Pessoas que gostam deste blog

31 A cura do endemoninhado de Gerasa, Mc 5.1-20

A cura do endemoninhado de Gerasa, Mc 5.1-20
(Mt 8.28-34; Lc 8.26-39)

1-20 Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos gerasenosAo desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um homem possesso de espírito imundoo qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém podia prendê-loporque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras. Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou     exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! Porque Jesus lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país. Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos. E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram. Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos campos. Então, saiu o povo para ver o que sucedera. Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram. Os que haviam presenciado os fatos contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado e acerca dos porcos. E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles. Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora  endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti. Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam.

Em relação à tradução
     a
     Cf 4.35.
     b
     Os manuscritos vinculam o homem, aqui como também nos textos paralelos, a três localidades
distintas: Gerasa, Gadara e Gergesa. Em Marcos predomina Gerasa, em Mateus Gadara e em Lucas Gergesa, mesmo que não muito. Portanto, não é possível determinar o local original a partir dos manuscritos. Temos de recorrer a outras reflexões. O homem pode ter sido da Gerasa, que era famosa naquela época, mas que dificilmente é a cidade mencionada no v. 14. A distância até lá era muito grande (dois dias de viagem, 55 km). O pequeno povoado de Gergesa, porém, cujas ruínas até hoje podem ser visitadas à margem do lago, é
considerado o local do evento desde o século III. Dois quilômetros ao sul há uma ladeira íngreme de 44 m de altura, distante 30 a 40 m do lago. Eusébio, porém, diz que Gergesa, diferente do v. 14, era uma “aldeia”. Por
isso outros optam por Gadara, a 10 km dali e capital da Peréia na época, que dava o nome de “terra dos
gadarenos” (Mt 8.28). De acordo com Josefo, a região desta cidade chegava até o lago, e algumas moedas da cidade que foram encontradas retratavam barcos.
     c
     hypantao não deve ser traduzido por “opor-se” aqui. De acordo com o v. 6, não estamos diante de uma
intenção agressiva.
     d
     Cf 1.23n.
     e
     A tradução que se recomenda para o imperfeito deste verbo é a do mais-que-perfeito (cf. Bl-Debr, §
330), de forma que aqui, até o v. 5 inclusive, são recordados eventos que antecedem ao que é relatado no v.
2. Faz parte do estilo de narrativa de Marcos acrescentar acontecimentos anteriores, à guisa de explicação, só
quando isto se torna necessário, muitas vezes com um “porque” (1.16c; 3.21; 5.28,42; 16.18,20; 15.10; em
nossa história ainda nos v. 8 e 11). Os imperfeitos dos v. 8-10, por sua vez, estão todos em verbos de dizer e
pedir, para expressar intensidade (Bl-Debr, § 328).
     f
     Enquanto no v. 2 Marcos acabou de usar mnemeion para “sepulcro”, que também é o termo que ele
costuma usar (6.29; 16.2,3,5,8), aqui temos mnema, e mais uma vez no v. 5. Talvez aqui haja uma alusão a Is 65.4, onde a LXX também tem mnema. Ali morar entre os túmulos e comer carne de porco é estigmatizado como repugnantemente pagão.
     g
     Quanto à seqüência, cf. 4.27n.
     h
     Lit. “inclinar-se” até encostar a testa no chão, movimento do corpo que já em todo AT indica prestar
homenagem (cf. Mc 15.19).
     i
     Lit. “o que (há entre) mim e ti?”, fórmula de separação explicada em 1.24.
     j
     Palavra emprestada do latim (legio, maior unidade do exército romano, com perto de 6.000 homens).
     l
     A mudança de “rogou-lhe” no v. 10 para “rogaram-lhe” condiz com a condição de um endemoninhado;
cf. 1.24.
     m
     hormao descreve o movimento impetuoso, incontrolável pela razão humana; cf. At 7.57; 19.29.
     n
     Cf 1.45n.
     o
     Nos v. 15 e 16 o que fora curado podia continuar sendo chamado de “endemoninhado”, para abreviar.
Aqui chama-se a atenção para o fato de que a antiga existência é coisa do passado, e algo novo começou.
     p
     Decápolis (“As Dez Cidades”), uma associação de cidades dalém do Jordão, habitada principalmente
por gregos e sírios e que constituía um cinturão de fortalezas contra os habitantes do deserto a leste, que
sempre se rebelavam. A região não estava sujeita aos herodianos, mas aos governadores romanos na Síria, e
gozava de alguns privilégios. Os judeus eram minoria nesta região e faziam parte da classe baixa.
