Pessoas que gostam deste blog

34 A ressurreição da filha de Jairo, Mt 5.35-43

A ressurreição da filha de Jairo, Mc 5.35-43 
(Mt 9.23-26; Lc 8.49-56)

35-43 Falava ele ainda, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, a quem disseram: 
Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre? Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente. Contudo, não permitiu que alguém o acompanhasse, senão Pedro e os irmãos Tiago e João. Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço, os que choravam e os que pranteavam muito. Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas dorme. E riam-se dele. Tendo ele, porém, mandado sair a todos, tomou o pai e a mãe da criança e os que vieram com ele e entrou onde ela estava. Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi! que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! Imediatamente, a menina se levantou e pôs-se a andar; pois tinha doze anos. Então, ficaram todos sobremaneira admirados. Mas Jesus ordenou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e mandou que dessem de comer à menina.

Em relação à tradução
     a
     parakouein pode ter o sentido de “não prestar atenção, não ouvir”, mas que não cabe aqui, já que Jesus
em seguida se refere ao que foi dito. A tradução como está, portanto, é a melhor.
     b
     Para as referências às construções, cf. v. 22n no fim.
     c
     Para os vários termos, cf. v. 23n.
     d
     Cumi consta tradicionalmente das nossas traduções, mas nos principais manuscritos está cum.
Observações preliminares
1. Contexto. Naturalmente os v. 21-24a fazem parte da nossa história. Mas também os v. 24b-34 estão
entrelaçados com ela, como já foi explicado na opr 1 a 5.21-24a. Quero acrescentar aqui mais um ponto de
vista complementar: a menina parecia ter perspectivas de cura enquanto a mulher estava doente, e morreu
quando a mulher foi curada. Quase poderíamos dizer: A menina teve de renunciar à ajuda, para que Jesus
pudesse dedicar-se à mulher. Jesus poderia ter-se concentrado primeiro na menina, mas ficaria sem poder
voltar-se para a mulher. Sugere-se, assim, um efeito contrário trágico no destino das duas mulheres, ao qual as
opções de Jesus pareciam estar sujeitas. O que ele desse a uma teria de tirar da outra. Ajuda e plenitude de
vida para todos só existem em discursos festivos. Mas será que Jesus se enquadra realmente nesta moldura
deprimente? Será que ele só redistribui, sem alterar o quadro geral? Ou será que Deus, por meio dele, faz algo
totalmente novo em nosso mundo? A resposta a esta pergunta transparece quando Jesus ultrapassa os dois
fiadores da Antiga Aliança, Moisés na cura da mulher e Elias na cura da menina (cf. 1Rs 17.17ss; 2Rs 4.32ss).
Não estamos mais diante de Moisés e Elias, mas do Filho.
2. O lamento pelos mortos em Israel. O lamento pelos mortos em Israel fazia parte das obrigações mais
sagradas, pois todo israelita devia ser extremamente honrado pelo menos duas vezes na vida, no dia do seu
casamento (cf. 2.19) e no do seu enterro. Parentes, vizinhos, amigos e até inimigos tinham a obrigação de
trazer um grande lamento pelo morto – uma obra de mérito, muito recompensado no mundo por vir. Mesmo o
homem mais pobre tinha de contratar, por ocasião da morte da esposa, pelo menos dois flautistas e uma
mulher para chorar, nem que fosse necessário trazê-los da aldeia vizinha. Quanto mais bem situada fosse uma
família, maior o número dos que choravam. Quando um falecimento era iminente, todos interrompiam seus
trabalhos e se reuniam a tempo na casa em questão. No momento do último suspiro, às vezes ainda durante o
estado de coma, o lamento começava. Tudo isto estava previsto em tradições firmes: o tom lamurioso das
flautas, cânticos alternados com papéis atribuídos, torcer de mãos e bater de pés, palmas, pratos e paus
sonoros. Em meio a tudo isto o falecido era beijado sempre de novo, seu nome chamado em tom de lamento e
seu louvor declamado com voz elevada. Nos instantes antes que se cobrisse o corpo, o luto chegava ao auge.
