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33 A cura da mulher com hemorragia, Mc 5.24b-34

A cura da mulher com hemorragia, Mc 5.24b-34 
(Mt 9.20-22; Lc 8.43-48)

24b-34 Jesus foi com ele. Grande multidão o seguia, comprimindo-o. Aconteceu que certa mulher, que, havia doze anos, vinha sofrendo de uma hemorragia e muito padecera à mão de vários médicos, tendo despendido tudo quanto possuía, sem, contudo, nada aproveitar, antes, pelo contrário, indo a pior, tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste. Porque, dizia: Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada. E logo se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no corpo estar curada do seu flagelo. Jesus, reconhecendo imediatamente que dele saíra poder, virando-se no meio da multidão, perguntou: Quem me tocou nas vestes? Responderam-lhe seus discípulos: Vês que a multidão te aperta e dizes: Quem me tocou? Ele, porém, olhava ao redor para ver quem fizera isto. Então, a mulher, atemorizada e tremendo, cônscia do que nela se operara, veio, prostrou-se diante dele e declarou-lhe toda a verdade. E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal.

Em relação à tradução
     a
     Diferente de Jairo, ela permanece anônima, aparece e desaparece na multidão. Só bem mais tarde
houve quem afirmasse que ela se chamava Berenice ou Verônica e que vinha de Cesaréia de Filipe. Portanto,
não há uma regra: a menção do nome não precisa, mas pode, dar origem a uma lenda. – De “certa mulher”
até “tocou-lhe a veste” no v. 27 há uma série de sete particípios, que se dilui na tradução. Com este recurso, a narrativa corre pelos fatos sem deter-se, só para preparar o encontro.
     b
     “Hemorragia” , lit. “fonte do sangue”, é uma palavra técnica de Lv 12.7, nas prescrições de purificação
para a mulher – um eufemismo pudico para o útero ou a menstruação (Michel, ThWNT VI, 116, nota 18).
Observação preliminar
Hemorragia. Pode ter-se tratado de uma menstruação anormalmente forte, ou de um sangramento crônico
do útero. Faltam, porém, detalhes clínicos. Em lugar destes, ouvem-se ecos de termos técnicos de Lv 15.25-29, o que deixa bem claro que a mulher era judia: “[Ela está] imunda. […] Toda cama sobre que se deitar
durante os dias do seu fluxo […] e toda coisa sobre que se assentar será imunda. […] Quem tocar estas
(portanto também seu marido, se não se afastar totalmente dela) será imundo.” No mesmo contexto fala-se da lepra, por isso, veja para impuro = profano opr 2 a 1.41-45. Nos v. 29,34 do nosso texto o fluxo é considerado
um “mal”, um “flagelo”. A referência pode ser, também como no caso da lepra (Lv 13.2s,9,20,25,27), ao
sentido original de castigo. Por esta razão, também, a mulher que tinha hemorragia e foi curada tinha de trazer
uma “oferta pelo pecado” (Lv 15.30). Bill. I, 594 atesta também a opinião dos rabinos de que antigamente,
quando Israel ainda obedecia a Iavé, não existia este mal. Nos tempos messiânicos esperava-se a restauração
deste estado original. No Talmude as prescrições sobre o fluxo ocupam um artigo inteiro. Enumeram-se onze
antídotos bizarros – o que espelha a perplexidade e o sofrimento.
     24b     Grande multidão o seguia, comprimindo-o (cf. 3.7,9).
     25     Aconteceu que certa mulher – em meio à multidão em movimento, de repente esta pessoa isolada
recebe destaque. Seu sofrimento é expresso com sete particípios: que, havia doze anos, vinha
sofrendo de uma hemorragia. Este longo tempo não só enfraquecera sua saúde visivelmente – pois
com o sangue a vida se esvai da pessoa – mas também consumira sua força interior. Por doze anos
ela não pudera abraçar nenhum familiar sem causar-lhe dano. Doze anos sem ir ao culto. Isto levanta
a pergunta na consciência: O que Deus tem contra mim? Que pecado cometi que me fez merecer
isto?
     26     E muito padecera à mão de vários médicos. Sempre de novo ela tivera de se mostrar a estes
homens e submeter-se a tratamentos duros e degradantes. Tendo despendido tudo quanto possuía.
Só os ricos podiam dar-se ao luxo de procurar um médico, como pressupõe Eclesiástico 38.3: “A
ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes”. Esta mulher antes
bem de vida fora reduzida pela doença impiedosamente à pobreza. Passar necessidade era mais uma
fonte de acusações próprias, sob o peso de um provérbio judeu: “A porta que não se abrir para dar
esmola se abrirá para o médico” (Bill. IV, 558). Sem, contudo, nada aproveitar, antes, pelo
contrário, indo a pior. Ao passo que ela estava no limite dos seus bens e das alternativas, a doença
florescia sensivelmente.
     27     Tendo ouvido a fama de Jesus, depois de ter chegado à “Estação Desesperança”. De acordo com
Rm 10.17, a fé vem pelo ouvir (cf. v. 34). Vindo por trás dele, por entre a multidão: ela gostaria
muito de tê-lo feito abertamente, mas tinha de ocultar o fato de estar fora da lei (cf. opr). Neste ponto