Observações preliminares
1. Contexto. O leitor atento perguntará, no v. 1, pela hora do dia. Como eles partiram “sendo já tarde”
(4.35), agora deveria ser noite, e tudo o que segue deve ter sucedido no escuro: o encontro com o
endemoninhado, a fuga dos pastores para a cidade e as aldeias, a multidão que se ajunta e a partida de Jesus. A
solução que se propõe, que Jesus só tenha chegado na manhã seguinte, precisa ser descartada em vista da
distância de só oito a dez km. Deve ser procedente que as histórias dos evangelhos empalideceram nas bordas
(começo e fim) no transcurso da tradição, o que pode ser comprovado em vários exemplos. Ao serem
colocadas juntas, na medida do possível foram criadas transições de tempo e lugar, mas essencial é sua
composição temática. Aqui, a um testemunho do domínio de Jesus sobre a tempestade, segue um
acontecimento que testifica que ele é senhor sobre os demônios (cf. opr 1 a 4.35-41).
2. Atualidade. A opr 3 a 1.21-28 já mostrou como Marcos destaca a expulsão de demônios como
verdadeiro ato de cura de Jesus, para seus leitores cristãos gentios. Neste sentido, aqui estamos diante de um
ponto alto. Em nenhuma outra passagem do NT temos uma descrição tão marcante do poder das trevas e da
vinda vitoriosa de Jesus. Muitos leitores de Marcos em toda a sua vida não encontram nenhum caso de
verdadeira possessão, pois se trata de casos extremos raros de destruição da personalidade, de demonstrações
especialmente atrevidas do mal – sem máscaras e caprichos. Mesmo assim nosso texto tem um sentido
adicional, excedente.
Em primeiro lugar, ele confere certeza: se Jesus é vitorioso sobre este ápice de poder satânico, então ele
também está à altura de todos os graus e degraus abaixo deste ápice. Então também podemos ter esperança em
meio à total confusão interior de um viciado, a famílias falidas ou a sobrecarga profissional e a outras crises da vida.
Em segundo lugar, sugere-se uma aplicação à condição humana geral de perdição no pecado. Paulo a
descreve em Rm 7 com as categorias da possessão: “Não faço o que prefiro, e sim o que detesto. […] Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. […] Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. […] Desventurado homem que sou!” (Rm 7.15,17,20,24). É possível ser saudável de corpo e alma, instruído e comportado, respeitado e aceito, e mesmo assim ter experiências com uma “força de ocupação” invisível, que nos aliena e não nos deixa viver a vida para a qual existimos. Não conseguimos lidar conosco mesmos, com nosso coração e nossos impulsos. A
conseqüência é um comportamento contraditório e autodegradação. Tornamo-nos insuportáveis para nós
mesmos e para os outros. O número dos que nos suportam é pequeno e vai diminuindo. A decadência é
evidente. É como se houvesse um propósito de destruir-nos. Para estes insuportáveis é que Jesus existe em
tempo integral. Por isso podemos tranqüilamente ler esta história de exorcismo para nós mesmos.
Em terceiro lugar, esta história ultrapassa a atualidade individual. Enquanto o exorcismo de 1.21-28 se
aplicava à condição geral do judaísmo das sinagogas, representando o mundo religioso e devoto de qualquer
lugar, este endemoninhado evidentemente está em lugar de todo o paganismo. Para constatar isto, é só prestar
atenção nas ênfases da descrição. Seu comprimento chama a atenção, e não é resultado de devaneios, pois
poderia igualmente ser curta. Falta algo em termos de introdução, como talvez em 3.8; falta também a ordem
de silêncio para os demônios. Além da informação de que estavam presentes (v. 1,16), não sabemos nada
sobre os discípulos, e também não sobre a origem das roupas no v. 15. Por outro lado, o texto fala
constantemente de um ambiente pagão, por meio de indicações geográficas (v. 1,20), menção ampla da
criação de porcos (v. 11-14) e detalhes em 3s e 6s. Também a referência tríplice à impureza faz parte deste
contexto (v. 2,8,13), bem como a insistência em que o caso era especialmente difícil (v. 3-5,9-13). Por último,
chama a atenção a conclusão longa e sem analogias (quase um terço, a partir do v. 14). Deve haver uma
intenção especial por trás disto. Este homem, que representava a humanidade sem Deus, perseguido, oprimido,
torturado, enlouquecido e arruinado por uma horda de espíritos de todos os tipos, este mesmo homem aponta
para a esperança da restauração da figura humana. Quando Jesus parte da região, este homem fica para trás
como profecia de uma comunidade da salvação (v. 15) e de testemunhas (v. 20).