As mulheres batiam no peito. Todos arrancavam os cabelos e arranhavam o rosto. As vestes de cima eram
rasgadas seguindo um ritual determinado, de cima para baixo, mas sem passar do umbigo. Quando a morte era
de um dos pais, o rasgo devia ser do lado esquerdo na altura do coração, nos outros casos no lado direito. Era
necessário andar com a roupa rasgada durante sete dias, depois alinhavá-la superficialmente, para remendá-la
corretamente depois de trinta dias. Aos lamentos na casa de luto seguia o séquito até o cemitério, enquanto
toda a população da aldeia abria alas. O féretro parava várias vezes para dar ocasião a novas expressões de
lamento e louvor, até completar-se o sepultamento dentro de rituais litúrgicos grandiosos. Subtrair-se a estas
festividades era quase impossível e podia atrair condenação. Todo esse movimento em torno de Sua Majestade
a Morte, Jesus chama de “alvoroço”. O comentário tem de avaliar isso.
     35     Enquanto a mulher com hemorragia recebe graça, o pai da moribunda vive o inferno. Ele se metera
com esse marginalizado, ajoelhara-se publicamente diante dele. Mas Jesus permite que o detenham,
chega a tornar-se ritualmente impuro pelo toque dessa mulher. Será que Jairo ainda deve deixá-lo
entrar em sua casa? Não estaria ainda em tempo de cair fora de todo esse negócio? Mas em casa o
tique-taque da vida da sua filha está-se esgotando. Assim, o pai se agarra a uma minúscula faísca de
esperança. Então até esta lhe é arrancada. Falava ele (Jesus) ainda, quando chegaram alguns da
casa do chefe da sinagoga, a quem disseram: Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o
Mestre? Jairo, em vista destas palavras, de repente se vê numa solidão incomensurável, ridículo e
irritado como todos os solitários. O pior é a naturalidade com que eles esperam que ele passe a ver a
coisa como eles, que ria de si mesmo e aja como se nada tivesse acontecido.
     36     No mesmo instante em que ele perdeu sua filha e não ganhou a Deus, em que todas as suas luzes
tinham-se apagado, em meio a essa escuridão e desonra uma voz o alcança: Mas Jesus, sem acudir
a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente. Esta palavra de ânimo refere-se expressamente à notícia recém-recebida e à expectativa em que a descrença se articulava e que
fazia ecoar a caixa de ressonância espiritual de Jairo, fazendo-o estremecer. Jesus também ouvira a
voz, mas não lhe obedeceu. Ele não reconhece a palavra de morte como palavra final, e contrapõe-lhe
a palavra da fé.
“Não temas!”, na Bíblia, muitas vezes introduz revelações. Jesus, porém, coloca esta palavra de
consolo também lado a lado com o desafio para crer. O sentido da palavra “crer”, na Bíblia de Jesus,
isto é, na língua hebraica, é: adquirir perseverança, firmar-se, aquietar-se, em oposição direta a:
tremer, preocupar-se, temer (cf. 1.15n e comentário do v. no fim). No evangelho de Marcos a fé
sempre está ligada a milagres de Jesus; portanto, consiste em silenciar diante de Jesus, como a
disposição poderosa de Deus de ajudar. Ao mesmo tempo, a fé sempre é combatida por forças da
desesperança, que podem induzi-la a firmar-se numa perna e não na outra, a oscilar insegura entre
esperança e desespero. Era esta a situação de Jairo. Ele já tinha fé, pois viera e se ajoelhara diante de
Jesus. Mas ele também balançou, como o pai em 9.24. Por isso Jesus leva sua fé a ser completa,
como há pouco a da mulher com hemorragia. Ele o leva a só crer, a ter só uma coisa: Deus! Mas não
por necessidade, porém por ideal, pois só assim se tem Deus de verdade. Só se pode ter Deus em sua
soberania absoluta. Jesus submete Jairo radicalmente ao 1º Mandamento, à pobreza e felicidade de
“Deus somente”. Agora a fé podia se mostrar, com todas as escoras arrancadas. Agora a fé podia
começar, com tudo terminado sem que o milagre desejado tivesse acontecido. No evangelho de
Marcos a fé não resulta dos milagres, mas os milagres vêm da fé, sim, do milagre da fé. Isto é sempre
a primeira coisa e vem do ouvir (v. 27) e de olhar para Jesus, de baixo para cima. Por meio de Jesus
chega-se a “Deus somente”, contra tudo o mais. Só então seguem os milagres, mas então seguem
mesmo. Assim, a fé de Jairo não tinha motivos para desistir da vida. Exatamente quando a fé se torna
ridícula é que se torna séria.
