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27 A comparação da semeadura que cresce por si, Mc 4.26-29

A comparação da semeadura que cresce por si, Mc 4.26-29

26-29 Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra;      depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele comoA terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio 
na espiga. E, quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa.

Em relação à tradução
     a
     Este “se” é indispensável, apesar de faltar no texto (Bl-Debr, § 380.4; WB, 1774); dele dependem os
cinco conjuntivos dos v. 26s. Manuscritos posteriores o (re)introduziram, depois que um copista antigo o
deve ter deixado de fora sem querer. O equívoco é compreensível, pois à palavra grega para “se” (an) segue
outra com o mesmo som inicial (anthropos). Era fácil para o olho do copista pular para a segunda sílaba
igual (haplografia).
     b
     A forma do aoristo aponta para um processo concluído. Todos os outros verbos estão no tempo
presente e, assim, atraem a atenção sobre si.
     c
     A noite não é mencionada primeiro porque, para o agricultor, dormir fosse prioritário, mas porque,
para os judeus da época de Jesus, o dia começava com o anoitecer.
     d
     “Ele” com certeza refere-se ao agricultor, não ao grão (diferente do que pensam Rienecker,
Wohlenberg).
     e
     hos deve ser traduzido aqui, com WB 1776, por “enquanto” ele não sabe como. Para a tradução em si
atraente “não sabendo ele como” ou “sem que ele saiba como” (BJ) a posição das palavras no grego é muito
incomum.
     f
     O grego automatos atrai a tradução “automaticamente”, mas isto desperta facilmente a lembrança de
autômatos robotizados. O sentido básico é simplesmente: sem auxílio estranho.
Observações preliminares
1. Contexto. Com “disse ainda”, no v. 26, começam novamente as parábolas ditas para a multidão à beira
do lago (v. 1). Como comparações da semeadura, as duas parábolas que seguem agora constroem sobre a
grande comparação do semeador, como se formassem pares com ele. Eles, entretanto, desviam-se totalmente
dos momentos negativos entre semeadura e colheita e tratam somente do destino da semente que produz fruto,
limitado ao período do seu crescimento. A colheita é ainda mencionada no v. 29, mas sem que se detalhe sua
produtividade como no v. 9.
2. Interpretações. A parábola fala do semeador sem demonstrar qualquer interesse em sua identidade: “um
homem” lançou as sementes na terra. Não é possível ser mais geral e descorado. Esta dica quer ser entendida e
impedir que os intérpretes comecem exatamente perguntando quem poderia ser este personagem sem rosto.
Será que é Deus, o próprio Jesus ou seus discípulos? Cada um dos três tem seus defensores na história dos
comentários, mas acaba atolando em algum lugar do texto ou o força. No v. 27, p ex, o homem aparece bem
humano, enquanto no v. 29 transparece o juiz do mundo, pronto para o julgamento final. É evidente que a
parábola não tem seu cerne nesta pessoa.
3. Ponto central. Na parábola, a ação marca passo em um ponto” o v. 28 não avança mais, mas só explana
o tema atingido no v. 27, que é o fruto que o grão deu. Este processo ele coloca sob o título “por si mesma”.
Também em termos de estilo o v. 28 se destaca. Todas as outras afirmações, antes e depois, estão formuladas
com frases condicionais. Aqui uma afirmação direta chama a atenção para si. Esta observação serve de
orientação para o comentário.
     26,27     Disse ainda: O reino de Deus é assim… Não só a primeira ação mencionada, mas todo o
acontecimento seguinte está incluído na comparação, e dele deve concluir-se o ponto central. Jesus
apresenta a ocorrência com uma longa frase condicional, que passa por cinco verbos de movimento:
como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de
dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A ação, que somente se contenta
com a referência ao agricultor que não sabe, quer ser acompanhada com rapidez, sem deter-se em
cada detalhe. O verbo “lançar” em lugar de “semear” não tem o sentido de jogar fora com
desatenção. Tampouco como nos v. 3-9, Jesus não apresenta o camponês em tom negativo. Desta
vez, porém, ele não o mostra à luz das vicissitudes que o cercam, mas descreve sua situação após a
semeadura. Ele dorme: sua passividade é destacada mais que sua atividade, pelo menos com relação
à semeadura. Naturalmente ele se levanta de noite e de dia e se ocupa de outros trabalhos. Mas no
que tange à sementeira, ele está tranqüilo, adormece bem à noite, repousa profundamente e com
saúde até que amanhece e acorda descansado. Todavia, seria errado pensar que aqui estamos diante
de um exemplo de “agricultor preguiçoso”, indiferente com a semeadura. Acontece exatamente o
contrário: ele é indiferente para a semente. Aquilo de que ele precisa agora, que é o crescimento, é
Deus quem dá. Só Deus pode dá-lo, e ele quer fazê-lo. Por isso o agricultor não se preocupa, não fica
cavando atrás dos grãos, não toma providências idiotas para apressar o processo, mas tem um dia
normal e uma noite tranqüila. Assim, a semente germina e cresce, não sem Deus, mas sem o
agricultor. Em seguida, este pensamento é levado ao extremo: o crescimento acontece não só sem sua
ajuda, mas até sem seu conhecimento: não sabendo ele como. É claro que o homem experiente sabe
teoricamente que a semente brota e cresce, pois espera ansiosamente pela colheita. Mas ele não o
sabe no sentido de que isto não ocupa constantemente sua consciência. A semente cresce às suas