3. Crítica do conteúdo? Já no século III, o filósofo pagão Porfírio criticou nosso parágrafo com escárnio
amargo e racionalismo escancarado (em seus escritos polêmicos contra o cristianismo em quinze volumes,
fragmento 41). Na mão de intérpretes mais recentes, que não têm a intenção de combater o cristianismo, a
história não tem destino melhor. Na opinião de Gunkel, ela se parece com “uma lenda mágica, composta com
um tom de humor, que certamente nada tem em comum com o Jesus histórico”. De acordo com Bultmann,
“não pode haver dúvidas que aqui um conto popular foi aplicado a Jesus” (Geschichte, p 225). Para Dibelius a
história está “em contraste gritante com todo o caráter dos evangelhos”, pois aqui Jesus não se apresenta como
ajudador, antes como “milagreiro sinistro”. Joh. Weiss já recomendava “eliminar totalmente a história” (em
Schmithals, p 266). Claramente nossa época em certo sentido carece de senso de realidade. Não há como
negar que a descrição, ponto por ponto, é confirmada por testemunhos confiáveis e repetidos de séculos
posteriores: a resistência hostil à influência divina (v. 7), a força física impressionante (v. 3), outro que fala
pelo endemoninhado (v. 7,9ss), o impulso insaciável à autodestruição (v. 5), conhecimento sobrenatural (v. 7),
alteração da voz (v. 9,12), transferência espiritual (v. 12), convulsões e gritos (v. 13) e cura total repentina (v.
15). Até Sigmund Freud, em seus esforços de desmascarar analiticamente os sintomas da possessão, ficou
cada vez mais pessimista e acabou dizendo que forças desconhecidas “vivem” em nós (em van Dam, p 206; cf.
p 210). Discursos apressados sobre doença mental e dos nervos não satisfazem aqui, porque não causa boa
impressão declarar que algo não existe só porque não o compreendemos.
4. Unidade. Os estudiosos encontram ainda muitos outros empecilhos na narrativa: troca de vocábulos,
acréscimos, duplicatas e tensões internas. Nosso comentário leva alguns pontos em consideração. Interessam-nos as conclusões que são tiradas desses empecilhos. Alega-se que elas traem várias revisões; até quatro
camadas foram identificadas. Diz-se que estas são “fáceis de comprovar” (Pesch), todavia elas dependem de
tantas suposições que só pessoas com muita fé as seguirão. E. Schweizer, p ex, relaciona perto de vinte
suposições, em duas páginas impressas. Por isso as conclusões também divergem correspondentemente.
Haenchen (p 191) nos tranqüiliza: “Não devemos exagerar essas dificuldades”. “Em seu cerne a história está
claramente intacta”, acha Bultmann, p 224, e, de acordo com Schmithals (p 266), tudo (exceto o v. 8) provém
“da mesma fôrma”.
     1,2     Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos gerasenos. Partindo da costa da
Galiléia, a outra margem do lago naquela época era a região da Decápolis, uma terra de pagãos (cf. v.
1n e 20n). Nada indica que o endemoninhado que logo se apresenta pertencesse à minoria judaica
local. Pelo contrário, no v. 20 os moradores pagãos da Decápolis são equiparados aos “seus” do v.
19. Portanto, eles são seus conterrâneos, e ele não é um estrangeiro judeu (Lohmeyer, 98). Ao
desembarcar: logo no segundo versículo, para os olhos do narrador, desaparecem os que
acompanham Jesus. Seu relato é cristocêntrico. Logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um
homem possesso de espírito imundo. Este logo eleva o encontro acima do acaso e do comum (cf.
1.10n). Acontece uma revelação, primeiro dos sepulcros, ou seja, revelação de alto grau de
impureza, no entendimento dos judeus. Quanto aos sepulcros, devemos pensar em grandes cavernas
naturais ou em entradas cavadas em rochas calcárias. Nos nichos ficavam os ossos dos mortos.