     37     Jesus falou cheio de espírito e certeza. Coisas grandes são iminentes. De modo significativo ele leva
consigo testemunhas, certas testemunhas e não qualquer uma. Contudo, não permitiu que alguém o
acompanhasse, senão Pedro e os irmãos Tiago e João. Era tarefa exclusiva dos doze compreender
sua identidade para atestá-la mais tarde (cf. 3.14). Esta convocação de testemunhas diferencia a
ressurreição iminente de outras ressurreições na Bíblia. Aqui trata-se de mais do que acrescentar
alguns anos à vida de uma pessoa. Trata-se de revelar Jesus como a vida do mundo. O mesmo grupo
entra em ação também em 9.2; 13.3 (com André) e 14.33. Em cada vez o sentido é especial e a
resposta sobre quem é Jesus é mais profunda. Como aqui temos um vislumbre antecipado do seu
segredo, o grupo todo dos doze ainda não está presente, diferente da Páscoa, onde sua totalidade era
importante. Aqui é suficiente um grupo pequeno de representantes que podem testemunhar (Mt
18.16). Se o pai que os acompanha e a mãe são mencionados somente no v. 40, isto não é o retoque
de um narrador esquecido. Sentimos muito bem o papel especial dos três discípulos.
     38     Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço, os que choravam e os que
pranteavam muito. Ao que se refere o “alvoroço” aqui e no v. 39, na palavra de Jesus, é realmente,
como esclarece o acréscimo explicativo, o “grande toque de recolher” da morte que está em
andamento. Jesus não está ofendendo as pessoas, mas negando-se a prestar homenagem à morte. Ele
não se deixa enquadrar na procissão dos submissos. É verdade que o esquife reina no centro e
anuncia seu poder inconteste, que obriga todos a sujeitar-se. Jesus, porém, está totalmente livre para
o reinado de Deus.
     39     Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas
dorme. Desta forma o culto à morte é declarado sem sentido e a morte é denunciada. – Que Jesus
pensasse que a menina estivesse só aparentemente morta, não devemos considerar nem por um
segundo. Nada em todo o trecho combina com isto. O grande desafio à fé no v. 36 e a convocação
das testemunhas no v. 37 dariam em nada. Tirar alguém da cama que foi só considerada morta não
compensa o esforço. Mas Jesus também não falou de dormir usando o eufemismo com que se
costuma descrever a morte, para poupar os sentimentos dos entes queridos e a lembrança do falecido.
A morte não é embelezada, mas relativizada, declarada com prazo. A correlação com Jo 11 é útil. No
v. 14 Jesus diz, sem iludir, que Lázaro morreu, enquanto diz no v. 11 que ele dorme, na previsão da
derrota e do saque iminente da morte: “Vou para despertá-lo”. “Ela morreu” é uma palavra à qual
Deus não se curva. “Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem” (Lc
20.38; Mc 12.27). Disto Jesus estava permeado. Para ele a menina só estava morta até ser chamada, e
isto é “dormir”. Olhando da ressurreição para trás, a morte é sono. Por isso o culto da morte é uma
algazarra inapropriada e vazia.
     40     E riam-se dele. O tempo imperfeito retrata uma risada expontânea. Pode até ser que esta mudança
brusca do choro para o riso traia a superficialidade incrível do luto. Mas não é isto o que está em
questão aqui. Lc 8.53 diz que eles se riram “porque sabiam que ela estava morta”, uma realidade
firme como uma rocha, não influenciável, triunfante. É que eles não sabiam o que Jesus sabe. Nada
sabiam do Deus vivo e, assim, riram o riso da descrença (cf. Gn 18.12-15). Tendo ele, porém,
mandado sair a todos. Acrescentando o “porém”, Marcos contrapõe à torrente de descrença a vida
encarnada na pessoa de Jesus. Cheio de espírito, Jesus entra na risada e a expulsa. Purifica a casa,
como mais tarde purificou o templo. A casa não pode continuar enlutada depois que ele entra. A
expulsão é juízo, como em 4.11. Ele os expulsa porque não deixam entrar nada neles. Todavia, cinco
pessoas ele toma expressamente consigo: os três dos doze, o pai, obviamente considerado crente
depois do v. 36, e a mãe, que acompanha o marido no seu caminho. Tomou o pai e a mãe da
criança e os que vieram com ele e entrou onde ela estava.
