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28 A comparação do grão de mostarda, Mc 4.30-32

A comparação do grão de mostarda, Mc 4.30-32 
(Mt 13.31,32; Lc 13.18,19)

30-32 Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terramas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra.

Em relação à tradução
     a
     Dificilmente se pode pensar na árvore de mostarda (Salvadora persica), uma planta de estepe pouco
conhecida, por causa da relação com as “hortaliças” cultivadas (v. 32). A mostarda escura (Sinapis nigra) é
mais provável. Ela era plantada no “campo” (Mt 13.31), tanto para uso dos seus grãos como tempero,
remédio ou alimento para os pombos, como na “horta” (Lc 13.19) para uso dos seus brotos como legume
(diferente de Bill. I, 660). A mostarda crescia do grão minúsculo de um milímetro até o tamanho de uma
folhagem que atingia 3-4 m de altura nas margens do lago da Galiléia. Por isso podia-se falar figuradamente
de uma “árvore” (Mt 13.32, Lc 13.19). Segundo Bill. I, 656, um rabino informa: “Havia no meu terreno um
caule de mostarda no qual pude subir como se fosse a ponta de uma figueira”.
     b
     Certamente será possível apresentar sementes menores, p ex de papoula, mas talvez se pense aqui nas
verduras da horta. Estes o povo tinha sob os olhos, na busca de comparações e provérbios. Assim o grão de mostarda tornou-se figura para algo proverbialmente pequeno (Bill. I, 669). A isto podia-se vincular outras sensações. Em Lc 17.6 o grão de mostarda é contrastado com a amoreira, cujas raízes eram consideradas especialmente fortes. Assim, à pequenez juntam-se fraqueza, impotência, miséria; cf. também o contraste com o “monte”, o reino poderoso em Mt 17.20.
     c
     Lohmeyer, Matthäus (p 216) argumenta que no pé de mostarda nunca foram encontrados ninhos de
pássaros. Segundo Pesch I, 262, os pássaros não os faziam nos galhos da planta, mas no chão, à sua sombra.
Observação preliminar
Contexto. Enquanto na primeira parábola da semente a ênfase estava no processo de semeadura e na
segunda no crescimento da semente, na terceira ela passa para o seu resultado final. No que tange ao
“semeador” do v. 3, que empalideceu para “um homem” no v. 26, aqui ele desapareceu completamente do
texto, mesmo que se faça questão de preservar sua obra, a semeadura (v. 31 e 32). Também o crescimento, que nas duas primeiras parábolas é desenvolvido em todas as suas condições e estágios, o texto grego resume em uma palavra: “cresceu”. Leva-se em consideração somente o fato de semeadura e crescimento, depois o olhar
se volta para o fim, pintado com todas as cores. A parábola vive deste contraste: do nada sai uma coisa tão
grande! O que une as três parábolas é o fato de que provêm do contexto em que o ser humano não pode fazer
nada, mas no qual pode confiar plenamente. Assim é a vinda do reinado de Deus.
     30     Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos?
Talvez com o auxílio de uma montanha elevada como Daniel ou de uma árvore gigantesca como
Ezequiel? Nesta direção é que os pensamentos se voltavam automaticamente, naquela época
(Foerster, ThWNT V, 479). Jesus a provoca com sua pergunta comunicativa dupla, para chocá-la em
seguida. Vista deste lado, esta parábola é um ápice apesar de ser tão curta.
     31     É como um grão de mostarda. Este é considerado sem ilusões, na condição em que é semeado:
que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terra. O reinado de Deus é ponto
culminante isolado, certamente, mas voltado para baixo. O maior de todos aparece como o menor.
     32     Uma segunda vez, numa repetição misteriosa, a semente minúscula é exposta: mas, uma vez
semeada. Então, sim, sua forma final lhe é contraposta: cresce e se torna maior do que todas as
hortaliças. Com isto o contraste entre início e consumação é mostrado com grande efeito.
Esta parábola também desemboca em uma expressão do AT (cf. v. 29). Novamente não temos uma
citação completa, somente uma insinuação de vários paralelos do AT, de modo que a parábola se
torna translúcida para todo o amplo horizonte bíblico (Ez 17.22s; 31.6; Dn 4.9,18; Sl 104.12). E
deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra.
Como resultado acabamos tendo a árvore do reino de Deus, exatamente no lugar onde estava o
grão de mostarda, onde a razão humana jamais o teria imaginado. Com sua copa ampla e cheia de
vida até as pontas, a árvore prefigura um grande reino, no qual todos convivem em paz. As aves,
neste contexto, não são de Satanás como no v. 4 mas, como em Ez 31.6, “todos os grandes povos”. O
conceito do reinado escatológico de Deus requer a inclusão dos povos pagãos. A sombra, no
contexto, certamente não é a da morte, mas a proteção contra o sol abrasador (Sl 121.6), ao qual as
criaturas de outra forma estariam expostas sem misericórdia. A vida se torna possível em todo lugar.
A interpretação resultará cristológica, em todos estes contextos. Deve-se falar da entrada em cena
de Jesus como um grão de mostarda. Ele trazia dentro de si um segredo: a ação de Deus que abrange
e inclui o mundo todo. Exatamente este perseguido, que pessoalmente não tinha onde reclinar a
cabeça, este que foi expulso para a cruz, criou para todos um lar junto a Deus (Jo 14.2). Quem se
deixou ensinar sobre o que é próprio do reino de Deus, através do que é próprio da semente de
mostarda em Jesus, pára de querer torná-lo mais atraente. Ele também não achará que a igreja terá
senhorio mundial, nem que a pregação transformará o mundo. Ele não equiparará a ekklesía à
basiléia, ao reinado de Deus. A igreja é somente “primícia”, princípio como um grão de mostarda.
Este princípio, porém, já contém em si o resultado. A semeadura já é vitória.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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