Somente os mais pobres, que não podiam mais ter escrúpulos com nada, abrigavam-se ali (Jó 30.6),
ou os pagãos que invocavam os mortos (Is 65.4) e, é claro, os que eram possessos de espíritos
imundos (Bill. I, 491). Neste caso a impureza era tríplice: os judeus consideravam a terra dos pagãos
impura, em seguida o lugar dos túmulos e, por fim, a possessão. O efeito era uma separação de Deus
sem esperança. (Sobre o conceito de impureza religiosa, cf. opr 2 a 1.40-45.) Este homem era a
personificação ambulante do paganismo. O endemoninhado judeu de 1.23 ainda tomava parte da vida
social e religiosa da sua cidade, mas deste se diz três vezes que sua morada estava entre os túmulos
(v. 2,3,5).
     3-5     Os v. 3-5 nos revelam esta existência destruída: o qual vivia nos sepulcros. Esta condição é
repetida aqui para ser acompanhada de uma explicação. E nem mesmo com cadeias alguém podia
prendê-lo. É evidente que sua convivência com outras pessoas se tornara impossível devido à sua
agressividade (cf. Mt 8.28). O v. 4 narra as tentativas frustradas de dominá-lo: porque, tendo sido
muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões,
despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando por
entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras. A princípio podem ter-lhe dito bons
conselhos: Seja sensato! Até que alguém disse: Esperem! Aqui é preciso ser firme! Dali em diante só
falavam com ele aos gritos. Por fim, passaram às vias de fato. Uma porção de homens se arremessava
contra ele, para domá-lo como um animal selvagem. Gemendo, amarrado nos pés e nas mãos, ele
acordava do ataque. À sua volta, olhos que faiscavam de medo e ódio. Por último, o expulsaram, de
modo que só lhe restaram as cavernas dos túmulos. Os mortos não lhe faziam nenhum mal, mas
também não o protegiam de si mesmo. Ele agora estava nu entre demônios (cf. v. 15; Lc 8.26).
Lamsa (p 111s) descreve como as pessoas angustiadas tratam com crueldade pessoas assim, hoje em
dia, entre as tribos árabes do deserto. Para fazer os loucos raivosos voltar à razão, eles são queimados
a ferro. Se os ataques não diminuem, os coitados são enterrados por algum tempo, deixando uma
pequena abertura para a respiração. E nós, como lidamos com crianças doidas, mulheres histéricas ou
homens viciados?
     6     Só agora começa a ação. Para tanto o narrador retoma a posição do v. 2, anotando detalhes: Quando,
de longe, viu Jesus. O advérbio de longe pode ter também um sentido figurado: “longe do reinado
de Deus” (12.34). “Longe” caracteriza o mundo pagão (At 2.39; 22.21; Ef 2.13,17 cf. Is 57.19).
Correu e o adorou, pondo-se de joelhos. É como se um ímã tremendo o puxasse de modo irresistível
para os pés de Jesus. O impuro de 1.23 também foi tirado do seu esconderijo quando a pureza de
Jesus chegou. Um é tirado do meio dos freqüentadores honrados do culto, o outro dos sepulcros,
quando o mais forte (1.8) chega, requerendo a adoração. Eles se apresentam “com as mãos para
cima”.
Dificilmente o homem se ajoelhou para pedir ajuda. Os v. 6-13 mostram unicamente um confronto
entre Jesus e os demônios. Somente a partir do v. 15 Jesus fala com o próprio homem. Também não
está ocorrendo um ataque furioso ao Senhor. Os demônios se submetem, na esperança de serem
poupados. Os fatos são esclarecidos na seqüência.
     7     Exclamando com alta voz, com o grito de um subjugado, como em 1.23: Que tenho eu contigo?
(cf. 1.24). A expressão denota oposição e não boas-vindas. É o condenado que reconhece seu
carrasco e faz um gesto automático de defesa. Para escapar ao mais forte que quer pegá-lo, ele tenta
usar o nome como um amuleto: Jesus, Filho do Deus Altíssimo. A propósito, o título “Deus
Altíssimo” é encontrado na Bíblia quase sempre na boca de pagãos (Gn 14.18ss; Nm 24.16; Is 14.14;
Dn 3.26; 4.2; At 16.17), o que combina com o quadro aqui. O grito com o nome do Filho procede de
uma inspiração de baixo (o grito inspirado de cima conhecemos de Rm 8.15; Gl 4.16). “Bem sei
quem és”, gritou o espírito imundo em 1.24, “Conheço a Jesus” em At 19.15. Devido à natureza
espiritual dos demônios eles “o conheciam”, 1.34 generaliza (cf. 3.11s). Este conhecimento é um
poder com o qual tenta desesperadamente dominar Jesus: Conjuro-te por Deus. Conjurar o Filho de
Deus em nome de Deus? Idéia absurda e inútil! Que não me atormentes!