costas, sem que ele o veja. O verbo “saber” também pode ser traduzido por “compreender”. A
germinação, o alongamento da haste e a formação da espiga subtraem-se ao entendimento do
agricultor. Centímetro por centímetro, o crescimento é para ele um milagre, distante da compreensão
e da capacidade humanas.
     28     Ao chegar neste ponto, Jesus sublinha a idéia com destaque: A terra por si mesma frutifica:
primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. Esta “por si mesma”, que
exclui a atividade e a responsabilidade humanas, não celebra a “mãe terra” fértil ou o poder
germinativo indestrutível da semente. Isto seria um desvio do fundo do AT, que devemos pressupor
para Jesus e seus ouvintes. De acordo com o AT, nenhuma parte da criação, nem mesmo uma
semente, dispõe de vida própria. Pelo contrário, o crente vê nos processos da natureza a cada
momento a intervenção direta de Deus. A semente só cresce “por si mesma” no tocante à
independência do ser humano, mas acionada por Deus. Neste sentido, a expressão nos conscientiza
do poder incrível de Deus. Seus impulsos permeantes efetuam o crescimento em todos os seus
estágios, até o amadurecimento completo.
     29     E, quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa. De
repente o camponês volta à cena. O sinal para ele é o cereal maduro. Com isto é novamente sua vez.
Tempo de colheita. As expressões trazem ecos do AT. Por um lado a colheita é uma figura do
julgamento. “Ele mete a foice” alude ao capítulo final do livro de Joel (3.13). Ali o profeta descreve
o juízo final dos opositores de Deus e a aurora do reino, recorrendo às cores douradas da colheita.
Em meio a isto ressoa o grito: “Lançai a foice, porque está madura a seara!” (cf. Ap 14.15,18).
É verdade que Jesus não relaciona expressamente seu anúncio com a passagem do AT. Há só uma
lembrança, sem citação do conteúdo todo. Em Joel, o grito, p ex, é de vingança: Finalmente haverá o
acerto de contas! (Jl 3.4,7). Com Jesus, porém, a exclamação não tem inimigos em vista. A parábola,
diferente da comparação do semeador, desfaz as resistências ao reinado de Deus (opr 1). Igualmente,
há uma diferença com a convocação para a colheita na parábola de Mt 13.30, que tem em vista a
eliminação das ervas daninhas. O chamado da foice é aqui uma exclamação de júbilo em vista das
espigas carregadas de grãos. É que no AT a colheita também pode significar alegria indizível (Is 9.2).
Com isto chegamos à interpretação. Ela tem a ver com o v. 28, tão central em nosso panorama
(opr 3). Ali está o centro da parábola e sua mensagem. A expressão antecipada “por si mesma”
mostra o ponto em que o ouvinte deve aprender algo sobre o reinado de Deus. Ele é totalmente um
evento a partir do segredo de Deus. Visível foi só a exclamação e, com isso, seu início na pregação e
nos atos de Jesus (1.39), tão minúsculo como grãos de sementes lançados no solo escuro. Sua
consumação será agora ação maravilhosa de Deus, sem auxílio de mãos e esperteza humanas. Neste
sentido Jesus encaminhava-se confiante para um “por si mesmo” grandioso e a colheita festiva que
seguiria. A ação de Deus aconteceu na Sexta-feira da Paixão e na Páscoa; a partir de 8.31 Jesus
ensinou isto com clareza crescente. A colheita festiva tem um cumprimento preliminar nas missões
após a Páscoa (com a figura da colheita p ex Mt 9.37s; Lc 10.2; Jo 4.35) e seu cumprimento final na
chegada do Filho do homem (Mc 13.27).
Esta é a interpretação cristológica da parábola (opr 4 a 4.1,2). Entretanto, da cristologia sempre se
podem tirar conclusões eclesiológicas (cf. 4.9 fim). Cristo, com esta parábola, está colocando sua
igreja, como a si mesmo, debaixo de Zc 4.6: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito,
diz o Senhor dos Exércitos”. Esta interferência do Espírito os discípulos só podem pedir em oração,
testemunhar, louvar e sofrer, jamais provocar e produzir. A predileção de falar do nosso “trabalho no
reino de Deus” deve ser totalmente questionada. O que é decisivo acontece sem que participemos e
vejamos.
O discípulo do tipo certo também não quer o que não pode. Ele não quer um paraíso fabricado por
ele mesmo. Depois que andou por todos os caminhos próprios e retornou humilhado, ele tem fome e
sede da vinda do próprio Deus. O conceito oposto seria, p ex, um tipo de zelotismo (cf. 1.5; opr 5 a
1.16-20 e opr a 12.13-17). Ao “por si mesmo” divino opõe-se diametralmente a conversa de
“apressar o fim”. Jesus pode ter aludido a isto em Mt 11.12 (Bill. I, 599; Hengel, Nachfolge, p
64,66). Este pensamento passa por toda a história da igreja até hoje: há um fascínio pela palavra
“força”. Do outro lado, o farisaísmo tenta apressar a vinda do reino não pela força, mas pela
obediência (opr 4 a 2.13-17; opr 2 a 1.2-8). A luta pela programação é renhida: obediência à lei em
todo Israel, até ao pontinho do “i”. Esta versão também acompanha a igreja como perigo atemporal.
Tenciona-se manipular o Espírito Santo com dedicação religiosa fervorosa.
Seguindo a Cristo, a gente finalmente se torna normal. Como Deus não ficará devendo sua
atuação, podemos afirmar nossa humanidade, nossa incapacidade e a do outro. Acontecem muito
mais coisas do que fazemos e sabemos. Assim, podemos realizar tranqüilos nossas pequenas ações,
na confiança das grandes ações de Deus. Entre nossa semeadura e uma colheita transbordante estão
os milagres de Deus. Assombrados, balbuciaremos naquele dia: “Grandes coisas o Senhor tem feito”
(Sl 126.2).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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