é uma exortação séria.
     21     Também lhes disse: Vem, porventura, a candeia para ser posta debaixo do alqueire ou da
cama? Esta vinda misteriosa da lâmpada como se fosse uma pessoa, Mateus e Lucas e alguns
copistas de Marcos evitaram. Mas ela tem seu sentido. “Vir” muitas vezes é um termo com nuances
messiânicas: Deus vem, seu reinado vem, o Messias vem (cf. 1.7,24,38; 2.17; 9.1; 10.45; 11.10;
14.62). Este sentido é muito provável aqui já que se fala da vinda da candeia, difícil de separar do
simbolismo da luz. O judaísmo festejava profetas e professores da lei como “lâmpadas”, assim como
personagens como Abraão e Davi. Em Jo 5.35) João Batista é chamado assim, e em Ap 21.23 diz
que, na última cidade, “o Cordeiro é a sua lâmpada”. O fundo para o uso messiânico pode ser
encontrado em passagens do livro da Consolação de Israel. Ali é dito nas horas mais escuras:
“Tornarei as trevas em luz”, “resplandece, porque vem a tua luz” (Is 42.16; 60.1). Ela vem na pessoa
do Servo de Deus, que Deus tornou em “luz para os gentios” (Is 42.6, 49.6). Especialmente João
anuncia o cumprimento em linguagem de luz. Segundo Jo 12.46 (cf. 3.19), Jesus une “luz” com “vir
para o mundo”: “Eu vim como luz para o mundo”.
Importante na pergunta de Jesus é o destaque da intenção com para, repetido na segunda metade
da pergunta dupla mais uma vez, na explicação subseqüente. Se uma pessoa normal já não leva uma
lâmpada para o escuro com a intenção de ocultar ali seu brilho e manter a escuridão, quanto menos
Deus, que é luz e só luz! Não vem, antes, para ser colocada no velador? Com Deus as coisas
acontecem corretamente; ele não tem predileção pelo contra-senso. Por isso: o lugar da lâmpada é no
suporte!
É verdade que no caminho de Jesus os absurdos pareciam triunfar. Deus vem? Mas as trevas
marcham acelerado! O cap 3 acabara de mostrar o povo sendo embebido com o veneno da calúnia e a
retirada de Jesus (cf. 3.7) para um grupo pequeno de pessoas sem influência. Será que sua causa
agora estava achando o seu lugar na série de sociedades secretas judaicas? (cf. v. 22n). Já não tinham
soado termos característicos destas sociedades, como “mistério, dentro e fora” (4.11)? Com a figura
da lâmpada, Jesus se distanciou de modo veemente e fundamental do esoterismo. O reinado de Deus
proclamado por ele é realmente reinado de Deus e, por isso, alcançará toda a criação. Assim como a
água cobre o fundo do mar sem deixar de fora um único trecho, a realidade de Deus preencherá o
universo (Is 11.9; 1Co 15.28). Este é o propósito do começo até o fim, “por mais escuro que seja o
teu caminho, ó Santo”.
     22     Este propósito final do versículo explicativo contrapõe-se com certeza absoluta aos disfarces e
falácias: Pois nada está oculto, senão para ser manifesto; e nada se faz escondido, senão para
ser revelado. O que parecia ser assunto interiorano torna-se questão universal. O que é sussurrado na
orelha dos discípulos haverá de conquistar os telhados do mundo (Mt 10.27). O caminho através de
insignificância e esquecimento ainda não recebe uma explicação, mas não muda nada na
determinação de Deus (para!), pelo contrário, serve-lhe. O tempo no solo escuro é essencial ao grão,
se quiser um dia balançar à luz do sol a espiga carregada.
     23,24     O primeiro grito de alerta: Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça! conclui a primeira
máxima e a caracteriza como palavra de sentido profundo, que quer ser recebida por corações bem
despertos (cf. v. 9 e opr 2 a 4.3-9). Isto, porém, também vale para a exortação resultante dela. Então,
lhes disse: Atentai no que ouvis. Com a medida com que tiverdes medido vos medirão também,
e ainda se vos acrescentará. O passivum divinum (cf. 2.15) indica que o próprio Deus é o “parceiro
de negócio” dos discípulos, em relação ao qual eles usam certa medida (cf. nota b). É a medida da
sua disposição para ouvir. Eles devem manuseá-la da maneira mais generosa possível e estar sem
reservas à disposição da revelação. Deus provará ser, isto ele promete, um parceiro verdadeiro,
generosíssimo. Com ele dá para fazer bons “negócios”. Sem usar a figura: vale a pena levar Deus a
sério. A medida com que ouvimos torna-se medida na nossa compreensão crescente e do nosso fruto.
     25     A mesma coisa, no entanto, também vale no sentido inverso, de modo que chegamos a uma
seriedade final: Pois ao que tem se lhe dará; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. O
que o ser humano tem no sentido positivo é, à luz do v. 24, o ouvir paciente e continuado. Então ele
também participará da Páscoa, poderá contar com a ressurreição para suas ações, orações e
sofrimentos. Mas quem resiste ao amor de Deus como em 10.22 e vai embora mal-humorado, não
reterá nada do seu encontro com Jesus além de uma lembrança que o incomoda. Verdades que
entendemos uma vez podem tornar-se novamente obscuras, podemos perder sementes espirituais. No
dia em que à nossa volta as carroças da colheita seguirem carregadas para os depósitos, em nossa
lavoura só haverá mato para queimar. Assim se encerra o grande parágrafo da comparação do
semeador.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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