     8     Para definir melhor este “tormento”, segue uma afirmação adicional: Porque Jesus lhe dissera há
instantes: Espírito imundo, sai desse homem! Portanto, não se pensa na destruição final como em
1Co 15.24; 2Ts 2.8; Ap 20.10, mas na “tortura do exorcismo” (Ambrósio). Cada exorcismo é um
avanço do reinado de Deus (Mt 12.28; Lc 11.20) e, por isso, uma derrota dolorosa para os poderes
das trevas, a perda de uma vítima e de um pouco de domínio.
     9     O fato de o demônio estar derrotado não impede que ele tente se defender. Jesus, porém, não se
impressiona com estas tentativas e o aperta mais: E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Ele não
perguntou por não saber, mas para demonstrar que tudo tem de ser entregue a ele. É digno de nota
que “conjurar”, o termo padrão nas histórias antigas de exorcismo, nunca é usado por Jesus no NT.
Aqui também não acontece uma luta renhida de fórmulas mágicas. Jesus não precisa do nome para
vencer, pois já chegou como vencedor, que só ajunta seu despojo. Tudo o que acontece só demonstra
a grandeza do seu poder (Baumbach, p 46).
Sem opor resistência, respondeu ele: Legião é o meu nome. Poder-se-ia objetar que, em lugar do
nome exigido, só temos um número. Mas isto é um mal-entendido. “Legião” não evoca certo
número, mas a impressão de um número muito grande e poderoso: porque somos muitos. Toda uma
“força de ocupação” – um termo contextualizado na Palestina – ocupava o terreno, mas tinha de se
render.
     10     Confessando sua derrota, os espíritos se põem a mendigar. Em nossa história, a sucessão de “rogos”
e “súplicas” (v. 10,12,17,18) e a respectiva “permissão” (v. 13,19) destaca Jesus como soberano
reconhecido por todos. Temos aqui, portanto, o pedido por uma concessão, da parte de um bando
suplicante de vencidos: E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país. A
questão não é mais se querem retroceder mas para onde irão desaparecer.
     11,12     Mais uma informação é encaixada: Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de
porcos. Leitores judeus são lembrados aqui mais uma vez do contexto de uma terra pagã. A criação
de porcos lhes é insuportável. “Um porco é um aborto ambulante”, e: “Não é permitido criar porcos
em nenhum lugar [judeu]” (Bill. I, 493; cf. Lv 11.7). E os espíritos imundos rogaram a Jesus,
dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. Nas histórias judaicas de
exorcismos, entrar em uma outra vítima tem a função de ser atraído para fora da vítima anterior
(Pesch I, 290). Aqui o sentido será outro.
     13     Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada, que
era cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se
afogaram. O tempo imperfeito retrata o afogamento de um animal após outro, sem exceção.
Este procedimento, único no NT, motivou várias tentativas de explicação. Por que Jesus permitiu
que os espíritos passassem para os porcos? Calvino já considerou a idéia de Jesus ter sido enganado
pelos demônios. Destruindo a vara, eles conseguiram que Jesus fosse expulso da região. Mais
adeptos obtiveram a idéia oposta: foi Jesus quem enganou os demônios. No fim das contas eles
ficaram sem hospedeiros, e tiveram de ir para o abismo. Acabar sem ter onde ficar é condenação (p
ex Ap 20.11). Calvino viu aqui uma lição adicional para os discípulos: pessoas são mais importantes
do que os bens. Ainda outros viram na destruição da vara uma ação profética simbólica: o país é
purificado do paganismo.
Quero trazer uma outra solução, que tenciona levar adiante esta linha de pensamento. Neste
evento novamente se trata da grandeza de Jesus. Para tanto, estes versículos destacam primeiramente
o poder dos demônios. Este é tão aterrorizante quanto a miséria do homem era chocante. Com estes
espíritos, que na hora mataram 2.000 animais, ele tinha de viver dia e noite. Tanto maior é a
libertação e salvação. Duas vezes, nos v. 19 e 20, lemos de “tudo” o que o Senhor lhe fez. Em termos
objetivos, o acontecimento corresponde à sobriedade dos primeiros cristãos. É verdade que Satanás
foi deposto pela vinda de Jesus, porém ainda não chegou ao abismo eterno, apenas à terra (Ap 12.9),
onde continua tendo uma esfera de ação, mesmo que limitada no tempo. Para a comunidade dos
salvos o perigo ainda é real.