     41     Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi!, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te!
Os resquícios do idioma aramaico evidenciam que o narrador está consciente de estar diante de um
fato histórico, e sua intenção de transmitir história. Na tradução ele encaixou o “eu te mando”
autoritativo. Somente com sua palavra de autoridade, sem uma luta ofegante, sem meios nem
métodos, Jesus se impõe à morte. No que tange ao “levanta-te”, em 2.11 já se pôde pensar em um
duplo sentido. Além do sentido literal, vê-se o contorno da Páscoa.
     42     Um “logo” repetido (“imediatamente” e “então”), como em 29s, chama a atenção (cf. 1.10n).
Imediatamente, a menina se levantou e pôs-se a andar. “Andar” está no tempo imperfeito. Dá até
para ver como ela sai da cama e começa a andar. Nos últimos versículos ela fora chamada três vezes
de “criança” (paidion). “Paidion” é, p ex em 10.13, um bebê que é carregado nos braços. “Menina”
nos v. 41 e 42 (diminutivo como “meu anjo”, “meu tesouro”) também pode dar uma impressão
enganosa. Por isso segue imediatamente à informação de que ela andava por si, o esclarecimento de
que se tratava de uma jovem, de uma virgem: pois tinha doze anos (cf. 5.23n).
Ou será que se trata realmente de uma indicação velada ao cumprimento de uma promessa de
salvação? Jr 31.4,13,21 anuncia que Israel, como virgem que caiu, ressuscitará, andará e dançará. C.
H. Bird sugeriu esta interpretação em 1953 (em Lane, p 401). Segundo ele, as frases com “pois”,
típicas de Marcos, têm a função de fazer a ligação com um simbolismo veterotestamentário mais
profundo (1.16; 5.42; 7.3,4; 11.13; 13.14). Neste sentido, as duas mulheres de 5.21-43 representariam
Israel desonrado e prostrado, para o qual raiou o tempo da salvação.
Então, ficaram todos sobremaneira admirados. Não a gratidão e alegria dos pais estão no
centro, mas Deus. A expressão é a mesma do forte temor de Deus em 4.41 (cf). Em Cristo
experimenta-se o próprio Deus. Deste modo, a história do milagre tem sentido cristológico. Ela trata
da sua identidade. Esta noção também esclarece o sentido do mandato de silêncio que segue.
     43     Mas Jesus ordenou-lhes expressamente que ninguém o soubesse. Que Jesus tivesse ordenado
ocultar o milagre que aconteceu com a menina, apesar de já se terem iniciado os lamentos, para
interrompê-los de repente, sem que o esquife passasse pelos habitantes do povoado que já abriam
alas até o cemitério e com o túmulo ficando vazio, seria a coisa mais sem sentido que se pode
imaginar. Era evidente que esta menina fora devolvida à vida. Por esta razão é preciso fazer algum
esforço para verificar o que Jesus proibiu. A mesma “ordem” majestosa de Jesus encontramos ainda
em 7.36 e 9.9. Cada vez ela se refere a um evento anterior que revelou mais sobre a pessoa de Jesus.
O mesmo ocorre aqui. Não é o fato de a menina estar viva que está em vista, mas Jesus como
plenitude da vida de Deus. Neste sentido ele não deveria tornar-se objeto de proclamação prematura.
Primeiro toda a sua obra tinha de estar à mostra. Primeiro ele queria identificar-se completa e
decisivamente na cruz e na ressurreição. Depois faria sentido pregar sobre sua identidade. Primeiro é
preciso que haja distorções e mal-entendidos. Os próprios discípulos foram exemplo disso (para a
ordem de silêncio, cf. 1.34,44; 3.12; 7.36; para a terminologia cf. 7.36n).
Assim a ressurreição da menina foi uma antecipação da Páscoa. Isto ela foi realmente. Assim
como Jesus, depois de ressuscitar, comeu na presença dos seus discípulos, esta menina ressuscitada
também come diante dos seus pais. E mandou que dessem de comer à menina. Quem come não
está morto, também não é um fantasma. Vive como criatura real de Deus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!