é que começa a ação em si: tocou-lhe a veste. Imediatamente ela se retirou, pois no v. 33 é preciso
que ela se reaproxime.
     28     Neste momento Marcos insere novamente uma explicação retroativa típica: Porque, dizia: Se eu
apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada. A idéia de pessoas carregadas de poder, quase que num
conceito oposto ao de doenças contagiosas, é amplamente difundida (3.9s; 6.56; At 5.15; 19.12). Da
maneira como a frase está formulada, ela gostaria de ter tocado o próprio Jesus diante de todos: seu
alvo não era o tecido. Mas ela não se atreveu a pedir por isso, pois seria reconhecida como impura e
repreendida pelo povo em volta. Ela superou este obstáculo à sua maneira. De alguma maneira ela
não desistiu da sua confiança (cf. 2.4s; 5.36; 10.48), mas requisitou Jesus como ajudador divino. É
neste gesto que Jesus viu sua fé, no v. 34.
     29     E logo se lhe estancou a hemorragia. No mesmo instante, num milagre imediato, a sensação de
estar curada toma conta dela. A graça retirou o mal dela: e sentiu no corpo estar curada do seu
flagelo. Com sua cura, ela novamente recebe forças para ser gente.
     30     Jesus, reconhecendo imediatamente, em seu espírito, como em 2.8, que dele saíra poder,
virando-se no meio da multidão, perguntou: Quem me tocou nas vestes? Assim como em Jo
9.35-38 Jesus busca com insistência o diálogo, para completar a ligação da pessoa com ele. Quem foi
curado, não deve retroceder sem ser reconhecido, tal como ela se aproximara desconhecida. “Sabei
que está próximo o reino de Deus”, enfatiza Jesus em Lc 10.11 (cf. Mc 2.10).
     31     Responderam-lhe seus discípulos: Vês que a multidão te aperta e dizes: Quem me tocou? Mais
uma vez os discípulos não estavam à altura do acontecimento (cf. 4.11). Enquanto ele falava do toque
da fé e da vida, eles pensam no toque no tecido. Sem responder-lhes, Jesus passa o olhar inquiridor
sobre a multidão, com a demora expressa pelo tempo imperfeito:
     32     Ele, porém, olhava ao redor para ver quem fizera isto. Neste ponto cessam as frases que
começam com “e”, típicas de Marcos. A história chega ao seu alvo:
     33     Então, a mulher, atemorizada e tremendo, cônscia do que nela se operara… Sua emoção não é
resultante de sentir-se apanhada “roubando” a cura e ter a consciência pesada, pois receber faz parte
da fé (Ap 22.17). Antes, como se explica expressamente, foi a experiência da ajuda do Deus vivo que
lhe causou temor e tremor. Ela ficou abalada em face de tanta salvação. Todo o seu ser tremia.
“Temor e tremor” é, na Bíblia, o que resta ao ser humano quando se vê colocado na presença de Deus
(Gn 9.2; Êx 15.16; Dt 2.25; Sl 2.11; 1Co 2.3; 2Co 7.15; Fp 2.12; Ef 6.5). E sempre segue a confissão:
“Sou pecador” (Lc 5.8). Como alguém que sai do esconderijo porque se rende, ela veio, prostrou-se
diante dele e declarou-lhe toda a verdade. Isto é uma indicação de uma confissão em que nada é
ocultado (cf. Js 7.19). Ela lhe confessou que transgredira as leis da pureza.
     34     Como tantos antes dela, ela ouve uma palavra de ânimo: E ele lhe disse: Filha! Isto não foi uma
expressão vazia de aconselhamento, mas aceitação poderosa na família de Deus (cf. 2.5; 3.34),
inclusive contra a restrição de Moisés. O que lhe conquistou este lugar? A tua fé te salvou. Não foi a
superstição dela, o toque no tecido, mas o toque da fé. Foi assim que creu o cego em 10.52, sem pôr a
mão na veste de Jesus. A fé conta com Deus apesar de toda oposição: “Não te deixarei ir se me não
abençoares!” (Gn 32.26). Nem que seja necessário deslocar montanhas inteiras que tentem se opor
(11.22-24; 9.23s).
A tua fé te salvou! é tão verdadeiro como: Jesus te salvou!, pois a fé estende a mão para Jesus que
salva, que, por sua vez, não deixa cair aquele que crê.
Não devemos pensar que a saída automática de poder de Jesus seja o sentido desta história. Neste
caso, os discípulos em sua incompreensão teriam razão (v. 31). A questão não é o toque em si, pois
centenas já tinham tocado Jesus mecanicamente, até em superstição, pelo visto sem obter a cura. Em
3.9 Jesus também se distanciou claramente desta maneira de entender sua atuação.
Esta mulher, todavia, enfrentaria resistências também depois de receber ajuda. Por isso Jesus lhe
dá algo para a jornada: Vai-te em paz! Em princípio, esta é a despedida comum dos judeus. Os
evangelhos, porém, não registram nenhum “Até logo!” comum. A mulher recebe algo que não mais
será tirado dela: proteção para o seu ser integral, aonde quer que fosse. E fica livre do teu mal.
Depois da cura já recebida no v. 29, isto significa: Esteja e fique curada! Deus não está sujeito a
caprichos. A doença foi retirada definitivamente e substituída pela graça.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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