Os v. 14-20 contém uma resposta negativa (v. 14-17) e outra positiva (v. 18-20) dos seres
humanos a “tudo” o que o Senhor fez (v. 19).
     14,15     Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos campos. Então, saiu o povo para
ver o que sucedera. Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião,
assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram. A princípio é compreensível que os porqueiros
fugissem com medo, como as mulheres na manhã da Páscoa (16.8). Com aquilo que sucedera, o
temor de Deus veio sobre eles. Seu temor transmitiu-se aos que acorreram, quando identificaram o
homem como o endemoninhado afamado, o que tivera a legião. O que aconteceu? A salvação
aconteceu, mas salvação acima de qualquer expectativa e idéia. Aquele homem dos túmulos lhes
parece como alguém que ressuscitou dos mortos. Ele está sentado com dignidade humana, e não tem
mais ataques e convulsões na imundície, aos brados. Passou sua revolta contra tudo e todos, passou a
miséria delirante, a cólera descontrolada e a nudez rastejante. Um ser humano normal, que funciona!
Não é preciso dizer mais nada sobre Jesus, o aspecto do homem diz tudo: este Jesus rejeitado é a
fonte da verdadeira humanização. Ele é quem traz o novo mundo sem demônios, um mundo sobre o
qual desce o céu (Ap 20.1-8).
     16,17     Aos porqueiros juntam-se os que haviam presenciado os fatos, ou seja, os discípulos. Estes
contaram aos que chegavam o que acontecera ao endemoninhado e acerca dos porcos. Será que é
por causa da perda da vara que eles não se deixam conquistar? E entraram a rogar-lhe que se
retirasse da terra deles. Por maior que fosse o temor de Deus, ele não os torna automaticamente
crentes. É certo que Deus dá razões claras para ficar para sempre com ele (v. 18), mas ele não impõe
a fé ao ser humano. Nós podemos desejar que ele saia da nossa vida. Quando o reinado de Deus
prejudica os nossos interesses, muitas vezes a decisão é para o não (At 16.19; 19.27). Querem que
tudo fique como está.
     18,19     A história, porém, termina com um quadro oposto, positivo (cf. a passagem de Jo 1.11 para o v.
12). O homem que foi curado pensa diferente. Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora
endemoninhado que o deixasse estar com ele. Para a expressão “estar com Jesus”, cf. 3.14. O
homem quer tornar-se discípulo e abandonar o país com Jesus. Jesus, porém, não lho permitiu. O
texto mostra que a recusa implica mais do que simplesmente rejeitar a companhia de viagem. O
verbo tem um toque jurídico, como p ex em Mt 3.15, onde Jesus pede para ser admitido ao batismo
por João: “Deixa!”
João admitiu Jesus. Em nossa história a petição é indeferida. A limitação momentânea de Jesus a
Israel deve ser levada a sério historicamente. Marcos, que escreve para cristãos que não são de
origem judaica, também não omite essa realidade (cf. 7.24-30). Só a paixão e morte de Jesus
arrombou a porta que dá para os “muitos”, isto é, para todos os povos (10.45; 14.24; 16.5). Por isso o
pedido do que foi curado tinha de ser negado. Mas com uma coisa ele fica. Ele fica como testemunha
de uma misericórdia que nunca terá fim e traz esperança até aos mais distantes. Ele encarna a
profecia da missão aos pagãos: Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor
te fez e como teve compaixão de ti. O “Senhor” aqui é o próprio Deus. O próximo versículo, que
fala de Jesus, não diz o contrário. Deus faz suas maravilhas através de Jesus.
Wrede (p 140s) pensa que o homem que foi curado andou por toda a Decápolis em desobediência
ao desejo de Jesus de manter o segredo. Todavia, ele impõe uma teoria do segredo que ele mesmo
criou. Aqui como em outras ocasiões, o próprio Jesus deu publicidade aos seus milagres. Só em
certos casos e certos contextos ele quis manter o segredo. Aqui não havia perigo de iludir Israel com
uma propaganda messiânica incompreendida. Por isso uma ordem de silêncio não faria sentido.
     20     Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se
admiravam. Ele não era nem discípulo nem apóstolo, por isso o que ele fez não foi trabalho
missionário. Mas ele indicou o futuro: existe um Deus que quer tirar um mundo sarado do caos, que
não envia sua criatura aos sepulcros e não a maltrata, mas que suporta os insuportáveis e os torna
novamente suportáveis. É este poder absoluto de Deus que ancora, por meio de Jesus, na margem da
nossa impotência.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!